09 julho 2006

Mais uma

Segue abaixo a tréplica oficial do Dr Plausível aos comentários dum leitor a um texto abaixo.

L: "A língua portuguesa continua belíssima nas mãos e nas bocas de quem a compreende e aprecia e usa com carinho, e saindo-se muito bem com todos os acontecimentos hodiernos, A NÃO SER QUE você esteja se referindo a vocabulário mais uma vez."
DrP: Sou meio monótono mesmo. Sempre estou falando apenas de vocabulário. Qdo falo em gramática, é apenas como um passo num argumento maior.

L: "A música também é um fenômeno, é forma de comunicação, e tem regras."
DrP: A música não é um fenômeno q sai, digamos assim, das entranhas do ser humano, tal como é a linguagem. A música já é em si uma codificação artificial pois ela tem propriedades físicas q antecedem e determinam suas propriedades semânticas. É vital q se pense nas artes como fundamentadas em regras tuteladas pois todas elas dependem de propriedades físicas dos materiais. Vc disse algures q "Objetivo é a essência pura do discurso e de toda tentativa de comunicação." No entanto, o objetivo primordial de todas as artes não é comunicar: é criar um efeito, o q é muito diferente. O efeito criado pode ter alguma propriedade comunicatória, mas esta é sempre secundária e eisegética. Assim, é uma falsa analogia, essa q vc fez entre o papel da conscientização das regras nas artes e na linguagem. Por um raciocínio análogo, vc pode inferir minha resposta sobre as regras nos esportes.

L: "QUER REGRAS assim mesmo."
DrP: "Querer regras" é como querer a gravidade: não é preciso querer a gravidade pra q ela exista: não é preciso querer regras gramaticais: elas já existem mesmo sem a tutelagem dos gramáticos: são um fenômeno natural decorrente do modus operandi do cérebro. ¿Q mais poderia ser? Já as regras inferidas e propositalmente impostas numa norma, têm dois inconvenientes principais: (1) elas só podem ser criadas a posteriori de fenômenos naturais; (2) basta q fiquem explícitas pra q já sejam burladas; e não são burladas porque o povo é do contra ("¿Hay reglas? Las burlaré."), e sim porque não poderia ser de outra maneira, já q as regras normatizantes pretendem padronizar um fenômeno anárquico. [Acabo de normatizar a seguinte regra inferida: toda palavra estrangeira deve ser grafada em itálico. Oh shit!: alguém já burlou.]

L: "O que você não consegue expressar com a gramática atual ...?"
DrP: Embora não haja a rigor muita coisa no estilo discursivo, paragráfico, redacional, raciocinante q não possa ser dito dentro dos limites da gramática normativa, há no uso normal e corriqueiro da língua infinitas situações em q o estilo normatizado se revela completamente inadequado, blargh e nojentinho. O Dr Plausível já deu alguns exemplos.

L: "O vocabulário caduca com rapidez, mas a gramática continua comportando tudo com perfeição."
DrP: Na verdade, as duas coisas acontecem: ítens de vocabulário surgem e caducam constantemente; mas os necessários, práticos e comuns têm vida longa. Há palavras no português q permanecem inalteradas desde o século 9 (qdo isso q chamamos de 'português' nem existia).

A objeção à gramática normativa (a Norma Culta, a NoCu) não é q ela não comporte tudo. Poderíamos igualmente utilizar o vocábulario do português com a ortografia cirílica e a gramática suahili, e as carências seriam as mesmas. Um dos problemas com a NoCu é q ela "comporta tudo" num estilo imposto, lento, cerebral, mumificante, pedante, pretencioso e muitas vezes arbitrário. O resultado de exigir correção gramatical e ortográfica é envergonhar e tolher qqer dinamismo na abrangência, uso e expansão do repertório de vocábulos e expressões. O português se tornou uma língua tacanha, amedrontada, sem referências, uma língua q meramente administra a comunicação.

Outro problema é aquele q já esbocei acima: q, em se tratando dum fenômeno tão plástico e multifário como é a linguagem, absolutamente qualquer regra inferida, "analisada, entendida, circunscrita e descrita num sistema engenhosamente abrangente" já caducou no momento exato em q é proferida. Toda normatização é aprés coup, e essa constatação não precisa de provas. Se tratássemos aqui das leis da física (q, lembro, subjazem às artes), seria outra história.

