14 abril 2007

O pior anúncio do mundo

Marqueteiro e marcheteiro têm algumas coisas em comum. Ambos gostam de coisas encaixadinhas e ambos adoram ficar martelando. Se uma coisa teima em não se encaixar, nada q uma marretada não resolva.

Dez anos atrás, às 8h duma manhã cinza de inverno, a população inteira dum ônibus urbano lotado teve uma oportunidade única de conhecer a gargalhada de nosso eutrófico doutor.

Algum tonho de alguma firmeca de marketing muito provavelmente havia pensado assim:

"Hm. Xovê. ¿Onde é q tem gente tão encaixadinha q não teria escolha exceto ser martelado com as ãã informações publicitárias dum anunciante? Hm. Caixa, caixa... Martelo, martelo... ¡Ah, já sei! Um ônibus lotado!"

E pensando nos passageiros acotovelados e indefesos, criou a sórdida idéia de emporcalhar-lhes os ouvidos com as "informações" de quem quer q pagasse uns trocados. Daí nasceu o radinho com programação ãã customizada pra tocar em linhas de ônibus de São Paulo, "the city that never shuts up" [© Bel Seslaf].

Mas voltando àquela manhã dez anos atrás. O doutor já estava de saco cheio, obrigado a ouvir músicas cretinas qdo queria ler seu livrinho, mesmo apinhado e de pé (as Clínicas Dr Plausível nunca deram dinheiro), qdo um anúncio – simplesmente o PIOR anúncio de todos os tempos – provocou-lhe uma risada tão contagiante q o ônibus todo ficou sem ar. (Imagine dezenas de pessoas ensardinhadas rindo ao mesmo tempo. É uma operação q exigiria planejamento e coreografia.) Era o anúncio dum curso de informática, e começava assim:

"Você aí que agora está olhando pela janela deste ônibus, ¿não seria muito melhor estar olhando na tela dum computador?"

QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA QUA

¿Em qual nádega esse pessoal tem a cabeça, meu santo?

Tá bom, tá bom. Não é o pior anúncio do mundo, mas o ponto final tá perto.

O radinho parou depois de alguns meses, certamente devido às reclamações de passageiros. (E, sem dúvida, muitas reclamações de parentes e amigos dos motoristas e cobradores q eram obrigados a ouvir a mesma ladainha 8 horas por dia, dia após dia.)

Mas recentemente, algum outro tonho achou por bem renovar a idéia dum jeito mais hi-tech. Algumas linhas de ônibus trazem agora duas telas de tv... com SOM... Em São Paulo, uma firma responsável por esse torpe desrespeito ao cidadão, essa nauseante invasão do espaço privado, esse asqueroso abuso da imobilidade do passageiro chama-se BUS TV. Dê uma vista d'olhos no site www.bustv.com.br pra ver a intensa mediocridade e o sebento cinismo do pensamento marqueteiro. Agora o passageiro não precisa mais olhar pela janela pra ver como a vida moderna é uma bosta. Olha a telinha, e a bosta vê. E dá-lhe muzak, anúncios de Nescau, Casas Pernambucanas e McDonald's, além de dicas de culinária e de segurança, clipinhos de grupinhos de rapazinhos limpinhos cantando regginhos, previsão do tempo e programação cultural. Um cocô total.

¡Q vergonha, hein, Nescau?

¿Será q o "apoio integral de instituições públicas e governamentais" (nas palavras do site deles) inclue a otherwise elogiosa proibição de cartazes publicitários ao longo das ruas onde transitam os ônibus? Paranóia, né? Mas se a prefeitura proíbe um cartaz q só está ali enfeiando a paisagem, ¿por que é q não proíbe a vileza insidiosa e ofensiva de amarrar o povaréu à frente duma telinha e emerdar-lhe o cérebro?

15 comentários:

Herpes da Fonseta disse...

Marketing de arrastão mesmo.

domingos junior disse...

a coisa é mesmo detestável. a gritaria do vendedor de peixe da feira livre saiu da rua e tomou um ônibus. ave, newton!

Severino disse...

Vc esta ficando meio chato...

Neanderthal disse...

O importante no marketing é:
1) ouvir a voz do cliente,
2) mudar os paradigmas e
3) agregar valor.

Está tudo escrito na missão da empresa.

Permafrost disse...

Severino, ¿ficando chato? Ué? Eu sempre fui chato.

Neanderthal, é verdade. Esse é exatamente o pobrema. (1) No caso em questão, o cliente não é a BustTv nem o anunciante. O cliente é o passageiro, q nem sequer foi consultado. (2) O paradigma q tem q ser mudado é o de imaginar o passageiro como uma ameba, um frango de granja, uma máquina de consumo. (3) O valor q precisa ser agregado seria o preço da passagem. O ameba paga pela passagem e ¿ainda por cima tem q aturar essa outra maneira de a empresa de ônibus faturar em cima dele? ¿Q catso?

