03 maio 2008

A prodenúncia
e o anti-racismo

Nosso esplendoroso doutor deve ser a pessoa menos racista em toda a história do universo e mais três dias: ele trata todos os Homo sapiens sapiens com igual indiferença e indelicadeza – algo q, é claro, não o impede de ser um cara até q legalzinho. É apenas com seus pacientes q ele deixa de lado sua truculência habitual e se presta de corpo e alma ao dever de ser terapeuticamente agradável.
Um desses pacientes é a prodenúncia – ie, a denúncia q, do nada, materializa um crime: o crime passa a existir a partir da denúncia. Por exemplo:

"¡Puxa, como vc tá bonita hoje!"
"¿Tá me chamando de feia?"

Os Euá são um campo fértil pra prodenúncias. Ê terrinha. Vc joga uma sementinha hoje, e amanhã tem uma floresta. Os Euá são uma plantação de prodenúncias. Muita gente tá vendo se vinga no Brasil também – nesta terra onde, adubando, tudo dá. Dentre essas pessoas estão caros amigos do próprio doutor, tadinho. Mas o hipoplausivírus é poderoso e pode temporariamente levar à insanidade contextual até mesmo um grande filósofo.

Umas semanas atrás, a revista Vogue euaense publicou um ensaio fotográfico sobre duas classes profissionais q precisam manter-se em forma: atletas e modelos. Várias dobradinhas atleta/modelo foram fotografadas, e a revista saiu com a següinte capa:



Bastou isso e logologo brotaram prodenúncias pra todo lado. Virou uma baita controvérsia. Gugla aí 'lebron', 'bundchen' e 'vogue' pra vc ver.

Hm.

Então pergunto a meu leitorado: ¿q é q vcs vêem nessa foto? Digam se concordam: de cara, o Dr Plausível viu um jogador de basquete negro vestido de jogador de basquete fazendo pose de jogador de basquete enquanto segura num braço uma modelo loira vestida de modelo fazendo pose de modelo.

Mas... mas... ¿Q foi q viram os prodenúncios euaenses? Uai, q a capa "reforça estereótipos racistas" pois mostra um negro des-Armanizado posando como um gorila irracional e violento raptando a loira q ele intimamente deseja.

HAHAHAHAHAHAHA

Ô miasarma. Impossível resumir o bafafá q se seguiu. Ê terrinha. Centenas de milhares de olhos inocentes – q só tinham visto o q viu o doutor, antes de seguirem seus caminhos lendo gibi – olharam novamente e disseram, "ah é, ó, iii, a foto parece um cartaz do King Kong."

HAHAHAHAHAHAHA

E aí, todos manchados pela inferência pressuposta implícita subentendida, sabemos agora q ainda MAIS uma coisa está fora dos limites: jogador de basquete *branco* em pose de jogo com a boca aberta berrando, segurando modelo branca: pode. A mesmíssima pose, mas com um jogador *negro*: não pode.

¿Quem é racista, então?

O ponto anterior é só um parêntese. O q fez o doutor rachar os dentes de rir foi outra coisa. A prodenúncia fez um trabalho tão insidioso q todos deixaram de lado como desimportante ou indiferente a própria questão q causou a celeuma toda:

¿Tem alguma coisa errada em parecer um gorila? ¿Tem algo de ofensivo numa pessoa olhar pra outra e lembrar dum gorila, tal como alguém q olha pruma nuvem e lembra dum golfinho, apenas pq as duas coisas ãã... se parecem?

Qdo eu era adolescente, meu próprio pai – sangue de meu sangue – me chamava de "poste", pq era branquelo, magrelo e alto. Pessoas q nem me conheciam me chamavam de "girafa" na rua. Olha só uma girafa aqui:



Ô bicho feio. Mil vezes preferível ser parecido com um gorila, ora pois não? E vejam estes outros animais.









Tem os negros q parecem gorilas e tem os q parecem outros bichos:



E também tem japoneses q parecem macacos:



Essa derruba tudo, hem? ¡Japonês q parece macaco! ¿¡Não tem fim, a variedade da natureza!?

¿Preciso dizer mais?
________________

Na verdade, preciso.

A prodenúncia se aproveita duma brecha semiótica. Vc está sempre usando substantivos e adjetivos. Se vc diz só o substantivo, o prodenúncio denuncia q o adjetivo está subentendido; por outro lado, se vc junta um adjetivo ao substantivo, o prodenúncio denuncia q o adjetivo só está ali pra ser esfregado na cara.

Por exemplo: Ao descrever a capa da Vogue, se o doutor diz apenas "um jogador de basquete e uma modelo", o prodenúncio pode acusá-lo de racismo: "¿Tá vendo? O doutor está tão impregnado pelos estereótipos 'jogador de basquete é negro' e 'modelo é branca' q ele nem enxerga o racismo embutido nessa visão." Se, por outro lado, o doutor diz "um jogador de basquete negro e uma modelo loira", o prodenúncio pode do mesmo jeito acusá-lo de racismo: "¿Tá vendo? Ele deixa claro q o jogador é negro pq não consegue vê-lo como apenas uma pessoa, sem referência a sua cor."

Não há como escapar da prodenúncia. É triste mas é verdade.

Mas há tratamento. A fila nas Clínicas Dr Plausível dá a volta no quarteirão.

61 comentários:

Pracimademoá disse...

Ah, o anti-racismo até que é engraçadinho e dá um bom entretenimento, mas o anti-racismo é só um subproduto do moralismo, que é um dos muitos subprodutos da vaidade, que é o pecado mais típico e arraigado de quem se considera, de fato, criatura feita à imagem e semelhança de uma divindade supostamente perfeita e inquestionável. No fundo, no fundo, bem lá no fundo, o sujeito anti-racista, antipreconceitos ou anti-umontedecoisa está declarando para o mundo:

"Veja como eu sou bom por dentro!"

"Veja que bela lista de valores e conceitos eu escolhi para representar o meu caráter."

Como quem expõe a lista do last.fm no canto do blog. "Olha só, como o meu gosto musical é fino."

Veja, por exemplo, como os presidiários(*) são extremamente moralistas e dedicam-se bastante ao julgamento do caráter de outros criminosos, apesar de serem todos igualmente culpados de alguma coisa. É só uma forma um tanto infantil de expiar as próprias culpas. Exaltar o ego e sentir-se um pouco menos bosta.

"Ah, se fizessem isso na minha frente! Não sei do que eu seria capaz!"

"Se tem uma coisa que me revolta é [preencha você mesmo]!"

"Veja como eu sou bom por dentro!"

Daí pra "cão infiel", 200 chibatadas ou morte por apedrejamento, é um cuspe.

E, se você ficar pensando muito nisso, pode acabar tendo muito mais pena do que raiva porque, no fundo, o que todos querem é a salvação. Querem desesperadamente e carregam forte na dose.

"Mais uma chance, Senhor!"

E ninguém se salva. Todo mundo se fode.

(*)"presidiários" serve também como metáfora.

Acordei com muito domingo ensolarado na corrente sangüínea.

Alessandra disse...

"Ah, o anti-racismo até que é engraçadinho e dá um bom entretenimento, mas o anti-racismo é só um subproduto do moralismo, que é um dos muitos subprodutos da vaidade"

Humm, interessante. Quer dizer que todo mundo que não acha o racismo uma coisa legalzinha e normal é hipócrita e está só se exibindo? Tinha percebido não...

Andre disse...

Não, Alessandra.

Quer dizer que quem bate no peito e diz "a sociedade é racista, mas eu não sou" é hipócrita e está só se exibindo.

Deixa eu me adiantar me baseando na última discussão nesta caixa de comentários com o Kitagawa (e peço desculpas se esse meu adiantamento for sem razão): espero que você não entenda no que eu disse acima que o certo é bater no peito e dizer "a sociedade é racista e eu tbm sou". Uma coisa não tem nada a ver com a outra...

Pracimademoá disse...

Em parte, a Alessandra tem razão. Anti-racismo é bastante justificado até certo ponto. O problema é que é raro um anti-qualquercoisa satisfazer-se com "certo ponto". A vaidade e o orgulho logo vêem no sentimento altruísta uma excelente oportunidade de se insinuar e exacerbar os conceitos para prolongar o êxtase do idealismo. Durante esse êxtase, a vaidade se regozija. O idealismo é inebriante, e muito, muito pouca gente tem sua vaidade e seu orgulho sob controle. Pode ver que toda discussão idealista/moralista logo beira o histerismo. A vaidade não leva desaforo pra casa.

Pracimademoá disse...

Poxa, mas agora eu quero mudar o meu comentário. Estou sendo citado fora do contexto! Hahahaha!

Lucas disse...

