04 março 2007

Monstruoso texto sobre uma pequena observação

Vc aí q está lendo isto provavelmente acha q o Óscar não é termômetro de coisa alguma. Já o Dr Plausível (q recentemente publicou seu "Neuro-Refluxo Pseudo-Cognitivo do Pânico Moroso: Patologias Sociais Intra-Língüísticas") pensaria diferente. Com essa obra de vastíssima abrangência e algumas páginas, nosso epistolário humanista permite analisar e compreender fatos aparentemente tão díspares q só um idiota completo veria imediatamente alguma relação entre eles. Por exemplo, ¿o q têm em comum os dois fatos abaixo?

fato 1: em 2003, os Euá se basearam numa lorota pra promover e realizar a invasão do Iraque;
fato 2: nos últimos 6 anos, 58% [7/12] dos Óscares de melhor ator e melhor atriz foram outorgados àqueles q fizeram papéis baseados em pessoas reais (contando os coadjuvantes, 46% [11/24]). Nos últimos 3 anos (isto é, nos Óscares relativos a 2004-2006), essa proporção subiu pra 83% [5/6] (com os coadjuvantes, 58% [7/12]). Veja a lista abaixo:

Ator:
2002 Adrien Brody fez Wladyslaw Szpilman em The Pianist
2004 Jamie Foxx fez Ray Charles em Ray
2005 Philip Seymour Hoffman fez Truman Capote em Capote
2006 Forrest Whitaker fez Idi Amin em The Last King of Scotland
Atriz:
2002 Nicole Kidman fez Virginia Woolf em The Hours
2005 Reese Witherspoon fez June Carter em Walk the Line
2006 Helen Mirren fez a rainha Elizabeth II em The Queen
Ator coadjuvante:
2001 Jim Broadbent fez John Bayley em Iris
Atriz coadjuvante:
2001 Jennifer Connelly fez Alicia Nash em A Beautiful Mind
2004 Cate Blanchett fez Katharine Hepburn em The Aviator
2006 Jennifer Hudson fez Effie White (baseada em Florence Ballard) em Dreamgirls

Não são apenas pessoas reais: não são, tipo, George Washington ou Lavoisier: são personalidades contemporâneas, de vidas já bem documentadas em fotos, filmes e gravações. Ou seja, na verdade esses atores e atrizes ganharam o Óscar por imitações.

É uma porrada de personagens reais, não acha? Mas ¿q tchongas tem o fato 1 a ver com o fato 2? ¿O q a invasão do Iraque tem a ver com os Óscares recentes?

A resposta é q, nos Euá de hoje, a relação desejo/realidade está muito mais desequilibrada q de costume. A razão de ser dos Euá é, sem tirar nem pôr, a fantasia de unir desejo e realidade – uma fantasia a q estão peculiarmente predispostas as culturas baseadas na língua inglesa.

"Quêêê? Língua inglesa? Mas esse discípulo do Dr Plausível só fala besteira, hem?" já ouço os leitores pensando. Ok. Então preciso demonstrar o q é q o inglês tem de peculiar. E pra q todos meus leitores entendam, e só pra entediá-los um pouco, vou usar comparações com o português pra demonstrar algumas peculiaridades do inglês.

Se vc está tentando aprender inglês, aqui vai uma dica: a estrutura dessa língua é extremamente burocrática e bitolada:

