fato 1: em 2003, os Euá se basearam numa lorota pra promover e realizar a invasão do Iraque;
fato 2: nos últimos 6 anos, 58% [7/12] dos Óscares de melhor ator e melhor atriz foram outorgados àqueles q fizeram papéis baseados em pessoas reais (contando os coadjuvantes, 46% [11/24]). Nos últimos 3 anos (isto é, nos Óscares relativos a 2004-2006), essa proporção subiu pra 83% [5/6] (com os coadjuvantes, 58% [7/12]). Veja a lista abaixo:
Ator:
2002 Adrien Brody fez Wladyslaw Szpilman em The Pianist
2004 Jamie Foxx fez Ray Charles em Ray
2005 Philip Seymour Hoffman fez Truman Capote em Capote
2006 Forrest Whitaker fez Idi Amin em The Last King of Scotland
Atriz:
2002 Nicole Kidman fez Virginia Woolf em The Hours
2005 Reese Witherspoon fez June Carter em Walk the Line
2006 Helen Mirren fez a rainha Elizabeth II em The Queen
Ator coadjuvante:
2001 Jim Broadbent fez John Bayley em Iris
Atriz coadjuvante:
2001 Jennifer Connelly fez Alicia Nash em A Beautiful Mind
2004 Cate Blanchett fez Katharine Hepburn em The Aviator
2006 Jennifer Hudson fez Effie White (baseada em Florence Ballard) em Dreamgirls
Não são apenas pessoas reais: não são, tipo, George Washington ou Lavoisier: são personalidades contemporâneas, de vidas já bem documentadas em fotos, filmes e gravações. Ou seja, na verdade esses atores e atrizes ganharam o Óscar por imitações.
É uma porrada de personagens reais, não acha? Mas ¿q tchongas tem o fato 1 a ver com o fato 2? ¿O q a invasão do Iraque tem a ver com os Óscares recentes?
A resposta é q, nos Euá de hoje, a relação desejo/realidade está muito mais desequilibrada q de costume. A razão de ser dos Euá é, sem tirar nem pôr, a fantasia de unir desejo e realidade – uma fantasia a q estão peculiarmente predispostas as culturas baseadas na língua inglesa.
"Quêêê? Língua inglesa? Mas esse discípulo do Dr Plausível só fala besteira, hem?" já ouço os leitores pensando. Ok. Então preciso demonstrar o q é q o inglês tem de peculiar. E pra q todos meus leitores entendam, e só pra entediá-los um pouco, vou usar comparações com o português pra demonstrar algumas peculiaridades do inglês.
Se vc está tentando aprender inglês, aqui vai uma dica: a estrutura dessa língua é extremamente burocrática e bitolada:
-a. A seqüência de informações numa frase inglesa só aparece na ordem [quando]-quem-verbo-quê-como-onde-[quando]; ou seja, o inglês diz "[ontem] eu comi uma jaca vorazmente no parque [ontem]" e não "eu ontem comi uma jaca no parque vorazmente" nem "eu comi vorazmente uma jaca ontem no parque" nem qqer de tantas outras combinações válidas e comuns em português.
-b. Os adjetivos vêm antes do substantivo, e (pra resumir) aparecem na ordem tamanho-cor-procedência-utilidade: em português, vc pode dizer "uma raquete marrom de tênis alemã enorme" ou "uma enorme raquete alemã de tênis marrom" ou várias outras combinações; em inglês, só se diz "um enorme marrom alemão tênis raquete."
-c. Qqer coisa dita em inglês segue scripts estruturais rígidos e consistentes; ao contrário do português, em q a semântica influencia a estrutura.
--c¹. Em inglês, se uma estrutura é usada numa situação, ela é usada pra qqer outra situação análoga. Se digo "não consigo viver com fulano" e "não consigo viver sem fulana", o inglês perguntaria "¿quem vc não consegue viver com?" e "¿quem vc não consegue viver sem?", ao passo q o português perguntaria "¿com quem vc não consegue viver?" e "¿quem vc não consegue viver sem?" (além de "¿vc não consegue viver sem quem?", q vale pràs duas línguas).
