02 novembro 2010

Repulsa ao nexo (2/2)

Difícil achar um adulto q não tenha se perguntado o qualoporquê de haver dois sexos na natureza. O cara vê os lindos mares, rios, campos e montanhas borbulhando de sexualidade pra cima e pra baixo numa fodeção imparável entre os dois sexos, vesgueia os olhos e indaga, "Mas ¿por que DOIS? ¿Por que não três?" E, mais à propósito, ¿por que não apenas um?: se o objetivo da sexualidade é a (auto-)reprodução, ¿por que a auto-fertilização e a partenogênese são tão raras?

Ou talvez a pergunta tenha q ser reformulada. Vejam esta: ¿Por que o sistema de dois sexos foi tão bem sucedido neste planetinha tão gostosinho? (A definição de "bem sucedido" é filosófica demais pra caber neste blogue.)

Uma hipótese recente –q faturou o Plêmio Plausível 1993– é a de q, no começo da vida aqui, a dimorfia sexual (ie, o sistema de dois sexos, Pedro Bó) vingou em organismos pluricelulares pq funcionou contra a velocidade de reprodução das bactérias e vírus, q os destruíam implacàvelmente. (Não, gente, ninguém sabe *quando* os vírus surgiram no planeta; mas nessa hipótese, surgiram manemeni junto com as bactérias, nos primórdios da vida, pq afinal dá no mesmo.) (E pra simplificar, de agora em diante, 'organismos pluricelulares' = 'plúris'; e 'vírus e bactérias' = 'vírus' –pq fica bonitinho.)

Os vírus e os plúris tão numa espécie de batalha ou corrida armamentista q já dura bilhões de anos. Os vírus se reproduzem ràpidamente, mas têm desvantagens: são microscópicos, então têm um raio de ação menor e dependem de portadores; têm "memória" curta do que já deu certo antes; e sua reprodução é simplória, mecânica e previsível, então ela não lida bem com mudanças aleatórias no meio. Já os plúris sexuados, se reproduzem mais lentamente; só q, apesar de sua maior lentidão, a relativa imprecisão do processo sexual resulta numa aleatoriedade genética entre indivíduos maior do q a q é possível produzir assexuadamente –tal como faz o vírus–, e daí uma probabilidade maior de um plúris seguir existindo como espécie, pois tá sempre no mínimo um passo ä frente da variação do vírus, q se reproduz mecânicamente.

Pois então. Quase toda a história da vida complexa neste planeta pode ser vista como essa batalha dos organismos pluricelulares contra as bactérias e vírus. Qto mais espécies diferentes de plúris houver, tanto mais eficientemente eles se escafedem dos vírus. Os plúris se diferenciaram em plantas e animais, e depois nas miríades de classes e gêneros, alimentando-se uns dos outros, à cada passo escapando da sanha assassina microscópica ininterrupta insensível empedernida mecânica do vírus. Este é o primeiro e o maior PREDADOR do plúris: é seu inimigo número um. A moralidade é necessàriamente resultante de o plúris ser a presa do vírus.

... ôpa ôpa ôpa ¿¡¿QUÊÊÊ?!? Mas ¿tás viajando, doutor? ¿Ficou bobo na corte inglesa? ¡Que salto mortal, meu caro vatso! ¿Que catso tem à ver o vírus com a moral? ¿Planta por acaso tem moral?

Ué, diria nosso efluvioso humanista, ¿não é óbvio? Não?

Vai mais devagar aê, ô, efluvioso.

Não sei se o nobre leitor já percebeu um detalhe sobre a moralidade. Todo princípio moral... peraí, dexeufrisar, TODO (¿leu bem?: todo) princípio moral é em essência um paradigma entre presas com livre-arbítrio, é um agente conglomerante de indivíduos ambulantes em perigo, é uma defesa contra um predador (concreto ou abstrato) –e é tanto mais exitoso qto melhor co-opta o próprio predador. Este, enquanto preda, é imoral e amoral: só é regulado por suas necessidades orgânicas, sua química orgânica, seus mecanismos vitais, sua lógica devastadora. O predador tbm pode ter moral, sim; mas seus comportamentos morais intra- e extra-espécie aparecem ùnicamente qdo sua sobrevivência *não* tá em jogo. Se descermos pelos inúmeros ramos correntes da moral, em direção ao passado paleocitológico, desfazendo as bifurcações todas uma à uma, chegando ao tronco primitivo, ä primeira manifestação dum pré-princípio moral originário germinativo e desencadeante, bilhões de anos antes do q Nietzsche sequer conseguiria imaginar, veremos a genitura de toda moralidade no esboço do futuro plúris, com suas moléculas vagarosamente formando um esquema de defesa bioquìmicamente colaborativo entre indivíduos parecidos. Uma parte, desprovida de liberdade espacial (o reino vegetal) encontrou meios mecânicos de resistência ao vírus. Na outra parte (o reino animal), tudo q deu certo desde então na batalha contra o vírus foi uma ampliação, uma diversificação e uma complexificação paulatinas dessa colaboração bioquímica na sopa ancestral, co-optando o reino vegetal. Mas o vírus permanece como arqui-predador, o Mal-em-si, o capeta, pure evil, o anjo da morte, o morto-vivo q tem um completo, gélido e aterrador desprezo pela ãã "vida".

E, claro, no centro da colaboração bioquímica tava a dimorfia sexual. A resposta ä pergunta "¿por que 2 sexos?" deve ser "porque 2 é o menor número inteiro depois de 1." Na economia biológica, o 2 dos plúris é suficientemente alto e eficientemente baixo contra o 1 dos vírus.

Então, apesar de soar estapafúrdia ä enésima potência e cheia de buracos, a hipótese plausível não pode tar muito longe da verdade: a origem da moralidade tá na origem da dimorfia sexual –daí o sexo figurar tão, digamos, tão bojudamente tanto nas prescrições morais qto nas trangressões, intrigas e folclores. Os comportamentos bioquímicos q promoveram a manutenção e evolução dos micro-plúris ancestrais são aqueles q se tornaram a moralidade; ou seja, a moralidade de hoje descende de comportamentos bioquímicos ancestrais.

Aquilo q o humano médio vê como moralidade são as inúmeras ramificações deduzíveis e induzíveis de dois eixos principais: sexo e agressão –a normatização do sexo e o controle da agressão: duas prioridades presentes deeeeesdo cafundó das tripa. A agressão original dos vírus contra os plúris, e o sexo original na relação inter-plúris. Não importa q, com a gradual complexificação da ecologia, a defesa contra agressões viróticas tenha se tornado uma defesa contra agressões entre diferentes espécies de plúris e, mais tarde, uma defesa contra agressões dentro da mesma espécie (tal como acontece entre humanos): os comportamentos "aprendidos" (ie, fixados) por meros aglomerados de células certamente se complexificaram e foram usados por organismos mais complexos, até chegarem ao despirocamento total q é a cultura humana. Tudo no humano é mais complexo e diversificado. O âmbito humano tem desde agressões escabrosas tais como um soldado invasor estuprando e degolando uma criança filha de inimigos, até agressões sutilíssimas tais como jogar um papel de bala no chão do elevador sabendo q o faxineiro do prédio vai ter q recolher.

Há quem postule q até a distinção entre sexo e agressão é falaciosa: é possível q sexo seja mesmo –tal como querem, por exemplo, algumas feministas– um tipo de agressão: isso q hoje são macho e fêmea da mesma espécie podem originalmente ter sido duas espécies de micro-organismos ligeiramente diferentes uma da outra; a agressão sexual original era o proto-macho invadindo forçosamente a proto-fêmea pra nela incubar seu dna. Muito se fala da harmonia, da interdependência e beleza na relação entre fêmea e macho, x e y, lua e sol, ying e yang, ♀ e ♂, e o caralho à quatro (!) mas é possível q na verdade a ♀ não precisaria do ♂ pra se reproduzir. Usa-se a palavra 'homem' como sinônimo de 'humanidade', mas a verdade pode ser q a mulher é q é o humano fundamental.

Daria pra ir até um pouquinho mais longe. A origem da moral não tá na origem da vida: não haveria moral alguma num planeta em q a vida consistisse dum único organismo descomunal, do tamanho desse planeta. A origem da moral é posterior ä origem da individuação de organismos separados, autônomos porém interdependentes. A independência espacial é um marcador da moral: as plantas não têm.

Mas... mas... ¿pra quê tudo isso, doutor? Meeeesmo q tenha acontecido assim –o q é questionável–, ¿que relevância tem? ¿Que diferença faz hipotesar, ou faria saber, q a moralidade tem essa genealogia?

Ora, de novo, ¿não tá óbvio? diria o doutor, ¿preciso explicar TUDO?

Ah, tá bom; é q prometi falar tanto da origem qto do ESCOPO da moralidade; e o escopo é q é o grande pô, né?