-a. A seqüência de informações numa frase inglesa só aparece na ordem [quando]-quem-verbo-quê-como-onde-[quando]; ou seja, o inglês diz "[ontem] eu comi uma jaca vorazmente no parque [ontem]" e não "eu ontem comi uma jaca no parque vorazmente" nem "eu comi vorazmente uma jaca ontem no parque" nem qqer de tantas outras combinações válidas e comuns em português.
-b. Os adjetivos vêm antes do substantivo, e (pra resumir) aparecem na ordem tamanho-cor-procedência-utilidade: em português, vc pode dizer "uma raquete marrom de tênis alemã enorme" ou "uma enorme raquete alemã de tênis marrom" ou várias outras combinações; em inglês, só se diz "um enorme marrom alemão tênis raquete."
-c. Qqer coisa dita em inglês segue scripts estruturais rígidos e consistentes; ao contrário do português, em q a semântica influencia a estrutura.
--c¹. Em inglês, se uma estrutura é usada numa situação, ela é usada pra qqer outra situação análoga. Se digo "não consigo viver com fulano" e "não consigo viver sem fulana", o inglês perguntaria "¿quem vc não consegue viver com?" e "¿quem vc não consegue viver sem?", ao passo q o português perguntaria "¿com quem vc não consegue viver?" e "¿quem vc não consegue viver sem?" (além de "¿vc não consegue viver sem quem?", q vale pràs duas línguas).
--c². No inglês, é sempre a mesma coisa: sujeito, verbo, objetos, complementos. O português diz "aconteceu um acidente ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua"; em inglês, se diz "um acidente aconteceu ontem" e "o acidente aconteceu em minha rua."
-d. Ao falar de ações e acontecimentos, o inglês tende a ilustrar processos enquanto o português tende a observar resultados. Por exemplo, em português, um cara "entra na sala correndo" (primeiro o resultado, depois o método); em inglês, ele "corre pra dentro da sala" (primeiro o método, depois o resultado, acompanhando o fato).
-e. O inglês tende ao explícito e essencial, enquanto q o português (devido às muitas concordâncias necessárias) tende ao subentendido e ao redundante; por exemplo, em português, "nós colocamos as mãos nos bolsos" traz a informação /plural/ repetida em todas as palavras, não explicita de quem são as mãos nem os bolsos e precisa concordar a informação inútil qto ao gênero das palavras 'mão' e 'bolso'; em inglês, se diz "nós pôr nosso mãos dentro nosso bolsos."
-f. Como a estrutura inglesa é rígida e explícita, tende-se a criar novas palavras e expressões qdo uma lacuna ameaça aparecer na estrutura ou na explicitude, aumentando assim o detalhamento na descrição da realidade; em português, como as lacunas são facilmente preenchidas ou mesmo deixadas em branco como subentendidas, o vocabulário de palavras e expressões cresce ou se modifica bem mais devagar.
-g. Um país como os Euá seria impossível se baseado na língua portuguesa. Seria como imaginar o resultado se metade de todas as palavras e expressões de repente sumissem definitivamente de todos os livros, dicionários, jornais, conversas e memórias de 200 milhões de pessoas, levando junto metade das criações, produtos e instituições, q só se pode compreender e descrever com aquelas palavras.

O inglês é um sistema coerente e consistente de racionalizar, retratar e comunicar a realidade (ou melhor, o q a realidade tem de racionalizável). Foi através da explicitude burocrática da língua inglesa q os britânicos construíram e organizaram o maior império da história, e é através de seu detalhamento cartesiano q os euaenses criam e mantêm o país mais complexo e poderoso de hoje. Se não fosse falado por gente, o inglês seria um língua robótica, ultra-padronizada e esmagadora. O lance legal do inglês é justamente o fato de ser falado por seres humanos – q são uns bichos cheios de contradições, segundas intenções, inconsistências, vacilações, motivações q eles mesmos não compreendem, &c. Quer dizer, o robô inglês é lubrificado pela humanidade dos inglesantes.

Ao falar, o falante de qqer língua acha q está descrevendo a realidade. Todos se enganam mastodonticamente, é claro. Mas a eficiência do inglês engana os inglesantes duma maneira bem particular. A descrição padronizada da realidade tem um preço: onde tudo está esquadrinhado, parece haver poucos mistérios; e ao mesmo tempo em q o inglesante de hoje descreve a realidade com invejável precisão e economia, chegando a controlar o mundo natural com igualmente invejável prec. e econ., ele se crê capaz de também controlar as contradições inerentes ao convívio social. O notório puritanismo e preciosismo dos euaenses tem exageros singulares: vê-se desde o conceito de "politicamente correto" aparecer e se alastrar como fogueira em mato seco, até menino de 6 anos ser indiciado por beijar o rosto duma coleguinha de escola, passando por todas as falcatruas truculentas pra disseminar o conceito (pra eles, moralmente imperativo) da democracia. Depois q o detalhamento do inglês os ajudou a construir o país mais organizado, poderoso e confortável da história – a terra q realiza os desejos de seus ocupantes –, os euaenses caíram numa armadilha cognitiva: a representação da realidade acaba se tornando a coisa-em-si: a coerência e consistência do inglês é confundida com a coerência e consistência do mundo natural; e daí o convívio social, as relações políticas, os medos irracionais, as confusas dinâmicas do desejo, &c acabam enganosamente parecendo por sua vez nitidamente coerentes e consistentes e, portanto, passíveis de controle.

