22 outubro 2004

Mas ¿escrever o quê?

¿Já viram a última boçalidade dos lingüistas & gramáticos brasileiros? Querendo mostrar serviço, e em sintonia com toda a boçalidade com q o Brasil 'culto' em geral lida com a língua, vão tentar decretar mais uma mudança ortográfica no português, desta vez unindo-se aos portugueses boçais pra "padronizar" a escrita nos dois lados do Athlãtxiku. Cada um q me aparece…

Nosso encomioso Dr Plausível ainda não pode gargalhar mas já recebeu autorização médica pra arfar uns pigarros e gorgolejar o bafo, se for estritamente necessário. E foi o q fez ao ler a notícia acima. Pobre Dr Plausível. Ele foi ruborizando, roxeando, tampando a boca com a mão e segurando o ar nos pulmões. ¡Q cena ferinte!

Não era pra menos. Pra êsse erudito militante, o maior empecilho disparado, o mais perverso e insidioso obstáculo ao progresso brasileiro são os gramáticos e os dicionaristas desta terra. Êta gentalha. O Brasil só não é "um país q vai prà frente" porque sua evolução é perenemente tolhida, abortada e acuada por um bando de caga-regras da língua. Em vez de se ocuparem de coisas realmente importantes, ficam aí tirando tremas e circunflexos por decreto. Nada contra tirar tremas e circunflexos por decreto; mas ¿por que não fazem algo realmente útil pra variar?

Mas ¿o q seria realmente útil? Às vezes é difícil seguir o raciocínio de nosso esterlino doutor. Vamos ver se consigo explicar.

Pense bem antes de responder: ¿Quem tem uma vida mais difícil, um mendigo ou um médico? Já fiz essa pergunta a dezenas de pessoas e todas elas responderam q obviamente o mendigo tem uma vida mais difícil. Mas a resposta está ¡eeeeeeeeeeeerraadaa! Obviamente o médico tem uma vida muito mais difícil. A vida do mendigo pode ser desconfortável, desagradável, humilhante &c, mas com certeza é uma vida facílima. Não é preciso nenhum talento especial pra pedir esmolas e dormir na rua. É trocentas vezes mais difícil ser médico, e é por isso q o médico ganha mais do q o mendigo.

Mas ¿qual é a principal diferença entre os dois? Antes q vcs fiquem aí dando cabeçadas, já vou responder: a diferença entre os dois é o vocabulário. Decheu enfatizar: a principal diferença entre os dois é o vocabulário. Aquilo q o médico adquiriu em anos e anos de formação escolar e profissional se resume a pouco mais q a lista de palavras q ele é capaz de reconhecer, utilizar e associar a outras palavras ou a objetos concretos ou abstratos no mundo, formando uma estrutura mental q espelha a realidade. Ou seja, a principal diferença está no grau de complexidade de suas mentes, uma complexidade fomentada e mantida por seu vocabulário. A educação não existe pra simplificar a vida: existe pra torná-la mais complexa.

Do mesmo modo, o Brasil e Portugal só não criam, produzem e disseminam um padrão de vida mais confortável, mais revigorante, mais multifário, mais complexo —ou seja, só não são países do Primeiro Mundo— porque o português é uma língua q ficou pra trás, uma língua q, por obra de seus capangas tira-tremas, não se desenvolve, não descobre e não cria novos conceitos: em resumo, não aumenta seu vocabulário, e se vê obrigado a repisar um léxico ultrapassado, canhestro e imaleável —qdo não copia as idéias alheias apenas.

Os exemplos do exemplar Dr Plausível são em alemão, sueco, japonês, inglês, e todas essas línguas de países mais complexos. Eu não saberia repeti-los. Vou citar um exemplo duma língua q conheço bem, o inglês. Como se já não bastasse q grande parte do jargão de inúmeras tecnologias vem do inglês (já q essas tecnologias são criadas, produzidas ou disseminadas em inglês), o português tbm carece de inúmeros conceitos q são moeda corrente em inglês. Tomem a palavra accountability. Essa palavra não tem equivalente português. O tradutor é obrigado a acochambrar traduzindo-a por 'responsabilidade'; mas não é a mesma coisa. Seria um conceito muito útil no Brasil. Minha esposa, a Bebel, teve a sacada de q accountability é quase o exato oposto de impunidade. "No Brasil, todos falam do 'problema' da impunidade," diz ela, "e ninguém consegue falar da solução (accountability) porque o português não tem a palavra." Ou seja, o português tem o conceito de 'impunidade', mas não tem o de seu oposto. Nem imputabilidade, nem imputação, nem punibilidade dão conta de accountability. ¿Talvez punidade? Mmm… não. Mesmo assim, procure punidade no dicionário. Não tem. Portaaaaaaaanto, a palavra "não existe". No entanto, accountability e accountable são conceitos comuníssimos em inglês. Qqer adolescente conhece e usa.

