06 novembro 2007

Falha humana: culpismo

O pesadelo do culpismo são acontecimentos como o 11 de setembro. A culpa por tanta destruição estava tão claramente estampada na testa dos seqüestradores suicidas, q o governo euaense viu-se imobilizado por um anti-clímax angustiante: eles não podiam nem se dedicar ao instinto de procurar os culpados, nem ao de puni-los, já q todos tinham virado churrasquinho. ¿Q fazer, então? ¿Q faz um ser humano normal num impasse? Claro, tem um ataque de nervos e quebra alguma coisa. "¿Tá pensando o quê, louça feia? Nunca gostei de vc. ¿Pensa q vai sair dessa impune?"

Os euaenses então saíram pelo mundo quebrando a louça feia do Afeganistão e do Iraque. É o q dá ser romântico herdeiro de Rousseau.

Ao contrário do q Rousseau penseau, o Contrato Social não existe pra facilitar a colaboração entre indivíduos. Existe meramente pra q as gentes se dediquem a seu instinto social favorito: botar culpa em alguém. A sociedade só existe pra aumentar o número de coisas q podem dar errado – e portanto o volume de culpa q pode ser alocado. Há tanta culpa por alocar q já não há limites. A lógica é assim: se o aquecimento global pode não ser um fenômeno natural, então não é: alguém TEM q levar a culpa. Se ainda ninguém leva a culpa por terremotos é porque ninguém ainda descobriu como um terremoto pode ser causado por uma falha humana.

Cai um avião matando 200 pessoas, e ¿de quem é a culpa?, pergunta-se o populacho.
Cai um viãozinho matanto 8, e... ¿de quem é a culpa? pergunta-se a plebe rude.

Tem gente q já vai botando a culpa no piloto, claro. E mais claro ainda, tem gente q já vai denunciando quem faz isso:

"Iiiihh, meu Deus. Já vai ter quem bote a culpa no piloto. Essa gente não presta mesmo, hem?"

Mas, ué? Se acidente de carro quase sempre é culpa dum motorista, ¿por q é q acidente de avião não pode ser do piloto?

Também tem o oposto, aqueles q decoraram a frase "ainda é cedo pra se falar em falha humana." Mas ¿q outra falha existe, ô júnior? Um acidente com artefatos humanos só ocorre porque mais de uma pessoa se distraiu num momento crítico – seja na idealização ou na construção; seja na manutenção ou na operação. Quer dizer, na realidade, se existe culpa – a responsabilidade por desencadear um evento desagradável –, ela está longe de ser individualizada: pode-se culpar igualmente o piloto como o inventor da aviação.

Morreram 200 pessoas em Congonhas porque Congonhas existe, ora pois não?

É claro q, no estado de direito, a atribuição de culpa foi promovida de instinto social a meramente uma ferramenta legal pra descolar uns trocados. Desindividualizar a culpa seria a pior estratégia dum advogado. A neurose principal da sociedade moderna é q tudo tem q funcionar perfeitamente. Faça alguma coisa mais natural – como tropeçar, cochilar, distrair-se – e ai de vc. Uma vez assassino, sempre assassino.

Mas deixa pra lá. Só estou tagarelando enquanto espero nosso enaltecível doutor voltar de viagem.

8 comentários:

Lucas disse...

Falta do doutor esses dias... me assustei ao ver um post novo

Andre disse...

E de quem é a culpa do Dr. não ter retornado ainda???

guilherme disse...

nao sendo culpa minha...

el_poland disse...

Culpa, essa coisa tão cristã... Será que temos como nos livrar dela?

De quem é a culpa por sentirmos tanta culpa e por querermos sempre culpar uns aos outros?

Permafrost disse...

A culpa é sempre de quem não está presente. Ainda bem q voltei...

Pracimademoá disse...

Isto é culpa da decadência e da degeneração da sociedade: ninguém mais tem mordomo hoje em dia.

Rildo Hora disse...

Oi. Culpa começa com cul. Cool!

Permafrost disse...

É. A morna culpa.

Não, não... a morna culta...

Não, nào... a norma pulca...

Ah, já não sei mais do quê tou falando.

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