¿Será coincidência q, num momento em q os Euá descobrem no 11 de setembro a ineficácia de seus controles, e descobrem no Iraque a futilidade de seus desejos, e também ali são lembrados diariamente da incoerência e inconsistência das relações humanas, será coincidência, pergunto, q a CRIAÇÃO de novas personagens no cinema seja preterida em favor da IMITAÇÃO de personalidades reais?, q os euaenses busquem o escapismo numa realidade q seja ritualisticamente controlada por um script?

O Dr Plausível diria q não é mera coincidência.

De fato, o "script" (aliás, a única palavra inglesa q fui obrigado a usar neste texto) é um elemento essencial da cultura euaense. Pouco se faz nos Euá sem um script, ou sem q alguém imponha um script. Veja esta foto, tirada sesdias por um leitor num banheiro público na Flórida (¡obrigado, CBeetz!):



[Molhe as mãos e aplique o sabão. / Esfregue as mãos e enxágüe. / Seque bem as mãos com toalhas de papel.]

E é lóóógico, um script é o q eles tentam promover no resto do mundo. O q Condoleezza Rice faz viajando por aí é distribuir scripts, q uns aceitam e outros não. Ironicamente, o q faz (por exemplo) um israelense e um palestino aceitar a arbitragem da secretária de estado dum país do outro lado do mundo é um subentendido: ¿recusou Condoleezza? minhas condolências: eles e ela sabem q o poder dela emana não do valor intrínseco de seu script mas do poderio bélico q a leva de lá pra cá.

A questão é q, qdo se trata de grandezas conhecidas, do mundo natural, de organizar gente imbecil, ¡os scripts dão certo! (Todo o mundo prefere chegar em festa q já está rolando.) O script é a expressão dum desejo de como certas coisas devam funcionar. Eu faço blá, vc faz blé, ele faz bló e os três construímos algo juntos. A armadilha na eficiência do script é q, ao confundir desejo e realidade, se perde (também ironicamente) o controle não sobre a realidade mas sobre o desejo: ¿O q se quer ver no cinema, afinal?, homenagens ou diversão? ¿O q se quer ver no Iraque, afinal?, gente agradecida ou gente livre?

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Dois apartes:

(1) Existe a teoria de q a língua q uma pessoa fala influencia sua percepção das coisas. Tipo, se uma língua não tem uma palavra pra 'verde', então seus falantes não percebem a cor verde da mesma maneira q os falantes de outras línguas. Essa teoria já foi devidamente refutada, e não é dela q estou falando aqui. Estou falando da língua não como um dado da cognição individual mas como uma ferramenta de comunicação entre indivíduos. Exagerando, se uma cultura não tem uma palavra ou expressão pra, digamos, 'estupro', é evidente q, embora possa haver nessa cultura algo q outras chamariam de "estupro", não há maneira de, por exemplo, inserir o conceito inconfundível de 'estupro' na legislação dessa cultura sem um termo ou expressão q o designe; portanto, essa cultura não consegue falar do conceito de 'estupro' como uma entidade independente e seu sistema legal será, conseqüentemente, mais simples nesse aspecto do q uma cultura q contém o termo. Já é difícil em culturas onde o termo existe; imagine onde não existisse. Resumindo, a complexidade duma cultura está diretamente ligada a seu vocabulário de palavras, expressões e estruturas. Mais sobre isso aqui.


(2) Nada do q digo aqui invalida-se caso a onda de filmes retratando personalidades reais termine logo e nenhum Óscar seja dado a esse tipo de filme no futuro. É bem provável q muita gente, mesmo na academia, já tenha notado a tendência. E tal como diz Will Self, em The Quanity Theory of Insanity, "o efeito q a observação tem sobre acontecimentos aberrantes tende a ser a reversão de sua causalidade" ("the effect of observation on aberrant events tends to be the reversal of their causality").

43 comentários:

André disse...

Quando você diz que 'a complexidade de uma cultura está diretamente ligada a seu vocabulário de palavras, expressões e estruturas', e pelo exemplo que você deu do estupro, me parece que você inverte o efeito e a causa.

Sim, a complexidade da cultura e o 'tamanho' do vocabulário estão ligados, mas não é a cultura que é limitada pelo seu vocabulário, mas sim o vocabulário que reflete a complexidade da cultura e/ou o grau/forma/estilo de percepção de seus participantes.