Se a norma gramatical "só sobra, na medida em que soçobra o nível intelectual e cultural dos usuários", é culpa apenas da própria norma: da própria idéia de norma. Alguém poderia igualmente, e ¡com absoluta justeza!, reclamar da deprimente queda no nível de envolvimento da população mundial em ritos de adoração aos antigos faraós, nos últimos três milênios. De fato, a 'norma faraônica' está em desuso. Mas, como a idéia de 'norma' é justamente q ela englobe e comporte tudo – ou seja, uma idéia totalitária, irrealista e estapafúrdia –, então, para um faraonista, a situação de hoje é uma tragédia lamentável.

Uma coisa q vc disse ("... a plebe rude e ignara ... só não convive pacificamente com a gramática porque não a entende. Pior, a grande maioria é incapaz de se aprofundar o bastante em qualquer assunto ...") é parcialmente verdade. No entanto, receitar a gramática normatizada pra essa gente é como dar um discman a um beduíno e esquecer de dar as pilhas e os cds pra ele tocar. ¿De q serve uma coisa sem a outra? A complexidade do q é dito por alguém é diretamente proporcional à complexidade de seu pensamento. E nem isso é completamente verdade: veja o caso dos retardados mentais com hidrocefalia e com síndrome de Beuren-Williams; mais preciso seria dizer q a complexidade do q é dito por um povo é diretamente proporcional à complexidade de sua cultura: as duas coisas andam juntas (não é plausível esperar q um garçom em Jequitibonga grite ao chapeiro: "Ó, Moscão, se vos agrada, fazei-me um tostex para este senhor que acaba de assentar-se ao pé do balcão!"). Só q a complexidade cultural não se fomenta através da educação, tal como vc parece preconizar, e sim através do caos livre e criativo, dos milhões e milhões de falantes querendo dizer alguma coisa, com o lebensraum pra inventar, derivar e associar o q bem entendessem. (Eu uso 'complexo' as opposed to complicado. Veja aqui) Mas o ensino de português chegou ao layout sem passar pelo brainstorm.

É perfeitamente correta tua interpretação de q eu aprovaria a abolição de toda imposição gramatical a fim de criar um lebensraum pro português; mas, tal como vc hipotesou, não é prum lebensraum gramático e sim vocabular. Pra mim o maior problema da NoCu é q ela intimida e acanha o falante, até mesmo o mais genial artesão das palavras q "vê-se legitimamente obrigado a subverter as convenções lingüísticas".

O q eu chamo de complexidade gramatical já existe no ãã 'centro gramatical do cérebro'. Ela não precisa ser inculcada de fora. Não importa muito se essa complexidade se manifesta através duma gramática normatizada ou dum caipirês ou de alguma linguagem matemática. O q importa é o vocabulário, ou seja, q o falante saiba distinguir uma coisa de outra coisa e de outra coisa, e dê um nome diferente pra cada uma das três. Pra efeito de comunicação, é irrelevante se a desinência concorda em gênero com o grau do adjetivo pronominal da oração subordinada em catacrese ao plural. (Como bem colocou o Stephen Pinker em "The Language Instinct", é perfeitamente inteligível a seqüência de palavras: Fósforo gasolina riscou bum!) O q quero é q o português se desenvolva a ponto de criar de suas entranhas idéias do nível de lebensraum, brainstorm, aprés coup, as opposed to, &c &c &c; e q complexifique sua cultura a ponto de criar objetos como o mouse, o mousse, o sudoku, &c &c &c. E digo e reafirmo q só se vai conseguir isso depois (muito depois) dessa gente bronzeada largar mão de dar atenção a esses nefastos gramáticos normativos e cagadores de regras ortográficas.

Mas ¡oh parto permanente! ¡oh prosa prepotente! Ilusão treda.

6 comentários:

Permafrost disse...

Ah, e obrigado por lebensraum.

Pracimademoá disse...

É, deu pra ver que você gostou. ;-)

Yours truly, Demoá, ocupado demais pelos próximos 2 ou 3 dias.

A Verdade Nua e Crua disse...

A verdade cansou de se esconder.
A verdade cansou de ser hipócrita.
A verdade resolveu se revelar agora, sem receios ou pudores.
Você está preparado para a verdade?

Permafrost disse...

Não.

Eu é que sei disse...

Matou a pau duplo.

Mas que porra é essa de lebestaum?

Permafrost disse...

leben= (live) =viver
raum = (room) =espaço

lebensraum = espaço vital

Só q 'espaço vital' não passa a idéia passada por 'lebensraum', q é 'espaço pra se desenvolver'. Portanto,

lebensraum = espaço pra se desenvolver

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