01 junho 2006

A norma estulta, essa incompreensiva

Pra entender grande parte do q segue, é preciso ler os comentários ao post anterior, onde gerou-se uma polêmica. Um leitor respeitado por aqui, o Pracimademoá, tem uma opinião contrária à deste blogue no q diz respeito à gramática e à norma estulta. É em respeito às objeções dele q dou aqui a resposta final, redigida em tandem com o Dr Plausível. O Pracimademoá certamente foi atacado pelo vírus da hipoplausibilose gramática. Não é caso de rir, e o Dr Plausível leva essa coisa de gramática a sério, principalmente qdo se trata de alguém inteligente e sóbrio como esse leitor.

Pracimademoá,
Pela última coisa q vc disse, me dá a impressão de q não consegui explicar nada. Vou tentar resumir tudo aqui, só pra q vc não fique pensando coisa feia de mim ou do doutor.

Toda "regra" gramatical é uma codificação inferida a partir dum fenômeno natural. A gramática normativa é um disparate porque a língua não é uma invenção humana, mas um fenômeno humano, ou seja, algo q já tem "regras" naturais. Ninguém precisa ficar fuxicando.

O português é uma das línguas q foram surpreendidas no século 19 pela repentina evolução em todos os ramos do conhecimento justamente numa época em q se tentava, através das academias, consolidar e codificar certas línguas baseando-se nisso q vc chamou de "refinamento do entendimento e das manifestações humanas". Vc poderia argumentar q as próprias academias foram parte dessa evolução, mas o buraco da língua é sempre mais embaixo. A língua é sempre vários graus mais complexa do q qqer refinamento do entendimento possível numa normatização.
Sorry. Quem normatiza uma língua tem o plano "vamos codificar a língua da maneira mais racional e refinada possível pra termos um instrumento sólido e coerente com o qual poderemos realizar a contento todas nossas interações." Mas ninguém tem bola-de-cristal, e muito menos uns lexicógrafos e gramáticos inferindo regras numa sala fechada, abafada e empoeirada. Não dá pra prever quais conceitos, quais tecnologias, quais modos de interação vão ser criados, o q é q a mente humana vai produzir – seja através dos gênios, seja através do povão. Assim, não dá pra prever quais novos fenômenos surgirão e portanto quais "regras" naturais a própria língua vai criar pra se adaptar a eles. Por exemplo, ¿quem iria prever a internet, onde a língua escrita vem tentando se acelerar, disseminando abreviações perfeitamente coerentes, claras e cabíveis como 'vc', 'pq', &c? Eu só não grafo 'qual', 'quais', 'quem' e 'quaisquer' com 'ql', 'qs', 'qm' e 'qsqr' pq sei q muita gente retrógrada iria bobamente fazer questão de não me ler.

É gritante a inépcia do português no mundo de hoje. A revolução industrial, por exemplo, jamais poderia ter acontecido num país de língua portuguesa.
Sorry. Impensável. O português de ontem e hoje simplesmente não tem a ginga, a abertura, a sutileza, a precisão e a nitidez de línguas como o inglês, o alemão e o japonês, q lhes permite sustentar e agilizar o intercâmbio de idéias, a ampliação diária de novos horizontes. Mas o povo (todos nós) sente o empurrão do tempo, e constantemente, dia após dia, frase atrás de frase, tenta puxar o português pra uma maior ginga, uma maior abertura, uma maior elasticidade e criatividade; e o tempo todo, quaisquer novidades lingüísticas (q são concepções, conceitos novos) são inapelavelmente censuradas pela tutelaria de plantão, esfregando a gramática normativa no nariz das criações necessárias. Fala-se muita merda, claro. Mas um dos resultados mais nefandos da norma estulta é q pouca gente realmente gosta do português, do jeito, por exemplo, q os ingleses gostam do inglês, se divertindo, se emocionando e se esclarecendo: ninguém se diverte com o português depois de passar pelo corredor polonês q é a escola. Papo de brasileiro é, via de regra, ou chato ou chulo ou chucro (e eu aprendi a fazer isso com o inglês). Por causa da normatização, o uso do português, q deveria fluir naturalmente, é atormentado por inseguranças, vergonhas, arrogâncias e desperdício.

