28 março 2006

Origens Lingüísticas do Atraso Brasileiro

Em 1984-85, o Dr Plausível publicou uma série de artigos nos Cadernos de Plausibilática, com o título geral de "Origens Lingüísticas do Atraso Brasileiro". Nosso espantoso humanista provou por A + B a implausibilidade em botar a culpa em mazelas tais como a impunidade, a malemolência, a corrupção, a festancidade e a educação brasileiras, e mostrou, demonstrou e arrematou q a coisa toda não passa dum problema meramente lingüístico, um pobrema insolúvel: se as mesmíssimas pessoas q ora populam estas terras falassem japonês ou alemão ou inglês ou grego em vez de português, o Brasil seria talvez um pouco menos pululante mas com certeza bem mais desenvolvido, teria um povo mais respeitoso, multifacetado e consciente, e uma economia mais respeitável, respeitosa e eficiente.

Foi num desses artigos q o doutor originalmente publicou a tese amplamente comprovada de q uma das maiores mazelas do Brasil, senão a maior, é a metonímia elíptica*, q diariamente causa incalculáveis prejuízos econômicos, culturais e sociais neste país. Em outro, refutou inapelavelmente a tese de q o ensino da norma culta pode ajudar a desenvolver o raciocínio e portanto o país. Mas não vou chatear os leitores deste blogue com citações: além de serem todos extremamente técnicos, os artigos trazem transcrições fonéticas da fala brasileira de diversas regiões e, pra quem não é do ramo, fica chato pacas. Por exemplo, duas das mais fáceis de entender são:

"Çta psan djaugúa coiz?" (Você está precisando de alguma coisa?)
"É pski téça baguncéê." (É por isso q está essa bagunça aí.)

Vou só resumir aqui o q o doutor disse de duas expressões q usou pra demonstrar sua tese central sobre o atraso brasileiro:

(a) "[Jogar] conversa fora."
(b) "Falou, tá falado."

(a) O doutor fala trocentas línguas, então não vou discutir: ele afirma q não há em nenhuma das línguas mais desenvolvidas uma expressão q diga e fale "jogar conversa fora". E se vcs atentarem pro q essa expressão brasileira significa, verão q é na verdade um belo insight. Três línguas européias competem entre si pelo prêmio de Maior Desperdiçador de Neurônios: o francês, o espanhol e o português. Realmente, colocar todos os pluraizinhos, os acentinhos, as concordanciazinhas e os diminutivinhos nos lugarzinhos corretinhos é coisa de quem não tem mais do q fazer e, de fato, joga conversa fora toda vez q abre a boca. Essas três línguas têm muita argamassa pra pouco tijolo. É de se elogiar q só o português tenha produzido esse insight. Nem tudo está perdido.

Mas mesmo qdo não se usa as regritas, joga-se conversa fora. Numa frase comum como "Eu tou indo na feira.", apesar de apocopar 'estou', o falante usou 'eu' desnecessariamente. E ¿q catso significa "ir na feira"? Não pode ter muito a dizer uma língua em q algo de significado contraditório pareça fazer sentido porque, no contexto, só pode ter outro significado. É como se ali bastasse um espirro: "tou indo atchim feira."

Mas a expressão "jogar conversa fora" indica algo mais profundo: com tanto neurônio sendo usado pra falar bonitinho, o português faz com q a interação tenha precedência sobre a comunicação: é mais importante interagir do q de fato dizer algo. Daí q se usa "jogar conversa fora" com o sentido de "interargir amigavelmente pela fala". O Dr Plausível não está dizendo q não se joga conversa fora em outras línguas: apenas q no Brasil as características do português transformaram a jogação de conversa fora numa regra e não numa exceção, sendo especificamente por esse motivo q essa expressão colou no Brasil. Nenhuma língua fala do q nela mesma não há.

