27 dezembro 2006

¡Êta náusea!

No quesito eutanásia, esses dois últimos anos foram duma hilariância fora do comum, q promete aumentar nos próximos tantos. Primeiro foi aquele imbróglio todo com la Schiavo na Flórida, e agora esse com il Welby na Itália. Apesar do pesar e profunda condolência de nosso excomungável doutor, ele esparrinha os brônquios de gargalhar daquela gente toda q se opôs à morte dos dois. O hipoplausivírus faz a mesmíssima pessoa insistir q la Schiavo tinha o direito de viver, e q il Welby tinha a obrigação. HAHAHAHAHAHA

Tem q estar com o cocuruto muito esculhambado pela hipoplausibilose pra achar q deve-se preservar uma vida humana em qqer situação. Mas milhares de hipoplausibiléticos terminais acreditam e militam em favor de manter uma pessoa viva indefinidamente plugada numa engenhoca.

Muito pró-vida é gente q não pensa. Cinqüenta anos atrás, qqer organismo q não se mantinha vivo autonomamente batia as botas e fim de papo. Hoje é possível deixar um coitado pendurado entre a vida e a morte durante décadas. Mas ¿essa moda vai parar quando? Daqui a cinqüenta anos, talvez seja possível manter um trouxa vegetando durante outros cinqüenta, cem, duzentos anos, esperando q caia do céu a cura prà doença q o deixou ali com cara de marmelo. E aí? ¿Tira da tomada quando? ¿Os pró-vidáquios vão dizer q nunca? ¿Q o coitado tem direito, q o trouxa tem obrigação de viver cinqüenta anos naquela monotonia?

E outra: tal como em outras questões onde se disseminam opiniões tronchas, o problema é a percepção errada da ESCALA das coisas. O número de coitados plugados vai crescer: a população vai aumentar e vão aparecer novas técnicas de descolar uns trocados com a sobrevida de pacientes terminais. E aí? ¿Q tal, em vez de um caso por ano, uns cinco casos? ¿Q tal uns dez casos por ano? Hm? ¿Q tal mil? ¿Q tal proporcionar atendimento médico integral a 100% da população mundial, de modo q 6 BILHÕES de pessoas tenham acesso irrestrito à sobrevida mecanizada, indefinidamente? ¿Como ficam os "princípios morais universais"?

Nessa questão, é tão grande a burrice na posição dos pró-vidáquios, das religiões envolvidas e da legislação, q o Dr Plausível às vezes desconfia haver outras coisas em jogo. Todos eles sabem q o pulmão artificial e outras engenhocas interferem no q eles chamariam de "vontade divina". A burrice aparente pode na verdade ser apenas uma desonestidade intelectual pra manter a fachada duma primazia moral. Aí o Dr Plausível suspende o tratamento. Qdo o afã da primazia moral causa um coma intelectual, só dá pra acordar levando umas palmadas.

9 comentários:

Pracimademoá disse...

Boas observações.

Mas você faz MUITA questão desses trocadalhos nos títulos? Muita mesmo? Questão absoluta? Não viveria sem eles?

Permafrost disse...

Tenho q agradecer pelo elogio e pela crítica. "Êta násia" estava muito ruim mesmo. ¡Olha agora como está! Vc q me inspirou.

(Depois de ler periódicos ingleses durante 1/4 de século, é difícil pensar em título sem pensar em trocadilhos e citações...)

Pracimademoá disse...

Eu mereço por não me expressar muito claramente...

Permafrost disse...

Vc se expressou bem, sim.

Trocadilho é uma coisa meio boba mesmo. Em Hamlet, o Polonius vive fazendo trocadalhos porque (segundo um crítico) ele gosta de ouvir o som da própria voz. Mas acho q aqui o buraco é mais embaixo.

No texto lincado acima houve um comentário (q infelizmente apaguei por acidente) sobre algo parecido, e aqui vai uma parte da minha resposta:

O problema q o português precisaria resolver é o das derivações. Pra q esta língua seja capaz de suportar o progresso tecnológico, político e social com q vive sonhando, os gramáticos, dicionaristas e lingüistas têm q liberar geral. Ajudar na criação e não na correção. (...)

E ¿por que isso não acontece? Porque a repressão sobre os conceitos novos no Brasil é uma característica do próprio português - uma característica q se presta pra uma sociedade no século XIX, mas q mantém tacanha a mentalidade brasileira. O Brasil é um país em q vc é reprimido desde criança por brincar com as palavras. Um moleque inventa um trocadilho e a turma em volta já vai dizendo "dããã".

Pracimademoá disse...

Lá vem você de novo dizer que o português é um bicho-papão malvado e cascudo.

Não é bem assim. Tem trocadilho que é "haha" e tem trocadilho que é "dããã". Se o moleque inventar um trocadilho "haha", a turminha vai fazer "haha". Se o trocadilho for forçado, vai ganhar um "dããã". Ação e reação, simples física.

O seu problema ultimamente parece ser o mesmo do Jô Soares: perder a linha se for preciso, mas jamais perder uma piada. Mesmo que ela seja ruim. Ou, doutorplausivelisticamente falando, sempre iniciar com um trocadilho, mesmo que ele seja "dããã".

Admita, vá. "Eta náusea", "mordem e professam" e "eleiloto" são idéias infames - ao contrário dos respectivos textos.

Permafrost disse...

Admito. O piorzinho foi "mordem e professam". Eu tava pensando no significado político q a palavra "mordida" tem no México, não sei se no Brasil. De qqer modo, ficou muito fraquinho. Infame, s'il te plaît

"Eleiloto" não tá tão ruim. Menos ruim q "eleiloteria".

Mas eu gostei de "êta náusea". Exprime bem o q penso do assunto.

(Aliás, ¿o Jô Soares ainda não terminou de virar a esquina da rua Solilóquio com a av. Senil? Não vejo aquilo há vários anos.)

Pracimademoá disse...

Sabe que o Jô até que melhorou muito ultimamente? Ainda faz piada, mas forçando bem menos. Está mais contido. Até parece uma pessoa agradável.

Biajoni disse...

isso sim está uma BOA DISCUSSÃO.
:>)

Permafrost disse...

Aqui é sempre assim. Discussões, debates, seminários, conferências... Tem até tréplicas...

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