Como essa, existe uma miríade de palavras e conceitos em inglês q dão complexidade, vigor e progresso aos países de língua inglesa. E pra cada palavra q tem no português e não no inglês, tem três palavras no inglês q nem sequer são possíveis de se imaginar em português. ¡E isso q nem falei das locuções inglesas, os grupos de duas ou mais palavras, a tortura do tradutor!

A questão levantada pelo Dr Plausível é q o Brasil e Portugal se encontram à margem da evolução social, cultural e industrial do planeta porque são países q têm uma lingua complicada mas não complexa. Em particular, o Brasil, além disso, é um país complicado mas não é um país complexo. Pra erguê-lo da lama, bastaria permitir-lhe ou dar-lhe mais palavras.

Mas, ¡ó grasnante disparate!, ¡ó descredinte gravame!, os gramáticos e dicionaristas brasileiros e portugueses, em vez de tentar ajudar a tirar o português (e o Brasil) do vexame em q se encontra, ficam aí perdendo tempo cagando decretos sobre picuinhas, enquanto restringem, censuram e castram a pouca semântica q o português tem.

8 comentários:

tany disse...

benéfica volta , plausível post/crônica.
obrigada por lembrar-me do retorno.

PACS disse...

Achei a tese da Bel sobre accountability plausivelmente doutoral. Já incorporei, apesar de que num primeiro momento pendi para IMPUTABILIDADE como um sucedâneo.

PZumarán disse...

Desculpe, Smart Shade. Apaguei seu comentário sem querer. Mas aqui vai minha resposta

Responsabilização traz o conceito errado. É uma questão vetorial. Responsabilização vem de fora pra dentro, soa imposta. Accountability vem de dentro pra fora, é um atributo de um ato.

O problema q o português precisaria resolver é o das derivações. Pra q esta língua seja capaz de suportar o progresso tecnológico, político e social com q vive sonhando, os gramáticos, dicionaristas e lingüistas têm q liberar geral. Ajudar na criação e não na correção. Por exemplo, outra questão vetorial: interesse é o q o interessado sente. A qualidade de ser interessante poderia chamar-se interessância ou (mais castiçamente) interessança.

E ¿por que isso não acontece? Porque a repressão sobre os conceitos novos no Brasil é uma característica do próprio português - uma característica q se presta pra uma sociedade no século XIX, mas q mantém tacanha a mentalidade brasileira. O Brasil é um país em q vc é reprimido desde criança por brincar com as palavras. Um moleque inventa um trocadilho e a turma em volta já vai dizendo "dããã".

Sobre o Aldo Rebelo, veja este linque: http://doispanacas.blogspot.com/2003_09_01_doispanacas_archive.html.

Eumemim disse...

Não entendi qual a necessidade de se criar interessância ou interessança se já ixiste interessante. Poderia me explicar melhor? Seria bis in idem, mas tudo bem, vamos colocar mais uns sinônimos. Eles nunca são perfeitos mesmo.

Permafrost disse...

Hoje em dia, faz-se a distinção vetorial de 'interesse' usando-se pós-preposições ou locuções prepositivas e/ou explanatórias:

(1) o interesse desse assunto / o interesse inerente a esse assunto

(2) o interesse por essa questão / o interesse q essa questão desperta

Mas vc já pode até ter presenciado ou atuado numa conversa em q os dois sentidos de 'interesse' geram alguma confusão.

Aldo: Não vejo nenhum interesse nos clientes deles.
Baldo: ¿Como assim? ¿Vc quer dizer q eles não se interessam por nossos produtos, ou q eles não têm nada q interesse a nós?
Aldo: Nem um, nem outro. É tudo a mesma coisa.

Mas na verdade, não é tudo a mesma coisa. O Aldo quis dizer UMA coisa; só depois q imprecisão de suas palavras ficou óbvia é q ele deu uma acochambrada. O Baldo dá uma risadinha é parece q houve uma troca espirituosa qdo na verdade o q houve foi um momento de estabanagem causada por uma desproporção entre o número de noções semânticas e o número de ítens de vocabulário correspondentes.

Paulo disse...

será que sindicabilidade não é uma boa tradução para accountability?

Permafrost disse...

Quê? Tás derivando?

F. Arranhaponte disse...

Anos depois, para o éter:

Responsabilização.

You are accountable/Você é responsabilizável

We should have more accountability/Devemos ter mais responsabilização

Deu, ou só ficou mais ou menos?

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