Nosso emulsificante doutor viu o debate promovido pelo Estadão sobre a blogosfera. Chama-se "Responsabilidade e Conteúdo Digital."
hahahaha
HAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Raras vezes ouviu tanta besteira junta.
Debatedor é um tipo de fazendeiro mineiro, não é? No fim do dia, senta na sala com a família e joga conversa fora até a hora da caminha.
(Ah... Tá bem. De vez em quando alguém fala algumas palavras sensatas.)
31 agosto 2007
29 agosto 2007
Houaiss x Oxford
Um caro leitor deste blogue pediu a nosso ecoante doutor q desse uma resposta final e definitiva à pergunta q não quer calar no peito de tantos amantes sopeados da língua portuguesa:
Afinal, ¿o português tem mais palavras q o inglês, ou o inglês tem mais palavras q o português?
Uma empreitada dessas requer uma certa pachorra. O doutor —q tem uma edição eletrônica do Houaiss— se dispôs a contar o número de verbetes total. Não é tão difícil. O Houaiss traz um buscador onde vc pode chamar todos os verbetes q, por exemplo, começam com P e terminam com A (ou seja, p*a). O resultado mostra também o número desses verbetes —q, no caso, são 3.711. Isso não quer dizer q todos esses 3.711 verbetes sejam palavras. Temos, por exemplo:
PA: sigla do estado do Pará
Pa: símbolo de protactínio
Também há verbetes q começam ou terminam com hífen (os sufixos, prefixos e elementos de composição), além de verbetes q terminam em ponto final (as siglas como F.O.B. e abreviaturas como loc. cit.).
Pois então. Fazendo a soma de todos os verbetes q começam com A, Á, Â, B, C ... .Z e terminam com A, Á, Ã, B, C ... Z, mais todos os prefixos &c, mais todas as siglas &c, o número total de verbetes do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa é...
186.252
Hm. Tirando os prefixos &c, as siglas, os símbolos e as abreviaturas, o número total de palavras ou locuções é
175.705
Hm.
O prefácio do Houaiss fala em 228.500 "unidades léxicas". A discrepância talvez se explique pelo fato de q uma mesma palavra pode ter mais de um significado. Se for esse o caso, o prefácio deveria ter falado em "unidades semânticas" e não "léxicas". Houaiss indeed.
O prefácio tbm indica q no Houaiss também tão incluídas muitas palavras usadas exclusivamente em Portugal, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique – por exemplo, as portuguesíssimas palavras djila, macuaiela, lunyaneka, e ocaviiúla.
Hm.
Mas como a pergunta q não quer calar é sobre o número de palavras e não de unidades semânticas, fiquemos com 175 mil.
Dessas, muitas são apenas variantes. Por exemplo, dentre os verbetes "p*a" temos, por exemplo:
pacata = pacatez
pachocha = pachoucho
páfia = empáfia
pagadoiro = pagadouro &c &c &c
Mas já q o Houaiss deve tbm ter "se esquecido" de muitas palavras (tipo 'bicicletaria', q não consta), digamos q o número total de palavras da língua portuguesa teja por volta de 175 mil mesmo.
Hm. Resta mais um "hm".
Agora vamos ao inglês.
O Oxford é um dicionário bastante conservador. Sua edição atual tem 20 volumes.
http://en.wikipedia.org/wiki/Oxford_English_Dictionary
http://www.oed.com/public/about
A maior parte do espaço desses 20 volumes é constituída de exemplos. O Oxford pega um pouco pesado nos exemplos (todos tirados de fontes externas), e esse é um dos motivos por quê digo q ele é conservador. Mas digamos q, tirando todos os exemplos, sobrem 5 volumes.
Hm.
A edição de 1989 define e/ou ilustra 615.100 palavras e locuções. Agora observe um fato revelador. O Oxford tem um conceito q eles chamam de "main entry" (verbete principal). Essas 615 mil palavras aparecem dentro de 301 mil main entries, assim como as 228 mil "unidades léxicas" do Houiass aparecem em suas 175 mil palavras.
Só que...
O Houaiss é feito nos moldes dos dicionários brasileiros: talvez pra inflar o tamanho (e certamente fazendo pouco caso da inteligência do usuário), cada palavra tem um verbete independente, inclusive todas as derivadas (exceto advérbios formados com -mente). Por exemplo, cada uma das palavras abaixo tem um verbete independente no Houaiss:
destrucionismo, destrucionista, destruição, destruído, destruidor, destruir, destruível, destrutibilidade, destrutível, destrutividade, destrutivismo, destrutivista, destrutivo, destrutor
Já o Oxford, utiliza a inteligência do usuário e coloca muitas dessas palavras dentro do mesmo main entry, como derivadas.
Outro exemplo. No Houaiss, temos estes 18 verbetes independentes:
fenil, fenila, fenilalanina, fenilalanínico, fenilamina, fenilanina, fenilbutazona, fenilcetonuria, fenilcetonúria, fenilcetonúrico, fenilefrina, fenilênico, fenileno, fenilenodiamina, fenilidrazina, fenil(o)-, fenilo, fenilpirúvico
HAHAHAHAHAHAHA
Já no Oxford, temos o verbete único phenyl, no qual tão incluídas as correspondentes inglesas de todas as palavras acima, mais uma caralhada de outras do mesmo grupo químico. Veja vc mesmo:
http://fds.oup.com/www.oup.co.uk/pdf/0-19-861186-2.pdf
Então é MUITO diferente o Houaiss ter 175 mil palavras e o Oxford ter 301 mil main entries, não é? O q o Houaiss faz é um tipo de ilusionismo.
Caso reste alguma dúvida sobre qual das duas línguas tem mais palavras, dê uma olhada nisto:
http://www.urbandictionary.com/
um dicionário colaborativo q, claro, não tem critérios tão rigorosos como os do Oxford. Muitos verbetes são gírias localíssimas, e muitos são apenas trocadilhos. Mas se algum ufanéscio, depois de dar uma olhada no Urban Dictionary, ainda falar da "riqueza" da língua portuguesa, vc pode levá-lo amarrado à filial mais próxima da Clínica Dr Plausível.
O português tem inúmeras qualidades. O número de palavras não é uma delas.
________________
Adendo:
No Brasil (mais: em toda a América Ibérica) todos reclamam do atraso, da ignorância, dos erros administrativos, da corrupção, da pobreza, da lentidão nos processos, da incompetência na execução, do desprimor nos resultados. Todo reclamante tá basicamente invocado com um enigma: "Entende-se o atraso na África, no Paquistão, até na China. Mas ¿por quê nós —logo nós, descendentes diretos da Europa— estamos assim?"
Todas aquelas moléstias têm múltiplas causas. Mas pro Dr Plausível, uma causa é comum a todas elas —a ferramenta-mor da sociedade: a língua.
Dizem —com razão— q o mau artesão reclama das ferramentas q tem; mas não dá pra construir um Porsche com as ferramentas e os processos q se usa pra construir um Corsa.
A América Latina é uma fábrica de Corsas q recebeu o encargo de produzir Porsches; claro, as máquinas não tão produzindo com a qualidade necessária. Numa fábrica, qdo uma máquina não funciona com precisão, pode ser pq não tá bem calibrada. Quem determina isso é o inspetor de qualidade. Chama-se então o ferramenteiro pra calibrar a máquina. Este usa instrumentos de medição, q tbm devem tar calibrados. Quem determina se eles tão calibrados é o metrologista.
Nosso excomungável doutor só (!) tá dizendo q o metrologista, o ferramenteiro, o inspetor de qualidade e o operador da máquina latino-americana atribuem a baixíssima qualidade de seus Porsches ao salário, às condições de trabalho, à incompetência da chefia, às dificuldades do projeto &c, qdo na verdade o problema é a máquina em si. Seria preciso trocar de máquina, assim como o Brasil precisaria trocar de língua —pois a língua portuguesa, left to its own devices e do jeito q é proposta pelo gramático-metrologista, jamais vai produzir o Porsche da sociedade justa, culta, complexa, competente, asseada e otimista q seus falantes almejam.
Ou então optar pelo caminho mais honrado porém mais difícil de mandar o projeto-Porsche às favas de onde veio e procurar descobrir pra quê serve afinal a língua portuguesa, qual universo cultural ela pode engendrar, qual organização social, ideológica e pragmática ela tá univocamente posicionada pra criar, desenvolver e exportar.
E contra isso tudo está a poderosa, estúpida e aviltante pressão ideológica e política exercida pelos gramáticos e lexicógrafos da NoCu.
¿A esperança do Dr Plausível? Zero.
Afinal, ¿o português tem mais palavras q o inglês, ou o inglês tem mais palavras q o português?
Uma empreitada dessas requer uma certa pachorra. O doutor —q tem uma edição eletrônica do Houaiss— se dispôs a contar o número de verbetes total. Não é tão difícil. O Houaiss traz um buscador onde vc pode chamar todos os verbetes q, por exemplo, começam com P e terminam com A (ou seja, p*a). O resultado mostra também o número desses verbetes —q, no caso, são 3.711. Isso não quer dizer q todos esses 3.711 verbetes sejam palavras. Temos, por exemplo:
PA: sigla do estado do Pará
Pa: símbolo de protactínio
Também há verbetes q começam ou terminam com hífen (os sufixos, prefixos e elementos de composição), além de verbetes q terminam em ponto final (as siglas como F.O.B. e abreviaturas como loc. cit.).
Pois então. Fazendo a soma de todos os verbetes q começam com A, Á, Â, B, C ... .Z e terminam com A, Á, Ã, B, C ... Z, mais todos os prefixos &c, mais todas as siglas &c, o número total de verbetes do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa é...
186.252
Hm. Tirando os prefixos &c, as siglas, os símbolos e as abreviaturas, o número total de palavras ou locuções é
175.705
Hm.
O prefácio do Houaiss fala em 228.500 "unidades léxicas". A discrepância talvez se explique pelo fato de q uma mesma palavra pode ter mais de um significado. Se for esse o caso, o prefácio deveria ter falado em "unidades semânticas" e não "léxicas". Houaiss indeed.
O prefácio tbm indica q no Houaiss também tão incluídas muitas palavras usadas exclusivamente em Portugal, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique – por exemplo, as portuguesíssimas palavras djila, macuaiela, lunyaneka, e ocaviiúla.
Hm.
Mas como a pergunta q não quer calar é sobre o número de palavras e não de unidades semânticas, fiquemos com 175 mil.
Dessas, muitas são apenas variantes. Por exemplo, dentre os verbetes "p*a" temos, por exemplo:
pacata = pacatez
pachocha = pachoucho
páfia = empáfia
pagadoiro = pagadouro &c &c &c
Mas já q o Houaiss deve tbm ter "se esquecido" de muitas palavras (tipo 'bicicletaria', q não consta), digamos q o número total de palavras da língua portuguesa teja por volta de 175 mil mesmo.
Hm. Resta mais um "hm".
Agora vamos ao inglês.
O Oxford é um dicionário bastante conservador. Sua edição atual tem 20 volumes.
http://en.wikipedia.org/wiki/Oxford_English_Dictionary
http://www.oed.com/public/about
A maior parte do espaço desses 20 volumes é constituída de exemplos. O Oxford pega um pouco pesado nos exemplos (todos tirados de fontes externas), e esse é um dos motivos por quê digo q ele é conservador. Mas digamos q, tirando todos os exemplos, sobrem 5 volumes.
Hm.
A edição de 1989 define e/ou ilustra 615.100 palavras e locuções. Agora observe um fato revelador. O Oxford tem um conceito q eles chamam de "main entry" (verbete principal). Essas 615 mil palavras aparecem dentro de 301 mil main entries, assim como as 228 mil "unidades léxicas" do Houiass aparecem em suas 175 mil palavras.
Só que...
O Houaiss é feito nos moldes dos dicionários brasileiros: talvez pra inflar o tamanho (e certamente fazendo pouco caso da inteligência do usuário), cada palavra tem um verbete independente, inclusive todas as derivadas (exceto advérbios formados com -mente). Por exemplo, cada uma das palavras abaixo tem um verbete independente no Houaiss:
destrucionismo, destrucionista, destruição, destruído, destruidor, destruir, destruível, destrutibilidade, destrutível, destrutividade, destrutivismo, destrutivista, destrutivo, destrutor
Já o Oxford, utiliza a inteligência do usuário e coloca muitas dessas palavras dentro do mesmo main entry, como derivadas.
Outro exemplo. No Houaiss, temos estes 18 verbetes independentes:
fenil, fenila, fenilalanina, fenilalanínico, fenilamina, fenilanina, fenilbutazona, fenilcetonuria, fenilcetonúria, fenilcetonúrico, fenilefrina, fenilênico, fenileno, fenilenodiamina, fenilidrazina, fenil(o)-, fenilo, fenilpirúvico
HAHAHAHAHAHAHA
Já no Oxford, temos o verbete único phenyl, no qual tão incluídas as correspondentes inglesas de todas as palavras acima, mais uma caralhada de outras do mesmo grupo químico. Veja vc mesmo:
http://fds.oup.com/www.oup.co.uk/pdf/0-19-861186-2.pdf
Então é MUITO diferente o Houaiss ter 175 mil palavras e o Oxford ter 301 mil main entries, não é? O q o Houaiss faz é um tipo de ilusionismo.
Caso reste alguma dúvida sobre qual das duas línguas tem mais palavras, dê uma olhada nisto:
http://www.urbandictionary.com/
um dicionário colaborativo q, claro, não tem critérios tão rigorosos como os do Oxford. Muitos verbetes são gírias localíssimas, e muitos são apenas trocadilhos. Mas se algum ufanéscio, depois de dar uma olhada no Urban Dictionary, ainda falar da "riqueza" da língua portuguesa, vc pode levá-lo amarrado à filial mais próxima da Clínica Dr Plausível.
O português tem inúmeras qualidades. O número de palavras não é uma delas.
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Adendo:
No Brasil (mais: em toda a América Ibérica) todos reclamam do atraso, da ignorância, dos erros administrativos, da corrupção, da pobreza, da lentidão nos processos, da incompetência na execução, do desprimor nos resultados. Todo reclamante tá basicamente invocado com um enigma: "Entende-se o atraso na África, no Paquistão, até na China. Mas ¿por quê nós —logo nós, descendentes diretos da Europa— estamos assim?"
Todas aquelas moléstias têm múltiplas causas. Mas pro Dr Plausível, uma causa é comum a todas elas —a ferramenta-mor da sociedade: a língua.
Dizem —com razão— q o mau artesão reclama das ferramentas q tem; mas não dá pra construir um Porsche com as ferramentas e os processos q se usa pra construir um Corsa.
A América Latina é uma fábrica de Corsas q recebeu o encargo de produzir Porsches; claro, as máquinas não tão produzindo com a qualidade necessária. Numa fábrica, qdo uma máquina não funciona com precisão, pode ser pq não tá bem calibrada. Quem determina isso é o inspetor de qualidade. Chama-se então o ferramenteiro pra calibrar a máquina. Este usa instrumentos de medição, q tbm devem tar calibrados. Quem determina se eles tão calibrados é o metrologista.
