30 agosto 2010

Repulsa ao nexo (1½/2)

Não é por covardia q nosso everminante doutor mormente se abstém de cutucar gente armada. É meio por dó. Pois pô, ¿não dá dó ver bicho em gaiola? ¿Não dá dó ver um magnífico pastor-alemão trabalhando prä polícia, condicionado à abnegar seus instintos e à mijar com hora marcada? ¿Não dá dó ver grupos inteiros de gente fascinada por mitos, crendices e superstições se ensardinhando dentro de códigos sexuais e alimentares, códigos de penteado, de conduta, de higiene, códigos de vocabulário, de vestuário, de horário, &c? Toda vez q vê siques enrolando a juba em turbantes, evangélicos regurgitando palavras de ordem, judeus ortodoxos vestindo preto dos pés ä cabeça, muçulmanas escondendo o corpo todo exceto os olhos, &c &c e todos esses fundamentalistas mantendo em volta de si uma jaula de amarras sociais, o doutor sinceramente tem dó. Ele gargalha tbm, mas é aquela gargalhada humanista dele, cheia de respeito pelo humano por trás do disfarce, repleta duma ternura especial por humoristas involuntários. Ele entende tbm q a liberdade mental talvez não seja pra qqer um, q no mundo há um vasto contingente q só funciona ä base de chicotes imaginários, ameaças altissonantes e promessas de recompensa. ¿Não dá dó ver um magnífico cavalo arando a comida pro dono, com uma cenoura pendurada ä frente e um chicote estalando na bunda?

Pois é.

Claro q a fundamentalhada toda tá nos extremos duma curva de Gauss plotando o radicalismo. A grande maioria do povaréu tá mais pro meio –e essa é sua desgraça. ¿Por quê? perguntam leitores ensandecidos. Ora (responde o doutor, brandindo truquelhos de retórica), pq as crenças e ideologias estanques, apesar de tarem nos extremos da curva, são *a fonte* do barulho; são como escola de samba ensaiando numa praça: uns 20 batuqueiros espancando o couro de gato, uns 200 gatos-pingados em volta dançando, bebendo e cantando e, circundando essa turba rude, ruidosa e ruim, 20.000 pessoas quietas em suas casas, tentando viver normalmente, obrigadas à ouvir a ribombância mórbida e repetitiva q vem da praça. A maioria silenciosa tbm é a maioria ouvinte: o estardalhaço de 20 batuqueiros continua no ouvido interno mesmo depois de terminado o ensaio; o espaço mental de muitos é invadido e apossado pela ribombância de poucos. E pior: o radical mede seu sucesso não pela textura de seus ritmos, mas pela penetração de seus ruídos. (E sim, eu sei q não dá pra escapar da curva de Gauss.)

Um dos ruídos mais disseminados –o batuqueiro 24 hs– é a noção q todo monoteísta tem de q seu deus é o autor da moral, de q a moralidade se derrama sobre a humanidade diretamente da deidade de plantão. Esdrúxulo, né? Pois se todo ato volitivo do humano tá pré-julgado como "bom" ou "mau", ou "certo" ou "errado", então ¿pra que cargas d'água viver? Muita gente já tentou assobiar e chupar cana, mas não há meio de conciliar a moral pré-derramada e o livre-arbítrio, de modo q reste um pingo de dignidade humana. Sorry.

Mas catso, toda vez q alguém deposita um batuqueiro implausível no meio da lógica, 20 mil filósofos são obrigados à ouvir o pum-pum-pum interminável. E não só eles, claro, pois todo monoteísta ìntimamente se pergunta ¿pra quê? Daí q se vê obrigado à inventar, re-inventar e martelar o ad hoc de q, na verdade verdadeira mesmo, tamos aqui é pra "servir" à um deus criador, q ele tá fora da lógica, q mesmo assim ele te ama, q ele até permite q vc reclame de vez em qdo &c &c &c. Mas não dá pra pisar num cocô sem q ele se esparrame: o platonismo forçoso desse ad hoc demonstra a gargalheza do argumento. O argumento em favor da origem monotéica da moral é como a calúnia: fácil de criar, mas dá um trabalho do cacete pra dirimir; e esse é, òbviamente, o objetivo da calúnia, q tbm é o do argumento monotéico. –não é resolver um problema; é *tornar-se* o problema à resolver.