Pra isso, é preciso distinguir sexo de agressão. Agressão é toda ação proposital física, ou de conseqüências físicas, q atrapalha teu bem-estar, tuas coisas-funcionando-normalmente, e portanto perfaz toda a gama da causação de desconfortos, incômodos, desagrados, prejuízos, violências, ferimentos, traumatismos, aleijamentos e homicídios. (Note q, em se tratando de humanos, a definição de agressões sutis [desconfortos, incômodos e desagrados] pode chegar ä beira da paranóia –tipo achar imoral "fazer pouco da religião X" ou "tirar sarro do sexo Y" ou "avacalhar a raça Z" até mesmo qdo nenhum x, y ou z tá presente pra sofrer a "agressão". A fala tornou o macaco refém 24hs da moralidade pq, como se diz, "as palavras têm conseqüências".)

Voltando, se separarmos o q é estritamente sexo/reprodução do q é sexo mais agressão, veremos q o escopo da moralidade na verdade não inclue o q é estritamente sexual, nem sequer os chamados "desvios". Todo aspecto da biologia tem uma tendência à se expandir, uma ganância; e a ganância dos códigos morais embutiu a moralidade na sexualidade com a desculpa da defesa contra os predadores sexuais e os ãã descompromissados com a reprodução (ie, os não-aliciados contra as hostes viróticas: homossexuais, abortistas, &c). Toda essa codificação do sexo promovida pelas religiões –atitudes, comportamentos, vestuário, estratificação social, a parafernália toda– em si faz parte da agressão, tanto da agressão predatória do macho contra a fêmea, qto da agressão estratégica da fêmea contra o macho. A agressão não tá no puramente sexual; tá é nos paramentos culturais q procuram idiotamente proteger a sexualidade. A intromissão das religiões e outros sistemas morais na sexualidade é na verdade contra-producente: desvia a atenção da tarefa principal, q é a batalha contra os vírus. Qto mais sexo, qto mais diversificadas forem a fodeção, a começão e a trepagem reprodutórias, tanto melhor a espécie humana se defende contra os diabinhos virais. Só q os guardiães da moral e dos bons costumes não querem nada disso. "NananinaNÃO. Bicho pode, pq bicho é bicho e não sabe ler Bíblia, não tem toda essa complexidade humana." Muita gente complexa e muita gente ãã menos complexa (e –triste notícia– há sim, viu, uma gradação entre humanos menos e mais complexos), qdo imagina como seria o mundo se liberassem geral a putaria universal não-agressiva, têm bàsicamente três pavores: sexo com menores, homossexualismo e aborto. Note, caro leitor, q todos os três pavores brotam diretamente dum zelo pelo instinto reprodutor e resultam em objeções proibitórias.

Das três objeções, só tem plausibilidade moral aquela q diz respeito à sexo com menores. A criança é um ser muito delicado pra ser aviltado dessa forma imbecil por gente idiota. Sexo com menores é sexo + agressão, e os dois aspectos são biològicamente aviltantes: o sexo não reproduz (ou não nutre a reprodução adequadamente) e a agressão traumatiza a capacidade reprodutiva da pessoa agredida. Não é por acaso q meramente ouvir falar dum estupro de menor dói em 99% dos humanos.

Sobre a segunda objeção, seria idiota usar a visão biológica pra espezinhar o homossexualismo por sua ãã tendência à não produzir bebês. Um indivíduo q, por qqer q seja o mecanismo inerente à si, não prioriza sua reprodução é, evolutivamente, um beco sem saída, um ponto-final de ramificação. Deixa ele em paz, então, né? Na enormidade da escala biológica, ¿qual é o pobrema? Tem comida pra todo o mundo, e até os vírus entram em becos evolutivos sem saída.

A terceira objeção é biològicamente interessante: pô, qqer humanozinho novo ajuda na batalha contra o vírus, ora pois não? No entanto, a proibição do aborto não se sustenta numa espécie q elevou a moralidade à um código consciente e racional de proteção física e psicológica sistemática do indivíduo. Se é pra ser isso, então q seja, né, catso. Ao nascer (ie, ao tornar-se um ser fìsicamente autônomo), o indivíduo recebe da sociedade o reconhecimento de seu direito ao controle de seu corpo. Qqer outra pessoa, qqer ser, qqer célula, qqer molécula precisa da autorização explícita do indivíduo pra sabidamente penetrar, permanecer em, alimentar-se de, brotar em e transformar seu corpo. Alguns diriam q um câncer faz isso na maior, sem autorização. Sim, e é por isso q se dá ao indivíduo portador de câncer o direito de extirpá-lo à seu bel-prazer, mesmo q pra isso tenha q amputar parte de seu corpo. Com o aborto não é diferente. Pelo código moral de proteção sistemática do indivíduo, a mulher é a suprema autoridade sobre o interior de seu próprio corpo, òbviamente incluindo seu útero.

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E é isso. Por esses exemplinhos genéricos, já se vê q, qdo entendida genealògicamente, a moral demonstra ter um escopo mais restrito do q o q querem os fominhas religiosos e filosóficos de todos os cantos do planeta, q a imaginam derramada majestosamente do céu num pacote pronto. Apesar de todos seus problemas –os q mencionei aqui, os q pensei mas não mencionei, aqueles q o próprio doutor deve conhecer, e os q os leitores podem levantar– a hipótese plausível da moralidade demonstra q não é preciso postular nem pressupor uma metafísica ou uma entidade criadora sobrenatural pra explicar e esclarecer a existência da moralidade entre humanos. Basta uma genealogia.

Talvez o maior problema com a hipótese plausível da moralidade é q ela é demasiadamente simples; e a biologia, sua esbugalhante variedade e quantidade de interações, é o mais complexo fenômeno conhecido.

Por outro lado, é meio anti-climático q a hipótese plausível tenha elementos tão parecidos com os de mitos criacionais tipo adão-e-eva: casal é predado por vilão pérfido, dando origem ä humanidade; e então pode até ser q mesmo a interpretação dimórfica da origem da vida complexa de algum modo seja herdável como bagagem da consciência, como uma prisão cognitiva da qual o humano jamais conseguirá sair: a moral talvez nunca escape de ter explicações tipo adão-eva-serpente. Entretanto, a hipótese plausível arranja as coisas diferentemente. A tradicional desértica é

[adão+eva]/serpente=moral

; a plausível tá mais pra
eva/serpente=[moral]+[adão|eva].

E vc leu isso primeiro aqui.

Então, toda vez q vc ouvir um lambisgóio religioso, em sua repulsa ao nexo, afirmar q ele só não sai por aí "estuprando e matando" (!) pq é amado por um deus q ele cegamente obedece pois leu num livro q é assim q se deve agir, vc já sabe o q dizer: nananinaNÃO.

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Aos q até aqui chegaram, nosso extricante humanista tem mais uma palavrinha. Colaboração, empatia e justiça tão presentes em todo o reino animal. Não há empatia sem colaboração, não faz justiça quem não tem empatia. Mas ¿já viu aqueles bandos de gorilas no mato sentados com cara de tédio? ¿aqueles jacarés todos nas margens deitados olhando pro nada? ¿aqueles cardumes de sardinhas no mar indo à esmo de cá pra lá? Pois é, nunca vão chegar à lugar nenhum desse jeito, bando de preguiçosos. Os humanos podem chegar um pouco mais longe pq colheram mais um fruto cuja origem remonta ao primeiro plúris, um fruto q só poderia ter brotado depois q um primata conseguiu entender a moral racionalmente, depois q raciocinou sobre o outro: a moral da contribuição. Um besouro pode colaborar com seus iguais; uma onça pode ter empatia com um macaquinho; o humano hoje se organiza pra tentar maximizar a justiça, ou pelo menos pra hipòcritamente aparentar isso, ou caminhar nessa direção. Mas... os mais complexos e completos humanos de hoje já nascem naturalmente com mais este requinte da moral: a pulsão de contribuir, de se dar ao trabalho de dar um passo à mais pra jogar um papel no lixo, perder dois segundos segurando uma porta pra outra pessoa, abrir a janela pruma borboleta sair, desviar-se polidamente de outros transeuntes na rua, ouvir ipod baixinho com fone de ouvido qdo em público, salvar velhinhos em incêndios, deixar os outros serem como são, coisas do tipo. A contribuição é a justiça empática colaborativa q um grande gênio pode usar com um mongolóide, e vice-versa.

