25 julho 2010

Repulsa ao nexo (1/2)

Nosso equânime humanista sempre se esborracha de rir qdo diagnostica uma infecção hipoplausivirótica na conexão entre o córtex frontal e a base do cérebro. Resulta numa patologia estranha –um idealismo autômato, um mecanicismo sonhador, um estrabismo ritualista. O mais patente sintoma dessa infecção é negar a biologia como causa, motor e fonte de todo e qqer aspecto humano –de toda cultura, toda ideologia, todo costume–, e negar a física como determinante primeiro da biologia. É como vc tar em terra firme achando q tá flutuando no mar.

Permeando a colossal e detalhada estrutura da civilização, a maior parte dos seres mais complexos há de reconhecer a ubiqüidade da Racionalidade –fruto fortuito da física– e do Senso de Justiça –brinde bastardo da biologia. Embora os caras se jactem da Rac. e do Senso de Just. como construtos humanos, essas duas abstrações têm com a física uma conexão mais fundamental do q há, digamos, entre a instituição do casamento e a biologia. É por causa dessa conexão q todo o mundo procura explicar seus atos e idéias invocando sempre a Rac. e a Just. –tragicômicamente sem no entanto levar em conta q pode tar sendo vítima inocente dum ataque hipoplausopoplético na região HL73m da massa cinzenta.

Mas, sendo a biologia em grande parte uma consumação do acaso, a Justiça não é um mapeamento quid pro quo da Racionalidade. O bundo abunda em abostras do desacordo entre as duas. Por exemplo, ¿por que cargas d'água na supracitada instituição do casamento o mais comum é q se renomeie a mulher com o sobrenome do pai do homem, e qdo vêm os filhos esse mesmo sobrenome prevaleça sobre o do pai da mulher? A explicação invoca a praticidade: é racional q os sobrenomes não se amontoem à cada nova geração, q um neto de Zébrio Abreu Borja, Xenha Costa Dias, Vânio Engels Faria e Úrvula Gomes Hassenteufel não se tenha q chamar pelo trambolho Rânio Borja Faria Dias Hassenteufel Abreu Engels Costa Gomes. Portanto, o costume racionaliza o processo e chama o moleque de Rânio Faria Borja, e dá o mesmo sobrenome à sua irmã Sujely. Veja na figura abaixo o q acontece. Os homens tão em azul e as mulheres em rosa (aiaiai, os clichês). Os sobrenomes herdados de pais tão em fonte preta; os de mães, em fonte vermelha. Note q cada mulher herda como sobrenome principal o sobrenome principal de seu pai.


Pelo método tradicional, como se vê, ao fim de duas gerações os oito sobrenomes iniciais se reduzem à dois: os irmãos Rânio e Sujely são Faria Borja; seus primos Felvin e Quotilde são Borja Faria. Mas ¿por quê? ¿Por que restam apenas os sobrenomes dos pais de seus avôs, dos avôs de seus bisavôs? ¿Que aconteceu com suas avós e bisavós? ¿Que aconteceu com a identidade de TODAS as mulheres envolvidas? Todas elas ficaram 9 meses com um peso à mais, em geral sacrificaram-se muito mais fundamentalmente em prol da existência e manutenção dos filhos, e no entanto sua linhagem é sumàriamente esquecida. Pois tanto qto existe uma linhagem masculina, existe uma feminina. Se todo humano é fruto sine qua non dum homem e duma mulher, e deve sua genética à ambos, o senso de justiça aí falhou: a linhagem masculina permanece ùnicamente pq prevaleceu a crua biologia: o homem é em geral mais forte, mais violento e mais cretino do q a mulher. Não é ä toa q a sogra do marido seja folclòricamente uma personagem desagradável: ela é a mais injustiçada, pois seu sobrenome é o primeiro à ser descartado. (Nos pouquíssimos sistemas matrilineares, a injustiça se inverte: é a linhagem feminina q permanece, pq aí prevalece a crua domesticidade: a mulher é em geral mais estável, mais teimosa e mais cretina do q o homem... ¡Êpa, uma contradição!)

