Um caro
leitor deste blogue pediu a nosso ecoante doutor q desse uma resposta final e definitiva à pergunta q não quer calar no peito de tantos amantes sopeados da língua portuguesa:
Afinal, ¿o português tem mais palavras q o inglês, ou o inglês tem mais palavras q o português?
Uma empreitada dessas requer uma certa pachorra. O doutor —q tem uma edição eletrônica do Houaiss— se dispôs a contar o número de verbetes total. Não é tão difícil. O Houaiss traz um buscador onde vc pode chamar todos os verbetes q, por exemplo, começam com P e terminam com A (ou seja, p*a). O resultado mostra também o número desses verbetes —q, no caso, são 3.711. Isso não quer dizer q todos esses 3.711 verbetes sejam palavras. Temos, por exemplo:
PA: sigla do estado do Pará
Pa: símbolo de protactínio
Também há verbetes q começam ou terminam com hífen (os sufixos, prefixos e elementos de composição), além de verbetes q terminam em ponto final (as siglas como F.O.B. e abreviaturas como loc. cit.).
Pois então. Fazendo a soma de todos os verbetes q começam com A, Á, Â, B, C ... .Z e terminam com A, Á, Ã, B, C ... Z, mais todos os prefixos &c, mais todas as siglas &c, o
número total de verbetes do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa é...
186.252
Hm. Tirando os prefixos &c, as siglas, os símbolos e as abreviaturas, o número total de
palavras ou
locuções é
175.705
Hm.
O prefácio do Houaiss fala em 228.500 "unidades léxicas". A discrepância talvez se explique pelo fato de q uma mesma palavra pode ter mais de um significado. Se for esse o caso, o prefácio deveria ter falado em "unidades semânticas" e não "léxicas". Houaiss
indeed.
O prefácio tbm indica q no Houaiss também tão incluídas muitas palavras usadas exclusivamente em Portugal, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique – por exemplo, as portuguesíssimas palavras
djila,
macuaiela,
lunyaneka, e
ocaviiúla.
Hm.
Mas como a pergunta q não quer calar é sobre o número de palavras e não de unidades semânticas, fiquemos com 175 mil.
Dessas, muitas são apenas variantes. Por exemplo, dentre os verbetes "p*a" temos, por exemplo:
pacata = pacatez
pachocha = pachoucho
páfia = empáfia
pagadoiro = pagadouro &c &c &c
Mas já q o Houaiss deve tbm ter "se esquecido" de muitas palavras (tipo 'bicicletaria', q não consta), digamos q o número total de palavras da língua portuguesa teja por volta de 175 mil mesmo.
Hm. Resta mais um "hm".
Agora vamos ao inglês.
O Oxford é um dicionário bastante conservador. Sua edição atual tem 20 volumes.
http://en.wikipedia.org/wiki/Oxford_English_Dictionaryhttp://www.oed.com/public/aboutA maior parte do espaço desses 20 volumes é constituída de exemplos. O Oxford pega um pouco pesado nos exemplos (todos tirados de fontes externas), e esse é um dos motivos por quê digo q ele é conservador. Mas digamos q, tirando todos os exemplos, sobrem 5 volumes.
Hm.
A edição de 1989 define e/ou ilustra 615.100 palavras e locuções. Agora observe um fato revelador. O Oxford tem um conceito q eles chamam de
"main entry" (verbete principal). Essas 615 mil palavras aparecem dentro de 301 mil
main entries, assim como as 228 mil "unidades léxicas" do Houiass aparecem em suas 175 mil palavras.
Só que...O Houaiss é feito nos moldes dos dicionários brasileiros: talvez pra inflar o tamanho (e certamente fazendo pouco caso da inteligência do usuário), cada palavra tem um verbete independente, inclusive todas as derivadas (exceto advérbios formados com
-mente). Por exemplo, cada uma das palavras abaixo tem um verbete independente no Houaiss:
destrucionismo, destrucionista, destruição, destruído, destruidor, destruir, destruível, destrutibilidade, destrutível, destrutividade, destrutivismo, destrutivista, destrutivo, destrutor
Já o Oxford, utiliza a inteligência do usuário e coloca muitas dessas palavras dentro do mesmo
main entry, como derivadas.