Muitos anos atrás, uma enorme agência de publicidade alemã contratou nosso doutor como consultor pruma campanha de segurança nas autobahnen. A sugestão doutoral, tìpicamente plausível, foi de fazer anúncios com um bruto acidente de trânsito espalhando sangue e pedaços de corpo pra todo lado e, atrás, um monstruoso congestionamento causado pelo acidente; o eslôgã: "Não atrapalhe a vida dos outros. Evite acidentes." Passou despercebida a piada de intimar a contribuição de não intimar contribuições. Paciência. Talvez daqui à 10 mil anos.
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(contribuiu: Bel Seslaf)

40 comentários:

©@®dØ$Ø disse...

texto muito longo... confuso... hipótese pra todo lado...
mas se fôr pra dar tapa em criacionista, tá valendo.. em vez de "genealogia" podia ter dito "evolução" da moral, só pra doer mais

Dálmata Listrado disse...

Muito bom, etc. Mas...

Uma das características desta moral é que ela some assim que se depara com o "meu pirão primeiro". Tanto que os que estudam a relação entre evolução e comportamento nos seres humanos conseguem tranquilamente falar de "isso acontece porque as pessoas cooperam para sobreviver" e "isso acontece porque as pessoas competem entre si pela sobrevivência" no mesmo fôlego. O Dr. fala disso no post, só repito.

Não estou dizendo que, por ser imperfeita ou ser o que é, ela deve ser substituída por uma moral que vem de fora.

Só estou dizendo que, no fundo, ela não é uma moral. Se entendi o que diz o Dr., a moral é um tipo de instinto, grosso modo. E, possível conclusão, como qualquer instinto, não faz muita diferença jogá-la fora quando se achar conveniente, ou moldá-la à razão humana para que ela seja proveitosa. Nenhuma.

Para usar o exemplo do Dr: Fulano sempre teve o sonho de comer garotinhas. Fez amizade com uma de dez anos. Deixou a menina bêbada. Trepou loucamente com ela enquanto ela estava meio desacordada. Quem viu? Ninguém. Quem sofre depois? A menina.

Mas não há centenas, milhares, milhões de meninas como ela no mundo? O próprio doutor já não falou em outros posts do peso da quantidade cada vez maior de seres humanos vivendo na Terra e as consequências disso pra economia etc?

Se há milhares, milhões, zilhões de meninas como ela no mundo, a humanidade sai mesmo perdendo se alguns homens, ou uma porcentagem cada vez maior deles, se desviarem do padrão de cooperação que é esperado deles? Não.

Ou seja: o satisfazer uma vontade pode e vai tripudiar a moral que é um instinto se houver um instinto capaz de solapar essa vontade maior dessa moral de cooperação, SEMPRE.

Até aí, não falei nada que ninguém já não soubesse, nem o doutor.

Mas a pergunta que fica é: por que, se alguém chega a essa conclusão, não fica deprimido e se mata? Calma, Dr., calma. Não vou brandir uma Bíblia na sua cara.

A questão é que, quando muitas pessoas apelam para o "então tudo é permitido", não acredito que estejam falando somente de moral do tipo "Deus mandou" ou "tá na Bíblia". E sim do próprio sentido da existência.

Se você é um organismo plúris sofisticadíssimo, em cooperação com muitos como você, capaz de atos de altruísmo incríveis, e se essa cooperação e altruísmo podem ser DELETÉRIOS para você mesmo ("pessoa que salva menino prestes a ser devorado por leões morre devorada por leões", um exemplo idiota, mas você pode expandir para qualquer coisa, desde mulheres que se acomodam a desempenhar tarefas que julgam insuportáveis como lavar pratos por anos a fio por "amor à família"), que diferença faz, se você só faz parte de um grupo em que existem milhares iguais a você e que estão aqui somente por causa dessa cooperação genética? In the great scheme of things?

Nenhuma. Estuprar menores, matar, chacinar, roubar, prejudicar pessoas,torturar animais, trazer qualquer tipo de desconforto físico, emocional ou mental pode até parecer horrível, mas todos deveríamos nos lembrar que só nos parece horrível por causa dessa cooperação genética. Em si mesmas, elas não são nada horríveis.

Esta é uma possível conclusão de que o Dr. não fala no post, mas acredito que muita gente religiosa "mais complexa", como caracteriza o Dr., já aventou a hipótese.

E entendo perfeitamente o desconforto que essa conclusão traz e o quanto ela não parece satisfazer. Não sou nem de longe religioso, mas também partilho desse desconforto.

A velha questão: se você tem a oportunidade de roubar 10 milhões de dólares de uma conta e o milionário sequer perceber, você rouba? Se não, por que não? Porque é [...]

denise bottmann disse...

não que eu entenda um-centésimo do que o dr. plausível fala, mas como fala bem!

Eduardo Marques disse...

Dr., eu adoro seus textos, mas esse sinceramente está particularmente árido. Falta um pouco de concisão. Acho que uma boa revisão melhorava. É que você enrola enrola enrola e nada de ir ao ponto. Você deve ter escrito no calor da emoção. Depois eu dou minha opinião sobre ele.

Eduardo Marques disse...

Dr., eu adoro seus textos, mas esse sinceramente está particularmente árido. Falta um pouco de concisão. Acho que uma boa revisão melhorava. É que você enrola enrola enrola e nada de ir ao ponto. Você deve ter escrito no calor da emoção. Depois eu dou minha opinião sobre ele.

Permafrost disse...

Obrigado aos quatro.

Cardoso,
Vc me achou confuso e ¿escreve teu nome daquele jeito? :•D

Bottmann,
Ainda bem q só transcrevo o q eu mesmo penso; imagina se ganhasse a vida como tradutor: nenhum cliente aceitaria meu texto.

Marques,
Na verdade, levei dois meses pra escrever esse texto; e ele dar a impressão de ter sido escrito "no calor da emoção" é um belo elogio. Pra mim, o ponto tá claro: a moral tem uma genealogia, não uma teleologia. Não sei se vc leu as partes anteriores; acho q as pontas q parecem soltas tão ali.

Permafrost disse...

Listrado,
Tem três coisas q, acho, respondem tuas perguntas (excetuando a do PS).
1. Falando de instintos, moral, indivíduos, &c tamos falando de coisas *orgânicas*, de química orgânica (ie, de carbono). Já disse aqui q "os sistemas orgânicos são notórios por sua exuberância, variabilidade e interdependência"; porém, mais notório ainda é q tudo q é orgânico demora pra acontecer. Nada em biologia é instantâneo ou rápido. Mas qdo a gente nasce, pô, tá tudo pronto, o mundo em volta tá prontinho prä gente viver. Daí q, aos olhos do vulgo, o mundo parece, digamos, outorgado instantaneamente por uma instância superior, construído por algo mais complexo do q o indivíduo. Esse "algo mais complexo" pode muito bem ser o próprio processo evolutivo. Nesse sentido, a evolução é superior ao humano; ela é essa "instância superior", a complexidade boquiabrinte dos processos q nos trouxeram até aqui, compreensíveis por nós diagramaticamente apenas.

Não existe "padrão de cooperação esperado"; o q existe é um narcisismo de espécie: a tendência à continuar sendo o q se é. Dá pra visualizar isso assim: um carro viajando numa estrada tá sendo puxado pra frente por seu motor interno e pra baixo pela gravidade; toda vez q chega ao topo dum morro (na verdade, à todo momento) ele tem uma tendência à sair voando pela tangente horizontal. O narcisismo de espécie é a tendência à sair pela tangente apesar das forças ecológicas e evolutivas q prendem a evolução ao ambiente.

2. A moral tá circunscrita na vida, e esta tá circunscrita na química, e esta na física. Uma coisa comum ä física, ä química, ä vida e ä moral é a curva de Gauss. Neste universo, pelo menos, enquanto houver as leis da física, haverá a curva de Gauss. Se vc plotar o juízo moral dos comportamentos reais numa linha, digamos, entre "puramente egoísta" e "puramente altruísta", a maior parte deles vai cair mais perto do meião q das extremidades. A maior parte dos humanos não rouba bilionários mas tampouco sai por aí dando dinheiro de graça; não estupra menininhas mas tampouco se entrega à estupradores pra tentar impedi-los aplacando-lhes o desejo; não mata desconhecidos na rua mas tampouco dedica sua vida inteira à eles. Já falei da variabilidade dos sistemas orgânicos. Cada comportamento egoísta pouco seguido tem uma contrapartida altruísta tbm pouco seguida; do mesmo modo q 1% da humanidade é vil e torpe, há outro 1% q é santo e heróico. Mas tando a maior parte no meião, tá tudo bem. E se a maior parte tá no meião, essa é a parte vai *continuar* no meião, pq vai se reproduzir mais do q os extremos.

3. A moral tá inserida na vida, não o oposto; ela é uma característica da vida plúris orgânica. (Fosse a vida baseada não no carbono mas, digamos, no argônio, é possível q a moral seria diferente.) Note q, por mais q alardeie o oposto e construa fantásticas catedrais teológicas, nem mesmo o mais embirrado e ilustrado fanático religioso jamais diz uma única sílaba q não faça referência ä conduta humana, ao comércio entre humanos. Pelo fato de a moral tar circunscrita na vida, por ela servir ä vida, o juízo moral dum ato só precisa fazer referência ä vida; não há necessidade nenhuma dum padrão moral cósmico, mesmo pq ¿qual relevância humana teria um pad.mor.cós. se não fosse uma relevância prä vida?