Nosso excomungável doutor só (!) tá dizendo q o metrologista, o ferramenteiro, o inspetor de qualidade e o operador da máquina latino-americana atribuem a baixíssima qualidade de seus Porsches ao salário, às condições de trabalho, à incompetência da chefia, às dificuldades do projeto &c, qdo na verdade o problema é a máquina em si. Seria preciso trocar de máquina, assim como o Brasil precisaria trocar de língua —pois a língua portuguesa, left to its own devices e do jeito q é proposta pelo gramático-metrologista, jamais vai produzir o Porsche da sociedade justa, culta, complexa, competente, asseada e otimista q seus falantes almejam.
Ou então optar pelo caminho mais honrado porém mais difícil de mandar o projeto-Porsche às favas de onde veio e procurar descobrir pra quê serve afinal a língua portuguesa, qual universo cultural ela pode engendrar, qual organização social, ideológica e pragmática ela tá univocamente posicionada pra criar, desenvolver e exportar.
E contra isso tudo está a poderosa, estúpida e aviltante pressão ideológica e política exercida pelos gramáticos e lexicógrafos da NoCu.
¿A esperança do Dr Plausível? Zero.
24 agosto 2007
Engulho de ser brasileiro
That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.
W Shakespeare
Uma ironia de ser latino-americano é q, por mais desenvolvidas q venham à se tornar estas plagas num futuro hipotético, parece q o amor-próprio, a valorização da cultura e da personalidade latino-americanas jamais se associarão ä tecnologia e à uma visão progressista. Que pena. Latino-americano sempre se sentirá consumidor ao invés de produtor de tecnologia.
¿Tá fazendo cara feia, leitor?
Pois então, olha aqui algumas das mais conceituadas marcas do mundo:
Bic, Boeing, Chevrolet, Citroën, Colgate, Ericsson, Ferrari, Firestone, Ford, Gerdau, Hewlett-Packard, Honda, Honeywell, Johnson's, Lamborghini, Lockheed, Mercedes-Benz, Olivetti, Opel, Peugeot, Philips, Pirelli, Porsche, Renault, Rolls-Royce, Siemens, Suzuki, Yamaha*
¿Notou uma coisa? São todos sobrenomes de seus fundadores.
Muito brasileiro, muito latino-americano, se diz orgulhoso de seu país ou amante de sua terra e sua língua. É natural. Mas ¿será plausível? A próxima vez q vc ouvir alguém dizer algo assim, deixa passar uns dois dias, aí leva o indivíduo prum cantinho calmo e pergunta:
¿Vc compraria um carro Gonçalves?
Apresentamos o novo Gonçalves Crioulo 300L, com injeção eletrônica.
¿Viajaria num avião Coutinho?
Conforto e segurança. Tecnologia e beleza. Coutinho 737.
¿Teria um televisor López?
Televisor López tela plana. Sua melhor imagem.
¿Usaria o creme dental Freitas?
Hálito puro, sorriso Freitas.
Ao ouvir essas sugestões na pesquisa feita pelo Instituto de Plausibilática, 97% dos respondentes deram risada, sugeriram outros produtos e eslôgãs ("Almeida, a marca do homem." "Venha para o mundo de Ipatinga." &c), e nem notaram o desserviço q prestaram ao próprio orgulho.
Seria de se perguntar se um Moreira, um Rodrigues ou um Sampaio alguma vez visualizou, com orgulho e total seriedade, um carro, um avião ou um televisor com seu nome. E caso não (o q é mais provável), ¿por quê não? ¿Por quê é q tecnologia com nome português ou espanhol parece piada?
Outra ironia é q um sobrenome é o nome duma família, e portanto duma linha genética. Toda vez q um Silva ou um Sánchez compra um creme dental Colgate pra fazer bonito com uma Costa ou uma Ramirez e com ela gerar filhinhos, ele tá automaticamente promovendo ao mesmo tempo o nome duma linha genética totalmente outra. Cada dente branco dele é uma chance à mais prum cromossomo Colgate.
Quando vem aqui um grupo de executivos, digamos, alemães da ThyssenKrupp (dois sobrenomes) pra checar si os nativos tão fazendo tudo direitinho [e vira aquela polvorosa na empresa: secretárias, engenheiros e executivos brasileiros suam frio pra falar alemão e, nas reuniões, fazem papel de colegial recitando tabuada na frente da classe], os visitantes –mesmo q não se chamem Thyssen ou Krupp– tão o tempo todo conscientes de q tão promovendo e defendendo os interesses duma firma alemã, ou seja, dum sobrenome alemão, ou seja, duma linha genética alemã com a qual compartilham ou os olhos azuis ou a pele branca ou o cabelo amarelo ou somente a língua.
E à vc, leitor amigo –q se lembra, por exemplo, dos Souza Cruz e dos Camargo Corrêa, &c e q, apesar de entender lá no íntimo a piada com o Gonçalves quatro-portas e o fio dental Freitas, atribue a graça ä sonoridade, ä estranheza, &c–, lembro q é bem diferente a reação de, digamos, um zeuaense ä idéia dum DVD de marca Smith e a dum brasileiro ä de um de marca Simões. O zeuaense ri da incompatibilidade mercadológica. O brasileiro ri da improbabilidade tecnológica.
¿Por quê?
______________________
*Como já vieram me dizer via email q nem todos aqueles nomes de empresas são sobrenomes, aqui vai a lista dos fundadores, separados por país e data de fundação das empresas:
Alemanha: 1811 Friedrich Krupp, 1847 Werner von Siemens, 1860 Friedrich Thyssen, 1863 Adam Opel, 1871 Karl Benz, 1931 Ferdinand Porsche; Brasil: 1901 Johann Kasper Gerdau; Euá: 1806 William Colgate, 1886 Robert & James Johnson, 1900 Harvey Firestone, 1903 Henry Ford, 1906 Mark Honeywell, 1911 Louis Chevrolet, 1912 Alan & Malcolm Loughead (Lockheed), 1916 William Boeing, 1939 William Hewlett & David Packard; França: 1882 Armand Peugeot, 1899 Louis & Marcel Renault, 1919 André Citroën, 1945 Marcel Bich (Bic); Holanda: 1891 Gerard Philips; Inglaterra: 1906 Charles Rolls & Frederick Royce; Itália: 1872 Giovanni Pirelli, 1908 Camillo Olivetti, 1929 Enzo Ferrari, 1963 Ferruccio Lamborghini; Japão: 1897 Torakusu Yamaha, 1909 Michio Suzuki, 1948 Sichiro Honda; Suécia: 1875 Lars Ericsson.
By any other name would smell as sweet.
W Shakespeare
Uma ironia de ser latino-americano é q, por mais desenvolvidas q venham à se tornar estas plagas num futuro hipotético, parece q o amor-próprio, a valorização da cultura e da personalidade latino-americanas jamais se associarão ä tecnologia e à uma visão progressista. Que pena. Latino-americano sempre se sentirá consumidor ao invés de produtor de tecnologia.
¿Tá fazendo cara feia, leitor?
Pois então, olha aqui algumas das mais conceituadas marcas do mundo:
Bic, Boeing, Chevrolet, Citroën, Colgate, Ericsson, Ferrari, Firestone, Ford, Gerdau, Hewlett-Packard, Honda, Honeywell, Johnson's, Lamborghini, Lockheed, Mercedes-Benz, Olivetti, Opel, Peugeot, Philips, Pirelli, Porsche, Renault, Rolls-Royce, Siemens, Suzuki, Yamaha*
¿Notou uma coisa? São todos sobrenomes de seus fundadores.
Muito brasileiro, muito latino-americano, se diz orgulhoso de seu país ou amante de sua terra e sua língua. É natural. Mas ¿será plausível? A próxima vez q vc ouvir alguém dizer algo assim, deixa passar uns dois dias, aí leva o indivíduo prum cantinho calmo e pergunta:
¿Vc compraria um carro Gonçalves?
Apresentamos o novo Gonçalves Crioulo 300L, com injeção eletrônica.
¿Viajaria num avião Coutinho?
Conforto e segurança. Tecnologia e beleza. Coutinho 737.
¿Teria um televisor López?
Televisor López tela plana. Sua melhor imagem.
¿Usaria o creme dental Freitas?
Hálito puro, sorriso Freitas.
Ao ouvir essas sugestões na pesquisa feita pelo Instituto de Plausibilática, 97% dos respondentes deram risada, sugeriram outros produtos e eslôgãs ("Almeida, a marca do homem." "Venha para o mundo de Ipatinga." &c), e nem notaram o desserviço q prestaram ao próprio orgulho.
Seria de se perguntar se um Moreira, um Rodrigues ou um Sampaio alguma vez visualizou, com orgulho e total seriedade, um carro, um avião ou um televisor com seu nome. E caso não (o q é mais provável), ¿por quê não? ¿Por quê é q tecnologia com nome português ou espanhol parece piada?
Outra ironia é q um sobrenome é o nome duma família, e portanto duma linha genética. Toda vez q um Silva ou um Sánchez compra um creme dental Colgate pra fazer bonito com uma Costa ou uma Ramirez e com ela gerar filhinhos, ele tá automaticamente promovendo ao mesmo tempo o nome duma linha genética totalmente outra. Cada dente branco dele é uma chance à mais prum cromossomo Colgate.
Quando vem aqui um grupo de executivos, digamos, alemães da ThyssenKrupp (dois sobrenomes) pra checar si os nativos tão fazendo tudo direitinho [e vira aquela polvorosa na empresa: secretárias, engenheiros e executivos brasileiros suam frio pra falar alemão e, nas reuniões, fazem papel de colegial recitando tabuada na frente da classe], os visitantes –mesmo q não se chamem Thyssen ou Krupp– tão o tempo todo conscientes de q tão promovendo e defendendo os interesses duma firma alemã, ou seja, dum sobrenome alemão, ou seja, duma linha genética alemã com a qual compartilham ou os olhos azuis ou a pele branca ou o cabelo amarelo ou somente a língua.
E à vc, leitor amigo –q se lembra, por exemplo, dos Souza Cruz e dos Camargo Corrêa, &c e q, apesar de entender lá no íntimo a piada com o Gonçalves quatro-portas e o fio dental Freitas, atribue a graça ä sonoridade, ä estranheza, &c–, lembro q é bem diferente a reação de, digamos, um zeuaense ä idéia dum DVD de marca Smith e a dum brasileiro ä de um de marca Simões. O zeuaense ri da incompatibilidade mercadológica. O brasileiro ri da improbabilidade tecnológica.
¿Por quê?
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*Como já vieram me dizer via email q nem todos aqueles nomes de empresas são sobrenomes, aqui vai a lista dos fundadores, separados por país e data de fundação das empresas:
Alemanha: 1811 Friedrich Krupp, 1847 Werner von Siemens, 1860 Friedrich Thyssen, 1863 Adam Opel, 1871 Karl Benz, 1931 Ferdinand Porsche; Brasil: 1901 Johann Kasper Gerdau; Euá: 1806 William Colgate, 1886 Robert & James Johnson, 1900 Harvey Firestone, 1903 Henry Ford, 1906 Mark Honeywell, 1911 Louis Chevrolet, 1912 Alan & Malcolm Loughead (Lockheed), 1916 William Boeing, 1939 William Hewlett & David Packard; França: 1882 Armand Peugeot, 1899 Louis & Marcel Renault, 1919 André Citroën, 1945 Marcel Bich (Bic); Holanda: 1891 Gerard Philips; Inglaterra: 1906 Charles Rolls & Frederick Royce; Itália: 1872 Giovanni Pirelli, 1908 Camillo Olivetti, 1929 Enzo Ferrari, 1963 Ferruccio Lamborghini; Japão: 1897 Torakusu Yamaha, 1909 Michio Suzuki, 1948 Sichiro Honda; Suécia: 1875 Lars Ericsson.
22 agosto 2007
O estado do direito
Antes de pensar em se propor a ter a intenção de falar alguma besteira pré-imputante contendo palavras tais como 'mensalão' ou 'petista', leia isto.
(E antes q alguém já saia correndo denunciar nosso equipado doutor à Liga das Senhoras Cansadas, lembro q [1] o linque fala apenas do processo penal: nada a ver especificamente com mensalão ou não mensalão; [2] o Brasil é um país vastíssimo com uma capital artificialmente instalada no meio do nada; [3] o Dr Plausível é totalmente apartidário: absolutamente todos os políticos deveriam estar na cadeia, junto com quase toda a população; [4] a justiça não é cega: só está vendada; [5] ainda bem q pelo menos está vendada: se não, não haveria hipocrisia.)
(E antes q alguém já saia correndo denunciar nosso equipado doutor à Liga das Senhoras Cansadas, lembro q [1] o linque fala apenas do processo penal: nada a ver especificamente com mensalão ou não mensalão; [2] o Brasil é um país vastíssimo com uma capital artificialmente instalada no meio do nada; [3] o Dr Plausível é totalmente apartidário: absolutamente todos os políticos deveriam estar na cadeia, junto com quase toda a população; [4] a justiça não é cega: só está vendada; [5] ainda bem q pelo menos está vendada: se não, não haveria hipocrisia.)
20 agosto 2007
a rephórma hortográphica
¡Não tou falando, catso? Além de haver gente q não pensa, tem gente-q-não-pensa ditando decretos.
E ¿não é q um bando de desocupados mentais resolveu porque resolveu q o português precisa de mais uma reforma ortográfica?
¿Vai acabar nunca, essa ladainha? HAHAHAHAHAHAHAHA
¡Ô miasarma!
Três anos atrás, nosso euforizante doutor já havia denunciado a pantafaçuda imbecilidade nessa mais-uma iniciativa de decretar quais letras e acentos o povãozão do Brasilzão DEVE usar. Ninguém deu ouvidos ao doutor (claro, ¿já viu funcionário público dar ouvidos?) e agora sai um decreto criando novas confusões, adicionando problemas e... lóóóógico... enchendo a bola do nicho dos incompetentes dicionários brasileiros, cujo principal diferencial não é a clareza nem a iluminância nem a pesquisa nem a abrangência nem o bom-senso (tirando poucos, como o da UNESP, do Francisco da Silva Borba), mas as palavrinhas soletradinhas de acordo com a última reforma ortográfica.
Sem falar na bizarrice das reformas. ¿Por que combas não se pode grafar 'óptimo' em Portugal e 'ótimo' no Brasil? ¿Causa alguma confusão entre essas culturas TÃO distintas, Dona Nhoca? ¿Será porque ninguém mais pronuncia o P de 'óptimo'? Se é assim, então ¿por q cargas d'água esses decretistas impunes não tiraram também "estorvos" comuns:
• o L de palavras como 'culpa' (todo mundo pronuncia 'cuupa')
• o E de palavras como 'desculpa' (todo mundo pronuncia 'tscupa') e de todas as palavras q comecem com o prefixo 'des'
• o I átono de palavras como 'lástima' (todo mundo pronuncia 'lastma')
e dezenas de outros?
¿Por q catralhos esse pessoal não deixa o povão escrever em sua própria língua o q bem entender do jeito q bem entender e assim estimular a inteligência do discurso e a percepção dos significados em vez de emburrecer ainda mais e limitar ainda mais a concentração do portuguesante naquilo q está escrevendo, e forçá-lo a prestar ainda mais atenção em como está escrevendo? Depois reclamam q brasileiro não sabe escrever. Claro q não, Pedro Bó. O brasileiro é alfabetizado numa ortografia aos 7 anos e depois aos 8 tem q aprender outra. Desse jeito, os professores q não sabem mais onde pôr acento vão achar mais fácil ganhar a vida pondo o assento em outro lugar... (haja visto, né, q 37%...)