Eu faço bastante dessas de "anti-racismo" que o Pracimademoá disse.

Daí percebo que tô fazendo e me reprimo um pouco, mas depois me pego fazendo a mesma coisa.

Lucas em sua eterna luta contra os genes egoístas.

Lucas disse...

E olha eu aqui possivelmente querendo me exibir, insinuando que li o livro do Dawkins e sou culto.

E olha eu aqui em cima querendo me exibir de novo, mostrando que entendi certinho a lição do tio Pracimademoá e sei ver que estou me exibindo.

É, não vai parar nunca

Pracimademoá disse...

Sabe o que ficou faltando nesse post? A grande revelação: por que cacetas as pessoas fazem isso?!!! Qual é o mecanismo?

Você se lembra de uma vez em que eu reclamei que os blogues eram quase tudo a mesma coisa: um blogueiro tassiachando fazendo pouco de gente supostamente mais burra e uma rodinha de comentaristas botando lenha na fogueira? Poderia ter relação com este caso. Enquanto Pabel (a dupla) viu uma "brecha semiótica", eu costumo ver nesses casos um truque rasteiro de *contraste*, que consiste em exacerbar a burrice alheia para se parecer mais inteligente. Uma espécie de ritual, quase sempre coletivo, de celebração da própria inteligência mediante o contraste da "burrice" dos outros. Ou seja: vaidade, como eu já disse acima.

No caso da prodenúncia, eu quase vejo a mesma coisa: o acusador tentando fazer seu adversário parecer abjeto e repulsivo logo de saída para que o acusador pareça magnânimo. Mas fica esquisito, porque a acusação costuma ser tão grave que o acusado fica parecendo alguém bizarro, e o acusador apenas parece normal, cumpridor de um dever. Justamente porque o suposto crime é muito grave, o acusador não alcança mais o status de "magnânimo". É um anticlímax. Minha teoria não funciona.

Será então aquele caso em que as pessoas atribuem a outrem os defeitos que, secretamente, reconhecem nelas mesmas? Ou será apenas violência gratuita escondida atrás de uma falsa intenção benéfica, como nos filmes em que o vilão vai ficando cada vez mais malvadão só para que mereça e se justifique o verdadeiro objetivo de tanta malvadez - o indescritível deleite da visão da sua morte violentíssima no final?

O que é que se passa na mente absconsa de um prodenúncio? Qual é a sua motivação? Será que tem cura?

Permafrost disse...

Boas sacadas, Demoá. Acho q o problema está na linguagem, na assimetria gritante entre a aparente onisciência e absolutez das palavras e sua real insuficiência e turrice. Esses debates e prodenúncias provêm de pessoas q honestamente (e talvez inconscientemente) acreditam no contrário – q as palavras emanam de verdades e conduzem a verdades maiores; provêm sempre de usuários sofisticados de palavras, isto é, de pessoas q têm interesse em considerar a cultura e o presente qualitativamente mais complexos do q a biologia e a história.

A assimetria entre a idealização e realidade é, por exemplo, o motivo por q uma criança pergunta "¿por quê?" a toda resposta, infinitamente. Essa criança não é muito diferente disso q se tornou a mídia de massa nos Euá, com seus desdobramentos blogueiros (de lá), infinitamente chegando a lugar nenhum. Como bem demonstra o Lucas aí acima, se vc por precaução começa a adicionar disclaimers a tudo q diz, a coisa não tem fim. É por isso q a pessoa fica automaticamente mais adulta qdo desiste tanto de compreender tudo como de ser compreendida por todos, e passa ao uso primodial das palavras, q é gargalhar.

Aliás, ou muito me engano ou, se a fotógrafa Annie Leibovitz teve um objetivo, foi causar gargalhadas.

Permafrost disse...

E viu? Adicionei uma coisa no título pra re-contextualizar teu comentário.

Andre disse...

Isso me lembra aquele cara que escreveu na discussão no blog do Alex Castro que o crime de racismo depende da vítima...

Pracimademoá disse...

Hahaha! Nem precisava, eu estava brincando. Mas sou grato pela consideração.

Neanderthal disse...

Pra mim eles escolheram a foto porque parece o King Kong.

Kitagawa disse...

"Isso me lembra aquele cara que escreveu na discussão no blog do Alex Castro que o crime de racismo depende da vítima..."

Hahah, vc deve estar falando de mim. Mas na verdade eu nunca mencionei "crime de racismo", nunca. Falava de termos e expressões que ofendem. Afirmo que não faz sentido um branco decidir se esta ou aquela expressão é ou não é ofensiva aos negros. Se queremos saber se é ofensivo a um negro, devemos perguntar aos negros: "vcs ficam ofendidos quando uso tal termo?". Se sim, então é ofensivo, ponto. Do contrário, qualquer um pode chegar e dizer que não é ofensivo chamar um oriental de "japoronga" ou um negro de "crioulo". Se tem tanta certeza disso, que vá usar esses termos no meio de um bar da liberdade ou no meio do ensaio da vai vai. Não vai adiantar que vc dizer que até tem um amigo japa ou negro. Por outro lado, claro que pode chegar um negro chato e dizer que usar o termo "humor negro" o ofende. Daria uma boa discussão, no minimo. Mas isso nunca me aconteceu.

Em relação aos meus comentários no post anterior, eu nunca falei de mim. Nunca falei se sou ou não sou racista. Só acusei voce de ter se expressado de maneira ofensiva e preconceituosa, mesmo que sem consciencia disso, pois ao que me consta vc nunca reconheceu que tenha feito isso. O Permafrost até te tentou te defender dizendo que "talvez" vc tenha sido apenas "ironico". Vai explicar isso pra bateria da vai vai, não pra mim.
E lá no LLL eu mesmo "confessei" que uso o termo "nego" mesmo sabendo que é de um jeito ofensivo em sua origem. E tento evitar. Não sou puro, mas pelo menos reconheço quando estou sendo preconceituoso ou me expressando de maneira preconceituosa. Alguns aí é que reclamam do anti racismo, mas tampouco se reconhecem como racistas. Quem é o hipócrita aqui?

Permafrost disse...

Acho que em parte o Kitagawa tem uma certa razão, no q diz respeito às palavras q incomodam. Só há q lembrar q o Brasil e o português entraram de gaiato TAMBÉM nessa controvérsia copiada, já q a palavra "ofensivo" é um traduzês de offensive, q não significa o mesmo em português.

Em inglês, offensive significa "desagradável"; fala-se de um cheiro ou de um som offensive, por exemplo. As duas definições principais são: "desagradável aos sentidos" e "q causa raiva, desprazer, ressentimento ou afronta".

Já em português, as duas principais definições são "que serve para agredir ou é próprio do ataque" e "que causa dano moral; que magoa; lesivo, prejudicial".

MUITO diferente. Novamente os maus tradutores empapuçam o meio de campo.

Se for pra importar a controvérsia – na terra onde, adubando, tudo dá –, então joga a semente certa e traduz direito: incômodo, desagradável. Assim torna-se totalmente aceitável o q diz o Kitagawa: quem decide se uma palavra é incômoda é o incomodado.

Mas ninguém me venha dizer q é ofensivo algo q eu disse sem intenção de ofender. Minha resposta é "deixa de ser criança."

E por aí vcs vêem por onde anda a cultura desta colônia confusa: grande parte daquela controvérsia no LLL resultou de um falso cognato.

Andre disse...

Kitagawa,

Não falava de você não. Quer dizer, não sei se era de você. Eu não lembro quem fez o comentário, só lembro do próprio Alex, em post, falando sobre isso. Quando eu for falar de vc, eu uso seu nome.

Você levantou agora uma questão interessante: perguntar ao suposto ofendido se ele se ofendeu. Isso contraria a conclusão do Alex lá no LLL.
"Não, ele não gosta de ser chamado de 'Pretinho'. E, se gosta, então o problema é muito, muito pior."
Hmmm. Quer dizer que se pode dizer o que ofende ou não o outro, mas e se não ofender?

De fato, eu nunca reconheci que me expressei mal pq eu não me expressei mal. Você é que não entendeu. Você é que relacionou palavras que eu deixei claro que não tinham relação. E você tbm não entendeu o ponto em que fui, de fato, irônico (isso foi qdo eu falei q VC era racista, e não qdo eu NÃO relacionei as tais palavras).

"Não sou puro, mas pelo menos reconheço quando estou sendo preconceituoso ou me expressando de maneira preconceituosa"
Interessante. Bom, se você reconhece isso, definitivamente é um problema. Seu. Não meu. Eu não sou preconceituoso, nem me expresso de maneira preconceituosa (pelo menos, não o fiz nessas caixas de comentários com certeza absoluta). E acho que usar "nego" nas tais circustâncias é tão preconceituoso que se eu falar isso na bateria da Vai Vai nem vão ligar. Na da Rosas de Ouro não ligam.