Tendo tudo isso em vista, vc pode ver q a pergunta "¿por que o comportamento X é errado?" contém uma tautologia. Nada é certo ou errado exceto em referência ä vida. O "errado" é sempre algo q ativamente desestimula a vida (ou seja, o status corrente da espécie q considera X errado). Então, na verdade o q tá sendo perguntado é "¿por que [...]

Dálmata Listrado disse...

Li rápido e agradeço a longa e interessante resposta ao meu já comprido comentário. Lerei com calma depois para pensar melhor. Gostei particularmente do ponto 2, acho até que deveria fazer parte do texto principal. Abraço.

Arthur Golgo Lucas www.arthur.bio.br disse...

Plausível, vamos combinar o seguinte: concordamos com a tese básica, mas discordamos quanto a sua correta aplicação no tema "aborto". Nesta aplicação específica tu pisaste na bola com os dois pés. Reflexo de más companhias ideológicas, em especial na blogosfera, suponho eu...

Mas os fatos são: sim, a moral tem uma genealogia; não, a aplicação equivocada da tese a um exemplo específico não invalida o argumento (podemos discutir o tema do aborto segundo teu quadro conceitual depois, para não desviar o foco); e talvez haja um problema na questão do "sexo com menores" que valha a pena ser analisado mais profundamente por levantar uma lebre de colorido interessante.

E se ninguém, mas ninguém mesmo, souber do estupro, nem a menina de dez anos nunca tomar consciência do estupro, nem sofrer qualquer seqüela, ele continua "errado"? (Obviamente a pergunta é relativa aos parâmetros conceituais da tua tese, visto que dos pontos de vista cultural e legal a resposta é inequivocamente positiva.)

Permafrost disse...

Golgo,
Antes de tudo, só devo lembrar q, como demonstrado, a moral não tem q enfiar o bedelho em questões estritamente sexuais, q nada têm à ver com agressão.

No âmbito da vida dos diretamente envolvidos (ie, não pensando nas conseqüências evolutivas daqui à 100 mil anos, por exemplo*), só existe uma única objeção plausível ao q eu disse sobre o aborto, q é a seguinte:

Por direito, o dna do homem q fertilizou o óvulo pertence à esse homem e à mais ninguém em todo o universo – tal como um direito autoral infinito. Portanto, em tese, ele deveria ter o direito de negar e impedir a utilização da "informação" contida em seu dna pra qqer uso químico ou biológico – seja prä confecção de remédios e/ou venenos, seja pro desenvolvimento de produtos de qqer espécie, seja prä gestação de qqer ser q ele considere repulsivo a priori por qqer motivo. Em tese, ele poderia portanto forçar uma mulher à abortar compulsoriamente.

Mas... como essa última concessão transgride a autoridade soberana da mulher sobre seu próprio corpo, nem isso nem nada mais pode moralmente (ie, não-agressivamente) ser feito por terceiros pra abortar uma gestação, caso a mulher deseje mantê-la. Por essa mesma lógica, nada pode moralmente (ie, sem agressão) ser feito por terceiros pra MANTER uma gestação caso a mulher deseje abortá-la.

A moral só pode existir dentro de cada ser e determina como cada ser conduz à si mesmo. Mas cada moral de cada ser é ligeiramente diferente; a legislação só pega a média estatística e procura impô-la a todos. Essa imposição em si já é uma agressão e portanto é, estritamente, imoral.

Qdo uma militante anti-aborto tem o azar de querer catequizar o Dr Plausível, ele simplesmente retruca: "¿Vc é contra o aborto? Ora, tenha mais filhos, então. Qto mais filhos anti-aborto vc tiver, e qtos mais mulheres pró-escolha abortarem, tanto mais rápido virá o dia em q a população inteira do planeta será anti-aborto. Então. ¿Por que é q vc não tem mais filhos? Ah vai, só mais uns quatro. Abre a porteira aí, pô. Aaah, tá difícil, né? Mmm. Tudo tão caro, e filho dá taaanto trabalho, né?"

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http://drplausible.wordpress.com/2008/06/01/the-grown-up-abortion-debate-part-2/

André disse...

"Por direito, o dna do homem q fertilizou o óvulo pertence à esse homem e à mais ninguém em todo o universo – tal como um direito autoral infinito. Portanto, em tese, ele deveria ter o direito de negar e impedir a utilização da "informação" contida em seu dna pra qqer uso químico ou biológico"
Mas ele não abre mão desse direito autoral infinito quando, bem, faz sexo com uma mulher? Seria o mesmo que o dono do direito autoral de um livro publicá-lo, anunciá-lo, expô-lo nas lojas, e querer impedir os clientes de comprá-lo, não?

Assim, depois de pensar mto sobre o assunto aborto, eu acho que qualquer debate é inútil se não passar pela questão: quando um monte de células deve passar a ser considerado uma pessoa? No seu texto, claramente você não considera o feto uma pessoa. E se você, como os religiosos, considerar que o embrião já é uma pessoa? Você não acha que o direito à vida de uma pessoa é superior ao direito da soberania de alguém sobre seu próprio corpo? Claro que, se você não considera o embrião uma pessoa, essa hierarquia de direitos não é sequer tocada...

Permafrost disse...

André,
Não, não é plausível considerar um feto um ser humano, assim como não é plausível considerar uma larva uma abelha. O feto surge como ser humano no momento em q ele se torna biologicamente autônomo: qdo, fora da barriga, o cordão umbilical é cortado natural ou artificialmente. Antes disso, é parte integrante do corpo da mulher e ela pode dispôr como bem entender de seu corpo.

André disse...

Permafrost,

Mas essa definição é estranha. Em uma gravidez com 8 meses, o feto é praticamente o mesmo dentro ou fora da barriga. É apenas o fato de haver a ligação pelo cordão umbilical que torna o feto uma parte do corpo da mãe? Um aborto de uma gravidez aos 8 meses é plausível?

Se você disser q o que torna o feto um ser biologicamente autônomo for a capacidade de viver fora da barriga da mãe (ou seja, a potência de se cortar o cordão umbilical e o ser continuar vivo, e não o ato em si), aí fica mais estranho ainda, já que, com os avanços da medicina, fetos com pouco mais de 4 meses conseguem sobreviver fora do útero... Nesse caso, considerando-se a potência de se cortar o cordão umbilical, então deveríamos considerar que, a partir do momento em que potencialmente o feto sobreviveria fora do útero, ele é uma pessoa?

Desculpe enveredar por este tema num post que não trata disso, mas é o que mais me chamou a atenção.

Permafrost disse...

André,
Acho q a questão não pode girar em torno do q é possível conseguir com a tecnologia humana; a análise deve ser baseada no q acontece na natureza – ela já provê um momento absolutamente definidor do q é autônomo e do q não é: o nascimento. Não importa o q a ciência é capaz de fazer; as possibilidades da ciência não devem ser impostas sobre o indivíduo: essa imposição é uma agressão, e é portanto imoral.

Pracimademoá disse...

Por essa sua lógica - a questão não pode girar em torno do que é possível com a tecnologia humana - ninguém deve jamais receber atendimento médico, principalmente os idosos, pois a ausência de socorro ou tratamento médico é o que manda a natureza. A natureza prevê que o indivíduo morra sem misericórdia.

As possibilidades da ciência não devem ser impostas sobre o indivíduo, e a mulher é dona do seu próprio corpo. Ora, a mulher também é dona da própria casa, pode pôr os filhos para fora da casa quando bem entender, mesmo que sejam recém nascidos.

É isso mesmo?

Pracimademoá disse...

Comi bola e deixei de fazer uma observação muitíssimo pertinente. Talvez óbvia, mas confesso que eu mesmo não me dei conta dela:

Você diz que "a questão não pode girar em torno do que é possível com a tecnologia humana", mas a própria intervenção cirúrgica do aborto só é possível - e cria a questão do aborto - com a tecnologia humana.

Hum? Hum?!

Permafrost disse...

Demoá,
Deu linha cruzada ali, pois fiz uma elipse do contexto de cada frase, supondo q o André sabe quais pontos dele tou respondendo.

• A "questão" em questão naquela frase é sobre o quê é autonomia do indivíduo e de qdo ela começa.
• "Não importa o q a ciência é capaz de fazer" pra antecipar o momento em q uma gestação se torna um indivíduo minimamente autônomo.
• "As possibilidades da ciência não devem ser impostas sobre o indivíduo" contra sua vontade explícita.
• A mulher é dona da própria casa, mas moralmente NÃO deve pôr pra fora indivíduos biológicamente autônomos com cuja criação ela implícita ou explicitamente aceitou arcar. Mas não há imoralidade alguma em pôr pra fora de seu próprio corpo uma gestação, MESMO q antes ela tenha sido explicitamente aceita pela mulher.

