31 julho 2003

A intenção apressada de fazer o errado

Um comentário sobre o texto anterior afirma q a "desinformação" na televisão brasileira é "propositalmente idealizada", ou seja, q existe uma curriola por trás das incontáveis implausibilidades q assolam as produções nacionais. Hmm. O Dr Plausível – q estuda o problema há décadas e não somente em relação à televisão – vê sim uma implausibilidade nesse argumento da intencionalidade. É como ver conspirações onde só existem agrupamentos. Uma emissora de televisão é uma organização por demais complexa pra q qqer intenção se transforme em erros de lógica hora após hora, dia após dia, por anos a fio. As implausibilidades televisivas demonstram antes de tudo inépcia ao lidar com dados e idéias, suas seqüências e suas interações – burrice mesmo. E tb não se sustenta o argumento de q muita besteira passa pq tudo é feito com pressa e pra ontem: a pressa prejudica o acabamento das obras mas não sua concepção. O relato sobre a filha raptada por exemplo, não saiu daquele jeito pq algum fodão na emissora quis desinformar, ou pq foi feito às pressas, ou pq em algum momento o produtor disse "ah, vai assim mesmo". A questão é mais embaixo: a pessoa q idealizou a trama e/ou escreveu o roteiro simplesmente não tem tutano pra perceber como as várias partes duma história têm q se encaixar.

Muita gente vê intenção nos erros alheios, como se vê um rosto nas nuvens, ou como qdo vc xinga a pedra em q tropeçou. Difícil é compreender o fato de q o mundo está abarrotado de gente burra e/ou preguiçosa; difícil é entender a burrice alheia.

30 julho 2003

Epístolas novelescas

O Dr Plausível às vezes não tem nada pra fazer à tarde, a parte do dia em q as improbabilidades matinais gradualmente dão lugar às impossibilidades noturnas. É a hora em q todo mundo relaxa um pouco e a televisão meio q abre espaço pra os menos favorecidos de simancol plausibilético.

Esses dias, nosso exímio e estudado analista refestelou-se de engulhos e embrulhou-se de gargalhadas durante o programa de Márcia Goldschmidt vendo a dramatização duma suposta carta q relatava acontecimentos supostamente verídicos:
Fulana vai dar à luz uma menina e decide chamá-la Júlia; Sicrana, irmã de Fulana, mora longe e vem ajudar durante os dias por volta do parto; ao nascer, a menina é raptada (Fulana grita "¿Onde está meu bebê? (?) ¡Quero meu filho!(??) "); "anos mais tarde", Sicrana (irmã de Fulana) telefona de longe dizendo q acaba de adotar um bebê (???), uma menina a quem chamou Júlia; Fulana e Sicrana, q são "muito próximas", ficam 15 anos sem se ver; ao cabo dos quais, "minha filha já devia falar, andar"; o marido de Sicrana é assassinado; Sicrana vem morar com Fulana e traz Júlia; Sicrana morre duma doença fulminante; entre seus pertences, Fulana encontra uma carta não enviada em q Sicrana confessa ser a autora do rapto.

¡Ó tripúdio dos tímpanos! ¡Ó castigo das córneas! ¡Quanta acochambração, hem? Reciclagem de fotonovela dá nisso.

(Vale dizer q, após rir às bandeiras despregadas, nosso estóico e egrégio militante sofreu a ressaca de passar várias horas desagradáveis lastimando as sinapses perdidas e condoendo-se pelos telespectadores coitados q as perdem diariamente vendo esses programas.)

25 julho 2003

Vacuidades

Inumeráveis críticos do Dr Plausível teimam em apregoar q teríamos q descartar quase toda obra de ficção, pois a apreciação de qqer livro, qqer filme, qqer peça teatral exige uma suspensão da realidade. Essa gentalha toda q critica nosso excelso e excêntrico humanista deveria lavar bem as cuecas e calcinhas antes de forçar o cérebro a pensar racionalmente.

A ficcionalidade dum relato não o exime do escrutínio plausibilógico. Qdo o autor se esquiva da plausibilidade pra facilitar alguma resolução, o leitor/espectador se sente traído: "Porra, paguei ingresso e fiquei aqui sentando todo esse tempo dando atenção a essa produção ¿e agora esse sem-vergonha me sai com essa?"