Ironia à parte, usar "nego" nessa circustância, ao contar uma história, é tão pejorativo como fazer voz de retardado. Leia: http://www.jesusmechicoteia.com.br/2007/01/23/

Uau, como somos preconceituosos! Mas não tem ninguém pra levantar a bandeira dos retardados?

Andre disse...

Completando:
E não tem ninguém pra levantar a bandeira dos portugueses e das loiras supostamente burros, dos papagaios boca-suja, dos judeus muquiranas, etc, etc?

Acho que um grande problema do Brasil é que se leva brincadeiras mto a sério e coisa séria na brincadeira.

Att,

Neanderthal disse...

Fazer voz de retardado não tem nada a ver com isso. Fazemos essa voz porque no fundo, dentro de todos nós, existe um retardado querendo se libertar. Pelo menos é essa a teoria do filme "Idiotas" de Lars Von Triers (Dogma 69).

Gabi disse...

"I look only to the good qualities of men. Not being faultless myself, I won't presume to probe into the faults of others." Gandhi

Pra ti e pro Alex Castro, Kitagawa.

Na paz.

Kitagawa disse...

"E não tem ninguém pra levantar a bandeira dos portugueses e das loiras supostamente burros, dos papagaios boca-suja, dos judeus muquiranas, etc, etc?"

Andre, o problema com a raça negra se difere porque as consequencias disso são graves, eles sentem literalmente na pele. Os portugueses na prática não sofrem as consequencias desse folclore, não saõ discriminados por isso.

Falando sobre o post em si. Eu particularmente acho que a idéia por trás dessa foto é o contraste: homem/mulher, cara brava/sorriso simpático, corpo grande e forte/corpo delicado e longilineo, e, inclusive negro/branco, sem problema. Claro, é a mesma idéia por trás do King Kong, mas tudo bem. Mas acho os seus argumentos, Premafrost, inconsistentes. Vejamos: e se colocassem uma banana na mão do Le Bron, vc sustentaria esse mesmo raciocínio? Voce acha que o Le Bron aceitaria ou poderia aceitar sem problemas segurar uma banana pra essa foto? Voce acha mesmo que comparar um homem branco a um macaco é a mesma coisa que comparar um negro a um macaco? Não sabe que essa comparação foi feita de maneira recorrente e sistemática por todos os racistas ao longo da história, que queriam relegar os negros a uma espécie menos evoluída, algo mais pertencente ao mundo animal, deprovido de alma ou inteligencia?
Explicando em outrs termos: não é a mesma coisa dizer "abre o olho!" para um branco que fez uma besteira e dizer isso para um oriental. Se fizer isso para um oriental, pode ter certeza, ele ficará muito, mas muito mais puto com vc do que o branco poderia ficar. Aproveitando para esclarecer: uma coisa é voce insultar um individuo. Outra coisa é voce insultar o individuo apelando para os estereotipos recorrentes que atribuem à sua raça, que no caso, o insultado conhece muito bem. VOCE às vezes pode não ter essa intenção, mas como ele vai saber? Quando voce faz isso, não insulta só o individuo, insulta a mãe dele, seu pai, seus irmãos... Portanto, comparar o Jack Nicholson a um lagarto, não é a mesma coisa que comparar o Le Bron a um macaco.

Kitagawa disse...

"Mas ninguém me venha dizer q é ofensivo algo q eu disse sem intenção de ofender. Minha resposta é "deixa de ser criança."

Mas é um pouco mais complicado que isso, né? Por exemplo, li uma entrevista com um velho academico coreano radicado no Brasil, que até hoje se sente ofendido quando um brasileiro inocente (ele mesmo disse isso) o chama de japones ou chines. Ele sabe que não houve a intenção de ofender, mas ao mesmo tempo, acho eu, fica claro pra ele que pro brasileiro em questão oriental é tudo a mesma coisa. Japones, chines, coreano, tanto faz. Pra outros, baiano, paraibano, cearense, qual a diferença? pros gringos, brasil, bolivia, buenos aires, tudo a mesma merda. Esse relapso, essa indirença, acaba sendo meio ofensiva, sim. Imagine vc ns EUA, algum gringo que insiste em te chamar de boliviano. Mesmo que ele diga, "desculpe, às vezes me esqueço", acaba irritanto mesmo assim, mesmo sabendo que essa não é a intenção dele. É um preconceito já arraigado, normatizado, mas não menos ofensivo. Com os negros acontece a mesma coisa: voce pode ofende-lo mesmo sem intenção, pois às vezes dá pra captar o desprezo, o preconceito arraigado nas palavras que o cara prefere inconscientemente até. É o que aconteceu com a declaração do André ao "justificar" o retenção do negro na portaria do prédio sugerindo que talvez não seja por ele ser negro, mas tão somente por estar malvestido e fedendo. Pra mim é como alguém dizer: "não tenho nada contra os negros, só contra pessoas fedidas". Tipico. Se ele ainda dissesse, "me expressei mal..."

Neanderthal disse...

Tudo bem, mas, qual desses é o Kitagawa?

http://www.agendadesergipe.com.br/sysclientes/images/secretarias/agendadesergipe/japoneses.jpg

Permafrost disse...

Kitagawa,
Grande parte do q vc disse aí está como premissa do q eu disse, e não achei necessário dizer. A comparação simiesca sempre existiu e sempre existirá; não há como escapar dela: cada nova geração de seres humanos vai perceber a similaridade entre gorilas/chimpanzés e *alguns* negros, assim como se percebe a similaridade entre uma nuvem e um golfinho: é um dado da vida, não pode ser mudado. Meu ponto aí é instrutivo tanto pra racistas como pra anti-racistas (os não-racistas já entenderam): parecer um gorila é simplesmente parecer um gorila, e não significa nada, tanto qto não significa nada o Jack Nicholson parecer um lagarto.

Novamente, quem imaginou a banana na mão do LeBron foi vc; quem prodenunciou a similaridade entre a foto e o cartaz do King Kong foi um anti-racista. Cada vez q alguém diz q só viu um jogador e uma modelo, os anti-racistas, pra efeito de argumento, acrescentam mais um dado. Nesse caso foi a banana; daqui a pouco um anti-racista vai argumentar "¿E se a foto fosse do LeBron nu no meio de uma selva, sentado no chão, segurando uma banana e coçando a cabeça, vc não acha q seria menos grave se fosse um branco?" apenas pra criar uma prodenúncia.

Pra evitar tudo isso, basta olhar prà foto e ver um jogador de basquete com uma bola e uma modelo sorrindo, como já era *antes* da prodenúncia surgir.

É claro q existem regiões sensíveis nas relações entre raças. Como em quase tudo, resultam de bobeira de ambas as partes. Mas, embora se saiba q a maior parte do problema se evaporaria se os sensibilizados deixassem de ser bobos e aprendessem a rir de si mesmos, não vou ser ingênuo a ponto de crer q algum dia isso vai acontecer. O Dr Plausível – já disse isso antes – é minha maneira de tirar sarro do fato de q *nada* vai mudar, jamais. Por mais q eu diga "somos todos adultos agora".

Por exemplo, o caso do coreano q fica enfezado qdo o chamam de japonês. Basta um pouco de bom senso, né? É como se a Canon se enfezasse toda vez q alguém tira uma cópia numa Canon e chama de xerox. A Xerox apareceu primeiro no mercado, assim como o japonês apareceu primeiro no Brasil. Meu conselho pro coreano: cresça. Eu já disse no LLL q estou careca de ser chamado de "alemão", principalmente por negros, mulatos e outros mestiços. Pergunta se me incomoda ser comparado com alguém de um país q iniciou duas guerras mundiais, causou milhões de mortes cruéis e engendrou alguém como Hitler. Na cabeça deles eu realmente pareço um alemão; e daí?

Se vc responder "e daí q é diferente ser chamado de alemão e ser perseguido por sua semelhança com um símio", novamente digo: quem colocou a similaridade entre o japonês e o coreano em pauta foi vc; e quem está dizendo q o negro é perseguido por sua relativa semelhança com símios são os anti-racistas. Eu já demonstrei no artigo anterior q isso está longe de ser verdade.

Pracimademoá disse...

Kitagawa disse: "Outra coisa é você insultar o individuo apelando para os estereotipos recorrentes que atribuem à sua raça, que no caso, o insultado conhece muito bem. VOCE às vezes pode não ter essa intenção, mas como ele vai saber?"

Aqui, você escolheu mal as palavras e foi incoerente: ninguém "apela" para um estereótipo "sem intenção". Contradição em termos.