Por exemplo, não é pq 'verde' não existe na cultura X que seus participantes não percebem a cor verde da mesma forma que outra pessoa da cultura Y, que tem a palavra 'verde', e sim seu contrário: os esquimós tem 24 palavras para definir neve pq, ora, eles praticamente só vêem neve! Eles tem 200 (número fictício) palavras diferentes para definir tonalidades da cor branca pq eles percebem 200 tonalidades da cor branca, e não 'os esquimós tem 200 palavras para a cor branca PORTANTO eles enxergam 200 tonalidades de branco'. Concluindo, creio eu, se uma cultura não tem uma palavra para 'estupro', isso se deve ao fato de não existir, ou existir raríssimas vezes casos de estupro nessa cultura.

Não sei se é isso que você quis passar, mas não entendi direito quando você diz que 'Existe a teoria, devidamente refutada, de q a língua q uma pessoa fala influencia sua percepção das coisas', e depois conclui 'a complexidade de uma cultura está diretamente ligada a seu vocabulário de palavras, expressões e estruturas'. P/ mim ficou um pouco confuso, parece que no primeiro momento você diz uma coisa, que a teoria está incorreta, depois você aparentemente diz exatamente o contrário.

Um abraço,

Caroline disse...

gozei.

Caroline disse...

gozei.

Permafrost disse...

André,
entendi sua colocação e já modifiquei o texto pra ficar mais claro. Também adicionei um linque relacionado. A questão é q a teoria q mencionei como refutada fala da percepção individual. É preciso não confundir 'perceber' com 'distinguir', ou seja, distinguir com palavras ou expressões distintas. Qqer pessoa percebe, por exemplo, os trocentos tipos de torneiras ou de neve, mas é preciso ser encanador ou esquimó pra distingui-los em comunicações inter-encanadóricas ou inter-esquimóticas.

Caroline,
as palavras tipo 'gozei' são a glória e o martírio de línguas sintetizantes como o português. Vc deu três informações numa só palavra: o verbo 'gozar', a primeira pessoa, o tempo passado; e ainda por cima há duas coisas subentedidas: é uma metáfora, e vc não precisou mencionar o quê causou o comentário. O inglês, q é uma língua analítica e modular, é incapaz de fazer isso (exceto a metáfora, claro). Se alguma leitora euaense quiser dizer q gostou do texto usando a metáfora do 'gozar', vai ter q dizer "I just had an orgasm" ou algo assim (ou seja, uma frase com sujeito, uma clara indicação do tempo e um predicado); e não só isso, ela muito provavelmente se sentiria compelida a adicionar o contexto: "I just had an orgasm reading your text."

Digo q é a glória e o martírio porque poder dizer coisas como 'gozei', 'cansei', &c é uma maravilha do português. Só q uma língua sintética é um atraso no mundo de hoje - o mundo necessariamente analítico da indústria, da economia e das pluralidades.

Hermes disse...

De fato, do bom.
Parabens.

Neanderthal disse...

Interessante que para criar uma cortina de fumaça e ludibriar os americanos, eles cunharam um termo relativamente impreciso: "Weapons of Mass Destruction", o qual nunca clarificaram. O que são?Armas nucleares? Talvez se tivessem usado o termo mais preciso, grande parte do povo americano não acreditaria. Não deve ter sido fácil manter essa imprecisão "no ar". Talvez tenham contado com o fato de que as pessoas não gostam de declarar a sua própria ignorância.

Além disso, havia motivos subliminares para a invasão e um argumento como esse serve para quebrar a resistência. Nessas horas, poucos conseguem se auto-questionar.

... disse...

...
O alemão, apesar de ser uma língua mais complexa que o inglês, tem uma estrutura parecida e inflexível.
Apesar disso não se nota os efeitos sugeridos no texto na sociedade alemã que, apesar de fechada, é tolerante, como em geral são as sociedades européias não latinas.
Creio que essa padronização da língua trás grandes vantagens para a construção do pensamento, o que explica a grande quantidade de gênios filosóficos e literários provenientes da Alemanha.
Talvez sua teoria deva sofrer uma revisão e ser reconstruída de uma maneira mais científica...

Gi disse...