HAHAHAHAHAHAHAHAHA
¡Ôô miasarma!
Alguém tem q deter esses decretistas, meu santo. Alguém tem q dar um BASTA. Já deu flor. O Dr Plausível gostaria imensamente q ao menos UM dos grandes jornais olhasse essas reformas de soslaio e simplesmente dissesse "NÃO! CHEGA. VAMOS DEIXAR COMO ESTÁ." ¿Q aconteceira? ¿O governo chiaria? ¿Mandariam a rádio-patrulha investigar? o exército invadir? o executivo cassar o alvará? ¿Q jerdas podem fazer esses decretistas de picuinhas contra quem simplesmente se recusa? NADA. ¿Então por q é q todos os bichinhos aceitam as coleirinhas, meudeusdocéu?
¡Ôôô miasarma!
¡Ôôôôô miasarma!
E ¿não é q um bando de desocupados mentais resolveu porque resolveu q o português precisa de mais uma reforma ortográfica?
¿Vai acabar nunca, essa ladainha? HAHAHAHAHAHAHAHA
¡Ô miasarma!
Três anos atrás, nosso euforizante doutor já havia denunciado a pantafaçuda imbecilidade nessa mais-uma iniciativa de decretar quais letras e acentos o povãozão do Brasilzão DEVE usar. Ninguém deu ouvidos ao doutor (claro, ¿já viu funcionário público dar ouvidos?) e agora sai um decreto criando novas confusões, adicionando problemas e... lóóóógico... enchendo a bola do nicho dos incompetentes dicionários brasileiros, cujo principal diferencial não é a clareza nem a iluminância nem a pesquisa nem a abrangência nem o bom-senso (tirando poucos, como o da UNESP, do Francisco da Silva Borba), mas as palavrinhas soletradinhas de acordo com a última reforma ortográfica.
Sem falar na bizarrice das reformas. ¿Por que combas não se pode grafar 'óptimo' em Portugal e 'ótimo' no Brasil? ¿Causa alguma confusão entre essas culturas TÃO distintas, Dona Nhoca? ¿Será porque ninguém mais pronuncia o P de 'óptimo'? Se é assim, então ¿por q cargas d'água esses decretistas impunes não tiraram também "estorvos" comuns:
• o L de palavras como 'culpa' (todo mundo pronuncia 'cuupa')
• o E de palavras como 'desculpa' (todo mundo pronuncia 'tscupa') e de todas as palavras q comecem com o prefixo 'des'
• o I átono de palavras como 'lástima' (todo mundo pronuncia 'lastma')
e dezenas de outros?
¿Por q catralhos esse pessoal não deixa o povão escrever em sua própria língua o q bem entender do jeito q bem entender e assim estimular a inteligência do discurso e a percepção dos significados em vez de emburrecer ainda mais e limitar ainda mais a concentração do portuguesante naquilo q está escrevendo, e forçá-lo a prestar ainda mais atenção em como está escrevendo? Depois reclamam q brasileiro não sabe escrever. Claro q não, Pedro Bó. O brasileiro é alfabetizado numa ortografia aos 7 anos e depois aos 8 tem q aprender outra. Desse jeito, os professores q não sabem mais onde pôr acento vão achar mais fácil ganhar a vida pondo o assento em outro lugar... (haja visto, né, q 37%...)
HAHAHAHAHAHAHAHAHA
¡Ôô miasarma!
Alguém tem q deter esses decretistas, meu santo. Alguém tem q dar um BASTA. Já deu flor. O Dr Plausível gostaria imensamente q ao menos UM dos grandes jornais olhasse essas reformas de soslaio e simplesmente dissesse "NÃO! CHEGA. VAMOS DEIXAR COMO ESTÁ." ¿Q aconteceira? ¿O governo chiaria? ¿Mandariam a rádio-patrulha investigar? o exército invadir? o executivo cassar o alvará? ¿Q jerdas podem fazer esses decretistas de picuinhas contra quem simplesmente se recusa? NADA. ¿Então por q é q todos os bichinhos aceitam as coleirinhas, meudeusdocéu?
¡Ôôô miasarma!
¡Ôôôôô miasarma!
19 agosto 2007
Chutebol, o esporte das multidões
¡Tou falando q tem gente q não pensa!
¿Viram esse bafafá sobre alguém q disse q futebol não é jogo pra gay?
Pois então. Uma revista paulista publicou hoje o resultado duma enquete perguntando quais profissões "podem" ser seguidas por homossexuais. Aqui as porcentagens de quem disse "sim" (atente aos negritos):
padre católico: 45%
pastor evangélico: 47%
militar: 69%
presidente da república:69%
juiz ou promotor: 72%
governador: 73%
prefeito: 73%
ministro: 72%
senador ou deputado federal: 77%
futebolista profissional: 79%
professor: 82%
Supõe-se, disso, q 37% dos respondentes (ie, 82 menos 45) acham q gay "pode" ser professor mas "não pode" ser padre. Ou seja, 37% têm uma opinião marcada por um moralismo baseado na religião: se Deus desaprova a gayzice, então gay não pode ser padre.
Mas... mas... ¿¡¿UÉÉÉ?!? Ser padre ¿não exige justamente q se renuncie dos impulsos da carne? E se Deus desaprova a gayzice, ser padre ¿não seria justamente a melhor opção pra quem tem impulsos carnais gayzais?
HAHAHAHAHA
E se o motivo é q "todos sabem" q não existe padre totalmente casto, q todo padre suja a hóstia de vez em qdo, então pra isso ¿é preferível ter padres héteros?
HAHAHAHAHAHAHA
E se o motivo pra "desaprovar" o homopadre é q ele pode se valer de sua posição pra corromper a molecada, então ¿é preferível q o gay seja ¡¿professor?!?
HAHAHAHAHAHAHA
E ¿não é ironiquérrimo q esses 37% parecem justamente ter prestado mais atenção às aulas de catecismo na igreja q às aulas de lógica na escola?
Nhééé...
Ôô, 37%, usa a cachola aê, vai, quebressegalho.
¿Viram esse bafafá sobre alguém q disse q futebol não é jogo pra gay?
Pois então. Uma revista paulista publicou hoje o resultado duma enquete perguntando quais profissões "podem" ser seguidas por homossexuais. Aqui as porcentagens de quem disse "sim" (atente aos negritos):
padre católico: 45%
pastor evangélico: 47%
militar: 69%
presidente da república:69%
juiz ou promotor: 72%
governador: 73%
prefeito: 73%
ministro: 72%
senador ou deputado federal: 77%
futebolista profissional: 79%
professor: 82%
Supõe-se, disso, q 37% dos respondentes (ie, 82 menos 45) acham q gay "pode" ser professor mas "não pode" ser padre. Ou seja, 37% têm uma opinião marcada por um moralismo baseado na religião: se Deus desaprova a gayzice, então gay não pode ser padre.
Mas... mas... ¿¡¿UÉÉÉ?!? Ser padre ¿não exige justamente q se renuncie dos impulsos da carne? E se Deus desaprova a gayzice, ser padre ¿não seria justamente a melhor opção pra quem tem impulsos carnais gayzais?
HAHAHAHAHA
E se o motivo é q "todos sabem" q não existe padre totalmente casto, q todo padre suja a hóstia de vez em qdo, então pra isso ¿é preferível ter padres héteros?
HAHAHAHAHAHAHA
E se o motivo pra "desaprovar" o homopadre é q ele pode se valer de sua posição pra corromper a molecada, então ¿é preferível q o gay seja ¡¿professor?!?
HAHAHAHAHAHAHA
E ¿não é ironiquérrimo q esses 37% parecem justamente ter prestado mais atenção às aulas de catecismo na igreja q às aulas de lógica na escola?
Nhééé...
Ôô, 37%, usa a cachola aê, vai, quebressegalho.
18 agosto 2007
05 agosto 2007
to beng or not to beng, zhat is zhe questiong
Nosso expedito doutor, concordando com um insigne leitor deste blogue, gargalha aos borbotões qdo alguém "prevê" q num futuro não muito distante, o chinês vai tomar o lugar do inglês, q tomou do francês, q tomou do latim, o papel de lingua franca internacional. ¿Sabe QUANDO isso vai acontecer? Nunca.
A moda de prever o declínio dos Euá ao mesmo tempo em q se "prevê" a ascensão da China é uma espécie de esporte jornalístico; vem da crença despistada de q o desenvolvimento econômico é uma conseqüência inescapável do crescimento populacional. Claro q não há desenveconô sem a produção incansável de bebês pobres. Mas é preciso mais do q um contingente crescente de pobres num país pra forçar executivos dum outro a aprender a língua do primeiro.
O chinês (tanto o mandarim quanto o cantonês, entre as oito línguas lá faladas) tem características q pouquíssimos ocidentais estariam a fim de aprender. É uma língua em q a entonação duma palavra é parte integrante de seu significado. É como se, em português, "dusa?" significasse 'perto', "dusa!" significasse 'pizza' e "duuusa?!" significasse 'metalinguagem'.
Esse simples fato tem conseqüências culturais e geopolíticas. Cito aqui apenas duas, dentre as várias q o Dr Plausível listou e demonstrou recentemente, no XII Congresso Exurbano de Geoplausibilática Funcional:
(1) Quando um chinês está fulo de raiva e quer dar uma bronca no filho porque não lavou os palitinhos antes de comer, ele não pode sair gritando, como qualquer ocidental, "SEU PORCÃO! VAI JÁ LAVAR OS PALITO!!", porque se ele gritar como um ocidental, sua entonação vai mudar, e portanto o significado do q ele diz também vai mudar. ¿Q faz, então? Em vez de berrar, ele tensiona o pescoço e engrossa a voz: "Seu porcão. Vai já lavar os palito." Alugue algum DVD de filme chinês e confirme. Assim, a música cantada chinesa tradicional não pode ter qualquer melodia com uma letra em cima: muda-se a melodia e muda o sentido. As canções chinesas tradicionais são indecifráveis aos ouvidos ocidentais. "¿Como é q alguém pode gostar disso?" é o q se pergunta qualquer brasileiro q escuta. O mundo é cheio de variedade, mas ¿sabe QUANDO a cultura chinesa vai pegar no ocidente?
(2) Uma cultura em q a expressão visceral dos sentimentos é codificada num padrão travado de entonações é o palco perfeito pra governos totalitários. ¡Não há nisso crítica alguma contra governos totalitários! O progresso chinês é a prova de q pode dar certo, e a cultura chinesa é provavelmente a q mais influenciou a história da civilização. Mas dentre os ocidentais – acostumados à exuberância de suas artes, idéias e berros –, pouquíssimos aceitariam a influência direta da China sobre seus gostos e palavras. Em 1999, o então presidente Clinton dos Euá tentou dar umas bronquinhas no primeiro ministro chinês visitante, Zhu Rongji, sobre infrações de direitos humanos na China, mas o Zhu deu-lhe um chega-pra-lá irrespondível, equivalente a "Calma lá, cara-pálida, q vocês ocidentais não sacaram ainda como as coisas funcionam lá." E, de fato, é outro mundo.
Apenas por esses dois motivos, é fácil ver q o chinês não é a "próxima" língua. A China deve ser recebida com raras honrarias ao clube dos países desinglesados, mas terá q praticar o maldito verbo to be e o present perfect como todo o mundo. ¿Tá pensando o quê?
A moda de prever o declínio dos Euá ao mesmo tempo em q se "prevê" a ascensão da China é uma espécie de esporte jornalístico; vem da crença despistada de q o desenvolvimento econômico é uma conseqüência inescapável do crescimento populacional. Claro q não há desenveconô sem a produção incansável de bebês pobres. Mas é preciso mais do q um contingente crescente de pobres num país pra forçar executivos dum outro a aprender a língua do primeiro.
O chinês (tanto o mandarim quanto o cantonês, entre as oito línguas lá faladas) tem características q pouquíssimos ocidentais estariam a fim de aprender. É uma língua em q a entonação duma palavra é parte integrante de seu significado. É como se, em português, "dusa?" significasse 'perto', "dusa!" significasse 'pizza' e "duuusa?!" significasse 'metalinguagem'.
Esse simples fato tem conseqüências culturais e geopolíticas. Cito aqui apenas duas, dentre as várias q o Dr Plausível listou e demonstrou recentemente, no XII Congresso Exurbano de Geoplausibilática Funcional:
(1) Quando um chinês está fulo de raiva e quer dar uma bronca no filho porque não lavou os palitinhos antes de comer, ele não pode sair gritando, como qualquer ocidental, "SEU PORCÃO! VAI JÁ LAVAR OS PALITO!!", porque se ele gritar como um ocidental, sua entonação vai mudar, e portanto o significado do q ele diz também vai mudar. ¿Q faz, então? Em vez de berrar, ele tensiona o pescoço e engrossa a voz: "Seu porcão. Vai já lavar os palito." Alugue algum DVD de filme chinês e confirme. Assim, a música cantada chinesa tradicional não pode ter qualquer melodia com uma letra em cima: muda-se a melodia e muda o sentido. As canções chinesas tradicionais são indecifráveis aos ouvidos ocidentais. "¿Como é q alguém pode gostar disso?" é o q se pergunta qualquer brasileiro q escuta. O mundo é cheio de variedade, mas ¿sabe QUANDO a cultura chinesa vai pegar no ocidente?
(2) Uma cultura em q a expressão visceral dos sentimentos é codificada num padrão travado de entonações é o palco perfeito pra governos totalitários. ¡Não há nisso crítica alguma contra governos totalitários! O progresso chinês é a prova de q pode dar certo, e a cultura chinesa é provavelmente a q mais influenciou a história da civilização. Mas dentre os ocidentais – acostumados à exuberância de suas artes, idéias e berros –, pouquíssimos aceitariam a influência direta da China sobre seus gostos e palavras. Em 1999, o então presidente Clinton dos Euá tentou dar umas bronquinhas no primeiro ministro chinês visitante, Zhu Rongji, sobre infrações de direitos humanos na China, mas o Zhu deu-lhe um chega-pra-lá irrespondível, equivalente a "Calma lá, cara-pálida, q vocês ocidentais não sacaram ainda como as coisas funcionam lá." E, de fato, é outro mundo.
Apenas por esses dois motivos, é fácil ver q o chinês não é a "próxima" língua. A China deve ser recebida com raras honrarias ao clube dos países desinglesados, mas terá q praticar o maldito verbo to be e o present perfect como todo o mundo. ¿Tá pensando o quê?
24 julho 2007
Perguntas bobas do doutor, #e41j
¿Por quê será q nenhum economista jamais definiu o lucro como um insulto?
21 junho 2007
bosta vejo
There is no cabbiment, minha gente. Dois meses depois de o Dr Plausível ter insuflado as massas populares com uma crítica certeira e feroz ao bustv, ¿q é q me aparece? : uma portaria da prefeitura de São Paulo dando a entender q tudo bem, q emerdar os ouvidos de passageiro de ônibus é legal.
Dá uma olhada:
[São Paulo, 15 de junho de 2007.]
Portaria n.º 79/07–SMT.GAB.
"Art. 5° Na área interna dos veículos será permitida a afixação de publicidade no vidro atrás do motorista (anteparo) e na parte superior das janelas (frechal ou sanca), bem como a utilização de dispositivos para transmissão de sons, imagens e dados, resguardando o espaço destinado à publicidade institucional e de caráter informativo."
