Origens Lingüísticas do Atraso Brasileiro 

Em 1984-85, o Dr Plausível publicou uma série de artigos nos Cadernos de Plausibilática, com o título geral de "Origens Lingüísticas do Atraso Brasileiro". Nosso espantoso humanista provou por A + B a implausibilidade em botar a culpa em mazelas tais como a impunidade, a malemolência, a corrupção, a festancidade e a educação brasileiras, e mostrou, demonstrou e arrematou q a coisa toda não passa de um problema meramente lingüístico, um pobrema insolúvel: se as mesmíssimas pessoas q ora populam estas terras falassem japonês ou alemão ou inglês ou grego em vez de português, o Brasil seria talvez um pouco menos pululante mas com certeza bem mais desenvolvido, teria um povo mais respeitoso, multifacetado e consciente, e uma economia mais respeitável, respeitosa e eficiente.

Foi num desses artigos q o doutor originalmente publicou a tese amplamente comprovada de q uma das maiores mazelas do Brasil, senão a maior, é a metonímia elíptica*, q diariamente causa incalculáveis prejuízos econômicos, culturais e sociais neste país. Em outro, refutou inapelavelmente a tese de q o ensino da norma culta pode ajudar a desenvolver o raciocínio e portanto o país. Mas não vou chatear os leitores deste blog com citações: além de serem todos extremamente técnicos, os artigos trazem transcrições fonéticas da fala brasileira de diversas regiões e, pra quem não é do ramo, fica chato pacas. Por exemplo, duas das mais fáceis de entender são:

"Çta psan djaugúa coiz?" (Você está precisando de alguma coisa?)
"É pski téça baguncéê." (É por isso q está essa bagunça aí.)

Vou só resumir aqui o q o doutor disse de duas expressões q usou pra demontrar sua tese central sobre o atraso brasileiro:

(a) "Falou, tá falado."
(b) "[Jogar] conversa fora."

(a) O doutor fala trocentas línguas, então não vou discutir: ele afirma q não há em nenhuma das línguas mais desenvolvidas uma expressão q diga e fale "jogar conversa fora". E se vcs atentarem pro q essa expressão brasileira significa, verão q é na verdade um belo insight. Três línguas européias competem entre si pelo prêmio de Maior Desperdiçador de Neurônios: o francês, o espanhol e o português. Realmente, colocar todos os pluraizinhos, os acentinhos, as concordanciazinhas e os diminutivinhos nos lugarzinhos corretinhos é coisa de quem não tem mais do q fazer e, de fato, joga conversa fora toda vez q abre a boca. Essas três línguas têm muita argamassa pra pouco tijolo. É de se elogiar q só o português tenha produzido esse insight. Nem tudo está perdido.

Mas mesmo qdo não se usa as regritas, joga-se conversa fora. Numa frase comum como "Eu tou indo na feira.", apesar de apocopar 'estou', o falante usou 'eu' desnecessariamente. E ¿q catso significa "ir na feira"? Não pode ter muito a dizer uma língua em q algo totalmente sem significado pareça fazer sentido porque, no contexto, só pode ter outro significado. É como se ali bastasse um espirro: "tou indo atchim feira."

Mas a expressão "jogar conversa fora" indica algo mais profundo: com tanto neurônio sendo usado pra falar bonitinho, o português faz com q a interação tenha precedência sobre a comunicação: é mais importante interagir do q de fato dizer algo. Daí q se usa "jogar conversa fora" com o sentido de "interargir amigavelmente pela fala". O Dr Plausível não está dizendo q não se joga conversa fora em outras línguas: apenas q no Brasil as características do português transformaram a jogação de conversa fora numa regra e não numa exceção, sendo especificamente por esse motivo q essa expressão colou no Brasil. Nenhuma língua fala do q nela mesma não há.

(b) Uma das maneiras de jogar conversa fora é um tipo de interação bastante comum entre brasileiros, na qual o ouvinte repete o q ouviu quase verbatim. Por exemplo:

A. Eu tou indo na feira.
B. Ah, ce tá indo na feira?
A. É.
B. Ntão me compra ...&c

Se o A for, digamos, um alemão, é bem capaz de o diálogo ficar assim:

A. Eu tou indo na feira.
B. Ah, ce tá indo na feira?
A. (leve irritação) ¿Não foi isso o q eu acabei de dizer?

Isso pq o alemão, o inglês e outras línguas têm pouca tolerância pra repetições bobas: são línguas em q, de fato, "falou, tá falado." E no entanto, nenhuma dessas línguas tem essa expressão. É sintomático q a aparente imbecilidade no hábito comum de repetir inutilmente o q já se disse seja compensada pela mera existência da expressão "Falou, tá falado." Tipo, "Ah, a gente repete as coisa, mas pelo menos qdo falou, tá falado." – ?!?!?

Note-se tbm q a expressão fala em 'falar' e não em 'dizer'. 'Falar' é apenas o ato de soar palavras pela boca, não necessáriamente dizendo algo. Ou seja, q a expressão q aparentemente diz "Se vc disse, está dito." na verdade não diz mais q "Se palavras soaram, palavras foram soadas." Agora, se algo q preste foi de fato dito já são outros quinhentos.

Por exemplo, essa tese toda q vc acaba de beliscar, ¿é algo q preste? ¿O Dr Plausível derridanamente jogou conversa fora, ou falou derridanamente com total seriedade? ¿Foi sarcástico, ou foi preciso?

E essa tua dúvida ¿é sobre as palavras do enobrecido doutor, ou sobre a viabilidade mesma do português? Hmmm.

*Também chamada de 'substantivação elíptica' e 'nominalização anacoluto-retórica', mais conhecida como 'braquilogia' ou 'braquiologia'.


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