Mas ¿por que essa fixação no aborto, gente? O ponto central dessa *pequena* parte da hipótese é q **a moral NÂO TEM jurisdição sobre os atos dum indivíduo autônomo sobre o próprio corpo**. Ou seja, essa não é uma questão sobre o aborto. Este é apenas UMA das aplicações da hipótese plausível da moral.

Eduardo disse...

Dr, eu acho que essa sua teoria toda tem alguns buracos.

Primeiro, desde quando os seres pluricelulares vives em guerra contra os únis? E as bactérias que vivem em harmonia conosco no nosso intestino? E os pobres lactobacilos, que os humanos tão desumanamente criam em cativeiro para fabricar iogurte e queijo? Esse pensameto foi meio simplista.

Ontem mesmo eu fui a um casamento, e fiquei pensando sobre a monogamia. Eu não sei bem se ela é natural ou não, como discutem. Costumam dizer que ela não é natural do ser humano e tals, mas eu acho que a putaria solta tb ñ é. O ser humano é um animal social, ou seja, em troca da comida e da proteção da sociedade, temos que nos sujeitar às suas regras, inclusive sexuais, para evitar a degeneração genética das futuras gerações. Mas isso não significa cooperação irrestrita. E a competição, tão importante para o pensamento de Darwin? Cada indivíduo tem de lutar por si, depois pela própria família, depois pelo próprio clã, aí vem a tribo e por aí vai. Como os machos, segundo Arthur Golgo costuma dizer em seu blog, são mais promíscuos e as fêmeas, mais seletivas, o casamento serve para prender a fêmea por meio da força daquela família e fazer com que mesmo aquele macho mais fraco e viadinho procrie. Pouco importa se o outro é mais forte e mais bem adaptado, a minha família é que tem de perdurar. A natureza não é consciente como um cientista de um laboratório de engenharia genética. Em nenhuma espécie animal, existe essa coisa de deixar para o outro. Por acaso um animal, depois de conseguir um alimento, resolve deixar p/ o outro "pq ele é melhor do que eu"? Não! Ele que consiga o próprio ou me mate p/ ter este! Pq deveriam, então, partilhar as mulheres?

Você só esqueceu a competição.

Observe tb que as restrições sexuais, tanto morais quanto religiosas, só valem para as mulheres, pois são elas que são responsáveis por gerar os novos indivíduos. Os árabes admitem a poligamia (masculina). A moral católico-cristã só estende essa restrição aos homens para, por meio da hipocrisia, perpetrar apenas os genes dos nobres e do clero, os que fazem as regras e castrar o povo dominado que, por coação, obedece. Os protestantes apenas continuaram a burrice por inocência, tadinhos.

Permafrost disse...

Duardo,
Sim, acho mesmo q a teoria plausível tem várias lacunas; mas são lacunas do tipo
123( )56( )89
e não do tipo
42*%( )2@9( )#^

Os plúris são aglomerados organizados de células mas, como vc disse, tbm arregimentam bactérias, bacilos e o baralho a buatro. Qdo falo duma guerra de plúris contra vírus e bactérias, imagino q não se deva interpretar *todas* as bactérias. Até talvez a gradativa plurização da vida envolva em si mesma a anexação ou escravização de vírus e bactérias. Não daria pra cobrir muito detalhe num blogue amadeu tal como este.

A idéia geral da hipótese plausível é q aquela coisa pronta q muita gente vê como o (inexplicado) resultado dum passe de mágica divina ou como um insondável mistério psico-social não deve na verdade ser mais do q a megascópica e complicadíssima complexificação dum fato relesmente básico da bioquímica: alguns tipos específicos de moléculas "colaboram" com outros tipos &c &c &c.

A competição entre indivíduos plúris da mesma espécie tá imiscuída na guerra contra os vírus, sim; mas a competição é pouco relevante na genealogia da moral. Esta é um paradigma afiliativo, não agonístico. Os dois tipos básicos de comportamento intra-espécie – agonístico e afiliativo (ie ~conflitivo e ~colaborativo) – não tão representados meio a meio no total das relações: há muitíssimos mais comportamentos afiliativos do q agonísticos; todo animal (e vc tbm) passa, sei lá, uns 98% do tempo, ou mais, colaborando com os outros da mesma espécie, ou no mínimo não atrapalhando os outros, contra uns 2% do tempo competindo com eles. Os 2% de competição são decisivos pros outros 98%, mas note q a moral diz respeito apenas aos 98. Claro q tua colaboração, digamos, com teus familiares, colegas e vizinhos pode ser entendida como uma competição contra os familiares, colegas e vizinhos de alguém equivalente a vc dum bairro vizinho, duma cidade próxima ou dum país distante – assim como um plâncton do Atlântico compete dalguma forma com um do Índico. E claro q, no caso humano, um dos principais passatempos da moral é tentar codificar a competição. Mas veja como os moralistas implausíveis fazem isso: tentando forçar (!) a transformação de comportamentos agonísticos em afiliativos, tentando subjugar (!) os agonísticos, sujeitá-los (!) a regras e padrões. Basta notar a alta incidência de palavras agonísticas no discurso monoteísta proselitista: poder, vitória, domínio, triunfo, senhor... A questão plausível sobre a contribuição é q, pra avançar moralmente, é contraproducente apelar pruma cosmologia agonística, pois essa mesma apelação por si só *já é* uma agressão.

Eduardo disse...

Desisto de tentar entender alguma teoria do Plausível. Ai, ai, está além das minhas capacidades. :(

Permafrost disse...

Duardo,
Desiste não. Acho q a principal base pra entender a hipótese plausível é enxergar q a moralidade não é um atributo especificamente humano, q os animais tbm têm moralidade. Se vc olhar präs questões puramente humanas (casamento, sociedade, moral religiosa &c) como apenas uma parte das questões animais, como parte da biologia, vc vai poder enxergar a perspectiva toda mais de longe e ver q a moral só pode ter uma evolução, uma genealogia, q começa lááááá nos cafundós da biogênese, qdo ainda só havia umas moléculas de carbono "colaborando" com outras.

Anonymous disse...

Eu ando bem ocupado, mas depois tecerei mais alguns comentários. Só passei para dar um "oi", porque a cabeça está fervendo. Entro de licença prêmio hoje para esfriar a cuca, mas terei a semana mais agitada do ano justamente a partir de hoje...

Rômulo disse...

Exatamente, é um tremendo de um elogio dizer q esse texto parece escrito no calor da hora, tendo saído assim - em minha opinião - tão claro e liso.

Gostaria de q o dr. esticasse o olho pra cá volta e meia, pois às dúvidas levantadas sempre se seguem novos esclarecimentos. Novos textos sobre o tema tbm seriam válidos.

Aproveito pra perguntar, Perma:
1) o Dr., ao q parece, concorda com a existência deste "tripé" colaboração, empatia e justiça. Não é uma redução? Ou, sendo, não é uma demasiada redução? Ou, poder-se-ia ir mais a fundo nesta redução?
Pareceu-me q talvez houvesse uma hierarquia entre col., emp., just., nessa ordem. Procede?

2)Dá pra colocar isto em uma frase?:
"A tradicional desértica é
[adão+eva]/serpente=moral
; a plausível tá mais pra
eva/serpente=[moral]+[adão|eva]."

3) Não é engraçado q, no fim, cheguemos à simples conclusão de q o todo é formado pelas partes (restando apenas saber como funcionam e interagem essas partes e em q medida contribuem na formação desse todo - seja esse "todo" isto ou aquilo, até mesmo... a moralidade)?

4) No q esta ideia do Dr. diverge, complementa ou coincide com Nietzsche e Dawkins, a respeito disso? (essa é uma pergunta abusiva, entendo, até pelo formato de seu texto, q escolheu, talvez, não fazer paralelismos dessa espécie - mas qdo vou ao clínico geral sempre faço uma perguntinha a mais...)

*Rômulo Arbo*

Permafrost disse...

Arbo,
Obrigado aê, hem. Pô...

Aqui vão as respostas:
1) Sim, é uma redução. Mas apenas no mesmo sentido em q dizer 'vida' ou 'matéria orgânica' reduz a estrompafúrdia complexidade interconectada dos filhotes do dna e do carbono.

Sim, a coisa pode ser vista como uma hierarquia – digamos uma hierarquia intra-iterativa, se é q dá pra entender.

2) A frase seria algo como "A hipótese da tradição abraâmica é: A relação entre [Adão e Eva] e [o Mal] originou a moralidade. A hipótese plausível tá mais pra: a relação da fêmea com o vírus originou a moralidade e a interdepedência entre macho e fêmea."

Claro, esse é um resumo deplorável. Mas a fórmula funciona pra visualizar as relação entre as duas hipóteses.

