Várias vezes em sua visionária vida nosso emoldurado doutor entediou-se a ponto de não gargalhar perante uma incoerência. Sesdias foi se entediar com O Céu de Suely e não gargalhou. Tadinho. Bocejar + gargalhar = engasgar.
É notável q tantas pessoas tenham elogiado a hora e meia em q ficaram sentadas vendo um conto fazendo de tudo pra virar um livro, menos o necessário, um filme cheio de buracos narrativos e pausas longuíssimas e inócuas entre uma fala e outra ("¿Quer comprar minha rifa?" ... pausa... ...olhar fixo... ...pausa... ...olhar morto... ...pausa... "¿Tá rifando o quê?"), com uma direção q acertou apenas qdo não interferiu com a naturalidade das atrizes, e uma torrente de detalhes insignificantes q, tomados juntos e inseridos no todo, ... continuam insignificantes. Um filme naturalista sem idéias não é nem um documentário; até mesmo um documentário tem q ter idéias.
Mas o parágrafo acima é só um esculacho pela perda de tempo. Nada de hipoplausibilético. O q espanta e surpreende até o Dr Plausível é q ninguém note o rombo monstruoso de hipoplausibilose aberto na testa do espectador emocionado com a moça q se rifa por uma noite pra juntar grana e sair em busca dum destino melhor. ¿Será q ninguém percebe q o diretor não teve culhões pra sustentar as únicas coisas minimamente interessentes nessa personagem: (1) seu ego inchado, e (2) seu desamor pelo próprio filho, q batizou com o nome do pai?
De volta a sua cidade natal no interior do Ceará, seu amor pelo Mateus-pai se transforma em tédio pelo Mateus-filho. O pirralho berra no quarto, e a mãe fuma lá fora e diz "Às vezes dá vontade de largar ele no mato e sair correndo." Quem cuida do moleque é a vó; mas qdo esta tem q sair e dá uma indireta-patada pra q a mãe cuide dele, a moça simplesmente vai dançar (e ¡meta cenas intermináveis do rosto dela dançando! – o diretor está apaixonado pela atriz, e o público é obrigado a ler suas longas cartas amantéticas). Mas diga a verdade, dona-de-casa: tem q ter o ego muito inchado pra se rifar (!!) por uma noite e chamar o prêmio de "Uma Noite no Paraíso", não? Tem q se achar muito pra descarregar o filho nas mãos da vó e sair pra dançar, não? E tem q se achar o máximo pra vender as rifas com um provocante sorriso de seduzir santo e, na hora de pagar o prêmio, fazer cara de tacho e escolher justamente essa hora pra descobrir a sordidez do sexo servil, não?
A moça havia sido traída e mal paga, claro, e toda essa egolatria pode ser apenas a maneira q ela encontrou de se pôr de pé novamente. Compreensível, digamos. Mas parece q nem sequer isso foi percebido pelo diretor ou pela atriz, já q pra se pôr de pé, ela precisa primeiro cair: no entanto, qdo cai a ficha da traição, a moça não demonstra qqer emoção q justifique uma mudança de vida. Dizer à sogra "Seu filho é um sacana." entre os dentes, e apenas isso no filme todo, é o mesmo q isentar o canalha de sua responsabilidade. Claro, a preocupação central do filme é isentar a moça também.
A frase não foi dita, lógico, pois o diretor não teve coragem ou visão. Em vez disso, a moça se livra lepidamente do trambolho, e fica o público se perguntando qual exatamente foi o motivo de ela querer se mandar pra tão longe daquela cidade: ¿será q ela não gostava do CEP?