(b) Uma das maneiras de jogar conversa fora é um tipo de interação bastante comum entre brasileiros, na qual o ouvinte repete o q ouviu quase verbatim. Por exemplo:

A. Eu tou indo na feira.
B. Ah, ce tá indo na feira?
A. É.
B. Ntão me compra ...&c

Se o A for, digamos, um alemão, é bem capaz de o diálogo ficar assim:

A. Eu tou indo na feira.
B. Ah, ce tá indo na feira?
A. (leve irritação) ¿Não foi isso, o q acabei de dizer?

Isso pq o alemão, o inglês e outras línguas têm pouca tolerância pra repetições bobas: são línguas em q, de fato, "falou, tá falado." E no entanto, nenhuma dessas línguas tem essa expressão. É sintomático q a aparente imbecilidade no hábito comum de repetir inutilmente o q já se disse seja compensada pela mera existência da expressão "Falou, tá falado." Tipo, "Ah, a gente repete as coisa, mas pelo menos qdo falou, tá falado." – ?!?!?

Note-se tbm q a expressão fala em 'falar' e não em 'dizer'. 'Falar' é apenas o ato de soar palavras pela boca, não necessáriamente dizendo algo. Ou seja, q a expressão q aparentemente diz "Se vc disse, está dito." na verdade não diz mais q "Se palavras soaram, palavras foram soadas." Agora, se algo q preste foi de fato dito, já são outros quinhentos.

Por exemplo, essa tese toda q vc acaba de beliscar, ¿é algo q preste? ¿O Dr Plausível derridanamente jogou conversa fora, ou falou derridanamente com total seriedade? ¿Foi sarcástico, ou foi preciso?

E essa tua dúvida ¿é sobre as palavras do enobrecido doutor, ou sobre a viabilidade mesma do português? Hmmm.

*Também chamada de 'substantivação elíptica' e 'nominalização elipto-retórica', mais conhecida como 'braquilogia' ou 'braquiologia'.

10 comentários:

M4rcoS disse...

Idioma pobre e complicado ao mesmo tempo.

coiso disse...

O Guimarães Rosa é bem mais engraçado que tu meu camagada, e expõe a novilingua brasiliensis ao ridículo também com maior finesse.
A única diferença é que ele reconhecia que a lingua, mesmo a mais deturpada, faz parte de uma cultura local entranhada naquilo que se chama de um povo.

Muitos idiomas já tiveram seu ciclo de glória: o grego, o latim, o francês e, atualmente, o inglês.
Todos têm também as suas deturpações; vide o cockney por exemplo do teu tão amado inglês.

O que o futuro nos reserva como idioma dominante (chinês, coreano, árabe ou russo) ninguém sabe, exceto que quase com certeza não será o probre idioma luso.
A aplicação mais horizontalizada de um idioma pouco têm a haver com cultura que ele exporta para os demais paises, mas sim com domínio econômico exercido pelos paises que falam este idioma. Simples assim. Vide: Alexandre Magno, Império Romano, Napoleão Bonaparte, e atualmente Revolução Industrial e todas as demais consequencias desta.

Já houve um tempo em que eu como você achava que o Brasil se lascou quando os Portugueses vieram a colonizar o pais e que os Ingleses teriam sido uma melhor opção. Com o tempo a gente acaba reconhecendo que o Brasil não seria o Brasil, e nem mesmo o Brazil, se isto tivesse ocorrido e que talvez tenha sido melhor assim mesmo. É a tal da biodiversidade (talvez cultural).

A formação do idioma depende do povo, esta massa informe de elementos anônimos e, portanto, tanto o seu texto quanto o meu pouco adiantam para mudar qualquer coisa no sentido de reduzir ou corrigir as pataquadas que você tem prazer em mostrar em vários pontos deste blog.

Mas de qualquer forma o seu objetivo neste blog não é consertar nada mesmo, mas apenas o de obter notoriedade intelectual.

Encurtando e mandando ver no popular: maninho, aquele que cospe no prato em que come merece levar chumbo.

Permafrost disse...

Ôô coiso, vc não sacou de quê se trata. Aguarde outro texto em q vou demonstrar algumas características pouco percebidas do português, tal como a substantivação elíptica, o anacoluto sintético e o pensamento mudo.

da casa disse...

Mas e se for um prato de buchada azeda? Aí, pode cuspir? Se eu não cuspir, eu vomito. Vomitar os buchos não é pior?

Pracimademoá disse...

Eu não concordo com as teorias econômicas do coiso. Tem gente que acha que a China ainda vai dominar o mundo por causa do seu tamanho e força econômica.