Mas não se desesperem, afoitos defensores da Racionalidade e da Justiça: tem uma solução. Sempre q um casal de conhecidos tá grávido, o Dr Plausível propõe q batizem a criança diferentemente de acordo com seu sexo. Se menino, q herde o sobrenome do pai; se menina, q herde o da mãe. Uma série de homens preserva um dos sobrenomes; uma de mulheres preserva o outro. Muito mais justo, né não? Reconhece, leitor machista; estraçoa teu preconceito; expunge tua cisma; esbarronda tua repulsa.

Pra q o sobrenome da prole represente tanto a linhagem do pai qto a da mãe, há três métodos de organizar a coisa. O primeiro é o q vcs já conhecem: ao sobrenome da mãe, segue-se o do pai em qqer caso, mas esse já vimos q é injusto. Aplicando-os äquela família acima, há tbm um segundo e um terceiro métodos q fazem mais justiça ao lado feminino da coisa. Um deles preserva quatro sobrenomes; o outro, os oito –pelo menos até a terceira geração.

No segundo, tanto o filho qto a filha herdam o sobrenome do pai do pai e o da mãe da mãe, mas os da menina invertem os do menino pq elas herdam como sobrenome principal o de suas mães e avós. Por exemplo, Rânio Hassenteufel Borja é irmão de Sujely Borja Hassenteufel; sua prima Quotilde Faria Dias é irmã de Felvin Dias Faria.


Este método tem a vantagem de ser fácil de explicar e entender, e sua maior justiça é evidente: quatro sobrenomes foram preservados, dois da linha paterna e dois da linha materna.

No terceiro método, o filho herda o sobrenome do pai da mãe e o do pai do pai; a filha herda o da mãe do pai e o da mãe da mãe. Pros meninos, só sobrenomes da linha masculina; präs meninas, só dos da linha feminina.


Este método é o mais justo: embora recombinados, os oito sobrenomes se mantêm intactos nas três gerações. A desvantagem é a confusão: Rânio Euler Borja é irmão de Sujely Costa Hassenteufel, e sua prima Quotilde Gomes Dias é irmã de Felvin Abreu Faria.

O método mais prático é o menos justo, e o mais justo é o menos prático; escolha-se o meio termo.

Mas pergunta aí se algum conhecido, amigo ou parente do doutor já aceitou a sugestão plausível; pergunta se alguém algum dia vai aceitar. A Racionalidade e a Justiça –esses poderosíssimos construtores de civilizações– perdem feio pra dois atributos subjacentes do Universo: a regularidade e a inércia –q
se expressam, nos seres vivos, através do grilhão parvo e tosco do hábito e, na cultura, através do estupor animalesco da tradição. (¿Tudo isso só pq os caras não aceitam uma idéiazinha? ¡Que azedume, hein?)

10 comentários:

Permafrost disse...

Uma variante menos iconoclasta do segundo método é colocar os sobrenomes tanto do filho qto da filha na mesma ordem, mas fazer a filha passar a seus filhos não o de seu pai mas o de sua mãe. A idéia aqui continua sendo q a mulher sempre passa o sobrenome da linha feminina. Assim, Couve Faria Hassenteufel seria Couve Hassenteufel Faria (como seu irmão Ojerino), e sua filha seria Sujely Hassenteufel Borja (como seu irmão Rânio).

André disse...

êpa, pera aih...

Acho que o doutor acabou indo contra o próprio princípio apresentado no texto: a cultura (e os nomes e sobrenomes são parte disso) só existe dentro do contexto da biologia (ou: a biologia é a causa da cultura).

Eu acho até que dá pra se aprofundar no óbvio e dizer que a cultura só é variável dentro de um pequeno espaço de possibilidades delimitado pela biologia. Ou: há coisas que a biologia determina, e há coisas que ela não determina. Nesse segundo grupo entra a cultura. Como a Constituição e as demais leis. Supondo que a Constituição proíba X. Nenhuma lei poderá permitir nenhum tipo de X. Agora, se a Constituição não falar nada sobre X, alguma lei poderá permitir ou proibir algum tipo de X.