--c². No inglês, é sempre a mesma coisa: sujeito, verbo, objetos, complementos. O português diz "aconteceu um acidente ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua"; em inglês, se diz "um acidente aconteceu ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua."
-d. Ao falar de ações e acontecimentos, o inglês tende a ilustrar processos enquanto o português tende a observar resultados. Por exemplo, em português, um cara "entra na sala correndo" (primeiro o resultado, depois o método); em inglês, ele "corre pra dentro da sala" (primeiro o método, depois o resultado, acompanhando o fato).
-e. O inglês tende ao explícito e essencial, enquanto q o português (devido às muitas concordâncias necessárias) tende ao subentendido e ao redundante; por exemplo, em português, "nós colocamos as mãos nos bolsos" traz a informação /plural/ repetida em todas as palavras, não explicita de quem são as mãos nem os bolsos e precisa concordar a informação inútil qto ao gênero das palavras 'mão' e 'bolso'; em inglês, se diz "nós pôr nosso mãos dentro nosso bolsos."
-f. Como a estrutura inglesa é rígida e explícita, tende-se a criar novas palavras e expressões qdo uma lacuna ameaça aparecer na estrutura ou na explicitude, aumentando assim o detalhamento na descrição da realidade; em português, como as lacunas são facilmente preenchidas ou mesmo deixadas em branco como subentendidas, o vocabulário de palavras e expressões cresce ou se modifica bem mais devagar.
-g. Um país como os Euá seria impossível se baseado na língua portuguesa. Seria como imaginar o resultado se metade de todas as palavras e expressões de repente sumissem definitivamente de todos os livros, dicionários, jornais, conversas e memórias de 200 milhões de pessoas, levando junto metade das criações, produtos e instituições, q só se pode compreender e descrever com aquelas palavras.
O inglês é um sistema coerente e consistente de racionalizar, retratar e comunicar a realidade (ou melhor, o q a realidade tem de racionalizável). Foi através da explicitude burocrática da língua inglesa q os britânicos construíram e organizaram o maior império da história, e é através de seu detalhamento cartesiano q os euaenses criam e mantêm o país mais complexo e poderoso de hoje. Se não fosse falado por gente, o inglês seria um língua robótica, ultra-padronizada e esmagadora. O lance legal do inglês é justamente o fato de ser falado por seres humanos – q são uns bichos cheios de contradições, segundas intenções, inconsistências, vacilações, motivações q eles mesmos não compreendem, &c. Quer dizer, o robô inglês é lubrificado pela humanidade dos inglesantes.
Ao falar, o falante de qqer língua acha q está descrevendo a realidade. Todos se enganam mastodonticamente, é claro. Mas a eficiência do inglês engana os inglesantes duma maneira bem particular. A descrição padronizada da realidade tem um preço: onde tudo está esquadrinhado, parece haver poucos mistérios; e ao mesmo tempo em q o inglesante de hoje descreve a realidade com invejável precisão e economia, chegando a controlar o mundo natural com igualmente invejável prec. e econ., ele se crê capaz de também controlar as contradições inerentes ao convívio social. O notório puritanismo e preciosismo dos euaenses tem exageros singulares: vê-se desde o conceito de "politicamente correto" aparecer e se alastrar como fogueira em mato seco, até menino de 6 anos ser indiciado por beijar o rosto duma coleguinha de escola, passando por todas as falcatruas truculentas pra disseminar o conceito (pra eles, moralmente imperativo) da democracia. Depois q o detalhamento do inglês os ajudou a construir o país mais organizado, poderoso e confortável da história – a terra q realiza os desejos de seus ocupantes –, os euaenses caíram numa armadilha cognitiva: a representação da realidade acaba se tornando a coisa-em-si: a coerência e consistência do inglês é confundida com a coerência e consistência do mundo natural; e daí o convívio social, as relações políticas, os medos irracionais, as confusas dinâmicas do desejo, &c acabam enganosamente parecendo por sua vez nitidamente coerentes e consistentes e, portanto, passíveis de controle.