Mas a frase toda parece revelar em você uma atitude que me assusta um pouco e que eu já insinuei: o esporte que poderíamos chamar de "extreme compassion" (parodiando http://www.extremeironing.com ).

Você parece sugerir que devemos medir sempre as nossas palavras - e outras formas de expressão - para evitar mal entendidos. Em princípio, parece boa idéia, como uma norma de etiqueta, e eu sou a favor de regras de etiqueta. Mas também é preciso ter cuidado com a obsessão e os limites. O extreme compassion costuma gerar dois monstros: a pró-denúncia, apresentada pelo Dr. Plausível, e a lei do mais fraco.

A lei do mais fraco também é torpe. Hoje mesmo eu li uma blogueira achando muita graça numa situação de extrema violência de uma mulher contra alguns homens. Já reparou que a violência de homens contra mulheres é sempre uma monstrosidade e a de mulheres contra homens é sempre argumento de comédia? E a Copélia tarada e desbocada da Arlete Salles, seria engraçada se fosse um homem? Você nunca foi destratado por um idoso porque ele sabe que você dificilmente vai ser besta de meter a mão na cara de um velhinho? Ainda mais se for velhinha. Já notou que virou REGRA encher de elogios uma criança negra, mas não tanto uma criança lourinha? Você se deixa enganar quando a Xuxa ou o Alemão do BBB posam fazendo caretas zarolhas para disfarçar a beleza nórdica? Por que a entrada de brancos no Olodum é (ou foi por muitos anos) proibida com a maior naturalidade e ninguém mete um Afonso Arinos neles? E quanto às inúmeras canções de exaltação da raça negra, como aquelas da Daniela Mercury? Experimenta fazer uma letra daquelas exaltando a raça branca pra você ver até onde vai com ela. Experimente ser branco e declarar orgulho da sua raça como faz com naturalidade qualquer negro e veja quantos minutos demora para alguém achar que você é neonazista.

Agora, é mais ou menos isso que você está defendendo aqui: extreme compassion com as "minorias" - que já são maioria faz tempo, mas não vão abrir mão da preciosa carteirinha de minorista.

"Portanto, comparar o Jack Nicholson a um lagarto, não é a mesma coisa que comparar o Le Bron a um macaco."

Pois DEVERIA ser. Não é porque um monte de gente não quer que seja por interesses diversos. Você está defendendo o reconhecimento do fato de que as "minorias" têm auto-estima fragilizada e a imposição de uma "responsabilidade social" global de manutenção dessa fragilidade em vez da abolição das atitudes que perpetuam essa percepção de fragilidade.

Eu sempre achei que a melhor maneira de combater o racismo é ignorá-lo. Não sem

Pracimademoá disse...

Eu sempre achei que a melhor maneira de combater o racismo é ignorá-lo. Não sempre, não em casos realmente perigosos, mas com a maior freqüência possível.

http://www.youtube.com/watch?v=rWy9xjijaKE

Quando eu ouço alguém dizer uma besteira racista, finjo que não ouvi. Isso inclui as exaltações racistas pretensamente anti-racistas de negros "politizados". O Permafrost deve estar certo: a fotógrafa trabalha com moda, um ramo de atividade mormente inútil que vive de aparências e burburinhos. Ela queria "se aparecer" e conseguiu porque tem consciência das duas fragilidades: a dos negros coitadinhos e a dos brancos vaidosos ou com obsessão de culpa. Isso hoje em dia é chamado de PWNED, SUXOR!!!! YHBTHAND!

Esse tipo de golpe publicitário e outros eventos muito menos inofensivos vão continuar proliferando enquanto existir a água parada do coitadismo, do culpismo e do extreme compassion.

Neanderthal disse...

E se tivesse colocado a foto de um jogador de basquete branco . . . . . seria muito pior.

hardy har har disse...

(Pracima, estou adorando seus comentários, mas fiquei com uma pulga atrás da orelha agora. Por acaso "a situação de extrema violência" de que riram num blog aí era um filme de terror no qual a mocinha tem a vagina dentada? Por favor, diz que não. Diz que você não levou a sério as risadas dadas diante da premissa absurda de um filmeco de terrir. Estou torcendo aqui.)

Pracimademoá disse...

Vida dura, hein, Hardy! Você deve estar falando de "Teeth". O Google me diz que faz sucesso, as pessoas acham engraçado. Então tem a ver com o que eu disse, sim. Um homem mutilando mulheres teria lugar numa comédia? Digamos que ele mordesse a arrancasse seios, ou que seu pênis disparasse algum projétil destrutivo e mortal dentro das mulheres. Isso seria engraçado? Duvido muito, hein!

Isso é regra de comédia: o fraco se vinga do forte. Charles Chaplin, Renato Aragão, O Gordo e o Magro, Tom e Jerry, Esqueceram de Mim. Note que não basta a mocinha do Teeth ser mulher, ela também tem que ser meio bobinha. São arquétipos de *medo e ressentimento* envoltos em uma variedade muito sutil de *malícia*, que por sua vez, é chamada de "comédia" por razões de marketing. Os arquétipos "fracos" e triunfantes representam a fragilidade das pessoas, o pavor que elas têm de tudo e de todos, e a vontade que elas têm de sair agredindo geral. O recado constante é "Não se meta comigo." Frustração brava.

A idéia do Teeth me lembra Lorena Bobbitt, que foi aplaudida por muitas mulheres. Aquilo foi assustador, não tanto pela mutilação em si, mas pela revelação da disposição covarde e sombria de tantas mulheres, que costumam ser as primeiras a protestar contra a violência.

A lei do mais fraco é ditada por medo e ressentimento. O medo causa ira. A ira se articula, mune-se de argumentos e se transforma em ódio. O ódio não escolhe ninguém, fode todo mundo e pode durar séculos. O ódio se alimenta de vaidade como fogo de oxigênio, e a vaidade humana é infinita. Os fracos posam de magnânimos, mas também alimentam o ódio. Cedem fácil ao lado negro da Força. O ressentimento é o advogado de plantão que apresenta justificativas para todo e qualquer ato.

Não sou fã de Star Wars, não. Só acho a metáfora apropriada.

Eu tenho medo dos fracos. Eles são ariscos, atacam sem motivo aparente e apelam para recursos covardes. E ainda levam fama de "mocinhos". Maldito seja o maniqueísmo.

hardy disse...

Não era isso, então? Ufa.

Teeth é um filme de terrir. Eu não acho que um filme de terrir mereça tamanha análise. :)

Kitagawa disse...

"Cada vez q alguém diz q só viu um jogador e uma modelo, os anti-racistas, pra efeito de argumento, acrescentam mais um dado. Nesse caso foi a banana"

Sim, a questão é: se tivesse uma banana voce ainda ficaria nessa ingenuidade boba, "só vejo um jogador com uma banana na mão"?. Reitero que também não achei a foto ofensiva. Eu passaria batido. Mas que há um limite, há. Discordo que comparar um negro a um macaco é a mesma coisa que comparar o jack nicholson a um lagarto. Porque negros são chamados de macaco pelos racistas desde sempre, num recurso clássico para relega-los a uma posição inferior em relação ao branco. Não estou dizendo que negros são coitadinhos que "merecem" tratamento diferenciado. Coitado é do cara que chamar um grupo de negros de macacos.

"Etiqueta" mencionou o Pracima. É por aí. Enquanto voce defende o direito de comparar um negro a um macaco sem ofender (como se essa escolha coubesse a quem compara), eu digo: se voce não quer ser confundido com um racista, não se expresse como os racistas costumam se expressar, pois os "da raça" sabem muito bem como são essas expressões, pois eles ouvem isso desde sempre. Claro, parece que nesse seu mundo ideal, racismo é só paranóia da cabeça dos negros, quaisquer rusgas entre negros e brancos acabaram junto com a escravidão. No que voce se baseia pra achar isso é um mistério, ainda mais em se tratando de EUA. Perguntar a um negro, voce nunca deve ter perguntado. Esse utopismo é tão alienante quanto o de qualquer radical de extrema esquerda.

Permafrost disse...

Kitagawa,
De onde vc tirou esse último parágrafo é q é o mistério pra mim. Vc está desde a discussão no LLL achando q está falando com racistas de armário e então pauta o q diz em cima dessa interpretação falaciosa. Uma coisa é ser racista; outra bem diferente é questionar o insistente discurso anti-racista e colocá-lo em perspectiva.

Bem disse o Neanderthal: a discussão está de tal modo viciada q se a foto fosse de um jogador de basquete branco poderia ter sido pior: ¿por quê não puseram o maior jogador de basquete do momento junto com a modelo mais requisitada do momento? ¿pq ele é negro e criaria muita polêmica na capa da Vogue? (note-se q o LeBron é apenas o 4° negro a figurar numa capa da Vogue em toda sua história) E aí abre-se outra polêmica e blablablabla.