E ¿aquele aviso em todos os ônibus: "é vedado o uso de aparelhos sonoros"?
Mas... Mas... Qual não foi minha surpresa ao ler o NOME do secretário municipal de transportes q assinou essa aleivosia: Frederico Bussinger.
Ah, não, peraí... ¡Dá um tempo, Ironyman! ¿¡¿Frederico Bussinger?!?
¿BUS SINGER?
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
A gente se ferra mas se diverte.
Dá uma olhada:
[São Paulo, 15 de junho de 2007.]
Portaria n.º 79/07–SMT.GAB.
"Art. 5° Na área interna dos veículos será permitida a afixação de publicidade no vidro atrás do motorista (anteparo) e na parte superior das janelas (frechal ou sanca), bem como a utilização de dispositivos para transmissão de sons, imagens e dados, resguardando o espaço destinado à publicidade institucional e de caráter informativo."
E ¿aquele aviso em todos os ônibus: "é vedado o uso de aparelhos sonoros"?
Mas... Mas... Qual não foi minha surpresa ao ler o NOME do secretário municipal de transportes q assinou essa aleivosia: Frederico Bussinger.
Ah, não, peraí... ¡Dá um tempo, Ironyman! ¿¡¿Frederico Bussinger?!?
¿BUS SINGER?
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
A gente se ferra mas se diverte.
17 junho 2007
A música das esperas
¿Lembra q recentemente nosso elogioso doutor soltou uma gargalhada num restaurante?
É q ele já tava de bom humor. O restaurante era o Carlota. E ele não tava de bom humor pela comida, não.
Conteceu assim. Depois duma espera de mais de hora e meia num ambiente à parte, entramos no salão principal. Logo ao entrar se nota q o lugar, cuja comida não é de se jogar fora, tem ãã... uma trilha sonora. Qdo fomos, tavam tocando BUM-BUM-BUMxcaBUM. Num lugar com comilões conversantes, só se ouve, claro, o BUM-BUM do bumbo e o TS-TSk-TS-kTS do ximbau. Só q ali... volume ALTÍSSIMO. Nada aconchegante. Digestivamente contraproducente, eu diria. Gastronomicamente ulcerante.
O doutor ficou se perguntando por q cargas d'água a gerência prefere transformar numa ante-sala de danceteria um ambiente onde se janta comida-q-não-é-de-se-jogar-fora a preço-de-olhos-da-cara. Ficou ali matutando até q decidiu perguntar a um garçom. Delicadamente, claro.
A resposta foi: "pra evitar q as pessoas ouçam a conversa das outras mesas".
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
¡¡There is no cabbiment, meu expensivo esperador!! ¿Quem será q inventou essa desculpa pra fingir q um lugar é descolado? Algum descolado, certamente.
Descolado da realidade.
É q ele já tava de bom humor. O restaurante era o Carlota. E ele não tava de bom humor pela comida, não.
Conteceu assim. Depois duma espera de mais de hora e meia num ambiente à parte, entramos no salão principal. Logo ao entrar se nota q o lugar, cuja comida não é de se jogar fora, tem ãã... uma trilha sonora. Qdo fomos, tavam tocando BUM-BUM-BUMxcaBUM. Num lugar com comilões conversantes, só se ouve, claro, o BUM-BUM do bumbo e o TS-TSk-TS-kTS do ximbau. Só q ali... volume ALTÍSSIMO. Nada aconchegante. Digestivamente contraproducente, eu diria. Gastronomicamente ulcerante.
O doutor ficou se perguntando por q cargas d'água a gerência prefere transformar numa ante-sala de danceteria um ambiente onde se janta comida-q-não-é-de-se-jogar-fora a preço-de-olhos-da-cara. Ficou ali matutando até q decidiu perguntar a um garçom. Delicadamente, claro.
A resposta foi: "pra evitar q as pessoas ouçam a conversa das outras mesas".
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
¡¡There is no cabbiment, meu expensivo esperador!! ¿Quem será q inventou essa desculpa pra fingir q um lugar é descolado? Algum descolado, certamente.
Descolado da realidade.
06 junho 2007
Origens lingüísticas do atraso brasileiro, parte 2
Tava lá nosso emblemático doutor escrevendo um artigo sobre a substantivação de adjetivos pro Cadernos de Plausibilática, e procurava sem sucesso como falar da qualidade de 'errado' (erritude? erridão? erratidão?) – e amaldiçoando o ouvido sensíííível de quem fala português –, qdo finalmente, após quase 50 anos de pesquisas, chegou ao centro da questão: ¿Por que é q os povos latinos produzem comparativamente menos idéias, menos filosofias, menos tecnologia e menos conhecimentos do q os povos germânicos? ¿Por que é q os latinos são povos mais afeitos a remanchar prazerosamente enquanto q os povos germânicos, pra chegar a tal refinamento, precisam beber?
A resposta está no ACENTO das palavras.
Tal como já é costume aqui, vou comparar o português ao inglês. Tome-se isso como uma comparação genérica entre as línguas latinas e as germânicas (exclua o francês, q é uma língua meio híbrida).
Olha só o q acontece com o acento das palavras na derivação, em português e em inglês.
Em inglês:
chAste > chAstity
rIght > rIghtness
fAt > fAtness
wrIte > wrIter
wOrld > wOrldwide
mOtor > mOtorist
Ugly > Ugliness
beaUty > beaUtiful > beaUtifully
sEnse > sensAtion > sensAtional
Em português:
cAsto > castidAde
cErto > certEza
escrIta > escritOr
gOrdo > gordUra
mUndo > mundiAl
motOr > motorIsta
fEio > feiÚra
bElo > belEza > belamEnte
sEnso > sensaçÃo > sensacionAl
¿Notou uma coisa? Ao derivar palavras em inglês, o acento continua caindo no radical da palavra, exceto no caso do sufixo latino -ation. Mas ao derivar palavras em português, o FOCO da palavra se desloca de seu radical pra seu sufixo, ou seja, de sua SEMÂNTICA pra sua GRAMÁTICA, ou seja, de seu SENTIDO profundo pra sua CLASSE gramatical. Uma outra vítima desse processo são os verbos e as conjugações. Enquanto q em inglês, o acento cai sempre no radical (sIng, sIngs, sAng, sInging, sUng), em português isso acontece apenas nos tempos simples (cAnto, cAntas, cAnta, cAntam, cAnte, cAntes, cAntem; mas cantAmos, cantAvam, cantarEi, cantarIas, cantÁramos, cantAsse, cantArmos, cantAndo, cantAdo, &c).
Essa diferença tem amplas conseqüências. Numa frase inglesa, a força das idéias geradoras é mantida a cada palavra derivada:
The tEacher wrOte some extrEmely Interesting descrIptions of his nAtive land.
O professOr escrevEu umas descriçÕes extrEmamEnte interessAntes de sua terra natAl.
Faça o teste vc mesmo. Diga em voz alta as palavras abaixo colocando o acento no radical, em vez de no sufixo. Compare com a sensação q vc tem qdo põe o acento no sufixo:
cAstidade, cErteza, escrItor, gOrdura, mUndial, mOtorista, bEleza, bElamente, sEnsação, sEnsacional, profEssor, escrEveu, descrIções, extrEmamente, intEressante, nAtal
¿Sentiu um deslocamento pro sentido profundo da palavra? ¿Não parece, de algum modo, q a palavra fica mais clara, menos difusa? Hm. Nas línguas latinas, vc tem a sensação de raramente estar falando das coisas, de raramente olhar pra elas de frente, de ficar rodeando os assuntos interminavelmente, de estar prestando atenção na forma muito mais do q o necessário. É por isso q as línguas latinas têm tanta dificuldade em criar palavras novas a partir das antigas, e ficam dando voltas e mais voltas em torno dum vocabulário q ainda não saiu do Iluminismo.
Não admira q o q é dito numa língua latina soe tão mais superficial do q o q é dito numa língua germânica, inclusive pra seus falantes; daí q, depois q a ciência de várias nacionalidades cuidou do básico no século XIX, o bojo de tudo q se pensou, se criou e se descobriu no mundo a partir do século XX tenha partido das línguas germânicas, q expressam idéias complexas com mais facilidade e clareza. O mundo latino é empurrado prà frente pela pujança, flexibilidade, praticidade e criatividade das línguas germânicas e pra isso, claro, paga royalties.
O futuro, ninguém sabe. É inteiramente possível q "remanchar prazerosamente" venha a ser a melhor maneira de viver, depois q os germânicos pensarem, criarem e descobrirem tudo q é possível pensar, criar e descobrir; e talvez aquele seja mesmo o objetivo de pensar, criar e descobrir – objetivo esse q os latinos já alcançaram sem muito falatório. Vá saber. O certo é q, por agora, é muito frustrante querer expressar uma idéia e se incomodar com o som q ela tem.
A resposta está no ACENTO das palavras.
Tal como já é costume aqui, vou comparar o português ao inglês. Tome-se isso como uma comparação genérica entre as línguas latinas e as germânicas (exclua o francês, q é uma língua meio híbrida).
Olha só o q acontece com o acento das palavras na derivação, em português e em inglês.
Em inglês:
chAste > chAstity
rIght > rIghtness
fAt > fAtness
wrIte > wrIter
wOrld > wOrldwide
mOtor > mOtorist
Ugly > Ugliness
beaUty > beaUtiful > beaUtifully
sEnse > sensAtion > sensAtional
Em português:
cAsto > castidAde
cErto > certEza
escrIta > escritOr
gOrdo > gordUra
mUndo > mundiAl
motOr > motorIsta
fEio > feiÚra
bElo > belEza > belamEnte
sEnso > sensaçÃo > sensacionAl
¿Notou uma coisa? Ao derivar palavras em inglês, o acento continua caindo no radical da palavra, exceto no caso do sufixo latino -ation. Mas ao derivar palavras em português, o FOCO da palavra se desloca de seu radical pra seu sufixo, ou seja, de sua SEMÂNTICA pra sua GRAMÁTICA, ou seja, de seu SENTIDO profundo pra sua CLASSE gramatical. Uma outra vítima desse processo são os verbos e as conjugações. Enquanto q em inglês, o acento cai sempre no radical (sIng, sIngs, sAng, sInging, sUng), em português isso acontece apenas nos tempos simples (cAnto, cAntas, cAnta, cAntam, cAnte, cAntes, cAntem; mas cantAmos, cantAvam, cantarEi, cantarIas, cantÁramos, cantAsse, cantArmos, cantAndo, cantAdo, &c).
Essa diferença tem amplas conseqüências. Numa frase inglesa, a força das idéias geradoras é mantida a cada palavra derivada:
The tEacher wrOte some extrEmely Interesting descrIptions of his nAtive land.
O professOr escrevEu umas descriçÕes extrEmamEnte interessAntes de sua terra natAl.
Faça o teste vc mesmo. Diga em voz alta as palavras abaixo colocando o acento no radical, em vez de no sufixo. Compare com a sensação q vc tem qdo põe o acento no sufixo:
cAstidade, cErteza, escrItor, gOrdura, mUndial, mOtorista, bEleza, bElamente, sEnsação, sEnsacional, profEssor, escrEveu, descrIções, extrEmamente, intEressante, nAtal
¿Sentiu um deslocamento pro sentido profundo da palavra? ¿Não parece, de algum modo, q a palavra fica mais clara, menos difusa? Hm. Nas línguas latinas, vc tem a sensação de raramente estar falando das coisas, de raramente olhar pra elas de frente, de ficar rodeando os assuntos interminavelmente, de estar prestando atenção na forma muito mais do q o necessário. É por isso q as línguas latinas têm tanta dificuldade em criar palavras novas a partir das antigas, e ficam dando voltas e mais voltas em torno dum vocabulário q ainda não saiu do Iluminismo.
Não admira q o q é dito numa língua latina soe tão mais superficial do q o q é dito numa língua germânica, inclusive pra seus falantes; daí q, depois q a ciência de várias nacionalidades cuidou do básico no século XIX, o bojo de tudo q se pensou, se criou e se descobriu no mundo a partir do século XX tenha partido das línguas germânicas, q expressam idéias complexas com mais facilidade e clareza. O mundo latino é empurrado prà frente pela pujança, flexibilidade, praticidade e criatividade das línguas germânicas e pra isso, claro, paga royalties.
O futuro, ninguém sabe. É inteiramente possível q "remanchar prazerosamente" venha a ser a melhor maneira de viver, depois q os germânicos pensarem, criarem e descobrirem tudo q é possível pensar, criar e descobrir; e talvez aquele seja mesmo o objetivo de pensar, criar e descobrir – objetivo esse q os latinos já alcançaram sem muito falatório. Vá saber. O certo é q, por agora, é muito frustrante querer expressar uma idéia e se incomodar com o som q ela tem.
23 maio 2007
o povo punido jamais terá partido
Engraçadíssimo é universitário gratuito. Faz 20 dias q a USP está em greve. Parece q é todo ano é a mesma coisa. Invadem a reitoria, cantam Apesar de Você, fazem assembléia...
Estávamos nosso estimado Dr Plausível e eu num restaurante qdo lhe contei q estudei na USP dééécadas atrás. Ele estava a ponto de garfar um bife. Por alguns segundos, sua mão parou no ar com o garfo apontando pra baixo e os olhos dele me fitando como se eu fosse um grão de pó no horizonte. E foi aí q gargantalhou em minha cara e animou o restaurante inteiro.
Fiz 7 anos de USP. Todo ano (todo ano) houve greve. A reitoria foi invadida 2 vezes (¿ou terão sido 3? já não lembro). Num dos anos, a greve se eXtendeu até janeiro do ano seguinte, e os professores tiveram q aprovar todos os alunos.
Jendia parece q a molecada classe média quer entrar prà universidade pra fazer de conta q está nos anos 60. A USP virou um parque temático. HAHAHAHA A reitoria agora deve ter uma ala reservada pra invasões, q fica sem uso o resto do ano. Os seguranças vão direcionando a turba enSandycida ("Por ali, por ali, por favor."), q entra numa área com um dj tocando muzak contra a ditadura ("Caminhando e cantando e seguindo a canção..." e depois "Apesar de você, amanhã há de ser...") e o pessoal se acomoda ali, esperando o lanchinho.
Pra se sentir nos anos 60, tem até estudantes (e isto é a pura verdade) q chamam o atual governo estadual de "ditadura"... ¡Um governador eleito!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Qdo confessei ao doutor q eu mesmo fui junto numa dessas invasões numa época em q ãã meu cinismo ainda não tinha aflorado e eu era, portanto, bem mais idiota do q sou agora, ¿vcs querem ter uma noção do tamanho da risada q ele deu?
HAHAHAHAHA
Q humilhação.
Estávamos nosso estimado Dr Plausível e eu num restaurante qdo lhe contei q estudei na USP dééécadas atrás. Ele estava a ponto de garfar um bife. Por alguns segundos, sua mão parou no ar com o garfo apontando pra baixo e os olhos dele me fitando como se eu fosse um grão de pó no horizonte. E foi aí q gargantalhou em minha cara e animou o restaurante inteiro.
Fiz 7 anos de USP. Todo ano (todo ano) houve greve. A reitoria foi invadida 2 vezes (¿ou terão sido 3? já não lembro). Num dos anos, a greve se eXtendeu até janeiro do ano seguinte, e os professores tiveram q aprovar todos os alunos.