¿Será coincidência q, num momento em q os Euá descobrem no 11 de setembro a ineficácia de seus controles, e descobrem no Iraque a futilidade de seus desejos, e também ali são lembrados diariamente da incoerência e inconsistência das relações humanas, será coincidência, pergunto, q a CRIAÇÃO de novas personagens no cinema seja preterida em favor da IMITAÇÃO de personalidades reais?, q os euaenses busquem o escapismo numa realidade q seja ritualisticamente controlada por um script?
O Dr Plausível diria q não é mera coincidência.
De fato, o "script" (aliás, a única palavra inglesa q fui obrigado a usar neste texto) é um elemento essencial da cultura euaense. Pouco se faz nos Euá sem um script, ou sem q alguém imponha um script. Veja esta foto, tirada sesdias por um leitor num banheiro público na Flórida (¡obrigado, CBeetz!):

[Molhe as mãos e aplique o sabão. / Esfregue as mãos e enxágüe. / Seque bem as mãos com toalhas de papel.]
E é lóóógico, um script é o q eles tentam promover no resto do mundo. O q Condoleezza Rice faz viajando por aí é distribuir scripts, q uns aceitam e outros não. Ironicamente, o q faz (por exemplo) um israelense e um palestino aceitar a arbitragem da secretária de estado dum país do outro lado do mundo é um subentendido: ¿recusou Condoleezza? minhas condolências: eles e ela sabem q o poder dela emana não do valor intrínseco de seu script mas do poderio bélico q a leva de lá pra cá.
A questão é q, qdo se trata de grandezas conhecidas, do mundo natural, de organizar gente imbecil, ¡os scripts dão certo! (Todo o mundo prefere chegar em festa q já está rolando.) O script é a expressão dum desejo de como certas coisas devam funcionar. Eu faço blá, vc faz blé, ele faz bló e os três construímos algo juntos. A armadilha na eficiência do script é q, ao confundir desejo e realidade, se perde (também ironicamente) o controle não sobre a realidade mas sobre o desejo: ¿O q se quer ver no cinema, afinal?, homenagens ou diversão? ¿O q se quer ver no Iraque, afinal?, gente agradecida ou gente livre?
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Dois apartes:
(1) Existe a teoria de q a língua q uma pessoa fala influencia sua percepção das coisas. Tipo, se uma língua não tem uma palavra pra 'verde', então seus falantes não percebem a cor verde da mesma maneira q os falantes de outras línguas. Essa teoria já foi devidamente refutada, e não é dela q estou falando aqui. Estou falando da língua não como um dado da cognição individual mas como uma ferramenta de comunicação entre indivíduos. Exagerando, se uma cultura não tem uma palavra ou expressão pra, digamos, 'estupro', é evidente q, embora possa haver nessa cultura algo q outras chamariam de "estupro", não há maneira de, por exemplo, inserir o conceito inconfundível de 'estupro' na legislação dessa cultura sem um termo ou expressão q o designe; portanto, essa cultura não consegue falar do conceito de 'estupro' como uma entidade independente e seu sistema legal será, conseqüentemente, mais simples nesse aspecto do q uma cultura q contém o termo. Já é difícil em culturas onde o termo existe; imagine onde não existisse. Resumindo, a complexidade duma cultura está diretamente ligada a seu vocabulário de palavras, expressões e estruturas. Mais sobre isso aqui.
(2) Nada do q digo aqui invalida-se caso a onda de filmes retratando personalidades reais termine logo e nenhum Óscar seja dado a esse tipo de filme no futuro. É bem provável q muita gente, mesmo na academia, já tenha notado a tendência. E tal como diz Will Self, em The Quanity Theory of Insanity, "o efeito q a observação tem sobre acontecimentos aberrantes tende a ser a reversão de sua causalidade" ("the effect of observation on aberrant events tends to be the reversal of their causality").