Mas sabe, Perma, o francês não está muito longe disso também... Não sou "linguista" (ui, gozei!), mas observo nos meus estudos que ambas as línguas - francesa e inglesa - guardam palavras compostas (grand-mère, grandmother, mesmo que a última esteja formando uma só) e nasceram num povo cartesiano, com a diferença de que os franceses são cartesianos, porém muito complicados, nem um pouco práticos e os ingleses/americanos e demais "anglosaxões" são cartesianos-pragmáticos ao extremo de todas as forças chegando a tal "assepsia cultural". Gosto de ver as semelhanças mas é certo que o francês admite mais "complexidades humanas" devido a sua gramática. Não estou dizendo que "o inglês não é rico".

Gostei do exemplo do estupro, mas fico no meio do caminho. Por que você citou logo ele? Claro que tem a ver com as últimas notícias. Imagine comparar a língua árabe com a língua inglesa! ;-) O que é engraçado é o seguinte: bem, você não deve gostar nem ler sobre Astrologia, mas ao ler teu texto, imediatamente me veio a análise do mapa-astral dos EUÁááá. ;-)

Gi disse...

Interessante o que o Neanderthal disse: passei 1 mês na Alemanha. De fato, não é nada, mas é verdade que não percebemos esses mesmos efeitos falados por você no artigo. Ser derivado do anglosaxão não significa realmente muita coisa, porque alemão é alemão e inglês é inglês. E pelo nada que sei de alemão, a diferença entre uma Inglaterra/EUA e uma Alemanha já começa a gritar nos artigos definidos da lingua germânica: são muitos "eus", muito "superhomens" do "dedidas". ;-)

Gi disse...

Acabei de ler seu artigo sobre a Língua Portuguesa. Não sei nem o que pensar, porque aquele exemplo de "accountability" não tá pra mim mesmo... Meu inglês é "médio". Talvez seja verdade mesmo que o nosso português é complicado e não complexo e por isso acontecem tantas "más interpretações' como o caso do "interesse deles". Belo exemplo. Acho que o português dá brechas pra se "resolver" mas é claro que nessas brechas entra "punidade", entra a corrupção. Talvez por isso nossa música seja aclamada porque como bem disse Caetano na sua canção "Americanos": "Para os americanos branco é branco, preto é preto (E a mulata não é a tal)
Bicha é bicha, macho é macho,
Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro"

E a Condolezza é a única que tá no meio, porque está no papel de "bombardeadora da prática".

Bibelo disse...

Comi -- ou transei (aqui eu nao preciso ser politacamente correto, preciso?) -- recentemente uma Alema. Falando em lingua nao da para comparar: comer em portugues brasileiro (existe?) eh muito melhor, conforme muito bem expressado pela gostosa da Caroline.

Dr., Parabens pelo texto.

Permafrost disse...

Neanderthal,
Não vejo no alemão (e na cultura alemã) o problema "desejo x realidade". Vejo os problemas "arrebatamento x disciplina" e "geografia confinada x orgulho nacional". Pra compensar esses problemas, a cultura alemã age como se fosse o irmão mais velho da família européia. (Por 'geografia confinada' entendo q a Alemanha está numa posição central na Europa, e sempre teve seus movimentos inibidos por barreiras geográficas ou pelos países vizinhos. Note como o formato da Alemanha é uma espécie de bolsa, como se o país se refugiasse na disciplina da terra em contraste às aventuras do mar.)

Gi,
eu vejo no francês exatamente isso q vc vê.
Usei a palavra 'estupro' pq é possível q ela realmente não exista em alguma cultura. Não sei dessas "últimas notícias." Pensei primeiro em 'aborto', mas queria alguma coisa q tivesse lembrasse mais legislação q religião.

Andre disse...

Muito bom o raciocínio.

Mas me sinto incomodado pela "internautês" dos posts - prefiro ler em português mesmo, e você aparenta dominar a linguagem.

Neanderthal disse...

Não fui eu que toquei no alemão. Foi o "...".

Permafrost disse...

André,
¿vc quis dizer o 'q' em vez de 'que', 'qdo' em vez de 'quando', &c? É pena. Aqui é assim mesmo. Se mais 100 anos viver, mais 100 anos vou escrever assim, simplesmente pq acho mais inteligente, econômico e elegante. Vc logo acostuma, e quem sabe um dia prefira. :•)

Neanderthal,
sorry. Parecia vc. Deve ser o Camelo, então.

Neanderthal disse...

