15 fevereiro 2005

E o doutor ficou sério de repente...

Recentemente, um dos inúmeros leitores assíduos deste blogue perguntou a nosso estratosférico doutor qual é a diferença entre 'inteligente' e 'plausível'. Por alguma razão q me escapa, 'plausível' é comumente confundida com 'coerente', 'verossímil', 'consistente', 'honesto', 'justo'. Há até os leitores q —vítimas da escassez de unidades semânticas abstratas no português corrente e da confusão generalizada sobre o significado útil das existentes— mal-interpretam o atendimento humanitário prestado pelo bom doutor e conseqüentemente ¡nela não vêem benefício algum! Mas esta é a primeira vez q um leitor vai direto à fonte e se pergunta o q haverá de inteligente no plausível e o q de plausível no inteligente. Como se trata dum leitor daqueles q realmente prestam atenção e geralmente não dão bola fora ao comentar, fui perguntar ao próprio Dr Plausível q catso de distinção se pode fazer entre duas coisas tão díspares. Embasbacaram meu entediante cérebro as sábias palavras explicatórias do enlevante pensador —motivo pelo qual as resumo aqui:

Em português, 'inteligência' tem dois sentidos principais, digamos inteligência.1 e inteligência.2. A .1 expressa um fato, a .2 um juízo. Até mesmo um mongolóide pode ser chamado de 'inteligente.1' qdo essa palavra expressa o fato de q ele utiliza computações neuronais pra lidar com o mundo físico, por mais toscamente. Fala-se da inteligência.1 de macacos, golfinhos e cães, e pode-se até calcular o grau de inteligência.1 de formigas e lesmas. 'Inteligência' aqui é uma medida como 'distância' ou 'peso', e se aplica aos seres vivos. É a capacidade de inteligir, verbo este muito utilizado pelo doutor qdo volta de suas caminhadas filosóficas.

O outro sentido de 'inteligência' pretensamente expressa um valor absoluto. Qdo se diz q fulano é 'inteligente.2' ou 'muito inteligente.2', o sentido está mais pra 'arguto' ou 'perspicaz'. Digo 'pretensamente' no mesmo sentido em q palavras como 'distante' e 'pesado' pretensamente expressam valores absolutos. Por exemplo, o Manuel não consegue carregar uma mala e diz: "Tá muito pesado." O Joaquim fica intrigado: "¿Pesado como um trem, como uma montanha, ou como a Lua sobre a superfície de Urano?" E o Manuel esclarece: "Pesado como acima do peso q me permitiria carregá-lo." Do mesmo modo, diz-se q uma pessoa é 'inteligente.2' se seu grau de inteligência.1 lhe permite resolver um problema, e 'muito inteligente.2' se lhe permite resolvê-lo com uma facilidade acima do esperado.

Ora, assim como só pode haver distância onde há espaço, também só pode haver plausibilidade onde há inteligência.1 e comunicação de idéias. Por si só, um fato não tem como ser plausível ou implausível: só se pode diagnosticar a plausibilidade de relatos, crenças e teorias. Estes podem ser explícitos (como num filme) ou implícitos (como num slogan). Relatos, crenças e teorias são plausíveis se são contíguos à realidade, ou seja, se sua continuidade interna é semelhante à continuidade da realidade. Por exemplo, uma história em quadrinhos de ficção científica pode ser inverossímil, incoerente e desonesta. Mas ao mesmo tempo pode ser perfeitamente plausível, contanto q logo de início explicite a moldura mental em q vai se desenrolar e não saia dela: o q acontece num momento tem q levar ao q acontece depois (para a diferença entre 'coerente' e 'plausível', leia aqui). Igualmente com as crenças e teorias. A implausibilidade destas é tanto mais visível qto mais sua estrutura se aproxima da continuidade oleosa da ficção mal feita, daquela lubrificância em q toda questão incômoda escorrega e some.

Plausibilidade nada tem a ver com inteligência.2. Até mesmo um retardado pode produzir relatos ou ter crenças absolutamente plausíveis. No entanto, a detecção de implausibilidades (explícitas ou implícitas, próprias ou alheias), essa sim requer uma certa inteligência.2. No caso das implausibilidades próprias, sua eliminação requer não apenas inteligência.2 mas honestidade, humanismo, e em certos casos conhecimento cru e desentupido. Digo isso porque o q se vê em todas as frentes de comunicação são produtores de grande inteligência vomitando, regurgitando e cagando hipoplausibiloses aos borbotões —às vezes por desleixo, às vezes por desinteresse, mas também às vezes por pura má-fé. A reação de nosso essencial luminar aos efeitos da hipoplausibilose é, dado o poder dos midieiros, a única plausível: gargalhar, destrambelhar-se de rir da empáfia emocional, da petulância cultural e do bolor intelectual q toda essa gente sem escrúpulos, sem cuidado ou sem inteligência.2 pensa q está conseguindo esconder.

3 comentários:

Marcus Pessoa disse...

Só queria dizer que o doutor mais uma vez matou a cobra e etc. Sem mais, despeço-me, atenciosamente.

Rafael Junqueira disse...

palmas!

Renato K. disse...

Taí um texto feito por quem tem inteligência-2 e plausibilidade, além de coerência e pertinência. Muito bom.

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