Então tchau. (Pq pô, né?)

Só q, se vc tem um plausômetro em bom estado na cachola, o problema persiste. ¿Dadoné q vem a moralidade? ¿Cumé q as opiniões de tanta gente coincidem em condenar, por exemplo, o estupro duma criança de 5 anos? ¿Quéquié isso q dói em 99% da humanidade ao ficar sabendo dum ato desses? ¿Será mesmo q tem algo de fundamentalmente errado no estupro duma pirralha? É esse o tipo de pergunta q esta série de artigos pretende responder. Esqueçam a teologia: contos da carochinha não são hipóteses. Não venham dizer q a moralidade é "culturalmente determinada": neste blogue só tem gente grande, q já superou os passatempos de sociólogo. Nem aventem a psicologia: Freud et al se entretêm com uma parcela mínima dos fenômenos humanos. Tampouco aventem uma "lei natural": isso é empurrar o problema com a pança. Pra q a moralidade seja tão disseminada, e pra explicar o evidente continuum moral entre o humano e os outros animais, tem q haver um motivo básico, fundamental, inempurrável –algum motivo plausível, digamos.

Na próxima parte desta mini-série, a tese plausível vai demonstrar q dá pra se ver a origem da moral retroativamente na protomoral dum protoplasma protocelular protobiótico. ¡Não deixem de perder!

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(As demoras entre os artigos são pq a comunicação com nosso egrégio doutor tá um pouco truncada, já q ele tá passando um tempo nas ilhas britânicas, resolvendo alguns pepinos, à pedido da Casa dos Windsors.)

9 comentários:

Arthur Golgo Lucas www.arthur.bio.br disse...

Estou sentindo um saudável e saboroso aroma de biologia evolutiva no ar? :-)

Permafrost disse...

Golgo,
Tem mais a ver com biogênese. É uma hipótese dentro doutra hipótese. Felizmente, ambas são plausíveis.

André disse...

Relativismo moral não presta... É a maior das intolerâncias, vide Peter Singer.
Por outro lado, apesar de mais tolerante, é difícil explicar uma moral absoluta (a origem). Ainda que 99% das pessoas rejeitem o estupro de uma criança, ainda há esse 1% que é significativo em números absolutos... Pq????

Bom, não vejo a hora de ver a explicação do Dr. Deixa a rainha pra lá!!!

Pracimademoá disse...

Só quero ver...

SImone disse...

porque é economicamente inviável um adulto traumatizado. o trauma (fantasia de ser objeto em relação a um sujeito) torna o fato de ter sido estuprado um lugar sem qualquer livre arbítrio em relação ao outro. sem relativismos, please, livre arbítrio não é só tua, a fantasia.

Permafrost disse...

Simone,
Desculpe, não entendi o q vc quis dizer com "ivre arbítrio não é só tua, a fantasia".

André e Simone,
Garanto q a hipótese plausível não é relativista – aliás, é o contrário.

SImone disse...

liberdade mental é um fundamento tão fantasioso quanto a moral. cada um veste a fantasia que lhe serve. você pode não ser o palhaço, mas o ilusionista.

Permafrost disse...

Simone,
Tá, entendi. Mas espero q vc não teja confundindo (ao q parece) livre arbítrio e liberdade mental. O primeiro é (ao q parece) um atributo do humano; a segunda é uma opção do humano. É claro q, numa análise extrema, ambos podem ser fantasias; mas dizer q "a liberdade mental é um fundamento tão fantasioso quanto a moral" já é delirar no próprio relativismo q (ao q parece) vc reprova.

Mas vamos esperar os próximos telegramas do doutor; o assunto de q ele tá tratando não é bem por aí.

arbo disse...

curiosidade aqui...

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