Jendia parece q a molecada classe média quer entrar prà universidade pra fazer de conta q está nos anos 60. A USP virou um parque temático. HAHAHAHA A reitoria agora deve ter uma ala reservada pra invasões, q fica sem uso o resto do ano. Os seguranças vão direcionando a turba enSandycida ("Por ali, por ali, por favor."), q entra numa área com um dj tocando muzak contra a ditadura ("Caminhando e cantando e seguindo a canção..." e depois "Apesar de você, amanhã há de ser...") e o pessoal se acomoda ali, esperando o lanchinho.
Pra se sentir nos anos 60, tem até estudantes (e isto é a pura verdade) q chamam o atual governo estadual de "ditadura"... ¡Um governador eleito!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Qdo confessei ao doutor q eu mesmo fui junto numa dessas invasões numa época em q ãã meu cinismo ainda não tinha aflorado e eu era, portanto, bem mais idiota do q sou agora, ¿vcs querem ter uma noção do tamanho da risada q ele deu?
HAHAHAHAHA
Q humilhação.
09 maio 2007
P2a: Pessoas-que-acreditam-em-coisas [1/2]
Abaixo, um resumo da primeira parte da palestra do Dr Plausível sobre a onisciência divina e o livre arbítrio humano, proferida no Instituto de Plausibilática de Tallinn, ano passado.
« Alex Castro, autor do Liberal Libertário Libertino, publicou há meses um artigo sobre as "pessoas-que-acreditam-em-coisas", em q parodiou uma conversa típica entre ele e um crente q tenta inutilmente proselitizá-lo. O crente metafórico acredita em "elefantes roxos q flutuam" e, conseqüentemente, q "não se deve vestir camisetas brancas". Em dado momento, a pessoa-que-acredita-em-coisas acusa o autor: "Ao contrário do que vc pensa em tua imensa vaidade, tua mente está fechada a tudo q não se conforme a tua visão estreita de mundo."
« Hm.
« Sempre acho graça de pessoas-que-acreditam-em-coisas. A regra fundamental pra essas pessoas é:
1. acredite em coisas
2. acredite em coisas q não contradigam o q vc já acredita
3. não acredite em coisas em q gente estranha acredita
« É sobre o ítem 2 q quero falar. Os ítem 1 e 3 contêm apenas, digamos, reações viscerais/intuitivas à vastíssima complexidade do mundo. Compreensível, dada a capacidade humana de compreender q não compreende a escala das coisas.
« Mas o ítem 2 tem ali uma palavra relacionada com lógica ("contradigam") q pretende adicionar um elemento inteligível à visceragem/intuição.
« A impressão q dá é q toda religião grande é um amontoado de ingredientes saídos de vários cérebros diferentes, cada um tendo uma idéia independente da outra e tentando encaixar tudo numa mesma panela. Parece tbm aquela história em q umas beatas se encontram pra compor uma música pruma procissão, discutem, discutem e chegam num acordo: "Ói, cês vão pa casa e faiz a muzga, e nóis vão pa casa e faiz a letra." E aí depois qdo elas se encontram é "muita letra pra pouca música."
« Uma dessas incoerências é a crença, ao mesmo tempo, na onisciência divina e no livre arbítrio humano – um dos embaraços mais conhecidos de algumas religiões grandes, um embaraço pro qual todo teólogo tem uma resposta, mas q nenhum ainda conseguiu satisfazer, sacomé? Simplesmente não é possível, sem entortar o sentido das palavras, q a primeira e o segundo sejam verdade ao mesmo tempo. É como diz meu nobre colega, o Dr PACS: "Tem gente q acredita simultaneamente q ninguém sabe a fórmula da Coca-Cola, e q já se conhece o genoma humano. As duas coisas simplesmente não podem ser verdade ao mesmo tempo." HAHAHAHAHAHAHA
« Reconheço os esforços dos trocentos teólogos do passado longínquo e próximo e do presente q tentaram e tentam criar teorias pra conciliar as duas idéias; mas a lógica resiste. A saída mais simples do dilema, reconhecida e usada na hora do aperto, é dizer, "Pô, foi Deus q criou a lógica, a justiça e a hermenêutica; então a vontade divina criou até a racionalidade q é INcapaz de entender."
« ¿¡¿Uééé?!?
« Mas então... ¿não era pra entender? »
continua...
« Alex Castro, autor do Liberal Libertário Libertino, publicou há meses um artigo sobre as "pessoas-que-acreditam-em-coisas", em q parodiou uma conversa típica entre ele e um crente q tenta inutilmente proselitizá-lo. O crente metafórico acredita em "elefantes roxos q flutuam" e, conseqüentemente, q "não se deve vestir camisetas brancas". Em dado momento, a pessoa-que-acredita-em-coisas acusa o autor: "Ao contrário do que vc pensa em tua imensa vaidade, tua mente está fechada a tudo q não se conforme a tua visão estreita de mundo."
« Hm.
« Sempre acho graça de pessoas-que-acreditam-em-coisas. A regra fundamental pra essas pessoas é:
1. acredite em coisas
2. acredite em coisas q não contradigam o q vc já acredita
3. não acredite em coisas em q gente estranha acredita
« É sobre o ítem 2 q quero falar. Os ítem 1 e 3 contêm apenas, digamos, reações viscerais/intuitivas à vastíssima complexidade do mundo. Compreensível, dada a capacidade humana de compreender q não compreende a escala das coisas.
« Mas o ítem 2 tem ali uma palavra relacionada com lógica ("contradigam") q pretende adicionar um elemento inteligível à visceragem/intuição.
« A impressão q dá é q toda religião grande é um amontoado de ingredientes saídos de vários cérebros diferentes, cada um tendo uma idéia independente da outra e tentando encaixar tudo numa mesma panela. Parece tbm aquela história em q umas beatas se encontram pra compor uma música pruma procissão, discutem, discutem e chegam num acordo: "Ói, cês vão pa casa e faiz a muzga, e nóis vão pa casa e faiz a letra." E aí depois qdo elas se encontram é "muita letra pra pouca música."
« Uma dessas incoerências é a crença, ao mesmo tempo, na onisciência divina e no livre arbítrio humano – um dos embaraços mais conhecidos de algumas religiões grandes, um embaraço pro qual todo teólogo tem uma resposta, mas q nenhum ainda conseguiu satisfazer, sacomé? Simplesmente não é possível, sem entortar o sentido das palavras, q a primeira e o segundo sejam verdade ao mesmo tempo. É como diz meu nobre colega, o Dr PACS: "Tem gente q acredita simultaneamente q ninguém sabe a fórmula da Coca-Cola, e q já se conhece o genoma humano. As duas coisas simplesmente não podem ser verdade ao mesmo tempo." HAHAHAHAHAHAHA
« Reconheço os esforços dos trocentos teólogos do passado longínquo e próximo e do presente q tentaram e tentam criar teorias pra conciliar as duas idéias; mas a lógica resiste. A saída mais simples do dilema, reconhecida e usada na hora do aperto, é dizer, "Pô, foi Deus q criou a lógica, a justiça e a hermenêutica; então a vontade divina criou até a racionalidade q é INcapaz de entender."
« ¿¡¿Uééé?!?
« Mas então... ¿não era pra entender? »
continua...
14 abril 2007
O pior anúncio do mundo
Marqueteiro e marcheteiro têm algumas coisas em comum. Ambos gostam de coisas encaixadinhas e ambos adoram ficar martelando. Se uma coisa teima em não se encaixar, nada q uma marretada não resolva.
Dez anos atrás, às 8h duma manhã cinza de inverno, a população inteira dum ônibus urbano lotado teve uma oportunidade única de conhecer a gargalhada de nosso eutrófico doutor.
Algum tonho de alguma firmeca de marketing muito provavelmente havia pensado assim:
"Hm. Xovê. ¿Onde é q tem gente tão encaixadinha q não teria escolha exceto ser martelado com as ãã informações publicitárias dum anunciante? Hm. Caixa, caixa... Martelo, martelo... ¡Ah, já sei! Um ônibus lotado!"
E pensando nos passageiros acotovelados e indefesos, criou a sórdida idéia de emporcalhar-lhes os ouvidos com as "informações" de quem quer q pagasse uns trocados. Daí nasceu o radinho com programação ãã customizada pra tocar em linhas de ônibus de São Paulo, "the city that never shuts up" [© Bel Seslaf].
Mas voltando àquela manhã dez anos atrás. O doutor já estava de saco cheio, obrigado a ouvir músicas cretinas qdo queria ler seu livrinho, mesmo apinhado e de pé (as Clínicas Dr Plausível nunca deram dinheiro), qdo um anúncio simplesmente o PIOR anúncio de todos os tempos provocou-lhe uma risada tão contagiante q o ônibus todo ficou sem ar. (Imagine dezenas de pessoas ensardinhadas rindo ao mesmo tempo. É uma operação q exigiria planejamento e coreografia.) Era o anúncio dum curso de informática, e começava assim:
"Você aí que agora está olhando pela janela deste ônibus, ¿não seria muito melhor estar olhando na tela dum computador?"
QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA
¿Em qual nádega esse pessoal tem a cabeça, meu santo?
Tá bom, tá bom. Não é o pior anúncio do mundo, mas o ponto final tá perto.
O radinho parou depois de alguns meses, certamente devido às reclamações de passageiros. (E, sem dúvida, muitas reclamações de parentes e amigos dos motoristas e cobradores q eram obrigados a ouvir a mesma ladainha 8 horas por dia, dia após dia.)
Mas recentemente, algum outro tonho achou por bem renovar a idéia dum jeito mais hi-tech. Algumas linhas de ônibus trazem agora duas telas de tv... com SOM... Em São Paulo, uma firma responsável por esse torpe desrespeito ao cidadão, essa nauseante invasão do espaço privado, esse asqueroso abuso da imobilidade do passageiro chama-se BUS TV. Dê uma vista d'olhos no site www.bustv.com.br pra ver a intensa mediocridade e o sebento cinismo do pensamento marqueteiro. Agora o passageiro não precisa mais olhar pela janela pra ver como a vida moderna é uma bosta. Olha a telinha, e a bosta vê. E dá-lhe muzak, anúncios de Nescau, Casas Pernambucanas e McDonald's, além de dicas de culinária e de segurança, clipinhos de grupinhos de rapazinhos limpinhos cantando regginhos, previsão do tempo e programação cultural. Um cocô total.
¡Q vergonha, hein, Nescau?
¿Será q o "apoio integral de instituições públicas e governamentais" (nas palavras do site deles) inclue a otherwise elogiosa proibição de cartazes publicitários ao longo das ruas onde transitam os ônibus? Paranóia, né? Mas se a prefeitura proíbe um cartaz q só está ali enfeiando a paisagem, ¿por que é q não proíbe a vileza insidiosa e ofensiva de amarrar o povaréu à frente duma telinha e emerdar-lhe o cérebro?
Dez anos atrás, às 8h duma manhã cinza de inverno, a população inteira dum ônibus urbano lotado teve uma oportunidade única de conhecer a gargalhada de nosso eutrófico doutor.
Algum tonho de alguma firmeca de marketing muito provavelmente havia pensado assim:
"Hm. Xovê. ¿Onde é q tem gente tão encaixadinha q não teria escolha exceto ser martelado com as ãã informações publicitárias dum anunciante? Hm. Caixa, caixa... Martelo, martelo... ¡Ah, já sei! Um ônibus lotado!"
E pensando nos passageiros acotovelados e indefesos, criou a sórdida idéia de emporcalhar-lhes os ouvidos com as "informações" de quem quer q pagasse uns trocados. Daí nasceu o radinho com programação ãã customizada pra tocar em linhas de ônibus de São Paulo, "the city that never shuts up" [© Bel Seslaf].
Mas voltando àquela manhã dez anos atrás. O doutor já estava de saco cheio, obrigado a ouvir músicas cretinas qdo queria ler seu livrinho, mesmo apinhado e de pé (as Clínicas Dr Plausível nunca deram dinheiro), qdo um anúncio simplesmente o PIOR anúncio de todos os tempos provocou-lhe uma risada tão contagiante q o ônibus todo ficou sem ar. (Imagine dezenas de pessoas ensardinhadas rindo ao mesmo tempo. É uma operação q exigiria planejamento e coreografia.) Era o anúncio dum curso de informática, e começava assim:
"Você aí que agora está olhando pela janela deste ônibus, ¿não seria muito melhor estar olhando na tela dum computador?"
QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA
¿Em qual nádega esse pessoal tem a cabeça, meu santo?
Tá bom, tá bom. Não é o pior anúncio do mundo, mas o ponto final tá perto.
O radinho parou depois de alguns meses, certamente devido às reclamações de passageiros. (E, sem dúvida, muitas reclamações de parentes e amigos dos motoristas e cobradores q eram obrigados a ouvir a mesma ladainha 8 horas por dia, dia após dia.)
Mas recentemente, algum outro tonho achou por bem renovar a idéia dum jeito mais hi-tech. Algumas linhas de ônibus trazem agora duas telas de tv... com SOM... Em São Paulo, uma firma responsável por esse torpe desrespeito ao cidadão, essa nauseante invasão do espaço privado, esse asqueroso abuso da imobilidade do passageiro chama-se BUS TV. Dê uma vista d'olhos no site www.bustv.com.br pra ver a intensa mediocridade e o sebento cinismo do pensamento marqueteiro. Agora o passageiro não precisa mais olhar pela janela pra ver como a vida moderna é uma bosta. Olha a telinha, e a bosta vê. E dá-lhe muzak, anúncios de Nescau, Casas Pernambucanas e McDonald's, além de dicas de culinária e de segurança, clipinhos de grupinhos de rapazinhos limpinhos cantando regginhos, previsão do tempo e programação cultural. Um cocô total.
¡Q vergonha, hein, Nescau?
¿Será q o "apoio integral de instituições públicas e governamentais" (nas palavras do site deles) inclue a otherwise elogiosa proibição de cartazes publicitários ao longo das ruas onde transitam os ônibus? Paranóia, né? Mas se a prefeitura proíbe um cartaz q só está ali enfeiando a paisagem, ¿por que é q não proíbe a vileza insidiosa e ofensiva de amarrar o povaréu à frente duma telinha e emerdar-lhe o cérebro?
08 abril 2007
Desligare
Uma coisa q o Dr Plausível elogia nas pessoas é q, qdo devidamente encostadas na parede, todas elas meio q admitem q seguir uma religião é delegar a uma tradição as decisões sobre questões polêmicas, e q a tradição é apenas mais uma aplicação prática da antiga e nobre vocação humana de tirar o fiofó da reta. ¿Pra quê ser totalmente responsável por suas opiniões, decisões e ações se é possível jogar esse fardo em cima do imponderável, não é verdade?
Mas as tradições têm um grave defeito. A ignorância das gentes antigas (ou caso vc seja crente de alguma religião a ignorância humana q Deus presumia nas gentes, ao sonegar informações preciosas naquelas revelações todas) foi inegavelmente uma forte influência na construção das tradições religiosas. [Já vai ter gente caindo de pau, dizendo q nas questões fundamentais da existência estamos tão porcamente na lama da ignorância hoje como antes. Mas qdo fala de ignorância, nosso enlevante doutor quer dizer ignorância sobre coisas práticas tipo "ferver água mata germes," "a terra é uma bola de 40mil km em volta, q gira em torno do sol," "qqer estrutura presente é historicamente determinada," "todo ser humano tem direitos inalienáveis," coisas desse tipo.]