Muito bem. Uma coisa que a biologia determina é que a mulher terá certeza que aquele moleque é seu filho. Já ao homem cabe acreditar... E como se mostra para os outros indivíduos que aquele moleque é seu filho? Com o nome. Ou seja, a cultura versou sobre aquilo que a biologia não liga. A mãe não precisa de nada pra mostrar pro mundo que aquele ali é seu filhote. A biologia já deu à mãe a, sei lá, responsabilidade (?) de criar o filho dentro de si. A cultura dá a possibilidade do pai dar o seu nome à criança.

Tudo isso, claro, numa sociedade em que o homem precisa se impor como o macho dominante, capaz de gerar prole, etc.

E como explicar a passagem de nome nas sociedades matriarcais? Ora, nessas sociedades, o homem não precisa mostrar pra ninguém que ele é macho, que ele consegue ter uma fêmea, que ele é capaz de ter uma relação sexual. Que adianta dar nome pra criança? Isso não vai provar nada mesmo...

Pracimademoá disse...

Que esquisito ver a palavra "justiça" (e seu antônimo) sendo usada com tanta ênfase nesta dissertação. Justiça de quê? De nome que passa do pai para o filho mas não passa o nome da mãe? E daí? Que catso de diferença faz isso para qualquer uma das partes envolvidas? A mãe perde a identidade? Mas como assim, ela tem um ataque de amnésia? "Quem sou eu? Onde eu estou?" Tanto a mãe quanto o pai, depois que morre vira pó do mesmo jeito. Os filhos crescem e vivem do mesmo jeito.

Ah, sobrenome... grande merda. Se um dia alguma doida resolver se casar e ter filhos comigo, e se ela quiser botar seu sobrenome na prole, por mim, pode botar, em todos eles. Estou cagando e andando para isso. Meus filhos, se forem por mim criados, também vão estar cagando pro nome que têm, se é do pai, da mãe ou da putaquepariu, vão aprender bem cedo que a vida é curta e efêmera, o importante é respirar, pensar, cuidar da saúde e fazer o possível para realizar o que tem vontade. O nome é só uma etiqueta, como aquelas que os biólogos prendem em animais. Pergunta pralgum golfinho ou tartaruga se eles estão ligando pra que porra de código está escrito na plaquinha deles. Rio só de pensar na cara de ué que uma tartaruga deve ser capaz de fazer: "Porra mermão, ce tá me sacaneando?!!"

Não sei o que deu no Dr. para vir com esse papo. Nem parece que é agnóstico. Parece papo de socialite ou de numerólogo...

Permafrost disse...

André e Demoá,
Os dois tão transbordando de razão; não tenho dúvida. Mas o doutor, tadinho, só fala do q vê. Dez anos atrás, com sobrinhos e priminhos e filhinhos de amigos nascendo como coelhinhos à seu redor, começou a perguntar-se por que os nomes vinham encompridado visivelmente. E o fenômeno continua. Ele conhece três crianças com sobrenomes equivalentes à Hassenteufel Dias Faria Borja, e mais dois com sobrenome composto no meio, fazendo Hassenteufel Dias Faria de Donglas Borja. Com a biologia dum lado tentando a mãe à pôr no filho apenas o sobrenome do pai pra seduzir o sustento, e o senso de justiça do outro querendo entulhar a cédula de identidade de tanto pirralho, o doutor propôs o meio termo. Existe sim a justiça desmedida q nada fere exceto a praticidade.

Mas o assunto dos sobrenomes é só um exemplo da regularidade & inércia minando constantemente a racionalidade & justiça. Espero ter tempo & disposição pra publicar o resto do récipe.

Arthur Golgo Lucas www.arthur.bio.br disse...

"O mais patente sintoma dessa infecção é negar a biologia como causa, motor e fonte de todo e qqer aspecto humano – de toda cultura, toda ideologia, todo costume –, e negar a física como determinante primeiro da biologia."

Ô!

E como eu vejo isso!

Quer ter um ataque dos nervos tentando meter na cabeça de alguém que nada na química escapa às leis da física, nada na biologia escapa às leis da química e nada na psicologia, antropologia, sociologia, política e economia escapa às leis da biologia? Então tenta ensinar biologia evolutiva e as conseqüências da especialização das duas principais estratégias evolutivas co-dependentes (macho e fêmea) pra uma feminista ou pra um esquerdistazinho "politicamente correto" qualquer.