Apenas escrevi a parte sobre as armas de destruição en masse porque conversei com alguns americanos recentemente sobre o Bush - semana retrasada foi o "President's Day" lá - e eles estavam se sentindo enganados pela retórica pró-invasão. Acreditavam existir armas nucleares no Iraque.

Herpes da Fonseta disse...

"aparenta dominar a linguagem"

quanta condescendência

Gi disse...

Oi, sobre as tais "últimas notícias": na verdade não têm nada de originais, porque numa guerra isso infelizmente sempre ocorre e as mulheres são as primeiras vítimas: falo do caso dos soldados americanos no Iraque. Sem querer entrar no mérito da "cultura árabe, religião islâmica", o estupro muitas vezes não tem a mesma força "lá" como tem no ocidente, onde o "poder" feminino atinge diretamente e indiretamente as "entranhas do homem". Entende o que digo? É que a minha teoria em relação a este ato hediondo é meio à la Paglia, Camille.

Bjs

Permafrost disse...

Gi, entendo em parte. Conheço nada de Paglia.

Bibelo, mas vc comeu a alemã no parque?

Paulo F. disse...

A moça poderia ter dito "I came" e seria bem claro que estaria falando do teu texto. Nunca viu humor americano não? Eu, hein...

Os q e vc e pq também me incomodam. Não pelo internetês e sim porque graficamente distrai. É como ter várias qq letrinhas xq espalhadas a esmo f no texto hr.

Permafrost disse...

Tem gosto pra tudo, não? Mas vc logo acostuma. :•)

Domingos Junior disse...

Pabl'uno, il maestro, duas notas:
1- Acho que os prêmios dados a atores/imitadores no Oscar já foi tema da coluna da semana passada do Marcelo Coelho, publicada naquele suplemento assaz ilustrado do jornal "Folha de S. Paulo:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2802200725.htm
http://www.cespe.unb.br/concursos/DIPLOMACIA2007/arquivos/IRBr_001_2.pdf

Domingos Junior disse...

Ah...
Tá aqui ó:

As três almas do poeta

Ênio, poeta latino do século II a. C., falava três
línguas: o grego, que ele tinha aprendido por ser, na época, a língua de cultura dominante no sul da Itália; o latim, em que escreveu suas obras; e o osco (uma língua aparentada com o latim), que era, com toda a probabilidade, sua língua nativa.
O mais provável é que o latim fosse usado nas relações com as autoridades romanas; o grego, nas grandes cidades; e o osco, nas regiões rurais. E Ênio, que sabia as três, costumava dizer que tinha "três almas".
É curioso observar que ele exprimiu com isso uma
coisa muito importante relativa ao conhecimento de uma língua: não se trata simplesmente de "uma outra maneira de dizer as coisas" (table em vez de mesa, te quiero em vez de eu te amo), mas de outra maneira de entender, de conceber, talvez mesmo de sentir o mundo.
A idéia de que a diferença entre as línguas se resume em maneiras distintas de se referir aos objetos do mundo natural pode ser chamada a "teoria ingênua" da relação entre a língua e a realidade. E, como a maior parte das teorias ingênuas, é, ao mesmo tempo, simples, evidente e incorreta
(não é óbvio que o Sol nasce no leste? Mas não é o Sol que nasce, é a terra que gira).
Examinemos um exemplo, quanto ao significado das
palavras nas línguas. Temos, em português, a palavra dedo, que nos parece muito concreta; diríamos que é simplesmente o nome que damos, em nossa língua, a um objeto que nos é dado pelo mundo real: um dedo é uma coisa, ou seja, uma parte definida do corpo, e o que pode variar é a maneira de designar essa coisa.
No entanto, em inglês há duas palavras para "dedo": finger e toe, que não são a mesma coisa. Um finger é um dedo da mão, e um toe é um dedo do pé; para nós são todos dedos, mas para um inglês são coisas diferentes.
Esse é um pequeno exemplo de como duas línguas recortam diferentemente a realidade. Agora podemos ver que a palavra portuguesa dedo não é simplesmente a designação de uma coisa - porque, antes de designar essa coisa, a nossa língua a definiu de certa maneira. Tanto é assim que o inglês fez uma
definição diferente, e precisou de duas palavras. O exemplo das distintas maneiras que as línguas têm de designar as cores também é bastante ilustrativo disso.
Falar uma língua é, portanto, ver o mundo de certa
maneira, e falar três línguas é, até certo ponto, ter a capacidade de ver o mundo de três maneiras diferentes.
Talvez fosse isso que o velho Ênio estivesse tentando dizer, quando afirmou que tinha três almas.