A ignorância na origem das religiões resulta em limitações de vocabulário q, hoje, deveriam restringir a abrangência das aplicações da religião. É uma questão meramente combinatória.
Explico. Por conta dessa ignorância sobre o diminuto (micro-organismos, genes, elétrons) e o vasto (planeta, galáxias, universo) as tradições religiosas lidam forçosamente apenas com combinações triviais de problemas entre as gentes normais e numerosas tipo nascimentos, casamentos, mortes, negócios, traições, doenças, &c. Além disso, nos tempos bíblicos (ou védicos ou búdicos ou confúcicos ou muçúlmicos), havia muito menos gente do q hoje. A população MUNDIAL em, digamos, 15 de maio de 5 a.C. era de apenas uns 200 milhões, um trigésimo do q é hoje. Assim, havia logicamente menos variedade de experiências, e a pouca variedade q havia estava circunscrita entre extremos menos díspares. Um sujeito ia à guerra e via gente sendo degolada, queimada e pisoteada... mas nunca via ninguém explodir em mil pedaços ou virar pó em segundos; todos sabiam q havia um homossexual aqui e outro ali... mas nem se imaginava q milhares deles poderiam fazer uma festa numa avenida do tamanho duma cidade bíblica (a população de Jerusalém naquele mesmo 15 de maio era de 80mil; a parada gay de SPaulo na virada deste século teve cerca de 100mil). O mundo de hoje é pelo menos (!) trinta vezes mais complexo do q era qdo aqueles profetas profundamente provincianos enumeravam suas regras universais de convivência.
Com o vertiginoso acúmulo de conhecimento humano de uns quinhentos anos pra cá, a religião parece um andarilho numa selva à noite: ¡leva cada susto! Ela não sabe nem sequer como reagir: dá um fora atrás do outro, e só às vezes se desculpa. O conhecimento nunca pede desculpas: ninguém se sente culpado por saber alguma coisa.
Sesdias, houve um exemplo de como, deparando-se com possibilidades humanas dantes impensáveis, a religião reage às cegas. Ao mesmo tempo em q, em Brasília, a influência da igreja mexe os pauzinhos pra proibir o aborto de anencéfalos e as pesquisas com células tronco, um casal de namorados em Niterói queria se casar mas o padre invocou preceitos da mesma igreja pra dizer não: o rapaz tem paralisia cerebral e a moça tem déficit de aprendizado; ou seja, um aleijado e uma retardada queriam casar, mas a moral religiosa q move mundos e fundos pra garantir o nascimento dum anencéfalo, q promove a caridade aos desafortunados, q quer ver toda e qqer trepadinha produzindo um novo ser humano, nem q seja um mal-amado e mal-alimentado vegetal semi-funcional a moral religiosa, digo, defende com unhas e dentes as vidas dos coitados mas se recusa a permitir q essas mesmas vidas sejam normais. Nascer, deve; viver na miséria, pode; casar, não deve; gerar, não pode. ¿¡¿Uééé?!?
Jesus manda o paralítico andar, mas é só até ali na esquina e volta. Nada de ficar paquerando as leprosas.
Mas as tradições têm um grave defeito. A ignorância das gentes antigas (ou caso vc seja crente de alguma religião a ignorância humana q Deus presumia nas gentes, ao sonegar informações preciosas naquelas revelações todas) foi inegavelmente uma forte influência na construção das tradições religiosas. [Já vai ter gente caindo de pau, dizendo q nas questões fundamentais da existência estamos tão porcamente na lama da ignorância hoje como antes. Mas qdo fala de ignorância, nosso enlevante doutor quer dizer ignorância sobre coisas práticas tipo "ferver água mata germes," "a terra é uma bola de 40mil km em volta, q gira em torno do sol," "qqer estrutura presente é historicamente determinada," "todo ser humano tem direitos inalienáveis," coisas desse tipo.]
A ignorância na origem das religiões resulta em limitações de vocabulário q, hoje, deveriam restringir a abrangência das aplicações da religião. É uma questão meramente combinatória.
Explico. Por conta dessa ignorância sobre o diminuto (micro-organismos, genes, elétrons) e o vasto (planeta, galáxias, universo) as tradições religiosas lidam forçosamente apenas com combinações triviais de problemas entre as gentes normais e numerosas tipo nascimentos, casamentos, mortes, negócios, traições, doenças, &c. Além disso, nos tempos bíblicos (ou védicos ou búdicos ou confúcicos ou muçúlmicos), havia muito menos gente do q hoje. A população MUNDIAL em, digamos, 15 de maio de 5 a.C. era de apenas uns 200 milhões, um trigésimo do q é hoje. Assim, havia logicamente menos variedade de experiências, e a pouca variedade q havia estava circunscrita entre extremos menos díspares. Um sujeito ia à guerra e via gente sendo degolada, queimada e pisoteada... mas nunca via ninguém explodir em mil pedaços ou virar pó em segundos; todos sabiam q havia um homossexual aqui e outro ali... mas nem se imaginava q milhares deles poderiam fazer uma festa numa avenida do tamanho duma cidade bíblica (a população de Jerusalém naquele mesmo 15 de maio era de 80mil; a parada gay de SPaulo na virada deste século teve cerca de 100mil). O mundo de hoje é pelo menos (!) trinta vezes mais complexo do q era qdo aqueles profetas profundamente provincianos enumeravam suas regras universais de convivência.
Com o vertiginoso acúmulo de conhecimento humano de uns quinhentos anos pra cá, a religião parece um andarilho numa selva à noite: ¡leva cada susto! Ela não sabe nem sequer como reagir: dá um fora atrás do outro, e só às vezes se desculpa. O conhecimento nunca pede desculpas: ninguém se sente culpado por saber alguma coisa.
Sesdias, houve um exemplo de como, deparando-se com possibilidades humanas dantes impensáveis, a religião reage às cegas. Ao mesmo tempo em q, em Brasília, a influência da igreja mexe os pauzinhos pra proibir o aborto de anencéfalos e as pesquisas com células tronco, um casal de namorados em Niterói queria se casar mas o padre invocou preceitos da mesma igreja pra dizer não: o rapaz tem paralisia cerebral e a moça tem déficit de aprendizado; ou seja, um aleijado e uma retardada queriam casar, mas a moral religiosa q move mundos e fundos pra garantir o nascimento dum anencéfalo, q promove a caridade aos desafortunados, q quer ver toda e qqer trepadinha produzindo um novo ser humano, nem q seja um mal-amado e mal-alimentado vegetal semi-funcional a moral religiosa, digo, defende com unhas e dentes as vidas dos coitados mas se recusa a permitir q essas mesmas vidas sejam normais. Nascer, deve; viver na miséria, pode; casar, não deve; gerar, não pode. ¿¡¿Uééé?!?
Jesus manda o paralítico andar, mas é só até ali na esquina e volta. Nada de ficar paquerando as leprosas.
30 março 2007
Bota clima nisso
Hoje saiu no jornal uma baita foto de duas páginas anunciando o lançamento dum condomínio no lado oposto da Imigrantes ao Jardim Botânico. Coisa fina. Os 14.800m² tem "diversão para todas as idades", tipo "street ball (?), fitness center (?), sala de spinning (??), garage band (???), studio office (????), pet play (?????), espaço mulher (??????), quadra de bocha, mirante, churrasqueira, espaço grill (?), piscina coberta aquecida," e mais 21 ítens, todos desse tipinho deixa-eu-ser-eu. O mais patético é o espaço "garage band": vc quer prender seu filho pra sempre num condomínio, e tem a crueldade de criar um espaço pra ele ser rebelde. HAHAHAHAHA
Mas voltemos. Na baita foto, aparece a área onde será construído o condô: um terreno baldio ali na cara da Imigrantes. Agora, pensa bem. É um terreno baldio por algum motivo, ¿não é mesmo? ¿De cara com a Imigrantes? Mas ¿não é q o site deles diz q é "o melhor clima de São Paulo"? HAHAHAHAHAHA Empreiteiro é gente sem escrúpulos, meu. Fala qualquer coisa pra ganhar uns trocados.
Mas deixei pro final o nome do lugar. Os caras pensaram bem essa, e é provavelmente a única coisa plausível no anúncio. Vão construir um condomínio fechadérrimo e batizaram o lugar de "Clima Bothanico".
Pois olha bem pra esse nome, dona-de-casa. Clima Bothanico. ¿Lembra alguma coisa? Claro, lembra Pieter Willem Botha, o "Grande Crocodilo", defensor ferrenho do apartheid (!!) na África do Sul e, entre 1978 e 1989, primeiro ministro e presidente daquela joça.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
¿Tem cabimento? Das duas, uma: ou nessa empreiteira tem gente q não pensa, ou tem gente q pensa demais, nuéverdade?
Porque, pô, né? E na cara da "Imigrantes"...
Mas voltemos. Na baita foto, aparece a área onde será construído o condô: um terreno baldio ali na cara da Imigrantes. Agora, pensa bem. É um terreno baldio por algum motivo, ¿não é mesmo? ¿De cara com a Imigrantes? Mas ¿não é q o site deles diz q é "o melhor clima de São Paulo"? HAHAHAHAHAHA Empreiteiro é gente sem escrúpulos, meu. Fala qualquer coisa pra ganhar uns trocados.
Mas deixei pro final o nome do lugar. Os caras pensaram bem essa, e é provavelmente a única coisa plausível no anúncio. Vão construir um condomínio fechadérrimo e batizaram o lugar de "Clima Bothanico".
Pois olha bem pra esse nome, dona-de-casa. Clima Bothanico. ¿Lembra alguma coisa? Claro, lembra Pieter Willem Botha, o "Grande Crocodilo", defensor ferrenho do apartheid (!!) na África do Sul e, entre 1978 e 1989, primeiro ministro e presidente daquela joça.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
¿Tem cabimento? Das duas, uma: ou nessa empreiteira tem gente q não pensa, ou tem gente q pensa demais, nuéverdade?
Porque, pô, né? E na cara da "Imigrantes"...
25 março 2007
Ref.: pleba
Parece q muita gente está animada com a idéia dum referendo sobre reeleição, financiamento público de campanhas, aborto, o parelhamento e voto obrigatório. O Dr Plausível só ergueu o sobrolho levemente.
Existem trocentas teorias sobre a função do estado. Uma guglada por cima traz pimpinelas cor-de-rosa como:
A função do estado é:
:) "proteger a sociedade e as pessoas de bem em primeiro lugar"
:) "assegurar os direitos negativos da população, isto é: impedir a coerção, &c"
:) "traduzir em normas escritas os princípios que se firmam na consciência social"
:) "preservar os direitos naturais à vida, à liberdade e aos bens"
:) "promover o desenvolvimento social"
e por aí vai. Tudo verdade, claro. Mas nosso esclarecido doutor, como sempre, vai mais além e resume toda e qqer definição plausível de estado a um só princípio básico universal:
"A função do estado é proteger o cidadão contra gente imbecil."
De onde resulta o paradoxo q vc, leitor, só de ler esse princípio, já pescou: se 96% dos "cidadãos" são também "gente imbecil", incluíndo aí 96% dos estadistas, então ¿que catso?
O doutor presume, no entanto, q apesar de 96% dos estadistas serem também imbecis, são eles q desempenham a função do estado e, mesmo q 96% de suas decisões sejam também imbecis, eles são apenas representantes do povo, e não o povo em si: ou seja, qqer imbecilidade q praticam pode ser facilmente revertida bastando substituí-los por outros representantes.
Exceto... qdo cometem uma imbecilidade irreversível, tipo, qdo se eximem vergonhosamente de seu trabalho de proteger o cidadão contra os imbecis numa controvérsia polêmica e pedem ao próprio povaréu imbecil q decida diretamente o q fazer pra se proteger uns dos outros. Aí não dá pra voltar atrás: ¿não foi o próprio povo q decidiu?
Em decisões q dependam da moral, fazer referendo é encomendar golpe não golpe de estado, mas golpe parlamentar, golpe jurídico, &c. Porque ¿vai q o referendo decide algo q gente poderosa não está a fim de cumprir? E ¿de que vale um referendo se, depois de decidir algo impalatável a imbecis poderosos, eles podem contestar tudo invocando algum preciosismo legal na ribomboca duma cláusula?
Muita gente acha q plebiscito e referendo são a expressão máxima da democracia. Que nada. Em questões de moral, são nada mais q a expressão máxima da ditadura do imbecil coletivo, o equivalente cognitivo dum estouro da manada, o equivalente político do linchamento sumário. Levar uma questão polêmica à decisão do povo é a manobra de quem sabe e quer a resposta q o povo dará.
Mas, qdo os próprios representantes sabem tão pouco o q estão fazendo ali a ponto de pedir a opinião "soberana" do povaréu em questões morais, ¿que mais se poderia esperar?
Aliás, no mesmo referendo decidir sobre obrigatoriedade do voto e sobre as outras polêmicas é atestado de burrice, não é? O sujeito vota q não deveria ser obrigado a votar e ¿logo em seguida é obrigado a votar nos outros ítens? Ou pior, o inverso: ele vota nos quatro primeiros ítens e ¿aí é traiçoeiramente obrigado a votar q nenhum de seus votos anteriores era pra ser levado a sério?
?!?!? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
¿Não seria mais ãã... inteligente fazer primeiro um referendo sobre a obrigatoriedade e depois um outro sobre o resto?
Claro q seria. Mas imbecil é imbecil, né? Fazer o quê?
Existem trocentas teorias sobre a função do estado. Uma guglada por cima traz pimpinelas cor-de-rosa como:
A função do estado é:
:) "proteger a sociedade e as pessoas de bem em primeiro lugar"
:) "assegurar os direitos negativos da população, isto é: impedir a coerção, &c"
:) "traduzir em normas escritas os princípios que se firmam na consciência social"
:) "preservar os direitos naturais à vida, à liberdade e aos bens"
:) "promover o desenvolvimento social"
e por aí vai. Tudo verdade, claro. Mas nosso esclarecido doutor, como sempre, vai mais além e resume toda e qqer definição plausível de estado a um só princípio básico universal:
"A função do estado é proteger o cidadão contra gente imbecil."
De onde resulta o paradoxo q vc, leitor, só de ler esse princípio, já pescou: se 96% dos "cidadãos" são também "gente imbecil", incluíndo aí 96% dos estadistas, então ¿que catso?
O doutor presume, no entanto, q apesar de 96% dos estadistas serem também imbecis, são eles q desempenham a função do estado e, mesmo q 96% de suas decisões sejam também imbecis, eles são apenas representantes do povo, e não o povo em si: ou seja, qqer imbecilidade q praticam pode ser facilmente revertida bastando substituí-los por outros representantes.
Exceto... qdo cometem uma imbecilidade irreversível, tipo, qdo se eximem vergonhosamente de seu trabalho de proteger o cidadão contra os imbecis numa controvérsia polêmica e pedem ao próprio povaréu imbecil q decida diretamente o q fazer pra se proteger uns dos outros. Aí não dá pra voltar atrás: ¿não foi o próprio povo q decidiu?
Em decisões q dependam da moral, fazer referendo é encomendar golpe não golpe de estado, mas golpe parlamentar, golpe jurídico, &c. Porque ¿vai q o referendo decide algo q gente poderosa não está a fim de cumprir? E ¿de que vale um referendo se, depois de decidir algo impalatável a imbecis poderosos, eles podem contestar tudo invocando algum preciosismo legal na ribomboca duma cláusula?