Outro exemplo. No Houaiss, temos estes 18 verbetes independentes:
fenil, fenila, fenilalanina, fenilalanínico, fenilamina, fenilanina, fenilbutazona, fenilcetonuria, fenilcetonúria, fenilcetonúrico, fenilefrina, fenilênico, fenileno, fenilenodiamina, fenilidrazina, fenil(o)-, fenilo, fenilpirúvico
HAHAHAHAHAHAHA
Já no Oxford, temos o verbete único
phenyl, no qual tão incluídas as correspondentes inglesas de todas as palavras acima,
mais uma caralhada de outras do mesmo grupo químico. Veja vc mesmo:
http://fds.oup.com/www.oup.co.uk/pdf/0-19-861186-2.pdfEntão é MUITO diferente o Houaiss ter 175 mil palavras e o Oxford ter 301 mil
main entries, não é? O q o Houaiss faz é um tipo de ilusionismo.
Caso reste alguma dúvida sobre qual das duas línguas tem mais palavras, dê uma olhada nisto:
http://www.urbandictionary.com/um dicionário colaborativo q, claro, não tem critérios tão rigorosos como os do Oxford. Muitos verbetes são gírias localíssimas, e muitos são apenas trocadilhos. Mas se algum ufanéscio, depois de dar uma olhada no Urban Dictionary, ainda falar da "riqueza" da língua portuguesa, vc pode levá-lo amarrado à filial mais próxima da Clínica Dr Plausível.
O português tem inúmeras qualidades. O número de palavras não é uma delas.
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Adendo:No Brasil (mais: em toda a América Ibérica) todos reclamam do atraso, da ignorância, dos erros administrativos, da corrupção, da pobreza, da lentidão nos processos, da incompetência na execução, do desprimor nos resultados. Todo reclamante tá basicamente invocado com um enigma: "Entende-se o atraso na África, no Paquistão, até na China. Mas ¿por quê nós —logo nós, descendentes diretos da Europa— estamos assim?"
Todas aquelas moléstias têm múltiplas causas. Mas pro Dr Plausível, uma causa é comum a todas elas —a ferramenta-mor da sociedade: a língua.
Dizem —com razão— q o mau artesão reclama das ferramentas q tem; mas não dá pra construir um Porsche com as ferramentas e os processos q se usa pra construir um Corsa.
A América Latina é uma fábrica de Corsas q recebeu o encargo de produzir Porsches; claro, as máquinas não tão produzindo com a qualidade necessária. Numa fábrica, qdo uma máquina não funciona com precisão, pode ser pq não tá bem calibrada. Quem determina isso é o inspetor de qualidade. Chama-se então o ferramenteiro pra calibrar a máquina. Este usa instrumentos de medição, q tbm devem tar calibrados. Quem determina se eles tão calibrados é o metrologista.
Nosso excomungável doutor só (!) tá dizendo q o metrologista, o ferramenteiro, o inspetor de qualidade e o operador da máquina latino-americana atribuem a baixíssima qualidade de seus Porsches ao salário, às condições de trabalho, à incompetência da chefia, às dificuldades do projeto &c, qdo na verdade o problema é a máquina em si. Seria preciso trocar de máquina, assim como o Brasil precisaria trocar de língua —pois a língua portuguesa,
left to its own devices e do jeito q é proposta pelo gramático-metrologista,
jamais vai produzir o Porsche da sociedade justa, culta, complexa, competente, asseada e otimista q seus falantes almejam.
Ou então optar pelo caminho mais honrado porém mais difícil de mandar o projeto-Porsche às favas de onde veio e procurar descobrir pra quê serve afinal a língua portuguesa, qual universo cultural ela pode engendrar, qual organização social, ideológica e pragmática ela tá univocamente posicionada pra criar, desenvolver e exportar.
E contra isso tudo está a poderosa, estúpida e aviltante pressão ideológica e política exercida pelos gramáticos e lexicógrafos da NoCu.
¿A esperança do Dr Plausível? Zero.