Como bem lembrou o mentor intelectual do Dr Plausível, explosões no vácuo em filme espacial são um caso típico e bem conhecido: só mesmo quem desconhece as leis da física sai do cinema deslumbrado com os efeitos especiais, pois ¿como é q pode algo explodir no vácuo pegando fogo e ainda por cima fazer barulho? ¿Faria alguma diferença na história se as 'explosões' fossem silenciosas? E não contentes em produzir estrondos no vácuo, o som ainda por cima chega instantaneamente até nós, q teoricamente estamos a milhares de quilômetros dali. Vácuo é o q os produtores têm na cabeça. Aliás qqer filme de guerra tem esse problema. Uma explosão acontece a cinco quilômetros e ¡personagens de costas pra ela a ouvem instantaneamente!

Aposto q todo técnico em efeitos especiais teve um choque de realidade ao ver os atentados do WTC: avião q bate em prédio não explode pra trás. Agora q todo mundo já sabe, vai ficar mais difícil enganar até os deslumbrados.

19 julho 2003

Ser pra ver

¡Aha!

Uma leitora mencionou a mulher invisível...

De todos os super-heróis impossíveis, tais como o homem-borracha, o aqua-man, a mulher-maravilha, etc, a figura q leva o Oscar de Implausibilidade é sem dúvida a mulher ou homem invisível, ou a politicamente-correta "Pessoa Invisível", criação original de HG Wells. Observem o raciocínio do Dr Plausível:

Todos os heróis têm algum poder humanamente impossível mas aceitável pela imaginação. A Pessoa Invisível, no entanto, além de já ser impossível no mundo natural, traz uma implausibilidade incontornável: ¿como é q ela enxerga? Uma pessoa invisível deve ser completamente cega, pois se a luz a atravessa, também deverá atravessar sua retina invisível, e portanto nenhuma informação de luz chegaria a seu cérebro invisível. Essa turma q fica inventando super-heróis deveria pensar mais nessas coisas, ¿ora pois não?

Assim, toda vez q sonhar em ser invisível pra poder ver o q outros estão fazendo, lembre-se de q 'ser invisível' e 'ver' são (¡ó ironia entre ironias!) duas opções incompatíveis entre si. E se lhe aparecer um gênio concedendo-lhe três desejos, não se esqueça de q, pra realizar esse sonho, já vai gastar dois. É mais prático pedir ao gênio uma mosca eletrônica com câmera & microfone.

14 julho 2003

¡Sebo neles!

¿Vcs já viram aqueles anúncios da coleção de livros editada e promovida pela Folha? ¡Q vergonha, não? Toda escola de propaganda & marketing devia ter curso de Plausibilidade I, II e III, ¿não acham?. Pois vejam se não concordam comigo: Esses anúncios mostram uma pessoa lendo um dos livros da coleção e distraidamente enfiando na contracapa alguma coisa q iriam colocar na boca - uma mulher enfia um batom, um homem enfia um sorvete de casquinha, uma escova de dentes, etc. A suposta mensagem é: se vc ler este livro, vai gostar tanto dele q não vai prestar atenção em mais nada.

Mas o Dr Plausível realizou uma pequena pesquisa com transeuntes anônimos: recortou os anúncios do jornal, mostrou-os aos anônimos transeuntes e perguntou, "Vc compraria ou leria este livro?" Eis uma sinopse das respostas:

- ¡Claro q não! Se eu gostar do livro tanto assim, vou estragar e jogar dinheiro fora.
- Eu nunca ia ler um livro q me impede de passar meu batom sossegada.
- Se ler é hábito de quem não tem coordenação motora, não quero não.
- Jamais colocaria em minha prateleira um gama de tons pastéis.
- ¡Tá louco! Ninguém se intromete entre mim e meu sorvete!
- ¡Eu não! Todo mundo vai achar q eu sou imbecil.
- Ah, nããão. Sou canhoto. Vou estragar a capa.

Como se vê, se a coleção vender bem, será unicamente pq o público está sendo impiedosamente bombardeado de anúncios. Com seu visual pífio e péssima encadernação, dentro de alguns meses esses livros serão o terror dos alfarrabistas.

Mas, perguntar-se-ão meus leitores, ¿q há de implausível nisso tudo? Ora, mas ¿tenho q explicar tudo?