Muita gente acha q plebiscito e referendo são a expressão máxima da democracia. Que nada. Em questões de moral, são nada mais q a expressão máxima da ditadura do imbecil coletivo, o equivalente cognitivo dum estouro da manada, o equivalente político do linchamento sumário. Levar uma questão polêmica à decisão do povo é a manobra de quem sabe e quer a resposta q o povo dará.
Mas, qdo os próprios representantes sabem tão pouco o q estão fazendo ali a ponto de pedir a opinião "soberana" do povaréu em questões morais, ¿que mais se poderia esperar?
Aliás, no mesmo referendo decidir sobre obrigatoriedade do voto e sobre as outras polêmicas é atestado de burrice, não é? O sujeito vota q não deveria ser obrigado a votar e ¿logo em seguida é obrigado a votar nos outros ítens? Ou pior, o inverso: ele vota nos quatro primeiros ítens e ¿aí é traiçoeiramente obrigado a votar q nenhum de seus votos anteriores era pra ser levado a sério?
?!?!? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
¿Não seria mais ãã... inteligente fazer primeiro um referendo sobre a obrigatoriedade e depois um outro sobre o resto?
Claro q seria. Mas imbecil é imbecil, né? Fazer o quê?
16 março 2007
Macarrão no Cool
Fusilli, pra ser exato.
Nosso esporeante Dr Plausível às vezes sofre, viu. A criatividade de gente improdutiva é de desfuçar a cara à base de gargalhos. Haja plástica.
Tem uns caras aí q querem pq querem fazer um plebiscito (nacional?) pra "decidir sobre a criação do Maranhão do Sul," tipo assim qdo vc levanta uma parede no meio da sala e "cria" uma sala de jantar.
HA-HA-HA-HAR-HAR-HAR-AR-AR!-AR!!cof-cof
Vamos por partes. ¿Pra q tchongas um Maranhão do Norte? ¿Por q tchungas um Maranhão do Sul?
A Escarlates já disse tudo q o doutor diria. Então, por pura preguiça, cito-a verbatim:
"Novo Executivo, novo Legislativo, novo Judiciário, novos palácios superfaturados para abrigar os respectivos Poderes, novas folhas de pagamento, concursos para juiz, promotor, salários de desembargador, jeton de Assembléia Legislativa, frotas de carros oficiais, residência oficial do Governador, auxílio-caraglio-a-quatro, franquia postal, telefônica e aérea, campanhas eleitorais, novos conchavos, novos 10%, tudo isso e muito mais para restaurar a paz entre os povos inimigos do Maranhão do Norte e do Sul, que vivem uma sangrenta intifada na Faixa de Imperatriz, como todos tristemente sabemos." Sem falar dos irreconciliáveis problemas presentes do estado, causados por suas "dimensões continentais. E dos 47 dialetos. E das 5 religiões majoritárias."
E ¿como tchengas um plebiscito?
A idéia dum Maranhão do Sul já é redêcula, mas a do plebiscito é um desputério total. É o q resulta qdo um narcisista-q-não-usa-a-cabeça quer pq quer q uma comissão-q-não-raciocina peça a um senado-q-não-reflete q faça uma população-q-nunca-pensou-no-assunto decidir sobre uma idéia q ele teve um dia desses qdo estava pescando traíra no rio Cumbuca do Sul. Entre uma cerveja e outra, a cachola do cara desandou a juntar palavras: "Hmm. Ããã. Nhéé. Mm. ¿Tem cabimento Maranhão do Sul? Nhé. Mm! É só ãããã empurrar o Maranhão um pouco pro norte, e aí vai caber, né? Mmm. Nhééé."
Aí já vai ter gente dizendo, ah não, o plebiscito é só no estado. EEEles é q têm q decidir.
Ah tá.
--------
Mas trata-se da plausibilidade, veja bem.
Qdo um político se expõe ao ridículo com uma idéia estupafúrdia, nosso emérito doutor sempre acha q o cara está ou cobrando ou pagando alguma coisa. O pleba em questão parece apenas um caso de olha-aqui-meu-coronér-como-eu-gosto-do-teu-feudo.
Nosso esporeante Dr Plausível às vezes sofre, viu. A criatividade de gente improdutiva é de desfuçar a cara à base de gargalhos. Haja plástica.
Tem uns caras aí q querem pq querem fazer um plebiscito (nacional?) pra "decidir sobre a criação do Maranhão do Sul," tipo assim qdo vc levanta uma parede no meio da sala e "cria" uma sala de jantar.
HA-HA-HA-HAR-HAR-HAR-AR-AR!-AR!!cof-cof
Vamos por partes. ¿Pra q tchongas um Maranhão do Norte? ¿Por q tchungas um Maranhão do Sul?
A Escarlates já disse tudo q o doutor diria. Então, por pura preguiça, cito-a verbatim:
"Novo Executivo, novo Legislativo, novo Judiciário, novos palácios superfaturados para abrigar os respectivos Poderes, novas folhas de pagamento, concursos para juiz, promotor, salários de desembargador, jeton de Assembléia Legislativa, frotas de carros oficiais, residência oficial do Governador, auxílio-caraglio-a-quatro, franquia postal, telefônica e aérea, campanhas eleitorais, novos conchavos, novos 10%, tudo isso e muito mais para restaurar a paz entre os povos inimigos do Maranhão do Norte e do Sul, que vivem uma sangrenta intifada na Faixa de Imperatriz, como todos tristemente sabemos." Sem falar dos irreconciliáveis problemas presentes do estado, causados por suas "dimensões continentais. E dos 47 dialetos. E das 5 religiões majoritárias."
E ¿como tchengas um plebiscito?
A idéia dum Maranhão do Sul já é redêcula, mas a do plebiscito é um desputério total. É o q resulta qdo um narcisista-q-não-usa-a-cabeça quer pq quer q uma comissão-q-não-raciocina peça a um senado-q-não-reflete q faça uma população-q-nunca-pensou-no-assunto decidir sobre uma idéia q ele teve um dia desses qdo estava pescando traíra no rio Cumbuca do Sul. Entre uma cerveja e outra, a cachola do cara desandou a juntar palavras: "Hmm. Ããã. Nhéé. Mm. ¿Tem cabimento Maranhão do Sul? Nhé. Mm! É só ãããã empurrar o Maranhão um pouco pro norte, e aí vai caber, né? Mmm. Nhééé."
Aí já vai ter gente dizendo, ah não, o plebiscito é só no estado. EEEles é q têm q decidir.
Ah tá.
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Mas trata-se da plausibilidade, veja bem.
Qdo um político se expõe ao ridículo com uma idéia estupafúrdia, nosso emérito doutor sempre acha q o cara está ou cobrando ou pagando alguma coisa. O pleba em questão parece apenas um caso de olha-aqui-meu-coronér-como-eu-gosto-do-teu-feudo.
04 março 2007
Monstruoso texto sobre uma pequena observação
Vc aí q está lendo isto provavelmente acha q o Óscar não é termômetro de coisa alguma. Já o Dr Plausível (q recentemente publicou seu "Neuro-Refluxo Pseudo-Cognitivo do Pânico Moroso: Patologias Sociais Intra-Língüísticas") pensaria diferente. Com essa obra de vastíssima abrangência e algumas páginas, nosso epistolário humanista permite analisar e compreender fatos aparentemente tão díspares q só um idiota completo veria imediatamente alguma relação entre eles. Por exemplo, ¿o q têm em comum os dois fatos abaixo?
fato 1: em 2003, os Euá se basearam numa lorota pra promover e realizar a invasão do Iraque;
fato 2: nos últimos 6 anos, 58% [7/12] dos Óscares de melhor ator e melhor atriz foram outorgados àqueles q fizeram papéis baseados em pessoas reais (contando os coadjuvantes, 46% [11/24]). Nos últimos 3 anos (isto é, nos Óscares relativos a 2004-2006), essa proporção subiu pra 83% [5/6] (com os coadjuvantes, 58% [7/12]). Veja a lista abaixo:
Ator:
2002 Adrien Brody fez Wladyslaw Szpilman em The Pianist
2004 Jamie Foxx fez Ray Charles em Ray
2005 Philip Seymour Hoffman fez Truman Capote em Capote
2006 Forrest Whitaker fez Idi Amin em The Last King of Scotland
Atriz:
2002 Nicole Kidman fez Virginia Woolf em The Hours
2005 Reese Witherspoon fez June Carter em Walk the Line
2006 Helen Mirren fez a rainha Elizabeth II em The Queen
Ator coadjuvante:
2001 Jim Broadbent fez John Bayley em Iris
Atriz coadjuvante:
2001 Jennifer Connelly fez Alicia Nash em A Beautiful Mind
2004 Cate Blanchett fez Katharine Hepburn em The Aviator
2006 Jennifer Hudson fez Effie White (baseada em Florence Ballard) em Dreamgirls
Não são apenas pessoas reais: não são, tipo, George Washington ou Lavoisier: são personalidades contemporâneas, de vidas já bem documentadas em fotos, filmes e gravações. Ou seja, na verdade esses atores e atrizes ganharam o Óscar por imitações.
É uma porrada de personagens reais, não acha? Mas ¿q tchongas tem o fato 1 a ver com o fato 2? ¿O q a invasão do Iraque tem a ver com os Óscares recentes?
A resposta é q, nos Euá de hoje, a relação desejo/realidade está muito mais desequilibrada q de costume. A razão de ser dos Euá é, sem tirar nem pôr, a fantasia de unir desejo e realidade – uma fantasia a q estão peculiarmente predispostas as culturas baseadas na língua inglesa.
"Quêêê? Língua inglesa? Mas esse discípulo do Dr Plausível só fala besteira, hem?" já ouço os leitores pensando. Ok. Então preciso demonstrar o q é q o inglês tem de peculiar. E pra q todos meus leitores entendam, e só pra entediá-los um pouco, vou usar comparações com o português pra demonstrar algumas peculiaridades do inglês.
Se vc está tentando aprender inglês, aqui vai uma dica: a estrutura dessa língua é extremamente burocrática e bitolada:
-a. A seqüência de informações numa frase inglesa só aparece na ordem [quando]-quem-verbo-quê-como-onde-[quando]; ou seja, o inglês diz "[ontem] eu comi uma jaca vorazmente no parque [ontem]" e não "eu ontem comi uma jaca no parque vorazmente" nem "eu comi vorazmente uma jaca ontem no parque" nem qqer de tantas outras combinações válidas e comuns em português.
-b. Os adjetivos vêm antes do substantivo, e (pra resumir) aparecem na ordem tamanho-cor-procedência-utilidade: em português, vc pode dizer "uma raquete marrom de tênis alemã enorme" ou "uma enorme raquete alemã de tênis marrom" ou várias outras combinações; em inglês, só se diz "um enorme marrom alemão tênis raquete."
-c. Qqer coisa dita em inglês segue scripts estruturais rígidos e consistentes; ao contrário do português, em q a semântica influencia a estrutura.
--c¹. Em inglês, se uma estrutura é usada numa situação, ela é usada pra qqer outra situação análoga. Se digo "não consigo viver com fulano" e "não consigo viver sem fulana", o inglês perguntaria "¿quem vc não consegue viver com?" e "¿quem vc não consegue viver sem?", ao passo q o português perguntaria "¿com quem vc não consegue viver?" e "¿quem vc não consegue viver sem?" (além de "¿vc não consegue viver sem quem?", q vale pràs duas línguas).
--c². No inglês, é sempre a mesma coisa: sujeito, verbo, objetos, complementos. O português diz "aconteceu um acidente ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua"; em inglês, se diz "um acidente aconteceu ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua."
-d. Ao falar de ações e acontecimentos, o inglês tende a ilustrar processos enquanto o português tende a observar resultados. Por exemplo, em português, um cara "entra na sala correndo" (primeiro o resultado, depois o método); em inglês, ele "corre pra dentro da sala" (primeiro o método, depois o resultado, acompanhando o fato).
-e. O inglês tende ao explícito e essencial, enquanto q o português (devido às muitas concordâncias necessárias) tende ao subentendido e ao redundante; por exemplo, em português, "nós colocamos as mãos nos bolsos" traz a informação /plural/ repetida em todas as palavras, não explicita de quem são as mãos nem os bolsos e precisa concordar a informação inútil qto ao gênero das palavras 'mão' e 'bolso'; em inglês, se diz "nós pôr nosso mãos dentro nosso bolsos."
-f. Como a estrutura inglesa é rígida e explícita, tende-se a criar novas palavras e expressões qdo uma lacuna ameaça aparecer na estrutura ou na explicitude, aumentando assim o detalhamento na descrição da realidade; em português, como as lacunas são facilmente preenchidas ou mesmo deixadas em branco como subentendidas, o vocabulário de palavras e expressões cresce ou se modifica bem mais devagar.
-g. Um país como os Euá seria impossível se baseado na língua portuguesa. Seria como imaginar o resultado se metade de todas as palavras e expressões de repente sumissem definitivamente de todos os livros, dicionários, jornais, conversas e memórias de 200 milhões de pessoas, levando junto metade das criações, produtos e instituições, q só se pode compreender e descrever com aquelas palavras.
O inglês é um sistema coerente e consistente de racionalizar, retratar e comunicar a realidade (ou melhor, o q a realidade tem de racionalizável). Foi através da explicitude burocrática da língua inglesa q os britânicos construíram e organizaram o maior império da história, e é através de seu detalhamento cartesiano q os euaenses criam e mantêm o país mais complexo e poderoso de hoje. Se não fosse falado por gente, o inglês seria um língua robótica, ultra-padronizada e esmagadora. O lance legal do inglês é justamente o fato de ser falado por seres humanos – q são uns bichos cheios de contradições, segundas intenções, inconsistências, vacilações, motivações q eles mesmos não compreendem, &c. Quer dizer, o robô inglês é lubrificado pela humanidade dos inglesantes.
Ao falar, o falante de qqer língua acha q está descrevendo a realidade. Todos se enganam mastodonticamente, é claro. Mas a eficiência do inglês engana os inglesantes duma maneira bem particular. A descrição padronizada da realidade tem um preço: onde tudo está esquadrinhado, parece haver poucos mistérios; e ao mesmo tempo em q o inglesante de hoje descreve a realidade com invejável precisão e economia, chegando a controlar o mundo natural com igualmente invejável prec. e econ., ele se crê capaz de também controlar as contradições inerentes ao convívio social. O notório puritanismo e preciosismo dos euaenses tem exageros singulares: vê-se desde o conceito de "politicamente correto" aparecer e se alastrar como fogueira em mato seco, até menino de 6 anos ser indiciado por beijar o rosto duma coleguinha de escola, passando por todas as falcatruas truculentas pra disseminar o conceito (pra eles, moralmente imperativo) da democracia. Depois q o detalhamento do inglês os ajudou a construir o país mais organizado, poderoso e confortável da história – a terra q realiza os desejos de seus ocupantes –, os euaenses caíram numa armadilha cognitiva: a representação da realidade acaba se tornando a coisa-em-si: a coerência e consistência do inglês é confundida com a coerência e consistência do mundo natural; e daí o convívio social, as relações políticas, os medos irracionais, as confusas dinâmicas do desejo, &c acabam enganosamente parecendo por sua vez nitidamente coerentes e consistentes e, portanto, passíveis de controle.