3) Cê vê só? E o grande empecilho é o pessola q não suporta a idéia de ser um composto de partes.

4) Acho q Nietzsche quis fazer uma "genealogia da moral" mas só conseguiu (e só conseguiria) fazer uma "pequena história analítica dos códigos morais germânicos - os últimos 3 mil anos". Qto ao Dawkins, acho q ele não se mete muito nessa discussão, não. Embora não aparente muito, ele tá mais ocupado em defender o saudável pragmatismo inglês contra as incursões das desmiolices fundamentalistas cristãs e muçulmanas. Lembro q a hipótese plausível tem pouco a ver com a teoria da evolução (o campo do Dawkins) e muito a ver com abiogênese, o Dawkins tampouco se mete muito nessa área.

Rômulo disse...

muito obrigado!
já o leio há alguns anos, e mais recentemente tenho distribuído links daqui, para os cercanos... me perguntam quem é, digo, o q é verdade, q há mto tempo cheguei a buscar, mas q passou a ser simplesmente o Dr., q pra mim é tão virtual qto o "lingüista e músico, algo assim", q é o q sobrou (lembrança talvez enganada) na memória, daquela curta busca...
mas agora, volta a curiosidade, principalmente para saber onde mais posso lê-lo (talvez algum livro?, alguma outra publicação?). Aceito pistas via links ;)
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No início dessa série, disse o Dr., "Não venham dizer q a moralidade é 'culturalmente determinada'"
Não é determinada pela cultura, mas, depois do princípio, a cultura não adere a esse processo (o da "evolução" da moralidade)? Ou a cultura é só e sempre conseqüência desse "código consciente e racional de proteção física e psicológica sistemática do indivíduo", patamar a q foi elevada a moralidade?
Ou ainda, a cultura, nesse ponto, só serve pra bagunçar tudo, tagarelar sobre "contos da carochinha"?

"A fala tornou o macaco refém 24hs da moralidade pq, como se diz, "as palavras têm conseqüências"

e me desculpe se são mto primárias minhas dúvidas, mas são essas...

Permafrost disse...

Arbo,
"[A moralidade] é determinada pela cultura, mas, depois do princípio, a cultura não adere a esse processo (o da "evolução" da moralidade)?"

Assim como existe uma genealogia da moral, tbm deve haver uma da cultura, q certamente remonta à milhões de anos atrás. Hoje em dia (quero dizer, nos últimos 50 mil anos), toda cultura humana inclue uma tentativa de racionalizar e codificar a vida em comum. Isso é conseqüência da racionabilidade do mundo, não da codificabilidade da moral.

Note q a elaboração duma codificação nunca é realizada igualmente por todos os membros duma cultura: toda codificação generalizada torna-se geral ou pq é mais ou menos imposta por poucos a muitos, ou pq os muitos são seduzidos por poucos a adotá-la. Os objetivos dos muitos são sempre gerados por poucos – e a imposição ou sedução logicamente cria distorções, pois o mundo é sempre MUITO mais variado e multifário do q é possível caber num punhado de objetivos e/ou regras.

Mas observe isto: a biologia abarca tudo, inclusive a cultura humana. Nenhuma cultura tem códigos q contradigam as diretrizes e necessidades da biologia (por exemplo, nenhum código determina q todos os meninos da comunidade sejam executados antes da puberdade), embora exista sim uma pulsão pra escapar dela (por exemplo, alguns códigos determinam q *alguns* meninos sejam). Pode parecer exagero dizer q nada existe além daquilo q a biologia permite e determina, mas é assim, sorry.

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Sobre a outra pergunta: não, só escrevo na internet. Vc pode ver meu outro blogue, o TripaForra, meus vídeos de música no YouTube e as resenhas na Copa de Literatura Brasileira. Sou pé-rapado e palpiteiro mesmo, e uso os blogues pra me desovar. Antes dos blogues, pouca gente notava q a imprensa comercial é uma idéia ridícula: pouco mais do q panelinhas de palpiteiros. A única vantagem da imprensa é sua portabilidade. Ops, agora nem isso.

Rômulo disse...

valeu, perma.
a moralidade, nos contornos rabiscados pelo texto, realmente fica restrita. essa restrição é q pode ser difícil de assimilar (reconheço q me é - sinto q assimilo, mas como se não descesse fácil)

[eu havia me segurado pra não perguntar, mas, já q se repetiu agora, explica essa tua opção pelo incluE aí]

outrascoisaseafins disse...

Olá,

Texto interessante. Obrigado pela dica (no Idelber)

A moralidade surge como um elemento necessário (ou auxiliador) da sobrevivência.

Mas ainda há algo de teleológico nisso, pois a sobrevivência aparece como um valor inquestionável e necessário. E a biologia aparece como um substituto da lei divina... 'nada existe sem que a biologia permita ou deseje'.

Talvez estejamos usando a palavra moralidade em sentidos diferentes, mas entendo a moralidade como um fenômeno exclusivamente humano, cultural, metabiológico, comunicacional. O estabelecimento de regras de convivência (que podem ser muito duras, excludentes, arbitrárias, ou podem ser mais democráticas).

Uma moralidade baseada em princípios metafísicos (deus, karma etc.) é necessariamete excludente, impositiva (pois "interpretada" pelos sábios e donos da tradição).
Com a morte de deus, a metafísica não deve mais ser o amparo da moralidade - seja ela uma metafísica divina ou biológica. Afinal, se é uma pulsão orgânica que origina determinada ação, ela não pode ser questionada, do mesmo modo que não se podia questionar deus. Saca?

E essa moralidade, que apenas troca javé por um processo de interação ente/meio, como justificativa para tudo não avança muito.

Peguemos o dimorfismo sexual, por exemplo. Uma moralidade baseada na "genealogia do dimorfismo sexual" pode considerar que a homossexualidade não contribui para a sobrevivência da comunidade, logo, a trata como uma "doença", um "desvio do que era biologicamente esperado/desejado".

Nesse sentido, enquanto não libertarmos, mesmo, a moralidade de origens que estejam supostamente além do próprio homem (seja deus, seja a natureza, ou a seleção natural, ou genealogias complexas que remontam a bilhões de anos e reduzem os dilemas morais do Zé a nada), estaremos presos a um mecanismo excludente e legitimador da dominação da maioria pela minoria (sejam os intérpretes de deus ou os intérpretes das evidências fósseis).

Abraços,

Paulo

Permafrost disse...

Paulo,
Vi q vc chegou aqui a partir dum linque q o Arbo colocou no blogue do Idelber, um linque pra apenas a última parte do argumento. Por um trecho de teu comentário, desconfio q vc ainda não leu as outras partes. Como demonstrei nelas, a moralidade NÃO É "o estabelecimento de regras de convivência"; não se deve confluir 'moralidade' e 'códigos morais' num só conceito, já q as duas coisas são bem diferentes e até (dependendo do histórico cultural) äs vezes opostas.

Só é possível ver teleologia na Hipótese Plausível da Moralidade (HPM) se vc achar q a humanidade deva ser entendida a partir dalgum sucedâneo de platonismo, totalmente esquecente do esboroamento das teleologias causado pelo advento da teoria Darwiniana e da compreensão evolutiva da vida. Simplesmente *não existe* teleologia na biologia –a menos q alguém banque o espertinho e use um truque de retórica pra qualificar, por exemplo, o impulso sexual ou a interação de moléculas como teleológicos ou como expressões pontuais duma teleologia universal (ainda indefinida). A teoria Darwiniana demonstra q o q há é exatamente o q há, sem nenhuma meta ulterior e principalmente sem nenhuma causa anterior além daquilo q se observa no presente.

Um outro problema em teu comentário é q, ao q parece, vc ainda não compreendeu (ou não aceita) o alcance da biologia nem a esbugalhante variabilidade do âmbito biológico. Vc mesmo pode comprovar q tudo, absolutamente tudo, q vc entende por "eu" (incluindo teus pensamentos mais platônicos) jamais teria existido nem jamais *poderia* existir em qqer universo se, por exemplo, o carbono não se associasse naturalmente ao oxigênio. Tua mera existência depende de, e é infinitamente definida por, diretamente de fatos tais como esse. Chamar essa compreensão de "teleologia" ou "metafísica" denuncia q VC é q tá procurando uma teleologia e uma metafísica. Imaginar q exista uma racionalidade possível q é independente de, mas se sobrepõe ao, mundo natural é ãã... platonismo, e carece tragicamente duma compreensão do q é, afinal, a racionalidade.