Tou com o Demoá ali qdo disse q, numa sociedade democrática, a melhor maneira de combater o racismo é ignorar. Ainda mais pq, se começarmos a rolar a lista de preconceitos, não vamos parar nunca: contra feios, baixos, gordos, burros, velhos, pobres, mulheres, vesgos, pernetas, índios. (Uns anos atrás, meu sogro – q é médico e sabia o q estava fazendo – foi operado por uma neuro-cirurgiã; minha esposa teve q ouvir isto de um visitante, dito ao convalescente: “Mas ¿¡¿vc se deixou operar por uma mulher?!?”) Não vejo por quê uma índia burra feia gorda baixa vesga e velha tem menos direito a uma vida livre de preconceitos do q qqer outra das 7 bilhões de pessoas no mundo, e no entanto ela deve levar uma vida bem pior do q a q leva quem é articulado o suficiente pra reclamar de racismo. Uma pessoa daquele jeito só não se mata pq aprende a ignorar os vários preconceitos contra ela.

Comparando com os outros preconceitos, o racismo contra o negro só tem mais ibope pq está carregado de culpa histórica e tbm pq afeta um grupo com diferenças mais *visíveis* e fáceis de estruturar cognitivamente. Mas nem de longe é o preconceito mais insidioso na sociedade ou aquele q mereceria maior destaque numa discussão aberta. É fácil e cômodo ter opiniões sobre o racismo. Mas questionar por quê cada um de nós – brancos, negros e amarelos – cerceamos diariamente o acesso de um ignorante ou um feio à felicidade é bem mais problemático e exigiria um esforço de doloroso auto-exame q ninguém jamais faria.

Mas o Dr Plausível, tadinho, ninguém presta muita atenção ao q ele diz; parece alguém tergiversando. Por exemplo, já faz hora q vem falando de 'cortesia' e ninguém nem tchuns.

Linha disse...

tem uma coisa que eu nunca entendo: o que significa "pergunte a um negro"? Um negro assim, genérico? Qualquer um, posso escolher no minha-mãe-mandou?

Andre disse...

Linha,

Sabe o que é engraçado? É que se vc perguntar a qualquer negro, e ele responder o contrário do que esses anti-racistas dizem, eles (os anti-racistas) dirão que ele só respondeu isso pq o preconceito já está tão enraizado na sociedade que ele nem percebe blablabla bliblibli.

Foi o que o Alex disse lá no LLL, sobre o tal faxineiro cujo apelido é Pretinho: "Não, ele não gosta de ser chamado de 'Pretinho'. E, se gosta, então o problema é muito, muito pior."

É a prodenúncia sendo exercida. Não há escapatória.

Att,

Linha disse...

Andre,

o que me aborrece é que se fale de gente usando artigo indefinido.

Mas você tem razão: não tem escapatoria mesmo. então que se dane. de qualquer forma, não haverà sobreviventes.

Kitagawa disse...

Permafrost, a discussão está viciada entre outras coisas porque voce se recusa a responder uma unica e simples pergunta: SE o Le Bron estivesse com uma banana na mão, ou em cima do Empire State, ou ambos, voce veria algum problema? E mesmo que visse, voce acha que isso deveria ser ignorado (não por vc, que isso seria fácil demais, mas pelos negros e anti-racistas)?

Kitagawa disse...

"Mas questionar por quê cada um de nós – brancos, negros e amarelos – cerceamos diariamente o acesso de um ignorante ou um feio à felicidade é bem mais problemático"

De que maneira estamos cerceando feios e ignorantes à felicidade? Só se for à felicidade de serem bonitos e cultos (e nesse caso, não somo nós que cerceamos). Na verdade não entendi. Do que vc está falando? Feios e ignorantes, se sofrem, no geral sofrem pelo que são de fato: feios e ignorantes. Feios terão mais dificuldades de trabalharem como modelo e de arrumar namorada, talvez amigos. Ignorantes, de passarem na faculdade. Mas ninguém acha que feio, por ser feio, é ignorante ou imcompetente. E ignorante, ora, ignorancia tem cura. De resto, como isso se compara ao preconceito sofrido pelos negros, que por serem negros, já são preconceituados como outras coisas: bandido, incapaz...?

De resto, voce citou gordo, mulher... Sim, são causas que merecem atenção publica também, todos eles sofrem em algum aspecto o preconceito da sociedade. Mas os negros sofrem em todos esses aspectos juntos e mais alguns. E são quase metade da poulação. Essa outras causa também mercem atenção publica, mas com todo o respeito, mulheres não se concentram nas camadas mais pobres da população. Gordos não são barrados em estabelecimentos. Ignorantes não são parados pela policia. Feios, fora uma ou outra atividade, não tem dificuldade de arrumar empregos qualificados. É muito mais fácil achar um rico feio do que um negro rico. E, ora bolas, a maior parte das pessoas são feias, seja num escritório, numa faculdade ou numa favela.

Kitagawa disse...

Oras bolas, eu sou feio e não reclamo! (ou, pelo menos, não reclamos dos outros) ;-)

hardy disse...

Kitagawa, a discussão é sobre o que é, sobre o que está estampado na capa da revista - um jogador de basquete quicando uma bola de basquete com uma modelo do lado. Seus 'e se' não têm a menor relevância. Na foto discutida não tem banana, não tem Empire State e não tem mocinha gritando, assim como não tem disco voador nem elefante listrado - isso tudo é imaginação.

Agora, se a Vogue publicasse uma foto com um astro negro qualquer comendo uma banana em cima do Empire State Building seria porque um astro negro qualquer se dispôs a fazer uma foto comendo uma banana em cima do Empire State Building, pois não? Porque ele topou ser assim retratado, pois não? Neste caso, só ele teria que responder qualquer coisa (se assim o quisesse), pois não?

Você fala como se os negros fossem só objetos de ações, nunca sujeitos. Não admira que queira protegê-los tanto.

O tal LeBron é um indivíduo adulto e pensante. Ele fez a foto, viu a foto e negou que haja na foto qualquer intenção de preconceito. Mas o povo insiste em querer dizer: "Ô, amiguinho, você nem sente, você nem percebe, você nem entende, mas te fizeram de macaco, tá? Agora deixa que eu luto pelos seus direitos."

Pracimademoá disse...

email: no@no.no
Kitagawa, permita-me orientá-lo para um dos melhores posts do Dr., que esclarece uma de suas dúvidas:

http://drplausivel.blogspot.com/2005/10/p1a-preconceitos-sem-ibope-1.html

Data: 2008-05-13T02:18:01-05:00
Permafrost
Kitagawa,
Os feios e burros são diariamente, a todo instante, preteridos em ações pequenas e corriqueiras: um motorista de ônibus q pára fora do ponto prà moça bonita mas não pára prà moça feia; uma resposta paciente q é dada a alguém q formula bem a pergunta mas q é negada a alguém q tem a mesma necessidade da resposta mas não maneja tão bem as palavras; &c &c &c infinitamente até a satisfação das necessidades mais vitais de socialização e procriação. Vc poderia argumentar q as coisas são assim mesmo, darwinianamente, q os seres vivos tem uma pulsão vital em direção à beleza, à complexidade e à competência e, portanto, nada mais natural do q repelir o feio e o burro, preterindo sua socialização e procriação em favor dos melhor dotados.

Mas argumentar darwinianamente é justamente o q um anti-racista *não* pode fazer, pois o anti-racismo se vê imbuído de uma motivação civilizatória q renega a biologia e o darwinismo, e trabalha por um ideal de cultura em q a animalidade do humano é renegada em favor do desfrute da inteligência, da emoção e do conhecimento. Por outro lado, o racismo é muito difícil de justificar *sem* apelar pra argumentos inspirados em biologismos. Portanto, se vc (q diz, por exemplo, "ignorância tem cura" – como se a ignorância não fosse o estado natural do ser humano) se vc considera q o anti-racismo peleja por dominar e reprimir um impulso natural, ¿por q não considera q um impulso natural muito mais básico – q é a tendência a rechaçar feios e burros – deva tbm ser dominado e reprimido?

Gabi disse...

"E se", "e se", "e se"....

Se minha mãe fosse homem, eu teria dois pais.

