So remember, when you're feeling very small and insecure,
How amazingly unlikely is your birth.
E Idle, "The Galaxy Song"
Is it really kind to treat them according to their folly instead of to our wisdom?
G B Shaw, The Simpleton of the Unexpected Isles
Nosso epistolar humanista tem uma quedinha por se compadecer de megalômanos. Toda vez q vê alguém se achando, tem um impulso de lhe dar uma esmola.
Ele se compadece porque, claro, entende o problema. Se vc é uma pessoa normal neste planeta confuso dentro dum universo incerebrizável, vc tá paradoxalmente dotado de auto-estima. O paradoxo é q a auto-estima do indivíduo precede sua conscientização de sua família, sua comunidade e sua nação; e q a auto-estima do humano precede, historicamente, sua conscientização de sua espécie, seu planeta, sua galáxia e seu universo. Ou seja, a gente primeiro aprende a se achar os reis da cocada preta, pra só depois descobrir q cocada preta não tá com nada.
Dá só uma bizoiada no tamanho do universo: só a parte visível dele mede 8,7x1023km. Pra visualizar isso mais ou menos: se alguém pudesse viajar a 1000 km por segundo, levaria 27.901.503.582 milênios pra atravessar o dito cujo – quase 28 bilhões de milênios.
Esses números só foram descobertos no século XX. Antes disso, era bem mais difícil controlar a megalomania inata do cérebro-de-macaco-falante. Pegue qqer espécie de animal – digamos, o camelo – e aumente o tamanho de seu cérebro até q conscientemente tenha abstrações sobre as regularidades do mundo real, e o resultado será um camelo megalômano. Faça o teste pra vc ver. O camelo vai achar seu oásis o melhor lugar do mundo, suas corcovas uma obra de arte, seus filhotes os herdeiros da Terra, seus trocadilhos o mistério da vida, seus curtos-circuitos cognitivos as revelações da divindade camelar. Até aí, novidade nenhuma.
Mas uma coisa q megalô nenhum gosta é de descobrir q sua consciência um dia vai pifar. Ninguém tem medo da morte per se. O pobrema é a consciência findar irremediavelmente.
Outro pobrema do megalô são os limites da inteligência. ¿Qto é possível associar e reter em 1,5kg de cérebro primata? ¿Que tamanho precisaria ter o vocabulário pra incluir toda a inteligência possível? ¿Qto desse vocabulário cabe no cucuruto? O megalô sabe q seu tutano é finito, bem finito, muito menor do q ele gostaria q fosse. E se fosse maior (aliás, mesmo q venha a ser maior), não ajudaria em nada: qqer coisa q um cérebro saiba será necessariamente mais simples do q o próprio cérebro.
Se pro megalô é insuportável conscientizar-se de q a consciência terminará, se é humilhante inteligir q a inteligência tá delimitada pelo cérebro e pelo vocabulário, ¿quê fazer, entonces? Ora, postular um deus, uma Consciência Cósmica, uma Inteligência Superior, um ser compreensível apenas através de suas (da deidade) imanências [ie, a alma de cada megalô], um ente sensibilizável e atingível por meio de ações – q são a única coisa supostamente controlável pelo indivíduo.
Mas como tal ser é obviamente inescrutável neste mundo arrasadoramente regular e monotonamente previsível, o megalô deposita suas esperanças na morte; ela passa a ser não o fim, a evaporação da última gota, mas uma válvula na extremidade dum tubo q leva a um recipiente maior. Bem maior. Beeeem maior. Bem bem bem bem BEM maior. Aliás, infinito – pra evitar certas perguntas.
Crentes e fundamentalistas de todas as religiões e credos místicos expressam várias objeções contra a ciência. Todas essas objeções derivam duma única objeção, sempre inexpressa: a ciência humilha, coloca inegavelmente o humano num lugar piquititico; coloca a cidade sagrada num enorme mapa duma Terra esférica q gira em torno duma pequena estrela num dos braços duma galáxia média em meio a bilhões de outras galáxias, com possíveis bilhões de outras cidades – sagradas ou não; coloca o humano e suas crenças e culturas e orgulhos num raminho frágil duma árvore genealógica de origem química q já vinha crescendo havia milhões de anos, junto a milhares de outros animais; coloca a iminência de este planeta ser totalmente aniquilado sem motivação ou intenção alguma, a qqer momento, por um meteorito aleatório.
Até o século XIX, era possível apaziguar a auto-estima com religiões escritas e descritas por luminares q não enxergavam mais longe do q era visível duma aldeia no Oriente Médio ou alhures. Era possível acalmar e inflar o megalô q existe em cada um pelo simples método de dizer q ele era um ser especial. Funcionava direitinho. Bastava crer.
Mas uma coisa é crer e outra é saber. Não há crer q não almeje tornar-se um saber. O tronho chama sua margarina de 'manteiga' só pra dizer q usa manteiga.
Hoje já se sabe um pouco mais. Por exemplo, sabe-se agora q só há UMA resposta prà pergunta: ¿por q cargas d'água um deus – uma Consciência Cósmica, uma Inteligência Superior – faria um trambolhão dum universo dessa vastidão e depois escolheria um grupinho de primatas nalgum lugar inóspito, ignorando todo o resto, pra comunicar a eles suas preferências implausivelmente convenientes sobre como viver, e dar só a eles a chave da válvula megalô?
A resposta é: "Ããã."
_______ [aguarde a conclusão da série]


