Mário A. Perini. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios.
São Paulo: Parábola Editorial, 2004, p. 41-52 (com adaptações)

Permafrost disse...

Aha, Dom Jun, vc sentiu o drama de colocar mais de um linque no texto do Comentar. Já reclamei várias vezes, mas apesar de ser um serviço pago, o cara nunca conserta.

Não entendi o linque da diplomacia.

Sobre o dedo do pé, o português tem sim uma palavra: artelho. Ninguém usa; muito provavelmente pq não soa como uma palavra natural, quer dizer, q apareceu organicamente durante o desenvolvimento da língua.

Sou q nem o Ênio: falo três línguas perfeitamente (além de uma quarta muito nas coxas). O mais interessante pra mim é q eu tenho uma entonação e uma voz diferente pra cada uma das três. O poliglotismo é uma espécie de esquizofrenia. Li uma vez na New Yorker um comentário parecido com esse do Perini. "Em línguas diferentes a gente fala de coisas diferentes e as conversas tomam caminhos diferentes."

André disse...

Permafrost,

Ash q vc se confundiu: eu, o cara que fez o primeiro comentário, e o bonitão que não gosta de ler internetês! Apesar do mesmo nome, eu me importo com a mensagem, e não como ela foi escrita, se o papel é branco, azul ou roxo, e nem ligaria se a pessoa falou em japonês, russo ou esperanto (claro, se eu ententesse esses idiomas; e internetês eu entendo! Só não entendo miguxês) :-)

Abraço,

Domingos Junior disse...

Desculpa pelo linque inútil. Não deu certo, como visto. Tive que copiar o texto inteiro (eu sei que é chato colocar texto grande, ainda mais dos outros, mas achei que fosse oportuno).
É verdade, várias línguas faladas ao mesmo tempo soam esquizofrênicas, mas em "Um filme falado", do jovem Manoel de Oliveira (não torce o nariz, Pabl'uno!), há uma cena em que discutem o comandante do navio (John Malkovich - Inglês) e três atrizes, cada uma falante da sua língua de berço (?): Catherine Deneuve (Francês), Irene Papas (Grego), Stephania Sandrelli (Italiano), observados pela protagonista Leonor Silveira (Português), que "traduz" a conversa pra filhinha. É incrível como pode acontecer o entendimento entre todos.
Ah... o filme, por isso e por outras coisas, não menos que genial!
[]s

chiphead disse...

Bom pra caralho esse doutor. E no inglês não é pra botar a preposição no fim da frase (ver c1), mas na prática é isso aí mesmo, então nem vou reclamar.

Permafrost disse...

André,
é verdade. Agora q notei. O nome dele não tem acento.

Chiphead,
o doutor agradece.

Regras de gramática não têm muita moral aqui, como se vê em outros textos. No caso da preposição final, devo informar q essa recomendação apareceu em guias de estilo na Inglaterra no século XIX, qdo era uma moda babaca achar q o inglês devia seguir o exemplo do latim, em q não há frases terminando em preposições. A recomendação foi devida e celebremente ridicularizada pelo Winston Churchill, q disse sobre ela, "This is something up with which I cannot put."

Linha disse...

"O mais interessante pra mim é q eu tenho uma entonação e uma voz diferente pra cada uma das três. O poliglotismo é uma espécie de esquizofrenia."

Eu percebi a mesma coisa. Sabe aquelas histórias do Asterix em que os godos falam com letras góticas, os egípcios em hieróglifos etc.? Quando eu falo uma língua estrangeira vejo o balãozinho saindo da minha cabeça com uma fonte diferente também.

E, sim, os assuntos mudam um pouco mesmo. É difícil de controlar.

adelaide disse...

O português é uma língua vertiginosa como o próprio desejo, que nunca se mostra de cara inteira e ainda se dá ao luxo de usar máscaras as mais variadas. Outrossim [uia], ultimamente a fala dos euaenses tem me irritado tanto que só consigo ver seus filmes na escala de muito bom a excelente. Parece síndrome de pânico perante a obviedade. Mas pode ser só rabujice mesmo. Gostaria de consultar o Dr. Plausível a esse respeito.