Kitagawa, tudo o que hardy har har disse. tu parte do princípio que o negro é pobrezinho e vitimazinha. Por nada não, mas acho que o Le Bron se vê como tudo, menos como vítima. Sei nada da história dele, mas se ele veio de origem humilde, aí é que ele menos deve se ver como vítima mesmo. Ele é um cara bonito, fortão, rico, famoso e tem dinheiro. Aposto que as mulheres se despencam em cima dele e muita gente inveja as oportunidades que ele teve, o talento, a fama, o $ etc.Desconfio que ele deve estar laughing all the way to the bank com esse bafafá ridículo em cima dessa capa de revista. E ri também de quem acha que ele é o pretinho coitadinho que não tem noção do racismo. E sabe o que eu acho? Eu acho que ele devia é sentir certo desprezo por quem pensa isso dele. Afinal, estão pensando que ele é um IDIOTA. O PRETINHO IDIOTA, TADINHO. Sério, se isso não faz tu ver o quanto é ridícula essa argumentação toda, o quanto faz quem levanta esse argumento ficar na desconfortável posição de preconceituoso (pois sim), eu não sei o que faz.

Andre disse...

Apenas a título de corrigir uma informação não-verdadeira:
Os negros NÃO SÃO quase metade da população. Mas nem de longe. No censo 2000, 6,2% da população declara-se negra. É bem longe da metade. Só chega perto se somar aos negros os pardos. Aí a soma dá por volta de 45%. É um truque que os anti-racistas geralmente usam. Dizem que os negros são quase metade da população, mas referem-se não aos negros, e sim aos não-brancos.

IBGE: http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/demograficas.html

Ah, a respeito da prodenúncia, acreditam que eu já tive que ouvir, numa discussão, que o censo não pode ser levado em consideração, pois muitos negros não declaram-se como tal. Ou seja, temos que acreditar no que a pessoa está dizendo, e não no IBGE. Se o IBGE dissesse que, de fato, metade da população é negra, aposto que aí seria pra levá-lo em consideração!

Gabi disse...

Aliás, pode colocar essa coisa do "coitadinho, não tem noção da vida" pra todas as pessoas que todo mundo acha que sofrem preconceito desde o segundo em que respiraram fora da barriga da mãe: mulheres, mexicanos, feios, pobres, gordos, mancos, caolhos.

As pessoas de bom coração que se horrorizam com a POSSIBILIDADE de haver um LAIVOZINHO de preconceito bem escondidinho na mente alheia (porque, né, na dele CLARO QUE NÃO TEM) só fazem criar mais ressentimento e infelicidade no mundo. Ó só:

Pessoa de muito bom coração que quer mudar o mundo: "Coitada de você, fulana, não sabe que tá presa num papel quando faz almoço pra família e lava as meias dos filhos em vez de pedir aumento pro chefe e finalmente fazer o mestrado."

Mulher casada, feliz e contente com sua vidinha, e que acha que o mundo até pode ser injusto, mas não foi com ela: "Caralho, eu era infeliz e não sabia!"

Pessoa de muito bom coração que quer mudar o mundo: "Coitado de você, pretinho, se tu soubesse quantas coisas te foram negadas só porque tu tem a pele escura... Se soubesse o quanto RIEM da tua cara famosa e cheia da grana nas capas de revista..."

Negro superfeliz que acha que o mundo pode até ser injusto, mas não foi com ele: "Caralho, eu era infeliz e não sabia!"

E assim surgem mais pessoas infelizes, amarguradas e choronas pelo mundo. The end.

Nenhuma amiga minha quando tá cozinhando ou cuidando dos filhos/namorado/marido acha que tá "num papel inferior". Porque, né, elas são "esclarecidas". Mas, ah, tu acha que elas acham O QUÊ das outras mulheres do mundo? Que são umas coitadinhas que não percebem que a vida tem mais a oferecer que fazer almoço pra família, que deviam se emputecer e ter convulsão no chão, espumando pela boca, quando algum mané retardado faz um comentário machista sem fundamento, que se a mulher não se emputece ela é IDIOTA/IGNORANTE etc.

Da mesma forma, o LeBron não se acha coitadinho porra nenhuma, excuse my french. Ele acha que os coitadinhos são os outros. Mas, ah!, nós, né, os outros, achamos ele coitadinho! Ele, que ganhou cachezão/fama por aparecer na capa da Vogue, DECISÃO TOMADA POR ELE MESMO.

"Tadinho do LeBron! Tão bobinho! Não tem nocão das coisas. Já eu, eu tenho! Eu não tenho preconceito nenhum. Só acho que ele é bobinho, né? Ingênuo. NUNCA que devia ter feito uma capa dessas na vida. Quem ele acha que é, pra pensar que tá ACIMA da associação preto-macaco que eu e outras pessoas DUBEM fazemos?"

Permafrost disse...

Qto a mim, não ligo muito pro Kitagawa perguntar "e se isto, e se aquilo", pois não são questões sobre o passado ou o presente mas sobre o futuro. Muitas previsões de deterioração feita décadas atrás se concretizaram. Por exemplo, qdo as mulheres começaram a mostrar os tornozelos em público, não faltou quem dissesse "não tem nada demais", e quem retrucasse "¿e se mostrassem as canelas?", e qdo mostraram as canelas, "¿e se mostrassem os joelhos?". Se algum moralista de 100 anos atrás viesse ao presente, acharia q está na própria Gomorra. Mas moralmente, pelo menos, o mundo não está nem melhor nem pior do q antes. Talvez até melhor, visto q mais se sabe. E isso, pra mim, demonstra q não tem a menor importância se daqui a 10 ou 20 anos aparecer na capa de uma revista famosa – frívola ou séria – um negro famosérrimo segurando uma banana, coçando a cabeça e fazendo sexo com uma loira pelada.

Poder-se-ia argumentar q, prum anti-racista, negro em pose símia em capa de revista é o equivalente a mulher seminua pruma feminista: as duas imagens estão aí pq o poder está mormente nas mãos de homens brancos. Mas essa seria um interpretação toda espalhafuçada. Enquanto a pose do LeBron é simiesca apenas na cabeça de prodenúncios anti-racistas, e seria apenas um *símbolo* de outras coisas, a mulher seminua é a própria coisa em si, demonstrando q uma emancipação só é possível se contrabalançada pela imagem de sua antítese. E é isto, no fim, q espero q o Kitagawa veja: a emancipação total do negro, a erradicação do preconceito, só é possível se acompanhada da total liberdade de um negro aparecer em *qualquer* pose com *qualquer* adereço e não ser objeto de prodenúncias.

Neanderthal disse...

Tem razão.
No dia em que um negro puder receber 200 mil dolares para aparecer na capa da Vogue segurando uma banana, sem ser linchado pelos anti-racistas, pode-se dizer que o racismo já era.

rômulo arbo menna disse...

post muito bem escrito, grato.

rômulo arbo menna disse...

post muito bem escrito, grato.

Kitagawa disse...

Haha, Permafrost, mas não é ironico que voce se recuse a responder minha simples pergunta de maneira direta, e que também não tenha coragem de botar a foto de um negro sendo comparado a um macaco no seu post? Não que eu o esteja estimulando a isso, mas voce sabe do que estou falando. Talvez porque voce não queira ofender os negros e/ou não queira passar por racista. Ótimo.
Ontem por acaso, tava vendo o Man´s Show, tradicional programa "politicamente incorreto". Eles começaram a caçoar da Ophra. Tudo bem. Riram do fato dela ser "comilona". Beleza. Depois mostraram o "joguinho da Ophra", onde a Ophra é representada por um... hippopotamo! Ótimo! Eles nunca ousaram fazer alusão à sua raça.

Sobre o Le Bron, já deixei claro que
eu não vejo problema na foto original. Só levantei OUTRA hipótese (que poderia ser com qualquer negro) e coloquei ao julgo do Permafrost, coisa que ele não fez. Mas tudo bem. Mas veja, minha intenção não é censurar. É mais avisar: chame um individuo negro de burro, compare-o a um lagarto, a um cachorro, isso tudo não tem problema. Voce estará ofendendo o individuo, ele. Mas se compara-lo a um macaco, como os verdadeiros racistas adoram fazer, ele entenderá que está ofendendo sua negritude, sua raça, todo um extrato social que inclui a mãe dele e o filhinho dele. Não é pra ficar puto? Não é coitadismo. Se ofender é coitadismo agora?

Quanto ao feismo e ao burrismo. Vez ou outra dá pra compara-los ao preconceito aos negros, mas no fundo são alhos com bugalhos. A reivindicação dos negros não é do tipo: "faça amizade com um negro", "ache o negro bonito", "namore um negro". Cada um que tenha os amigos e os namorados que quisererm, isso é um assunto privado. O assunto aqui é publico, é "não chame o segurança só porque o sujeito é negro", "não deixe de me dar emprego só porque sou negro", "não me barre no seus estabelecimento só porque sou negro", "não ache que por ser negro estou fadado a uma posição servil na sociedade", "não me bote na posição de culpado só porque sou negro" etc. São questões graves, que estão relacionados diretamente à percepção que a sociedade tem dos negros, daí a importancia de discutirmos a maneira como os meiosde comunicação podem agravar isso. Agora, quando alguem deixa de dar emprego a um sujeito porque é feio, isso é até considerado crime, e está no nivel de gravidade dos crimes racistas. Isso até foi debatido no LLL. mas é o que falei: feio tem em todas as classes, em todas as profissões (menos de modelo, claro).

hardy disse...

