02 fevereiro 2004

A norma estulta

Pra deleite da platéia, aqui vai um exemplo da estulta 'norma culta' em ação.

O contexto é o seguinte: Minha esposa faz traduções pra legendagem. Um de seus empregadores menores é um intermediário q fornece traduções para, entre outras, uma empresa sediada em Miami q se gaba de produzir traduções num português "da melhor qualidade", isto é, seguindo os padrões canhestros, retrógrados, ineficientes e contraditórios da infame 'norma culta'.

O intermediário no Brasil encomendou a minha patroa uma tradução q seguisse o padrão de outro cliente, um padrão mais natural e abrangente. Terminada a tradução, esta foi revisada por outra pessoa, seguindo o padrão daquele cliente retrógrado de Miami. Ato seguido, esta revisora enviou um email a minha digníssima cônjuge, apontando alguns "erros". Veja algumas legendas, os "erros" apontados pela revisora (q tbm vê o filme) e os comentários dela. Não estou criticando a revisora: ela está apenas seguindo normas do cliente:

[1]
Fulana, preciso tomar uma decisão importante hoje. Me responda.

"Não se pode iniciar uma frase com os pronomes átonos, pronomes pessoais do caso oblíquo: me, te, se, lhe, nos, vos, lhes. (...) Não adianta argumentar que é assim que se fala. Isso é mais do que sabido, porém não é gramaticalmente correto. Não passa."

Notem o "não se pode"; notem tbm q "é mais do q sabido q é assim q se fala, porém não é gramaticalmente correto". BRUHAHAHAHAHAHA There is no cabbiment!!

[2]
- Seu irmão está feliz?
- Acho que sim. Mas anda meio obcecado com as coisas de Fulano.


"Quem anda?"

Isto é, se a legenda não diz explicitamente 'ele anda', vai "confundir" o espectador. HAHAHAHAHA Como se este fosse tão estulto qto os defensores da norma culta, ou como se toda frase em português devesse ter sujeito, como no inglês. Ainda mais q, se o sujeito oculto em 'anda' pode ser qqer pessoa, então o sujeito explícito em 'ele anda' tbm pode, ¿ora pois não?

[3]
O casal principal, à porta de sua casa afastada da cidade, se despede dum empregado q vai embora a pé, passando entre os dois carros do casal. A mulher diz ao marido:

Devíamos oferecer uma carona.

"A quem?"

¿Como assim, a quem? ¿O espectador por acaso é cego? Se fosse, não estaria lendo legenda.

[4]
Duas crianças de mais ou menos 10 anos estão brincando de pega-pega. Uma pega a outra e grita:

Peguei. (¡Ponto de exclamação é proibido!)

Correção: "Eu o peguei, ou Eu a peguei."

HAHAHAHAHAHAHA Imaginem uma criança pegando a outra e gritando "Eu a peguei, eu a peguei!" ¡Qta cretinice! Esse pessoal da norma estulta deve ser de outro planeta. Outra coisa ridícula é a tradução 'oficial' de 'I love you', q é 'Eu o amo' ou 'Eu a amo'. Só q, na burrice estratosférica desse pessoal, esquecem q, como não se usa mais o tu em português, as traduções 'corretas' seriam tbm equivalentes a 'I love him/her'. Se a patroa me disser 'Eu o amo', já vou logo perguntando '¿Quem é esse filho-da-puta?'.

[5]
- Não sabe perder, é?
- Cale a boca.


Correção: "Você não sabe perder, sabe?"

Ai, ai. Explicar esta me faz sentir como o Louis Armstrong respondendo àquela mulher q lhe perguntou o q era jazz. Qqer diretor de tradução q não percebe a diferença entre "Não sabe perder, é?" e "Você não sabe perder, sabe?" deveria procurar outra profissão: caixa de banco, magnata do petróleo, jardineiro.

[6]
Um homem demonstra o uso dum martelo munido dum ferrão pra abater ovelhas.