¿Será coincidência q, num momento em q os Euá descobrem no 11 de setembro a ineficácia de seus controles, e descobrem no Iraque a futilidade de seus desejos, e também ali são lembrados diariamente da incoerência e inconsistência das relações humanas, será coincidência, pergunto, q a CRIAÇÃO de novas personagens no cinema seja preterida em favor da IMITAÇÃO de personalidades reais?, q os euaenses busquem o escapismo numa realidade q seja ritualisticamente controlada por um script?
O Dr Plausível diria q não é mera coincidência.
De fato, o "script" (aliás, a única palavra inglesa q fui obrigado a usar neste texto) é um elemento essencial da cultura euaense. Pouco se faz nos Euá sem um script, ou sem q alguém imponha um script. Veja esta foto, tirada sesdias por um leitor num banheiro público na Flórida (¡obrigado, CBeetz!):

[Molhe as mãos e aplique o sabão. / Esfregue as mãos e enxágüe. / Seque bem as mãos com toalhas de papel.]
E é lóóógico, um script é o q eles tentam promover no resto do mundo. O q Condoleezza Rice faz viajando por aí é distribuir scripts, q uns aceitam e outros não. Ironicamente, o q faz (por exemplo) um israelense e um palestino aceitar a arbitragem da secretária de estado dum país do outro lado do mundo é um subentendido: ¿recusou Condoleezza? minhas condolências: eles e ela sabem q o poder dela emana não do valor intrínseco de seu script mas do poderio bélico q a leva de lá pra cá.
A questão é q, qdo se trata de grandezas conhecidas, do mundo natural, de organizar gente imbecil, ¡os scripts dão certo! (Todo o mundo prefere chegar em festa q já está rolando.) O script é a expressão dum desejo de como certas coisas devam funcionar. Eu faço blá, vc faz blé, ele faz bló e os três construímos algo juntos. A armadilha na eficiência do script é q, ao confundir desejo e realidade, se perde (também ironicamente) o controle não sobre a realidade mas sobre o desejo: ¿O q se quer ver no cinema, afinal?, homenagens ou diversão? ¿O q se quer ver no Iraque, afinal?, gente agradecida ou gente livre?
----
Dois apartes:
(1) Existe a teoria de q a língua q uma pessoa fala influencia sua percepção das coisas. Tipo, se uma língua não tem uma palavra pra 'verde', então seus falantes não percebem a cor verde da mesma maneira q os falantes de outras línguas. Essa teoria já foi devidamente refutada, e não é dela q estou falando aqui. Estou falando da língua não como um dado da cognição individual mas como uma ferramenta de comunicação entre indivíduos. Exagerando, se uma cultura não tem uma palavra ou expressão pra, digamos, 'estupro', é evidente q, embora possa haver nessa cultura algo q outras chamariam de "estupro", não há maneira de, por exemplo, inserir o conceito inconfundível de 'estupro' na legislação dessa cultura sem um termo ou expressão q o designe; portanto, essa cultura não consegue falar do conceito de 'estupro' como uma entidade independente e seu sistema legal será, conseqüentemente, mais simples nesse aspecto do q uma cultura q contém o termo. Já é difícil em culturas onde o termo existe; imagine onde não existisse. Resumindo, a complexidade duma cultura está diretamente ligada a seu vocabulário de palavras, expressões e estruturas. Mais sobre isso aqui.
(2) Nada do q digo aqui invalida-se caso a onda de filmes retratando personalidades reais termine logo e nenhum Óscar seja dado a esse tipo de filme no futuro. É bem provável q muita gente, mesmo na academia, já tenha notado a tendência. E tal como diz Will Self, em The Quanity Theory of Insanity, "o efeito q a observação tem sobre acontecimentos aberrantes tende a ser a reversão de sua causalidade" ("the effect of observation on aberrant events tends to be the reversal of their causality").
fato 1: em 2003, os Euá se basearam numa lorota pra promover e realizar a invasão do Iraque;
fato 2: nos últimos 6 anos, 58% [7/12] dos Óscares de melhor ator e melhor atriz foram outorgados àqueles q fizeram papéis baseados em pessoas reais (contando os coadjuvantes, 46% [11/24]). Nos últimos 3 anos (isto é, nos Óscares relativos a 2004-2006), essa proporção subiu pra 83% [5/6] (com os coadjuvantes, 58% [7/12]). Veja a lista abaixo:
Ator:
2002 Adrien Brody fez Wladyslaw Szpilman em The Pianist
2004 Jamie Foxx fez Ray Charles em Ray
2005 Philip Seymour Hoffman fez Truman Capote em Capote
2006 Forrest Whitaker fez Idi Amin em The Last King of Scotland
Atriz:
2002 Nicole Kidman fez Virginia Woolf em The Hours
2005 Reese Witherspoon fez June Carter em Walk the Line
2006 Helen Mirren fez a rainha Elizabeth II em The Queen
Ator coadjuvante:
2001 Jim Broadbent fez John Bayley em Iris
Atriz coadjuvante:
2001 Jennifer Connelly fez Alicia Nash em A Beautiful Mind
2004 Cate Blanchett fez Katharine Hepburn em The Aviator
2006 Jennifer Hudson fez Effie White (baseada em Florence Ballard) em Dreamgirls
Não são apenas pessoas reais: não são, tipo, George Washington ou Lavoisier: são personalidades contemporâneas, de vidas já bem documentadas em fotos, filmes e gravações. Ou seja, na verdade esses atores e atrizes ganharam o Óscar por imitações.
É uma porrada de personagens reais, não acha? Mas ¿q tchongas tem o fato 1 a ver com o fato 2? ¿O q a invasão do Iraque tem a ver com os Óscares recentes?
A resposta é q, nos Euá de hoje, a relação desejo/realidade está muito mais desequilibrada q de costume. A razão de ser dos Euá é, sem tirar nem pôr, a fantasia de unir desejo e realidade – uma fantasia a q estão peculiarmente predispostas as culturas baseadas na língua inglesa.
"Quêêê? Língua inglesa? Mas esse discípulo do Dr Plausível só fala besteira, hem?" já ouço os leitores pensando. Ok. Então preciso demonstrar o q é q o inglês tem de peculiar. E pra q todos meus leitores entendam, e só pra entediá-los um pouco, vou usar comparações com o português pra demonstrar algumas peculiaridades do inglês.
Se vc está tentando aprender inglês, aqui vai uma dica: a estrutura dessa língua é extremamente burocrática e bitolada:
-a. A seqüência de informações numa frase inglesa só aparece na ordem [quando]-quem-verbo-quê-como-onde-[quando]; ou seja, o inglês diz "[ontem] eu comi uma jaca vorazmente no parque [ontem]" e não "eu ontem comi uma jaca no parque vorazmente" nem "eu comi vorazmente uma jaca ontem no parque" nem qqer de tantas outras combinações válidas e comuns em português.
-b. Os adjetivos vêm antes do substantivo, e (pra resumir) aparecem na ordem tamanho-cor-procedência-utilidade: em português, vc pode dizer "uma raquete marrom de tênis alemã enorme" ou "uma enorme raquete alemã de tênis marrom" ou várias outras combinações; em inglês, só se diz "um enorme marrom alemão tênis raquete."
-c. Qqer coisa dita em inglês segue scripts estruturais rígidos e consistentes; ao contrário do português, em q a semântica influencia a estrutura.
--c¹. Em inglês, se uma estrutura é usada numa situação, ela é usada pra qqer outra situação análoga. Se digo "não consigo viver com fulano" e "não consigo viver sem fulana", o inglês perguntaria "¿quem vc não consegue viver com?" e "¿quem vc não consegue viver sem?", ao passo q o português perguntaria "¿com quem vc não consegue viver?" e "¿quem vc não consegue viver sem?" (além de "¿vc não consegue viver sem quem?", q vale pràs duas línguas).
--c². No inglês, é sempre a mesma coisa: sujeito, verbo, objetos, complementos. O português diz "aconteceu um acidente ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua"; em inglês, se diz "um acidente aconteceu ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua."
-d. Ao falar de ações e acontecimentos, o inglês tende a ilustrar processos enquanto o português tende a observar resultados. Por exemplo, em português, um cara "entra na sala correndo" (primeiro o resultado, depois o método); em inglês, ele "corre pra dentro da sala" (primeiro o método, depois o resultado, acompanhando o fato).
-e. O inglês tende ao explícito e essencial, enquanto q o português (devido às muitas concordâncias necessárias) tende ao subentendido e ao redundante; por exemplo, em português, "nós colocamos as mãos nos bolsos" traz a informação /plural/ repetida em todas as palavras, não explicita de quem são as mãos nem os bolsos e precisa concordar a informação inútil qto ao gênero das palavras 'mão' e 'bolso'; em inglês, se diz "nós pôr nosso mãos dentro nosso bolsos."
-f. Como a estrutura inglesa é rígida e explícita, tende-se a criar novas palavras e expressões qdo uma lacuna ameaça aparecer na estrutura ou na explicitude, aumentando assim o detalhamento na descrição da realidade; em português, como as lacunas são facilmente preenchidas ou mesmo deixadas em branco como subentendidas, o vocabulário de palavras e expressões cresce ou se modifica bem mais devagar.
-g. Um país como os Euá seria impossível se baseado na língua portuguesa. Seria como imaginar o resultado se metade de todas as palavras e expressões de repente sumissem definitivamente de todos os livros, dicionários, jornais, conversas e memórias de 200 milhões de pessoas, levando junto metade das criações, produtos e instituições, q só se pode compreender e descrever com aquelas palavras.
O inglês é um sistema coerente e consistente de racionalizar, retratar e comunicar a realidade (ou melhor, o q a realidade tem de racionalizável). Foi através da explicitude burocrática da língua inglesa q os britânicos construíram e organizaram o maior império da história, e é através de seu detalhamento cartesiano q os euaenses criam e mantêm o país mais complexo e poderoso de hoje. Se não fosse falado por gente, o inglês seria um língua robótica, ultra-padronizada e esmagadora. O lance legal do inglês é justamente o fato de ser falado por seres humanos – q são uns bichos cheios de contradições, segundas intenções, inconsistências, vacilações, motivações q eles mesmos não compreendem, &c. Quer dizer, o robô inglês é lubrificado pela humanidade dos inglesantes.
Ao falar, o falante de qqer língua acha q está descrevendo a realidade. Todos se enganam mastodonticamente, é claro. Mas a eficiência do inglês engana os inglesantes duma maneira bem particular. A descrição padronizada da realidade tem um preço: onde tudo está esquadrinhado, parece haver poucos mistérios; e ao mesmo tempo em q o inglesante de hoje descreve a realidade com invejável precisão e economia, chegando a controlar o mundo natural com igualmente invejável prec. e econ., ele se crê capaz de também controlar as contradições inerentes ao convívio social. O notório puritanismo e preciosismo dos euaenses tem exageros singulares: vê-se desde o conceito de "politicamente correto" aparecer e se alastrar como fogueira em mato seco, até menino de 6 anos ser indiciado por beijar o rosto duma coleguinha de escola, passando por todas as falcatruas truculentas pra disseminar o conceito (pra eles, moralmente imperativo) da democracia. Depois q o detalhamento do inglês os ajudou a construir o país mais organizado, poderoso e confortável da história – a terra q realiza os desejos de seus ocupantes –, os euaenses caíram numa armadilha cognitiva: a representação da realidade acaba se tornando a coisa-em-si: a coerência e consistência do inglês é confundida com a coerência e consistência do mundo natural; e daí o convívio social, as relações políticas, os medos irracionais, as confusas dinâmicas do desejo, &c acabam enganosamente parecendo por sua vez nitidamente coerentes e consistentes e, portanto, passíveis de controle.
¿Será coincidência q, num momento em q os Euá descobrem no 11 de setembro a ineficácia de seus controles, e descobrem no Iraque a futilidade de seus desejos, e também ali são lembrados diariamente da incoerência e inconsistência das relações humanas, será coincidência, pergunto, q a CRIAÇÃO de novas personagens no cinema seja preterida em favor da IMITAÇÃO de personalidades reais?, q os euaenses busquem o escapismo numa realidade q seja ritualisticamente controlada por um script?
O Dr Plausível diria q não é mera coincidência.
De fato, o "script" (aliás, a única palavra inglesa q fui obrigado a usar neste texto) é um elemento essencial da cultura euaense. Pouco se faz nos Euá sem um script, ou sem q alguém imponha um script. Veja esta foto, tirada sesdias por um leitor num banheiro público na Flórida (¡obrigado, CBeetz!):

[Molhe as mãos e aplique o sabão. / Esfregue as mãos e enxágüe. / Seque bem as mãos com toalhas de papel.]
E é lóóógico, um script é o q eles tentam promover no resto do mundo. O q Condoleezza Rice faz viajando por aí é distribuir scripts, q uns aceitam e outros não. Ironicamente, o q faz (por exemplo) um israelense e um palestino aceitar a arbitragem da secretária de estado dum país do outro lado do mundo é um subentendido: ¿recusou Condoleezza? minhas condolências: eles e ela sabem q o poder dela emana não do valor intrínseco de seu script mas do poderio bélico q a leva de lá pra cá.
A questão é q, qdo se trata de grandezas conhecidas, do mundo natural, de organizar gente imbecil, ¡os scripts dão certo! (Todo o mundo prefere chegar em festa q já está rolando.) O script é a expressão dum desejo de como certas coisas devam funcionar. Eu faço blá, vc faz blé, ele faz bló e os três construímos algo juntos. A armadilha na eficiência do script é q, ao confundir desejo e realidade, se perde (também ironicamente) o controle não sobre a realidade mas sobre o desejo: ¿O q se quer ver no cinema, afinal?, homenagens ou diversão? ¿O q se quer ver no Iraque, afinal?, gente agradecida ou gente livre?
----
Dois apartes:
(1) Existe a teoria de q a língua q uma pessoa fala influencia sua percepção das coisas. Tipo, se uma língua não tem uma palavra pra 'verde', então seus falantes não percebem a cor verde da mesma maneira q os falantes de outras línguas. Essa teoria já foi devidamente refutada, e não é dela q estou falando aqui. Estou falando da língua não como um dado da cognição individual mas como uma ferramenta de comunicação entre indivíduos. Exagerando, se uma cultura não tem uma palavra ou expressão pra, digamos, 'estupro', é evidente q, embora possa haver nessa cultura algo q outras chamariam de "estupro", não há maneira de, por exemplo, inserir o conceito inconfundível de 'estupro' na legislação dessa cultura sem um termo ou expressão q o designe; portanto, essa cultura não consegue falar do conceito de 'estupro' como uma entidade independente e seu sistema legal será, conseqüentemente, mais simples nesse aspecto do q uma cultura q contém o termo. Já é difícil em culturas onde o termo existe; imagine onde não existisse. Resumindo, a complexidade duma cultura está diretamente ligada a seu vocabulário de palavras, expressões e estruturas. Mais sobre isso aqui.
(2) Nada do q digo aqui invalida-se caso a onda de filmes retratando personalidades reais termine logo e nenhum Óscar seja dado a esse tipo de filme no futuro. É bem provável q muita gente, mesmo na academia, já tenha notado a tendência. E tal como diz Will Self, em The Quanity Theory of Insanity, "o efeito q a observação tem sobre acontecimentos aberrantes tende a ser a reversão de sua causalidade" ("the effect of observation on aberrant events tends to be the reversal of their causality").
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