É claro q nada do q está dito acima deve ter a mínima importância pra alguém q acha necessário colocar sela e arreios na língua pra conquistar o Oeste. Mas é bom q se lembre q na mente e no coração das pessoas existem mais coisas do q prevê a vã gramática.

11 comentários:

Eu é que sei disse...

Matou a pau.

Só faltou dizer que não é o caso de impor regras em substituição às da norma, apenas deixar que o português cuide de si mesmo e encontre sua própria liberdade criativa.

É isso. *rs*

M4rcoS disse...

Estou sem palavras.

M4rcoS disse...

Bravo!

Pracimademoá disse...

Pablo, essa conversa não vai muito longe. Eu vou falar pelos cotovelos agora, mas duvido que qualquer um de nós recue ou avance um centímetro. Vamos tirar as teias de aranha do Dois Panacas Discutindo.

Agradeço os elevados protestos de estima e consideração, que eu retribuo freqüentando este blogue amiúde como forma de lazer e gastando meu tempo neste post quilométrico, mas continuo firme em minhas crenças, até porque achei sua resposta muito fraca. Até me custa acreditar que o Doutor tenha mesmo ajudado você. Eu acho que desta vez você escreveu sozinho. ;-)

Contando os parágrafos a partir deste: "Toda "regra" gramatical é uma codificação inferida...":

§1: A música também é um fenômeno, é forma de comunicação, e tem regras. Você não é músico? Convive bem com as regras, pois não? Pode-se argumentar que as artes não têm regras. Cada artista faz a maluquice que quiser. E sabemos a merda que dá: tinyurl.com/7jq7t . Veja quanta besteira tem a Bienal, por exemplo. Mas a arte se mistura com filosofia e entretenimento. Pouca conseqüência resulta das falhas de comunicação das artes. A língua tem uma responsabilidade muito maior e mais imediata. Se a língua não comunicar, falha miseravelmente em toda sua razão de existir. E muita coisa extremamente importante depende desta comunicação. Não pode virar casa da sogra.

§2: Fiquei espantado com o segundo parágrafo por ele ser tão esburacado.

1) Muitos objetos, métodos, conceitos, objetivos, receios, cacoetes e maneirismos mudaram desde o século passado, mas nada assim tão novo sob o sol que a velha gramática impeça de se descrever com toda a precisão que um homo sapiens pode conceber. Repito: o vocabulário caduca com rapidez, mas a gramática continua comportando tudo com perfeição. Seu argumento sobre bolas de cristal seria pertinente se falássemos de vocabulário. Não de gramática.

2) Fico espantado em ver como você deixa o seu desprezo tomar conta e a que ponto subestima os gramáticos. A gramática não foi prescrita por uma dúzia de cupinchas "numa sala fechada, abafada e empoeirada". Vai ser tendencioso assim na redação da Veja! Todas as possibilidades sintáticas ocorridas na comunicação natural foram analisadas, entendidas, circunscritas e descritas num sistema engenhosamente abrangente. Com muita cautela e seriedade, tenho certeza. Talvez numa sala fechada, não importa, mas o material estudado vinha de fora, é claro. E nem foi assim, numa tarde ou duas noites. É a culminância de um processo levado a cabo por vários grupos em várias etapas e através de várias épocas.

Pracimademoá disse...

3) Você insiste em dizer que o tempo passou e a gramática caducou, mas não apresenta provas. Ainda não me respondeu o que é que você não consegue expressar com a gramática atual.