Meu avô e um ferreiro inventaram estes martelos. Veja só este ferrão. Entrava direto no cérebro. Abria um buraco no crânio.

"Quando o verbo está na 3a pessoa do singular, é importante colocar o sujeito, para facilitar para o espectador. Quando está no passado, ainda mais, porque a forma é igual para a 1a pessoa também."

¡Té parece q tem tanto espectador com o nível de tacanhez dessa gente! É simplesmente ridículo acreditar q qqer um dos 170 milhões de brasileiros entenderia "Veja só este ferrão. Eu entrava direto no cérebro. O Zé abria um buraco no crânio." Pois então ¡tenha a santa! Aliás, se é pra ser tão específico, a tradução mais explícita seguindo o padrão dessa empresa seria "Veja este ferrão. Ele abria buracos nos crânios delas. Ele entrava diretamente até os cérebros delas." ¡Ah vá catá coquinho, sô!

Um dos padrões dessa firma é nunca citar o nome do tradutor. Minha mulher (q aliás nem faz idéia de q estou escrevendo isto) acha ótimo, pois teria vergonha de ter seu nome associado publicamente a essa firma.

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O típico defensor da norma culta é como um burrico q não consegue viver sem arreio e cabresto. Além de exigi-los pra si, exige-os pros outros. Tem ouvido de lata pràs infinitas nuances da língua, seus infinitos níveis de expressão, sua flexibilidade e seus climas. Não sabe q as palavras servem tanto pra expressar o pensamento como pra escondê-lo; não enxerga q o objetivo duma única frase pode ser insultar, esclarecer, confundir, desprezar e seduzir um interlocutor, tudo ao mesmo tempo. E o pior de tudo, acha q está seguindo preceitos lógicos e inescapáveis. ¡Essa é de matar!

O diretor de traduções dessa empresa (q, pasmem, é brasileiro) precisa não de um, mas de dois arreios pra viver e ser feliz: o arreio da norma estulta e o dos usos da língua inglesa (todo verbo exige sujeito, todo verbo transitivo exige objeto). Transforma suas traduções numa gororoba culta e feia, composta de atropelos ao bom-senso, insultos à sensibilidade e ataques agudos de hipoplausibilose.

O Dr Plausível só se recosta na poltrona e ri. Simplesmente ri. Pois ¡como é engraçado assistir os últimos estertores dum bicho ridículo em extinção!

4 comentários:

Carlos Amaral disse...

Prezado Doutor,

sou um tradutor português e estou com uma dúvida que surgiu no seio de um grupo de amigos/tradutores sobre a utilização do sujeito oculto ou elíptico no Português do Brasil. A situação é esta:
Se estiver a traduzir um curso de formação no qual vêm explicados os passos que o usuário/formando deve seguir, é estritamente começar uma frase com "você" ou pode ser oculto?
Um exemplo:
- No final desta etapa, pode selecionar uma das duas opções.
Ou deve ser:
- No final desta etapa, você pode selecionar uma das duas opções;
Ou ainda:
- No final desta etapa, pode-se selecionar uma das duas opções?

Muito obrigado pela sua ajuda
Carlos Amaral

Permafrost disse...

No Brasil, apareceria isto:

No final desta etapa, selecione uma das duas opções.

ou isto:

Ao terminar esta etapa, você poderá selecionar uma das opções abaixo.

jack disse...

Olá, eu gostaria de tirar umas dúvidas.

O correto seria

Faça-me um favor e não me faça um favor;

Queria saber quando deveremos usar TU.

Obrigada!!!

Eduardo Marques disse...

Eu só acho que na hora de criticar essas pessoas, você deveria deixar de usar palavras que podem se consideradas elogios, como "culto", em "Transforma suas traduções numa gororoba culta e feia". Eles podem ver isso e pensar: "Esse cara falou isso, isso e aquilo de mim, mas disse que eu sou culto. Valeu a pena. Eu sou muito culto mesmo". Aí não adiantou de nada. Acha que eles querem ser plausíveis? Só se importam em ser cultos.

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