Derivado do problema acima é imaginar q isso q chamei de "a esbugalhante variabilidade do âmbito biológico" admite a possibilidade de q alguma coisa dentro desse âmbito possa ser qualificada de "desvio do que era biologicamente esperado/desejado". *Nada* dentro da biologia é biologicamente inesperado/indesejado; assim como nada dentro da física é fisicamente inesperado/indesejado. Ambos conceitos ('inesperado' e 'indesejado') são grilhões intelectuais da regularidade e da inércia de q falei na primeira parte da série. O q torna algo 'inesperado' é a cultura entendida como "cabedal de conhecimentos" e o q torna algo 'indesejado' é a cultura entendida como "padrões de comportamento"; mas a cultura (em ambas acepções) é um mero detalhe pontual e passageiro da biosfera.

Concluindo, a compreensão biológica da moralidade –diferentemente do q vc colocou– não despenca numa metafísica regulamentar, "excludente e impositiva". Note q até mesmo teu último parágrafo (em q vc vê a biologia na HPM como "um mecanismo excludente e legitimador da dominação da maioria pela minoria") tá embebido e imbuído num moralismo já previsto na própria HPM, pois é um moralismo almejante dum código q exclua como "errada" a regras "excludentes", ou seja, um código moral q exclua a priori o predador como "o mal", herdeiro abstrato do vírus.

Obrigado por teu comentário. Tava esperando alguém comentar algo assim preu dizer o acima. (Claro, não desconsiderei q vc pegou um blongue andando aqui.)

outrascoisaseafins disse...

Oi,

Primeiro, desculpe-me pela confusão entre quem me sugeriu a leitura e sua pessoa.

De fato, não dei a devida atenção à diferença que vc faz entre 'moralidade ' e ' códigos morais' – apesar de que eu já havia notado que pensávamos a partir de pontos divergentes e escrito em meu comentário que provavelmente eu e vc estamos chamando de 'moralidade' coisas diferentes. É, estávamos mesmo.

Mas vamos ver se eu entendi o conceito de moralidade que vc usa. Quando elementos de três conjuntos de comportamentos (cooperação, empatia e justiça) estão presentes, estamos diante de um 'comportamento moral' – moralidade. Temos códigos morais quando estes comportamentos são codificados e regras formais os organizam... por exemplo, o “caring” (como traduzo isso?) é codificado em regras formais de doação/dedução de impostos/etc. e/ou informais de prestígio/ganho político/etc. É isso?

Bem, sendo isso, de fato eu estava mais preocupado com o que você chama de códigos morais, pois estes são os únicos sobre os quais a ação humana tem algum poder de interferência. Afinal, (e nisso concordaremos) aquilo biologicamente determinado não pode (ou dificilmente pode) ser alterado.

Voltando à vaca fria, o que me incomoda mesmo são afirmações do tipo “negar a biologia como causa, motor e fonte de todo e qqer aspecto humano – de toda cultura, toda ideologia, todo costume” (parte 1).
É esse determinismo, essa consideração que há uma (uma única) fonte que sustenta todo o tronco, e que inevitavelmente acaba por legitimar códigos morais, que dá suporte a códigos rígidos. Afinal, vc saltou da “moralidade” para “códigos morais” quando põe 'ideologia, costume e cultura' na mesma genealogia. Esses são fatos que não ocorrem sem a biologia (claro, não posso ter ideologia se não estou vivo ou não tenho um cérebro capaz de processar a linguagem no nível humano), mas isso não significa que sejam fatos apenas biológicos ou biologicamente determinados. Uma coisa é a estrutura do prédio, outra a arquitetura que o caracteriza. As coisas se relacionam? Claro que sim, mas a estrutura abre (e ao mesmo tempo limita) as possibilidades da arquitetura, mas não a determina. Entende?

outrascoisaseafins disse...

Esse exercício de localizar a fonte de comportamentos morais numa genealogia biológica que remonta a bilhões de anos, na prática, não difere tanto assim de localizar essa fonte em instâncias metafísicas.

Até porque não temos condições de reconstituir com segurança o exato processo de evolução da vida em nosso planeta.

Outro incômodo é com a ideia de que “Se toda língua descende duma língua-tronco, se todo mamífero descende dum mamífero-tronco, se toda célula especializada descende duma célula-tronco, então todo comportamento cooperativo deve descender duma cooperação-tronco; toda empatia, duma empatia-tronco; todo senso de justiça, dum senso-de-justiça-tronco.”

Destaco que a afirmação começa com um “se”... e ainda não temos tanta segurança de que esses processos são tão lineares. E mesmo que línguas descendam de uma língua tronco, não há necessariamente uma relação disso com a necessidade de uma “justiça-tronco”. Além disso, a formação das línguas liga-se mais a um processo... digamos, matricial, que linear, até porque a relação entre significante e significado é muito/extremamente balizada por fatores externos à língua.

Se é pra estabelecer relações, também pode-se estabelecer que o processo matricial de formação da língua seja paralelo a um processo matricial de formação da justiça, porque não?

Vc falou de Platão algumas vezes de maneira crítica. O curioso é que sua busca por uma origem determinada para os comportamentos morais lembra-me muito a busca pelo Uno... Note-se que para Platão o Uno não era Jeová, mas os cristãos adotaram a ideia... parece que os biólogos também a adotaram, né?

Nesse caso, prefiro ignorar buscas metafísicas pelo Uno e lidar com as coias “como elas são”. Meu materialismo recomenda que eu aceite “q o q há é exatamente o q há, sem nenhuma meta ulterior e principalmente sem nenhuma causa anterior além daquilo q se observa no presente”, como vc muito bem descreveu essa consequência da teoria darwiniana.

Obrigado pela comentário e abraços ateus e materialistas,

Paulo

outrascoisaseafins disse...

P.S.: vc leu o 'A Criação Imperfeita', do Marcelo Gleiser?

Permafrost disse...

Paulo,
Acho q por um lado vc entendeu mais ou menos bem o assunto de q trata a HPM, mas por outro lado tá colocando a coisa em categorias em q ela não cabe. Por exemplo, a HPM não resulta duma busca, mas dum achado fortuito, praticamente impossível de refutar, pois é evidente em tudo q nos cerca: a tese propulsora da HPM é a de q todo sistema tem uma genealogia, q toda genealogia tem uma estrutura necessariamente arbórea (mesmo q só tenha um ramo), e q tá sujeita a não-linearidades e "imperfeições" –tanto as determinantes qto as irrelevantes.

Noto duas coisas em teus comentários:
1- Repito q há neles uma incompreensão do alcance –tanto vertical qto horizontal– da biologia; e (talvez!) uma incompreensão de alguns aspectos da teoria Darwiniana;
1.1- a biologia não institue padrões, eles apenas surgem naturalmente pq o mundo físico impõe limitações físicas; os padrões resultam dessas limitações, não da exuberância da biologia;
1.2- não existem "defeitos" biológicos: dentro da bioquímica, tudo tem seu lugar e sua utilidade;
1.2.1- portanto, a compreensão das "leis" biológicas de forma alguma institue ou poderá instituir leis humanas, e muito menos leis excludentes; pelo contrário, essa compreensão leva a uma aceitação de tudo (e *isso* é exatamente o q os humanos, como um grupo auto-promotivo, têm razões pra limitar).

2- Há o q considero uma incompreensão da origem e escopo da racionalidade. A racionalidade (pace Marcelo Gleiser, q não li) só pode existir pq o universo é regular; por sua vez, a regularidade precede e determina o humano; portanto nada do q é humano escapa da regularidade, MESMO aquilo q ele não entende e jamais entenderá. [Uma referência aqui são as quatro partes de "Alvos, Encaixes e Válvulas", neste blogue (junho-agosto 2008), q recomendo fortemente; pena q os comentários a esses textos ainda tão temporariamente indisponíveis.] Então afirmo q é inútil buscar –já q parece q é isso q vc tá buscando– uma teoria da moralidade ou até mesmo códigos morais q não sejam compreensíveis intrinsecamente a partir dessa regularidade, a partir do q é biologicamente *possível*. Note q 'regularidade' de maneira alguma implica em 'excludência', 'limitação' ou 'rigidez'; pelo contrário, a exuberância da regularidade física/biologia penetra em todos os nichos *possíveis*.

Claro q ainda não é factível confirmar a HPM. Talvez nunca seja; por isso chamei de 'hipótese'. Mas entre as várias hipóteses não-genealógicas (ie, filosóficas e religiosas) da moralidade, q a concebem como caída pronta do céu, e uma –até onde sei a única– hipótese genealógica q admite sua construção paulatina durante a formação da vida neste planeta, ué, fico com a segunda. Navalha de Occam, &c. A moralidade pode muito bem não ter se formado desse jeito q o doutor especulou; mas ela *com certeza* tem uma genealogia de milhões de anos, e esse é o ponto (q vc, como ateu, pode apreciar).