Muito interessante esta frase vinda de você, Kitagawa:

"Mas se compara-lo a um macaco, como os verdadeiros racistas adoram fazer"...

Até agora, você é o único aqui que insiste em comparar negro a macaco, chegando ao absurdo de sentir falta da comparação Oprah/macaco no programa que você citou, e de se referir a esta comparação como "alusão à sua raça".

Muito doido, mêo!

hardy disse...

Pê ésse: é claro que você não disse nada disso literalmente, mas seu texto é uma mina de atos falhos.

João Paulo Cursino disse...

Racismo, racionalismo, revanchismo, como quiser.

ADOREI O QUADRINHO DO PROFESSOR BERGAMOTA RINDO, no lado esquerdo da tela. Por que ele? Por que As Sete Bolas de Cristal?

Permafrost disse...

Kitagawa,
É verdade q eu tive a opção de publicar a imagem q os prodenúncios originalmente disseram ter sido a inspiração prà capa da Vogue. Mas não quis entrar nessa por três motivos:

1. a suposta inspiração é supostamente um cartaz de 1917 em prol do alistamento militar euaense prà 1­ª guerra, em q o povo alemão é retratado como um gorila vestindo um capacete de kaiser, portando uma clava q representa a cultura alemã e carregando uma mulher desesperada q representa a liberdade;
(veja aqui: http://thumbsnap.com/v/N4gK2BXI.jpg )
2. a controvérsia original rodou demais em comparações entre o cartaz e a capa, discutindo coisas inanes – tipo q a GisBun é brasileira e "portanto" talvez não conte como "branca", q ela está sorrindo e a outra não, q o cartaz não pode ser o King Kong pois ele só apareceu em 1933 &c &c – e, francamente, eu quis evitar q surgissem besteiras do tipo aqui;
3. a prodenúncia inicial contém uma gafe q eu teria q explicar: se o gorila do cartaz representa o povo ALEMÃO, prototipicamente branquelo e loiro, ¿q catso tem o gorila a ver com um afro-americano? O cartaz não representa um gorila: é o gorila q representa o povo alemão. ¿Quem senão alguém comichando pra fazer uma prodenúncia faria uma ponte entre esse cartaz e aquela capa?

Tua pergunta sobre a banana, achei q respondi de várias maneiras. Mas se não abordei diretamente o q vc tem em mente, só pode ser a questão de se uma foto de um negro em pose simiesca portando uma banana poderia atiçar racistas a se esbaldar em comparações denigritórias, e *portanto* deveria ser evitada. Pra mim é mais do q óbvio q ela não deveria. ¿O q vc estaria propondo? q se aconselhe os negros a não descascar bananas na vizinhança de uma câmera? O preconceito se vale da *falta* de imagens e informações, não do excesso; a civilização e a cultura se mantêm com distinções esmiuçadas e não com generalizações e zonas cinzentas.

Permafrost disse...

JP,
¿Prof Bergamota? Não não; aquele é o Dr Plausível dando uma de suas inconfundíveis gargalhadas. :•)

O fenótipo me foi sugerido pelo leitor Pracimademoá, e a imagem foi escaneada pela leitora Linha.

Andre disse...

Kitagawa,

Quer dizer que fazer uma piada sobre determinada característica física, pode. Sobre outra, não pode.
Se tivessem feito piada sobre a cor da pele de uma pessoa, isso teria ofendido todas as pessoas que têm a mesma cor de pele, seria um absurdo, etc. Mas, por exemplo, se fazem piada com outro atributo físico, aí tudo bem? Tipo, fazer piada colocando a cara do Jô Soares num elefante não tem problema, não ofende a todos os gordos, mas apenas sugerir que um negro apareça numa capa de revista com uma banana na mão é o fim do mundo? É isso mesmo?

Outra coisa:
'O assunto aqui é publico, é "não chame o segurança só porque o sujeito é negro", "não deixe de me dar emprego só porque sou negro", "não me barre no seus estabelecimento só porque sou negro", "não ache que por ser negro estou fadado a uma posição servil na sociedade", "não me bote na posição de culpado só porque sou negro"'.
Pois bem. Isso é muito vago. É acusar ninguém. Seja direto: quando qualquer uma dessas coisas aconteceu? Quando a sociedade atual achou normal qualquer uma dessas coisas? Pq se vc estiver falando de algo que NÃO existe, ou só existe na cabeça dos que querem proteger quem não precisa de proteção, aí é pura demagogia. A mesma demagogia que é achar que a capa da revista é ofensiva, é chamar os negros de macacos, é falar que os negros são menos inteligentes, etc.
E aí, e os fatos?

Kitagawa disse...

Olá, pessoal ;-)

"só pode ser a questão de se uma foto de um negro em pose simiesca portando uma banana poderia atiçar racistas a se esbaldar em comparações denigritórias..."

Não só isso, mas porque ofenderia os negros. Quer vc queira ou não. Essa seria a principal razão pra EU evitar isso.

"...e *portanto* deveria ser evitada. Pra mim é mais do q óbvio q ela não deveria."

Finalmente uma resposta direta. Claro, num mundo ideal, isso não teria gravidade maior do que fazer piada de argentino. Respeito: se *deveria* ser assim, que assim se faça, para que um dia possa ser. Agora, suponho que voce seja branco (mil desculpas se não for). Então, imagine que pra voce, sendo branco, é fácil acahr isso, mas voce não tem a menor idéia do que é ser ofendido racialmente. EU, que nem negro sou, já fico ofendido. Um negro tem dez vezes mais razões pra ficar ofenido do que eu. Agora, se voce realmente acha que não tem problema ofender os negros, racialmente falando, então esquece o que falei.

Vamos ver se consigo chegar ao cerne da questão. Uma vez o James Brown dava uma entrevcista por aqui e uma reporter meio ignorante e inocente aludiu ao fato dele ser um "nigger". Obviamente o James Brown ficou puto e quase abandonou a coletiva. Não se trata de um termo qualquer, ele tem uma história. Se quiser ofender um negro americano, chame-o de nigger (a não ser que voce seja amigão dele e negro também, pois as ofensas raciais graves se dão num contexto de poder, onde um faz parte de um grupo racial que historicamente subjulga/sunjulgou o outro, e esse é um detalhe importante, mas essa discussão fica pra próxima). Chamar negro de macaco também tem uma história, é um recurso clássico de quem quer ofender os negros. Vcs podem não saber, ou fingir não saber, mas é um estereótipo. Claro é preciso alguma vivencia, alguma cultura, ler jornais, pra saber disso (tá vendo como não tenho preconceito contra a ignorancia?). É de macaco que, por exemplo, os racistas da Europa gostam de chamar os jogadores brasileiros. Digitem macaco e racismo no google.

Bom, no mundo do André, não existe racismo. Só porque ele nunca sofreu de preconceito, os outros também não devem ter sofrido. Afe, por hoje chega...

Andre disse...

Kitagawa,

Em primeiro lugar, você não me conhece.

Em segundo lugar, estou esperando os fatos. Falar "não pode chamar a segurança só pq um negro entrou no recinto", como se isso ocorresse cotidianamente, é muito fácil. E os fatos? Quando isso aconteceu? Quando aconteceu qualquer uma das outras coisas que você falou? Quando a sociedade atual achou normal qualquer uma das coisas que você falou?

Att,

Permafrost disse...

Kitagawa,
Não há qqer animosidade no q se segue. São apenas argumentos.

Como já disse antes, grande parte do q vc explicita são, no q digo eu, premissas e subentendidos. É como se eu estivesse fazendo cálculo integral e vc insistisse em falar de aritmética. A aritmética já está embutida no cálculo; quem já faz cálculo não precisa estudar aritmética. No entanto, a aritmética só chega até um certo ponto e, pra realizar coisas mais avançadas, é preciso parar de pausar pra se impressionar por uma adição ou subtração. Estamos aqui entre adultos inteligentes e cultos (a chatice do Dr Plausível é um ótimo filtro, acredite) e parece q aqueles q aprovaram minha exposição da prodenúncia querem dar um passo a frente; e a cada vez q falamos desse avanço desejável e possível, vc e outros anti-racistas insistem em dar um passo a trás, repetindo infindavelmente as mesmas queixas e ressentimentos e assim, claro, perpetuando o problema. ¿É esse teu desejo anti-racista pros próximos cem anos? pros próximos quinhentos? q em 2508 ou mesmo em 2058 ainda haja um contingente de prodenúncios q se melindre com uma foto q parece estar dizendo através de um negro aquilo q outros negros achariam melhor q sequer fosse aventado? como se fossem incas q ainda se ressentem dos espanhóis?