Permafrost disse...

O português é legal. Às vezes parece q tou metendo o pau, mas na verdade só reclamo das pretensões primeiro-mundistas de muitos portuguesantes. Pois (1) país portuguesante só vai ser líder global lá pelo dia de São Nunca, 32 de fevereiro e (2) o primeiro mundo nem é lá essas coisas.

Eu só gostaria q em português houvesse espaço pra dizer mais e pra brincar mais.

Rildo Hora disse...

É... não dá mais para voltar ao Lácio, catar a última bela flor, e com esplendor inculto lançá-la à sepultura. Então quentemo e falemo, como dizem os gaúchos.

Permafrost disse...

Fumo, joguemo e vortemo. Num ganhemo nem perdemo: empatemo.

F. Arranhaponte disse...

Tirado de uma tradução do eruditíssimo Native Tongues, de Charles Berlitz:

"Algumas das culturas primitivas do mundo desenvolveram as línguas mais complicadas. Nas duas extremidades do termômetro, os esquimós e os zulus possuem línguas sutis e complexas, até há pouco sem escrita, com vocabulários flexionados de 20 a 25 mil palavras - milhares de palavras além do vocabulário empregado na fala cotidiana pelo diplomado médio de uma universidade americana".

Informações adicionais da mesma fonte:
o falante médio de inglês usa 2,8 mil palavras no cotidiano (embora o vocabulário total da língua ultrapasse 1 milhão)

O vocabulário da versão king James da Bíblia possui apenas 6 mil palavras, e Shakespeare usou 19 mil em toda a sua obra. A edição de domingo do NYT usa em média 25 mil palavras

Não é para contestar a sua tese não (pensando bem, nada do acima contesta). É só pra encher o saco mesmo

Permafrost disse...

Seja bem-vindo, Scrapebridge.

A mera contagem de palavras esconde questões estruturais. É diferente um inglesante médio usar 2,8k palavras não-flexionáveis e um zuluante usar 25k palavras flexionadas. O importante são (1) o número de unidades semânticas e (2) o quê efetivamente elas significam. Em inglês vc tem palavras comuníssimas como 'on' e 'off', 'put' e 'take', e só com essas quatro palavras vc pode expressar no mínimo dez combinações, cada uma com várias acepções contextuais diferentes:

put
take
put on
put off
take on
take off
put [objeto] on
put [objeto] off
take [objeto] on
take [objeto] off

Essas questões são sempre muito complexas, e na prática é possível usar os mesmos dados estatísticos de uma língua pra defender teses opostas. O q eu digo aí no texto é q a precisão do inglês tende ligeiramente (atente ao 'ligeiramente') ao robótico, "digital", pingos-nos-is, enquanto q a enervante imprecisão do português tende ligeiramente (atente ao 'ligeiramente') ao humano, demasiadamente humano, aprendiz-de-tudo especialista-em-nada, emotivo-burro. E é por isso q é ligeiramente mais interessante conversar com um inglês, mas é ligeiramente mais gostoso conversar com um brasileiro.

F. Arranhaponte disse...

Noto que vc vem intentando uma ligeira (atente ao ligeira) precisificação da língua portuguesa no texto deste blog, ou não?

E eu, dois anos abaixo, em outro post seu, sugeri responsabilização/responsabilizável para accountability/accountable.

O ideal seria, talvez, responsabilizicidade ou algo assim para accountability, mas convenhamos...

Como meu inglês está longe de perfeito, deixo o veredito para você

Maravilha de blog, prbns´

Permafrost disse...

Acho q 'responsabilizável' expressa bem a idéia de 'accountable'. Sobre 'responsabilizicidade', há precedentes:

http://drplausivel.blogspot.com/2005/12/kant-e-sua-nmesis.html

F. Arranhaponte disse...

É preciso derrubar o mito da incomplexificabilidade do português

Permafrost disse...

HAHAHAHAHA

niltonresende disse...

pô, Dr.,
gostei muito. agradeço.

=]

abraço.

Bruno Rodrigues disse...

Muito bom!!!

valeu, Dr.

Anônimo disse...

muito bom mesmo

arbo

Herpes da Fonseta disse...

Lembrei do parágrafro sobre estupro quando li isto:

"unnamed ideas generally remain unconsidered"

in Exaptation — a missing term in the science of form (Gould & Vrba, 1982)

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