Eu estou duvidando muito que você consiga porque, na minha opinião, na verdade a gramática *sobra* cada vez mais. Ela permite muitos arranjos sintáticos que estão caindo em desuso simplesmente porque as novas gerações são preguiçosas e apedeutas demais para se interessar por elas ou mesmo entendê-las. Sapeco-lhe de novo a música como metáfora: antes o quente eram sinfonias belas e profundas com arranjos complexos. Hoje o quente é o batidão monótono e grosseiro do funk. A gramática da nova geração segue o mesmo caminho: um empobrecimento trágico e lacrimável. A gramática não falta. Só sobra, na medida em que soçobra o nível intelectual e cultural dos usuários.

Você poderia ter me saído com um argumento que se preze: citar artesãos das palavras verdadeiramente geniais que supostamente vêem-se legitimamente obrigados a subverter as convenções lingüísticas para viabilizar a descrição de algo tão extraordinário que realmente não caiba dentro do universo exíguo da gramática que você insiste em condenar sem acusação nítida. Mas em vez disso, você só parece falar em nome da plebe rude e ignara, que só não convive pacificamente com a gramática porque *não a entende*. Pior, a grande maioria é incapaz de se aprofundar o bastante em qualquer assunto para sequer chegar perto dessa tal estrema que você jura que existe e que obstrui o avanço de sertanistas do pensamento.

Ora, Pablo, você vem me falar da Internet? Será que eu entendi direito? Então seu parâmetro de bom português são os blogues e as salas de chat? A gramática é uma tirana porque contradiz as sandices sintáticas desta matula semi-letrada? Se é assim que você pensa, vamos então mudar as leis e descriminalizar o roubo, o estupro e a sonegação. Tanta gente não consegue mesmo cumprir as leis que proíbem este atos, não é mesmo? Falta cadeia para tanto criminoso. Está provado que a Constituição está obsoleta. Se a população está aquém das regras, mudemos as regras. Ora, esta!

Olhe, se você tentar defender a tese de que mais de 0,5% (e olhe lá!) da população brasileira vive plena de sentimentos tão profundos e inefáveis ao ponto de ter que pleitear alguma espécie de lebensraum *gramático* (não vocabular), EU é que vou te chamar de hipoplausibilético.

Pracimademoá disse...

4) Ô, ô, ô, e ainda tem o número 4! Você encerra o parágrafo falando da sua frustração com as abreviações, mas isto é ortografia, não é gramática. Você foi se queixar disso no blogue do outro cara lá e agora fez exatamente a mesma coisa aqui. Confundiu gramática com ortografia. Prestenção aí, fazendo favor!

Fôlego...

§3 No próximo parágrafo, você se queixa de uma "inépcia do português" que eu desconheço. A língua portuguesa continua belíssima nas mãos e nas bocas de quem a compreende e aprecia e usa com carinho, e saindo-se muito bem com todos os acontecimentos hodiernos, A NÃO SER QUE você esteja se referindo a vocabulário mais uma vez.

Como você bem disse, "o buraco da língua é sempre mais embaixo". Ao fim do parágrafo você *esbarra* no verdadeiro problema: a escola. A escola não ensina nada direito. A escola é uma tragédia conduzida por gente de vida trágica. Ninguém com nível cultural e intelectual que se preze vai querer desperdiçar sua única e breve vida no ofício desgraçado de ensinar filho dos outros por uma merreca implausível. Assim, só restam dois tipos de educadores: os néscios que nem sabem o que estão dizendo para suas turmas e os preparados que se arrastam todas as manhãs até as escolas com muito rancor e nenhum entusiasmo dentro da caixa torácica.

O buraco é mais embaixo porque todo estudante é um provável futuro concorrente de quem mais estiver no mercado quando ele crescer. Seu crescimento pessoal há de beneficiar a nação em longo prazo, mas num prazo longo demais para que se avistem benefícios para quem está pagando a conta de um aluno da rede pública. A educação só interessa ao próprio educando que, por não ter tido ainda a educação, não tem condições de pagar a conta de sua própria educação. A conta do ensino público tem que ser paga por quem não tem interesse nenhum em gerar futuros concorrentes (ou concorrentes dos seus filhos) devidamente preparados. Não é de se admirar que esta educação "de favor" seja tão imprestável.