Camelo disse...

Uma coisa é certa: por mais que a marquetagem nos irrite, não podemos subestimar a inteligência e a astúcia dos marqueteiros. Eles sabem exatamente o que estão fazendo, e não dão ponto sem nó. São raras as vezes em que a marquetagem sai pela culatra.
Se um certo anúncio lhe desagrada ou até mesmo o deixa indignado, certamente você não faz parte do "publico alvo" desse anúncio. Você (assim como eu) já deve ter comprado muita quinquilharia movido pelos atrativos de um anúncio (e nem sequer se deu conta de que foi vítima de uma ardilosa sedução - esse "embruxamento publicitário" acontece quando você faz parte do "público alvo" de um certo anúncio).
Por mais que nos julguemos espertos e refratários aos apelos da publicidade, sempre haverá um anunciozinho muito bem planejado e pensado, feito especialmente para nós, que vai nos induzir a comprar algo que não compraríamos por espontânea vontade. Pouca gente sabe que somos vítimas da "obsolescência planejada": compramos anualmente aparelhos denominados de "última geração" sem saber que já existe tecnologia e condições para se vender aparelhos muito mais modernos e baratos.
Por mais tolo que um anúncio possa parecer, ele faz sentido para seu "público alvo". Muita gente no ônibus deve ter pensado assim: "Pô, é mesmo!!! Eu devia tá olhando prum computador e não pra janela desse ônibus. Pô, que sacada, heim? Se eu entendesse mais de computador eu podia arrumar um emprego melhor e até comprá um carro, e pará de andá nessa porra de ônibus".
Aliás, os anúncios mais esdrúxulos e aparentemente "mal planejados" são os que mais seduzem a população. Eu lembro de um! O famoso Capilotom!!!
Era assim: "Se seus cabelos começam a cair, não passe ridículo!!! Use logo Capilotom. Capilotom é o tônico anti-caspa que acaba com a caspa (sic), a seborréia, ativando a raiz enfraquecida do seu cabelo. Use logo Capilotom!!!! E seja feliz!!!".

Permafrost disse...

Camelo,
Hmm.

É claro q, visto do ponto de vista do marcheteiro, vc está coberto de razão. O pobrema aí é q... vc comprou direitinho a desculpa do marketing.

A nefastância desse tipo de mídia é q sua premissa básica é "prá convencer 10 compradores, é preciso incomodar 10.000" ou, em termos reais, "pra convencer 10 mil, é preciso incomodar 10 milhões". Tipo telemarketing: é óbvio q sempre tem os trouxas q caem, mas pra cada venda q eles conseguem, mil outras pessoas tiveram q atender a porra do telefone e passar alguns momentos de puro enfado.

Ou seja, essa história de "atingir o público alvo" é uma lorota. O marcheteiro é um cego q se arma até os dentes pra ficar dando tiro pra todo lado até acertar um alvo. Haja bala perdida. O admirável não é q ele acerte, mas q os clientes tenham tanto dinheiro pra gastar inutilmente armando o ceguinho.

carioca disse...

bem tirada essa da "cidade que nunca cala a boca"

Neanderthal disse...

Como diriam Al Ries e Jack Trout: "a área de marketing joga mais dinheiro no lixo do que qualquer outra atividade humana, exceto política, é claro."

Severino disse...

So falei isso porque vc tem o melhor "post" de todos os tempos quando fala do Pequeno Ponei do Caco Galhardo. Nao tem nada parecido com aquilo para o Dr analisar?

Permafrost disse...

O doutor esteve sem tempo...

Rafaéu disse...

Pois é. As pessoas já não olham umas pr'as outras, agora só se vêem no reflexo da tela plana.
Esses dias aprendi a preparar pinhão e passei o resto do dia com a música do Claudinho e Buchecha. Minha vida mudou (para pior) neste dia.

Daniela disse...

Essa coisa horrorosa chamada BusTV me lembra os anúncios do Dentifrício Denham no metrô da história do livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Grande livro aliás, que me dá um pouco de medo, na verdade, de ver o quão próxima nossa realidade é deste livro.

Permafrost disse...

Rafaéu, pinhão, aprovo; Cla & Bu, desconheço.

Daniela, explica melhor essa coisa do Denham, please.

Pracimademoá disse...

Olha isso, cara! Olha isso! OLHA ISSO!!!

http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/noticias/2015/07/20/Elemidia-chega-a-predios-residenciais.html

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