"Uma imensa fonte de neuroses e injustiças." Esta é a melhor definição para a estupidez "politicamente correta" que insiste em tratar o ser humano como alguma coisa distinta de um primata com alto potencial de desenvolvimento das capacidades cognitiva e lógica. Coisa típica de quem não desenvolveu este potencial na época em que era possível, claro.

Passando entretanto à questão dos sobrenomes, o fato é que eles precisam ser tratados na carteira de identidade do mesmo modo como os genes são tratados na meiose que formará os gametas: somente a metade da informação de cada progenitor pode/deve passar para cada rebento. Sempre haverá alguém "prejudicado" pelo desaparecimento de um sobrenome.

Dito isso, tenho uma propostinha mais simples ainda. Não acho interessante inverter a ordem de apresentação dos nomes conforme o sexo da criança, nem qualquer outra solução que faça os irmãos terem nomes diferentes. Deixa quase tudo como está, primeiro o sobrenome da mãe, depois o sobrenome do pai, todos os irmãos com sobrenomes iguais, só faz uma alteraçãozinha mínima para tornar o sistema lógico e justo nos teus termos: a mãe passa a transmitir o sobrenome materno ao invés do paterno.

Que tal?

Permafrost disse...

Golgo,
É, vc pensou a mesma coisa q eu. Como vc pode ver no primeiro comentário desta caixa, tbm aventei a possibilidade de não inverter os sobrenomes mas fazer a mãe passar o sobrenome da linha feminina. Talvez essa seja a proposta mais aceitável pelo povaréu.

Sobre as outras coisas, acho q não sou tão radical qto vc. Eu não diria q 'macho' e 'fêmea' são "estratégias evolutivas co-dependentes", como se fossem herdeiras de duas espécies de proto-organismo q se encontraram no passado e desenvolveram um tipo de simbiose. Mesmo q isso tenha acontecido (não é impossível), vejo uma distinção importante entre co-dependência e natureza dual.

Tampouco associo o 'politicamente correto' exclusivamente à esquerda de maneira alguma. Pra mim, a pressão pelo PC veio primordialmente de cima pra baixo, das minorias *dentro* da classe dominante, onde a arte do disfarce é o principal requisito. O PC não é muito mais do q euaense confundindo politics com politeness e desembestando a codificar e institucionalizar a polidez, tentando controlar a natureza por meio de regras de conduta. Claro, uma boa parte desse desembeste do PC se deve a um monte de tronhos descobrindo as maravilhas da livre associação de idéias. Mas identificar o PC especificamente com a "esquerda" (whatever that is) é descartar o fato de q ele serve a interesses super específicos dos donos-da-bola.

Mas esses são detalhes.

Arthur Golgo Lucas www.arthur.bio.br disse...

Plausível, eu comecei a explicar a questão das estratégias evolutivas e - pra variar - ficou meio grande demais e meio fora do tema do teu artigo. Então resolvi postar um artigo novo a respeito: http://arthur.bio.br/2010/08/25/sexualidade/biologia-evolutiva-dos-sexos

Raf disse...

Acho que é pq eu sou pobre, e não venho de famílias tradicionais (inclusive tenho Silva como sobrenome), pois essa história de sobrenomes e linhagem sempre me pareceu alienígena.

Quando ouço isso, racionalizo, computo a informação, mas ainda permanecem as perguntas latentes: "é sério? tem gente que realmente leva isso a sério? mas heim?".

Permafrost disse...

Raf,
Na verdade, acho q tbm vc leva a sério. Por exemplo, ¿vc aprovaria registrar um filho teu com um sobrenome q não fosse nem teu nem da mãe do menino nem de nenhum antepassado teu? tipo Rafinha Ulk Al-Hafuz? ou com o sobrenome dum vizinho teu q vc pessoalmente detesta? Acho q não. Essas coisas parecem alienígenas qdo se fala delas em teoria, mas na prática elas vão muito fundo dentro da gente.

Raf disse...

huhauhahau

Verdade. Com certeza não faria isso.

Não sei se elas vão a fundo. Se um dia eu resolver ter filhos, ficarei sabendo.

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