Mas nem fudendo! Eles não têm cultura pra isso. Imagine o ocidente comendo arroz com pauzinho, venerando Buda (leia-se descartando o cristianismo), vestindo-se como o exército de Mao Tse (leia-se descartando o jeans, Milão e Versace) e comprando Playboy com alguma chinesa magrela e despeitada na capa! A cultura deles é insossa. A cultura deles é indesejada. A cultura deles não seduz nem japonês nem tailandês nem coreano nem vietnamita, imagina se o ocidente vai engolir. Esse coiso cita exemplos de mais de um século e os tempos mudaram. Hoje existe informação. As pessoas "sabem" mais o que querem. E os americanos sabem fazer os outros "saberem" como ninguém.

Mas também, esse coiso hein? "Pouco têm a haver"? "Esta massa informe"? Erm, acho que ele/a quis dizer "disforme"... O Pablo e/ou o Doutor não aprecia a norma culta, mas eu acho difícil levar a sério um semi-analfabeto desses. Um semi-analfabeto até pode ter boas idéias, mas evidentemente não foi desta vez.

coiso disse...

Primeiramente, meu caro pracimademoá, vamos estabelecer a correção ou a incorreção do texto que eu divulguei:
informe

do Lat. informe
adj. 2 gén.,
sem forma;
monstruoso;
colossal.

de informar
s. m.,
informação;
parecer
Portanto, registre-se para os autos que a minha aplicação do texto informe tem como sinônimo "sem forma" e também o "monstruoso". Revoguem-se todas as disposições em contrário...

Com respeito ás vossas colocações sobre a China vamos apenas lembrá-lo que esta já teve uma "cultura", leia-se aqui cultura como um sinônimo de progresso ou tecnologia muito avançada por volta aí dos anos 600 á 1000. Quem leu As viagens de Marco Polo no texto original e não na versão adequada servida aos estudantes pode depreender isto que estou afirmando; aqueles que não fugiram das aulas de história no colégio idem. Teve também uma cultura clássica que têm como exemplo a obra de Confúcio, Mêncio, LaoTse entre outros. Lembre-se que o tão decantado A Arte da Guerra foi escrito na China em seu período clássico.

O mesmo pode-se dizer dos árabes na Idade Média pois enquanto os Ocidentais - ditos civilizados - ainda faziam buracos na cabeça das pessoas doentes para deixarem os maus espíritos sairem, estes já dispunham de hospitais com isolamento para evitar contaminações. Um livro que lhe recomendo sobre o assunto é o As Cruzadas vistas pelos Árabes de Amin Maalouf (por favor não confundir com aquele outro do Tunel do Ibirapuera).

O mesmo se pode dizer da India - mas o texto está ficando longo e vou deixar para a tréplica.

Parece-me também que você está confundindo a dita "cultura" no sentido mais clássico da palavra com os hábitos do povo em questão. Se você julgar a cultura brasileira (sic) pelos hábitos do nosso povo - como, por exemplo, ouvir a música dita Sertaneja e frequentar bailes Funk - veremos que estaremos para sempre f*didos aos olhos da história.

Mas não desanime de me escrachar pois pelo menos em um ponto nós concordamos, eu também prefiro as popozudas e siliconadas brasileiras ás "taubas de passá röpa" made-in-China na Playboy e principalmente ao vivo e nuas em pêlo.
(Apesar de continuarmos receptivos aos encantos daquelas de olhinhos puxados no aconchego de nossa alcova).

Obviamente és ainda um mancebo e, portanto, relevo os imprompérios que me foram dirigidos com base na sua - talvez - pequena experiência de vida que percola através de suas colocações.

Com respeito ás minhas observações sobre o relacionamento da mecânica da economia com aquilo que é compreendido como cultura idiomática - se me permitem o deslize - uma breve consulta de V.Sa. aos livros de história poderá fazer com que você mesmo diga em voz alta: Mea culpa, mea maxima culpa... Dispenso-te porém de vestir roupa de saco e de aspergir cinzas sobre a sua cabeça pois sua falta não foi tão grave a ponto de merecer tal opróbrio.