Meu artigo anterior explode a interpretação derrotista dos anti-racistas e demonstra por a+b q o preconceito contra os negros tem causas bem diferentes das aceitas pela duas narrativas dominantes, tanto a racista como a anti-racista. E por esse caminho chego a uma conclusão positiva, otimista e (pro Dr Plausível, incaracteristicamente) até confiante. E aí ¿vc diz q posso ser "confundido" com racistas? ¿¡¿Uéé?!? Já neste artigo, demonstro como os anti-racistas fazem uso de prodenúncias de modo a levar as interpretações numa direção retrógrada, e aí ¿tua reação é adicionar novas prodenúncias?

A: Oprah parece um hipopótamo.
B: ¡AHA! ¡Está evitando chamá-la de macaco!
A: Não vejo um macaco nela.
B: Vê sim. Bastaria ela segurar uma banana.

?????

continua...

Permafrost disse...

continuação
Os anti-racistas têm uma visão tão estratificada das coisas como têm os racistas. Ninguém vê, por exemplo, q a ilegítima imputação de inferioridade dos macacos é feita por ambas as facções. E ¿quem é q determinou q os macacos são "inferiores" aos humanos, apenas pq não fazem parte do nicho cognitivo, apenas pq os humanos exercem um "poder" sobre eles?

Observe q vc vê sentido em utilizar o falso cognato importado "ofender" numa discussão q começou pq um brasileiro residente nos Euá concordou com um euaense em sua interpretação esdrúxula e desaculturada de q a palavra brasileira "nego" é "ofensiva". Se formos começar a falar de "poder" entre seres do nicho cognitivo, comecemos com o poder de incutir palavras na boca dos demais. O brasileiro não se sente humilhado por ter q gastar dinheiro e tempo fazendo cursinhos de inglês enquanto os euaenses vão jogar squash. Mas o preço de estar sob uma cultura tão dominante como as dos Euá é bem mais alto q o preço dos cursinhos. Uma das minhas intenções com esse artigo foi ridicularizar a própria origem das controvérsias importadas. Já vc e outros, parecem ter alegremente encampado a importação toda como a maneira mais lúcida de ver as coisas. Sorry, mas não.

Kitagawa disse...

Fala, Dr.
Desculpe a ausencia, andei ocupado e nem quis ler sua resposta pra não ficar tentado em responder.
Mas vamos lá.

"...a cada vez q falamos desse avanço desejável e possível, vc e outros anti-racistas insistem em dar um passo a trás,"

Do meu ponto e vista, voce é quer dar um passo atrás ao tentar restituir uma brecha para que os racistas possam se expressar preconceituosamente de maneira "corriqueira" e, assim, perpetuar o problema banalizando-o. Lembrando que o "problema" aqui não se trata apenas de um problema de comunicação, mas da segregação dentro da sociedade.
Do meu ponto de vista, voce é que pensa aritmeticamente ao dar o mesmo peso para a questão dos negros, das mulheres, dos feios ou dos, sei lá, argentinos.

"...claro, perpetuando o problema. ¿É esse teu desejo anti-racista pros próximos cem anos? "
Meu desejo anti-racista para os proximos anos é ver os negros mais integrados à sociedade uma maneira geral.

"A: Oprah parece um hipopótamo.
B: ¡AHA! ¡Está evitando chamá-la de macaco!
A: Não vejo um macaco nela.
B: Vê sim. Bastaria ela segurar uma banana."

Não fiz prodenuncia nesse caso, nem mesmo no caso do Le Bron, voces entenderam errado. Dei como exemplo de como eles conseguiram tirar um sarro da Ophra sem apelar para estereotipos racistas, jogaram "limpo". Um exemplo apenas. Podem ter ofendido ela (e talvez as mulheres gordas), mas mesmo os negros da platéia riram. MAS, se fizessem comparação com uma macaca, no minimo a parcela negra da platéia fecharia a cara. Mas eles não fizeram, nem sugeriram ótimo. Não sou a favor de "forçar" uma leitura onde não há nada. Nisso estamos de acordo. Só discordo que quando de fato "há", se deve ignorar. Por exemplo, peguemos um caso explicito de racismo: torcedores europeus do time adversário chamando o Ronaldinho Gaucho de macaco. Cabe aí dizer que não é racismo, que macaco é so um animal bonitinho e habilidoso? mesmo que esses torcedores confirmem, "é racismo, sim!". Pelo que entendi, pelo seu argumento, sim. Ou talvez seria melhor ignorar isso simplesmente? Ignorar ajudaria de alguma forma a resolver o "problema"? Ou só estimularia mais manifestações desse tipo? Ou tão somente, tornaria mais banal o racismo, tirando toda a gravidade do problerma? Também não cabe dizer "é só não se ofender". Como isso é possível? Como expliquei a ofensa racial não uma ofensa qualquer. Ela procura demoralizar não só o individuo, mas toda sua familia, seu filhinho pequeno, sua esposa, sua mãe. E se o cara se ofendeu, isso é um fato.

Kitagawa disse...

Ó, essa noticia:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2004/11/041119_racismodtl.shtml

Permafrost disse...

Pra mim esse exemplo do futebol demonstra um aspecto típico do problema. Acho q muito do q vc diz sobre racismo, muito do q os negros acusam de racismo, tem a ver com aquela coisa de alguém xingar a pedra em q tropeça.

A pedra é um objeto inanimado, sem vontade, sem intenção, mas mesmo assim o tropeçante põe nela a "culpa" pelo tropeço. Mas atribuir culpa a um tropeço é uma forma de culpismo (veja no linque em Permafrost). Nem a pedra nem o tropeçante "quer" q ele tropece; portanto, não faz sentido falar em culpa.

Subindo um grau acima do inanimado seria qdo X distraidamente pisa no pé de Y, e este – por hábito ou baixa auto-estima ou birra oucétera – acha q o pisão foi proposital, ou seja, o atribui a uma intenção. Claro q o pisante poderia ter sido mais cuidadoso, mais consciencioso. Mas a acusação de distração não é válida pois a distração só é perceptível, pelo pisante, em retrospecto. Ou seja, não existe "intenção de distração".

Analogamente, e subindo mais um grau acima da distração, não existe, no torcedor, a intenção de ofender mas de irritar; e não de irritar a *pessoa* do jogador mas de irritar o *jogador*, ou seja, a pessoa em seu papel de agente do adversário. Nessa parte do jogo, *qualquer* característica do jogador é munição prà torcida adversária. Se o jogador for, por exemplo, um branco euaense, ele vai ser xingado de ianque. Na Europa, é comum um país ter termos denigrintes pra gente de vários outros. Os ingleses, por exemplo, têm termos denigrintes pra várias nacionalidades: o alemão é um 'kraut', o francês é um 'frog', o paquistanês é um 'paki', o japonês é um 'nip', o italiano é um 'wop', o hindu é um 'raghead', o espanhol é um 'spic', &c &c &c &c &c

[continua...]

Permafrost disse...

[continuação]

Contra isso, teu argumento seria basicamente q não se encosta em ferida alheia: mesmo q não haja intenção de
incomodar/insultar, o não-negro deve ter sensibilidade pra entender q algumas palavras podem ferir, e ferir mais do q 'kraut' fere um alemão.

O q acho q não ficou claro é q o argumento acima é uma PREMISSA do q venho dizendo aqui desde o primeiro artigo. Acho também q vc e outras pessoas cometem o erro comum de confundir descrição com prescrição. Qdo digo q acabar com o racismo é uma "tarefa" q cabe ao negro/mulato/&c, estou dizendo q isso ou VAI acontecer ou NÃO vai acontecer. Será melhor se acontecer. Qqer solução q prescreva uma alteração *voluntária* no comportamento de não-negros não vai resolver o problema dos *negros*, ou seja, o problema q ELES têm e q foi imparcial e ponderadamente descrito e posicionado historicamente no artigo "O racismo entre aspas" abaixo.

Ainda bem q muitos negros já sabem q depende deles. Por exemplo, Chris Rock. Veja os vídeos abaixo. É *claro* q o sarcasmo dele tem vários níveis; mas ao mesmo tempo q está sarcasmeando os brancos (em particular no segundo vídeo), também está passando a outros negros "o legado de seu aprendizado".

sobre a pretaiada (por falta de tradução melhor):
http://www.youtube.com/watch?v=Ui6-Wc0PDc4

como se comportar com a polícia:
http://www.youtube.com/watch?v=FfS8hJm7gtQ

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