05 setembro 2003

Neologismos e neomundos

Um dos órgãos cerebrais mais afetados pela hipoplausibilose é uma pequena região ao lado da área de Brocca chamada Centro de Simancol Gramático. Praticamente todo gramático normativo ou prescritivo profissional tem o CSG quase totalmente atrofiado por ataques sucessivos de hipoplausibilose. ¡Êta gente sem simancol! E o pior é q ficam com aquela pose toda achando q são mais 'desenvolvidos' e 'cultos' e o escambau.

Olhem a Academia Brasileira de Letras, por exemplo, uma instituição dedicada a baixar a auto-estima de todo brasileiro q não soletra, não conjuga e não pronuncia exatamente como seus membros. ¿Por que não vão plantar pirulito em careca de otário? O brasileiro médio acha q fala errado, q não pode usar palavras q não estão no dicionário, tira sarro de quem não soletra como está no dicionário, e coisas assim. E ao mesmo tempo, ¡êta ironia do terceiro-mundo!, admira, inveja e imita tudo q vem dos EUA e da Europa, de países onde ou não existe nenhuma academia normativa da língua ou onde cada um fala e escreve como quer e não dá a menor bola pra o q dizem as academias. Acho q nem você q está lendo pescou onde está a hipoplausibilose nisso, né?

A teoria do Dr Plausível é muito simples: cultura q rejeita neologismos, desvios do padrão, &c na língua q fala é cultura q não cria idéias novas, não desenvolve as antigas e em suma anda em círculos atarracados em volta do q já existe. ¿Vcs já notaram q toda idéia nova vem com um vocabulário novo? Logicamente não é o vocabulário q cria as idéias, mas é a liberdade de criar termos novos o q permite a desenvoltura na manipulação das idéias. Cada vez q um brasileiro tem uma idéia q poderia ir prà frente, fica gastando sinapses e neurônios com a regência verbal, a ortografia e o cuidado pra não passar um carão. ¡Qta bobagem!

Os malapropismos do Vicente Matheus são ridicularizados no Brasil enquanto q os do equivalente estadunidense, um jogador de baseball chamado Yogi Berra, ficaram célebres, a ponto de ele ser homenageado até em desenhos animados: o nome original do Zé Colméia é Yogi Bear. Os disparates q Berra disse continuam a ser citados, e são vistos exatamente pelo q são: frases estranhas e engraçadas; ao passo q a baixa estima lingüística do brasileiro transforma as frases estranhas e engraçadas do Vicente Matheus em veleidades vergonhosas e aberrações ignorantes.

E por essas e outras, o Brasil parece condenado a pegar a rabeira da história. ¡Êitcha!

9 comentários:

dacasa disse...

Assino embaixo, lembrando da minha 'montanha tacanha'. "Mas, segundo o Aurélio, tacanha não significa bem isso", ela sentenciou. "Mas o que vale é o jogo, é o jogo...", eu tentei explicar.

Ora pois pois, língua é massinha de modelar, e não estátua em museu.

Ruy disse...

Alvo errado, doutor. A Academia Brasileira de Letras está cheia de gente que: a) não sabe soletrar, conjugar ou pronunciar como manda a dita norma culta; b) sabendo ou não, faz da língua massinha de modelar, como -sim, senhores- José Ribamar Sarney e seu "Borrachudos É Fogo". Que a massinha de modelar fique com aspecto de cocô é, aqui, absolutamente secundário. Acho que quem anda precisando urgentemente de seu socorro é o nobre deputado Aldo Rebola. Abraços.

Permafrost disse...

Ruy: Leia minha resposta a seu comentário no blog "Dois panacas discutindo": ela não caberia nem aqui nos comentários nem no Dr Plausível.

Nianderthal disse...

"Me inclua fora dessa!"

Recentemente o Professor Dílson Catarino criticou essa frase no site UOL. Sua conclusão: a frase deveria ser: "Exclua-me dessa!"