12 julho 2003

Os bushas de canhão

O Dr Plausível deu imperdíveis gargalhadas qdo alguém alto do governo estadunidense finalmente admitiu o q todo mundo já sabia – q pro Iraque destruir alguma massa, tinha q colocar muito molho e queijo ralado. Agora, no dia da independência dos EUA, outro funcionário "descobriu" uma fita em q alguma persona non grata declara exatamente (notem q 'exatamente' está sublinhado) o q o governo estadunidense precisava pra manter o apoio do povinho. E ¡Ê, cacilda!, ¿não é q deu certo? [...impagáveis gargalhadas...]

Todo mundo acha q a principal característica dos estadunidenses é o título de povinho mais sem simancol do planeta. Mas o Dr Plausível discorda. Desde q Orson Welles noticiou uma invasão marciana e levou uma cidade inteira ao pânico, está claro e evidente q o q os EUA precisam mesmo é abrir um franchising de Clínicas Dr Plausível. Mas talvez nem isso bastasse, pois o problema, vejam bem, não é q os filhos do tio Sam sejam hipoplausibiléticos: o vírus da hipoplausibilose infecta informações, textos e enredos, e não pessoas de carne e osso. O q estas precisam é dum detetor de implausibilidades, um desconto-do-vigário. Mas, ¡ó ironias do destino!, parafraseando o q se diz de Salamanca, "Lo que la naturaleza no da, el Doctor Plausible no lo presta."

08 julho 2003

As loiras geneticamente morenas

Carlos P Motta, o mentor intelectual do Dr Plausível, sempre contribue pra engrossar a conta bancária do emérito terapeuta recomendando pacientes hipoplausibiléticos a seus cuidados. Uma de suas recomendações mais célebres é um caso de implausibilidade galopante que acomete grande parte da população brasileira: ¿Será plausível q um país com tantas morenas e mulatas de bundas maravilhosas e naturais produza tantas loiras tingidas de seios turbinados? Ou então esta: ¿Será plausível q o mesmo país q importou o conceito de 'loira burra' também importe a fórmula do xampú tingidor?

O comum dos mortais pedirá q não se confunda implausibilidade com incoerência. Diriam q os sintomas relatados indicam o segundo mal, e não o primeiro. Mas o Dr Plausível discorda dessa objeção, por motivos semânticos senão filológicos. Pra nós, usuários da língua (e não pros dicionários, diga-se de passagem), a palavra q empresta o nome a nosso emblemático cientista significa "aceitavelmente semelhante à realidade". Já "coerente" qualifica o bom nexo entre duas idéias ou fatos distintos. Seguindo esse raciocínio, dirão os críticos, brasileiro correr atrás de loira peituda em vez de correr atrás de morena bunduda é incoerente, mas não implausível.

¡Ó leviandade especulativa! O fato de morenas se mutilarem a fim de mimetizar um biotipo concorrente e assim desabonar o próprio, precisa sim duma consulta urgente com o Dr Plausível. ¿Há coisa mais "inaceitavelmente contrário à realidade" do q os resultados de toda a parafernália utilizada por mulheres e homens pra parecer aquilo q não são, desde lábios batonadamente carnudos a ombros enchimentamente largos?

¡Ó desgraça evolucionária! ¡Ó desastre genético!

04 julho 2003

A contabilidade da alma

Voltando à vaca fria das implausibilidades religiosas, o Dr Plausível recomenda tratamento prà oração de S Francisco de Assis q virou letra de música obrigatória em tantos encontros de jovens religiosos: "fazei com q eu procure mais consolar q ser consolado, compreender q ser compreendido, amar q ser amado, pois é dando q se recebe, é perdoando q se é perdoado e é morrendo q se vive prà vida eterna."

Parece uma oração imbuída dum sentimento altruísta e duma beatitude edificante, ¿não?

Mas observem o q está fazendo aquela palavrinha escondidinha entre as duas partes da oração: a conjunção "pois". O autor da oração quer consolar, compreender e amar pois quer receber, ser perdoado e viver eternamente. A oração passa imediatamente de altruísta pra interesseira, de beata pra maquiavélica: o suposto beato caridoso e amoroso pretende assumidamente usar o outro em benefício próprio! ¿Isso lá é sentimento religioso q se apresente? O altruísmo de S Francisco, e das gerações e nações inteiras q repetiram e repetem sua oração, seria mais plausível se a segunda parte fosse abolida, ¿não acham?

Mas, ¡ó alma encalacrada!, grande chance!