Você também não precisa se incumbir da função de cão de guarda do nosso bom Dr Plausível pelos seguinte motivos:
1. Primeiramente, ele sabe se defender sózinho;
2. Atacar as posições do Dr tem como intenção apenas atiçar o debate porque uma vez provocado, ele extrairá da cartola um novo belo texto para rebater ás críticas - coisa que muito irá deleitar a assistência.
3. A expressão "cuspir no prato que comeu" é uma pequena concessão de nossa parte á necessidade inata que a assistência tem de ser alimantada com baixarias. Apenas, Panis et Circensis, para atiçar o sangue latino de nosso bom Dr que pensa que é um europeu exilado nos trópicos.

Permafrost disse...

Pracimademoá, concordo contigo.

Quem já ouviu aquelas musiquinhas agudinhas chinesas há de se perguntar '¿q catso?'. Mas isso é só choque cultural, claro. No entanto, toda vez q alguém cogita a possibilidade de a língua chinesa vir a prevalecer, dá vontade de consultar o Dr Plausível. Isso porque há um repelente basicíssimo no chinês: a entonação de uma palavra modifica seu significado: a mesma palavra pode querer dizer (chuto) 'árvore' [entonação aguda descendente], 'cozinhar' [grave ascendente] e 'embusteiro' [média oscilante]. Isso tem duas conseqüências: (1) a escrita por ideogramas; (2) qdo um chinês fica irritado, (vc já deve ter visto isso em filmes) ele não grita: ele tensiona o pescoço e fala com mais intensidade, com um som aparentado com o pigarreio. ¡Imagine se o resto do mundo vai sair do fácil (a escrita modular latina, a língua modular inglesa) pra aprender o difícil!

Coiso, vc com certeza sabe do q está falando. Mas eu acho q errou ao supor no meu texto uma intenção q ele não tem. Qdo falo do 'atraso brasileiro', não estou querendo propor um 'avanço brasileiro'. Em outros textos deste blogue (notadamente o lincado como 'a falácia do crescimento' Ago05) nota-se q o Dr Plausível vê o pogréssio com desconfiança, se não aversão. Só estou expondo como nosso emblemático doutor explica o atraso brasileiro em comparação ao avanço tecnológico e à complexidade cultural de alguns países do 1° mundo, em função da língua falada neles. Note q eu chamei essa questão de "pobrema insolúvel": o português, tal como é falado hoje, *jamais* será uma ferramenta criativa de tecnologia (a menos q as tecnologias criadas em outras línguas finalmente ensejem a famosa 3ª guerra mundial após a qual se lutará com tacapes), assim como o chinês *jamais* será a lingua franca do mundo (a menos q eles *ganhem* a 3ª guerra - em cujo caso, a língua default deixa de ser o português...).

Se estou propondo alguma coisa, é q o português entre numa fase caótica em q cada um fale e escreva como lhe der na telha, q crie palavras uma atrás da outra, e q policie a plausibilidade do q fala ou escreve, mais nada.

Alfred E. Neuman disse...

"Já houve um tempo em que eu como você achava que o Brasil se lascou quando os Portugueses vieram a colonizar o pais e que os Ingleses teriam sido uma melhor opção. Com o tempo a gente acaba reconhecendo que o Brasil não seria o Brasil, e nem mesmo o Brazil, se isto tivesse ocorrido e que talvez tenha sido melhor assim mesmo. É a tal da biodiversidade (talvez cultural)."

Pô, mas o problema é justamente que o Brasil é o Brasil!

Permafrost disse...

E ¿não é q é mesmo?

Pacs disse...

Muito bêeeeeeeeeimmmmmm.

Se você visse o que se faz no Direito. A tese do Dr. Plausível sobre a precedência da interação sobre a comunicação é central nas ciênciach do Direito.

O background da interação são no português as relações de desigualdade e de poder que perpetuam a injustiça.

(ihhh, falou o CRUSP)

O background da interação desigual que prescinde da comunicação no português é a negritude. Não existe comunicação possível na escravidão. Portugal perdeu suas colônias na década de 70, a escravidão no Brasil ainda existe ainda que formalmente abolida em 1888, vinte e três anos depois da Guerra Civil in America.

Valeu.

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