Mandei um email a ele, reclamando que a frase ficara sem graça.

Sua resposta:

"A coluna faz parte do "Vestibuol", site destinado a vestibulandos, que não estão à procura de textos humorísticos. A minha função não é ser engraçado nem ver a graça das frases, e sim, por meio de textos jornalísticos ou por outras fontes, ensinar nossos jovens gratuitamente a adequar as frases ao padrão culto da Língua. Eu sei que a frase é de autoria de Carmem Verônica, uma das "Certinhas do Lalau", nome do programa apresentado na década de sessenta por Stanislaw Ponte Preta. Era uma piada, então. Na revista Veja, porém, não houve alusão ao programa, nem à autoria da frase. Os jovens que a leram podem tê-la julgado adequada, já que constava de uma das principais revistas de informação do Brasil em uma reportagem séria. Vários alunos meus me perguntaram se a frase estava certa. Recebi, também, muitos e-mails de estudantes de algumas regiões do Brasil, que ficaram confusos com ela. Perceba, então, que o assunto é sério. Não se trata de ter ou não ter senso de humor. Trata-se de "prestação de serviço". Quem quer "curtir" ironia ou jocosidade deve visitar sites como o "humortadela", e não colunas destinadas a jovens angustiados à procura de realizar seu sonho, que é conseguir uma vaga nas universidades brasileiras."

dacasa disse...

Que ironia: a resposta dele foi uma memorável peça humorística. Principalmente se você o imagina escrevendo "jovens angustiados" com uma carinha de indignada afetação.

Permafrost disse...

Outra ironia: eu termino dizendo q o Brasil parece condenado a pegar a rabeira da história, e vem esse palhergo do Dílson Catarino dizendo "Eu sei que a frase é de autoria de Carmem Verônica" nos anos 60, qdo na verdade a frase é um traduzês de "Include me out.", pronunciada lá pelos 40 pelo Samuel Goldwyn (da MGM), q faz dobradinha lingüística c/ o Yogi Berra. Outras pérolas do SG: "Never make forecasts, especially about the future"; "Give me a smart idiot over a stupid genius any day"; "They stayed away in droves"; "An oral contract isn't worth the paper it's printed on"; "Anybody who goes to a psychiatrist ought to have his head examined." O site de onde tirei estas últimas diz "These (...) reflected a cleverness that was unique among his class, and which added new wrinkles to the English language." Ou seja, estão longe de ser consideradas "veleidades vergonhosas". Nianderthal, acho q vc deveria informar o Catarino, e dizer q ele não deveria ter "corrigido" a frase, mas mostrado q quase tudo q é falado ou escrito contém citações, e q a única maneira correta de citar uma frase engraçada é fazê-lo verbatim: não há como "corrigir" uma frase como a do SG: ou vc entende o ponto ou não entende.

Permafrost disse...

Em tempo: dezenas de leirores já me perguntaram o q quer dizer 'palhergo', afinal.

Bem, é uma palavra q eu mesmo criei; portanto, acho q cabe a mim defini-la:

Primeiro, uma explicação de 'espantalho' em retórica:

Numa discussão, digamos, entre X e Y, diz-se q X construiu um 'espantalho' se ele atribue a Y uma opinião q este não tem; X atribue a Y essa opinião (o "espantalho") apenas pra poder demoli-la e cantar vitória, qdo na verdade a opinião real de Y permanece intacta. É como se, numa briga, um dos brigantes construísse um espantalho, botasse fogo nele e cantasse vitória, enquanto q o brigante adversário espera o ataque q nunca vem.

Pois bem, 'palhergo' é aquele q constrói um espantalho (homem de palha) retórico.

Fabiane disse...

Acho engraçado que "baixa estima" seja comum, enquanto "alta estima"... bem, acho que deu pra entender onde quero chegar.

Permafrost disse...

Fabiane, dou minha palavra q não deu pra entender. Rogo-lhe q seja explícita.

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