Permafrost disse...

continuando...
Tua metáfora da arquitetura é bastante apta pra demonstrar teu ponto... até vc ver duas coisas:
1. Qqer obra arquitetônica ou é previamente planejada, ou segue uma tradição, ao passo q a vida não tem nem um propósito nem um arquiteto; não tem uma teleologia. esta aparece unicamente ao nível da ontogenia: nenhuma filogenia tem um motivo absoluto pra tar ali.
2. Mesmo ignorando o ponto acima, é fácil ver q, não importa o q o arquiteto faça –quais as definições do projeto, qual seu estilo, &c– ele nunca vai escapar das leis da gravidade e das leis q regem os materiais; essas leis são absolutas. Portanto, o q "caracteriza" um prédio, qqer prédio, são em primeira e última instância essas leis. O q vc tá confundindo aqui é q vc tá me vendo falar dessas leis e tá chamando-as de "metafísica", de "teleologia", e teme q falar dessas leis desemboque num código moral restritivo. Mas aí é q tá a cruz da questão: assim como as leis da física são inescapáveis e pré-limitam e pré-determinam tudo q é possível fazer em arquitetura, tbm as leis biológicas (filhas da física) pré-limitam e pré-determinam tudo q é possível acontecer na vida. Em outras palavras, vc (e não tá sozinho) tá confundindo a imprevisibilidade do futuro com uma indeterminação das possibilidades: digo eu q, apesar do futuro ser imprevisível, as possibilidades já tão determinadas. Assim como a biologia permite uma exuberância, tbm a estética, os materiais e as tradições arquitetônicas permitem uma exuberância de estilos; mas não se pode confudir as coisas. Todos os construtos humanos são determinados por sua biologia. Se fôssemos baseados em magnésio em vez de carbono, toda a arquitetura, todos os construtos humanos seriam diferentes.

Tou muito ocupado e vou ficar dias sem aparecer aqui. Mas se vc responder a isto, depois continuo.

(só um PS: aquele parágrafo q começa com "se" é um recurso de estilo galicista; "se blablabla então blobloblo" quer dizer "quando vemos que blablabla é mais fácil perceber que blobloblo")

outrascoisaseafins disse...

Oi Dr, tudo bem?

Não tenho pressa numa resposta... aliás, nem preciso de uma pois já vi que vc entendeu o geral do meu ponto de vista e só quero esclarecer algumas coisas.

Eu entendo plenamente que '1.1- a biologia não institue padrões, eles apenas surgem naturalmente pq o mundo físico impõe limitações físicas; os padrões resultam dessas limitações, não da exuberância da biologia;”

Por consequência, entendo que “1.2- não existem "defeitos" biológicos: dentro da bioquímica, tudo tem seu lugar e sua utilidade;”

Assim, sei muito bem que “1.2.1- portanto, a compreensão das "leis" biológicas de forma alguma institue ou poderá instituir leis humanas, e muito menos leis excludentes”

Eu não disse que as leis biológicas criam regras excludentes, mas que leis excludentes podem buscar “leis biológicas” para se amparar... o problema não é a existência de leis biológicas (óbvio) mas o uso que se faz delas. Aliás, só há um probleminha em “leis biológicas” quando elas são hipóteses... e no caso de certos eventos de bilhões de anos atrás, eles devem continuar a ser hipóteses por muito, muito tempo... assim, amparar-se nessas hipóteses é um salto de fé.

Veja, você mesmo chama a atenção para o fato que “Claro q ainda não é factível confirmar a HPM. Talvez NUNCA seja” (grifo meu).

Percebe?

outrascoisaseafins disse...

O exemplo da arquitetura deve ser contextualizado ao que ele pretendia exemplificar... eu, obviamente, não sugeria um demiurgo. Meu arquiteto é o engenho humano, que utilizando-se de uma “infraestrutura” biológica, pode utilizar seu mais ou menos potencial – exemplo, podemos aprender a ler ou não. Claro que só podemos aprender a ler pq nosso cérebro tem uma capacidade de memória e sei lá mais o que. Mas podemos usar essa “infra” com uma arquitetura analfabeta sobre ela ou uma arquitetura letrada. É óbvio que não poderemos usar a telepatia, mas podemos inventar o telefone... sacou?
E pegando o exemplo da gravidade... o Niemeyer é tarado por vãos, por isso ele enlouquece o calculista e faz colunas larguíssimas para aguentar o peso. No fim, sai quase sempre uma arquitetura ruim, de rabisco modernista, mas sai... e se a manutenção for boa, a coisa toda vai demorar pra cair. A gravidade não vai ser revogada e haverá um limite para o tamanho dos vãos em concreto, mas ela não determina a arquitetura …
Bem, a não ser que eu e vc estejamos usando a palavra 'determina' com significados diferentes...

Vou pensar nisso...

valeu!

Rômulo disse...

[de fato fui eu q mandei o link - com q fico mto feito, por tudo q se passou acima - e, mandando a última parte, perma, supus q despertaria interesse para as partes iniciais. seria um ganho q o Paulo se juntasse aos comentaristas do dr.]

Parece mesmo q a palavra "determina" está sendo usada em dois sentidos. Talvez o Paulo esteja, neste debate, como numa fuga, agarrando-se em palavras como em cipós, dando a elas o q, me parece, pode trazer segurança: o "determinar" do Paulo está soando "determinar com vontade" ou pela vontade.
A mim me soa muito simples - ainda q depois de um caminho espinhoso, de volta - o dito pelo dr.
Se a preocupação agora cai sobre "códigos morais", é preciso considerar em q princípios esses códigos se escoram...
mas tudo q não é verdade teima em ser

outrascoisaseafins disse...

Oi Rômulo, valeu pelo link (mesmo tardiamente, um obrigado é um obrigado).

Minha definição de 'determinar' não inclui 'vontade'.

Entendo 'determinar' como "não tem outro jeito"/"só tem uma única forma".

E, parece-me, a natureza é mais plástica do que isso.

Além disso, não dá pra separar a 'moralidade' dos 'códigos morais' (não no mundo humano). A primeira implicará no segundo.

E penso como você, "é preciso considerar em q princípios esses códigos se escoram...". Um determinismo genealógico é equivalente a uma arbitrariedade metafísica...

Daí lembrar do Habermas (no comentário do Idelber), que propunha uma moralidade amparada na construção de consensos pelo diálogo. O princípio do diálogo permite uma construção mais sólida que qualquer princípio determinista.

Paulo

Permafrost disse...

Paulo,
"Além disso, não dá pra separar a 'moralidade' dos 'códigos morais' (não no mundo humano). A primeira implicará no segundo."

Pelo contrário. Pra existir, a moralidade não precisa ser codificada e funciona prefeitamente como conceito separado e independente. A moralidade codificada aparece apenas pq o humano é um ser racionalista; a codificação não é um traço inerente ä moralidade.

Um código moral é produto duma racionalização modular de fenômenos contínuos da moralidade –assim como uma escala musical é uma racionalização modular dum contínuo de freqüências, ou uma receita de bolo é uma rac.mod. dum contínuo de sabores, ou um vocabulário qqer é uma rac.mod. da realidade. Não é disso q trata a HPM.

A HPM se detém nos códigos morais apenas pra caçoar de sua tacanhez e paroquialismo. De fato, nenhum código moral jamais chegará à ser mais do q apenas uma racionalização expediente. Junte aos códigos morais as tentativas de codificar a plumagem humana, suas danças & rituais de acasalamento, e suas hierarquias de bicagem... e ¡pimba! surge uma religião.

Na HPM, a moralidade é entendida como um instinto moral comum à todos os animais. Por exemplo, ¿conhece aquele vídeo dos búfalos vs os leões & jacarés?

http://www.youtube.com/watch?v=tfc90eyzIMM

Pra explicar POR QUE a manada decidiu se juntar contra os leões –não COMO ela decidiu (q já é bem difícil de explicar), mas POR QUE– requer uma expansão da noção de moralidade, uma expansão q não tá prevista em nenhum código moral humano existente ou, acho, possível de ser criado por um humano.

Permafrost disse...

continuando...
Claro q conceber a civilização humana sem uma codificação moral é praticamente impossível. Mas acho q as futuras codificações vão ter q aprender com o q aconteceu com a rac.mod. depois do advento da digitalização e da pluralidade. Na música, por exemplo, não é preciso mais pensar em timbres como modulares (isto é um violino, isto é um trompete, &c). A digitalização permite q se utilize todo e qqer timbre sonoramente possível. Na gastronomia, a pluralidade traz, ao prato de cada um, milhões de novas misturas possíveis de sabores. Assim, a dig. e a plur. preenchem melhor os vazios deixados pela racionalização modular. É claro q a dig. e a plur. são apenas racionalizações com um grau de resolução maior. Mas, se é pra ter códigos morais, q sejam complexificados –não essa palhaçada à q tamos sujeitos hoje.

¿A expectativa do doutor? Zero.

90% do povão diariamente ouve música simplória e come arroz, feijão e mistura. É o q vende. Soa bem e é gostoso, sim. Mas só isso não dá.

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