Este e outros métodos de emburrecimento em massa funcionam como um reloginho e vemos sempre crescer uma geração mais rústica e inapta que a anterior.

Para piorar ainda mais as coisas, ressalto um fator que em nenhum momento você parece ter levado em consideração. As palavras são geradas por idéias, mas também as idéias são geradas pelas palavras. 99,99999% das pessoas só conhecem aquilo que já viram ou ouviram em algum lugar e carecem totalmente de imaginação. Muita gente espeta um conhecimento no outro e chama isso "de imaginação". Haha. Imagine você. Essa reciclagem viciosa torna ainda mais propícia a estagnação e dá à gramática um bocado mais de dianteira em sua missão prescritiva.

E daí você vem me dizer que a gramática atual não é suficiente para a franca decadência sináptica destas vítimas de sabotagem? Que eu estou hipoplausibilético? E fecha com esta sorrelfa de que "na mente e no coração das pessoas existem mais coisas do que prevê a vã gramática"? Ô, mas que frase de efeito, hein?! Pra cima de moi!!!!

Permafrost disse...

Demoá,
É inegável a sua boa intenção. E por isso dou esta resposta apressada prometendo uma resposta mais elaborada futuramente. Se vc me desse esse comentário seu pra eu assinar embaixo, eu assinava e ainda mandava reconhecer a firma, nem q fosse por solidariedade. Concordo com vc em quase 90%. O 10% restante é um dos problemas entre o meu texto e o seu comentário. Sobre isso, depois. Adianto apenas q não vejo problema nenhum com a gramática: seria como me irritar porque meu vizinho usa lençol de bolinhas. O grande problema é gramática *normativa*, a infame "norma ãã culta" (q vc nem sequer mencionou aí), ou melhor dizendo, a mera existência do conceito de gramática "normativa" numa cultura improvisada e/ou derivativa como é a brasileira.

Tenho outras coisas pra resolver, e na volta escrevo.

Carlos Beltrão disse...

Pracimademoá: eu já gostava deste blog, agora peço para que nunca pare de escrever aqui. A conversa entre você e Permafrost é muito boa, rapaz!

Eu é que sei disse...

Acho que entendi o que você quis dizer, Perma. É tal como se o Pracima estivesse otimistamente com uns binóculos vendo seu batalhão avançando contra o inimigo lá no horizonte e você estivesse pedindo que ele virasse os binóculos uns dois graus à direita para enxergar todo o resto de seu exército sendo massacrado.

In order to be precise, you are bound to be metaphorical. (John Middleton-Murry)

Pracimademoá disse...

Ah, outra frase de efeito! O pessoal aqui anda se esquecendo muito de tomar seu xarope contra o apotegmatismo pela manhã.

Eué, se eu entendi bem sua metafora, acho que você quer dizer que eu estou muito equivocado. Se é isso que acontece, que tal você explicar *exatamente* como e por quê eu estou tão enganado?

Nem precisa esperar o Permafrost voltar. Estou certo de que ele terá prazer em ler sua bela explicação. Gente sarcástica como você às vezes diz coisas muito interessantes.

Eu é que sei disse...

Podemos todos ser amigos por aqui, Pracima. O meu comentário foi feito num espírito de saudável pirraça entre cavalheiros discutindo um assunto impessoal, tendo reconhecido a vossa pirraça ao me mandar à merda anteriormente. A parte importante do meu comentário não foi a parte que você interpretou como sarcasmo, mas "virar os binóculos uns DOIS GRAUS", com o intuito de dizer que a diferença entre o que você diz e o que o Perma diz é muito pouca, mas que lá na frente vai fazer toda a diferença entre o que funciona e que não funciona. Eu conheço o Perma e o doutor de longa data, e acho que eles podem se explicar melhor do que eu poderia nesse assunto. Também não acho que você esteja enganado, e também que ninguém aqui quer convencer você de nada.

Bola ao pé

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