03 julho 2003

Nunca diga besteira

¿Já notaram como a hipoplausibilose faz o paciente deturpar o significado das palavras até q elas não signifiquem absolutamente nada? O Dr Plausível chama esse sintoma de "efeito incrível". Um porcentagem alarmante de chamadas de filmes na rede Globo contêm a palavra 'incrível'. Agora a palavra aparece também em revistas, especialmente em manchetes de capa. Observem o disparate, por exemplo, duma chamada na capa do último número de 'Cláudia':

Nunca diga nunca: mulheres incríveis provam que você pode tudo.

¡Ó meus calos! ¿Não é ridiculamente óbvio q se as tais mulheres q provam q vc pode tudo são mesmo incríveis, segue-se q vc (uma mulher supostamente normal) não teria a menor condição de conseguir coisa alguma? Pois se as tais mulheres incríveis são realmente incríveis, ¿q chance tem vc, sua lesma?

Aliás, se o artigo da revista fala de mulheres q por seu esforço e capacidade conseguiram boa credibilidade ¡¿por que é q são chamadas de 'incríveis'?!

¡Ó feminismo às avessas! ¡Ó despiadada incredibilidade!

02 julho 2003

A prece e a pressa

O Dr Plausível já atendeu diversos casos de prece coletiva, uma prática que inspira sérios cuidados. O último caso mais notório no Brasil foi a 'corrente de oração' pra orar pela vida ou a alma do cantor Leandro, q ao q consta era um bom cantor, um sujeito decente e uma pessoa agradável. Mas daí a merecer intervenção divina vai um bom pé de estrada. Muita gente se deixa levar por idéias totalmente incoerentes. Ao q parece, uma mesma pessoa pode simultaneamente crer q (1) Deus é justo e caridoso e q (2) um doente terminal tem mais chance de sobreviver se for suficientemente popular pra q um batalhão de rezadores interceda por ele, do que teria se ele fosse um desconhecido embaixo duma ponte rezando pela própria saúde. Há q ser muito hipoplausibilético pra crer q Deus, seja ele "O" Deus ou um outro deus qualquer, mudaria seus desígnios pra acomodar os desejos duma turba ensandecida por algumas jogadas de marketing.

¡Ora, mas tenham a santa paciência!

27 junho 2003

O comprimido contra o azar

¿Vocês já notaram q muita gente atribue à fé o poder de remover montanhas de bom-senso? ¿Já perceberam q a religiosidade está prà estatística assim como os camarões estão pràs maçanetas?

Na tv, todos os canais religiosos têm algum programa em q se convida os telespectadores a telefonar seus depoimentos de fé. Entre esses depoimentos, o Dr Plausível ainda não ouviu um único q não tivesse sérios sintomas de hipoplausibilose. Os depoimentos geralmente têm três estágios: (1) tudo estava bem até q (2) algo triste aconteceu e se repetiu ou continuou até q (3) foi removido pela prece. Um caso típico seria: (1) perdi um ótimo emprego; (2) achei outro, mas pagava pouco; achei outro, mas era muito longe; achei outro, mas não me satisfez; (3) rezei, tive fé, e recuperei meu primeiro emprego.

A crença de q a prece resolve alguma coisa q já não seria resolvida pela paciência talvez seja o maior achado dos dirigentes de religiões. Eles jogam com uma característica bem conhecida do mundo: nenhuma situação é permanente; portanto se tua situação presente é desagradável, apenas três coisas podem acontecer: ela pode piorar, pode continuar igual ou pode melhorar. Se vc reza e a situação não melhora, vc deve continuar rezando. Se ainda assim, ela não melhorar, vc continua rezando, desta vez com fé redobrada. E assim por diante até q a situação melhora e vc pode atribuir teu sucesso à prece. A implausibilidade desse raciocínio é bem conhecida dos pastores. Evidência disso é q eles nunca dizem: "tranque-se em teu quarto e reze com toda a fé de teu coração, q com certeza alguém vai bater em tua porta oferecendo emprego". O q fazem é promover a prece junto com alguns sábios conselhos práticos: "reze com toda a fé de teu coração, mas não deixe de sair toda manhã pra procurar emprego, ler todos os classificados e fazer um curso de computação!" Assim, até o Dr Plausível!! Pra eles, a prece é como o comprimido contra a sede: vc toma o comprimido com três copos d'água a cada três horas e a sede desaparece como por milagre. Se a prece tem algum sentido cósmico, com certeza não é pra atender pedidos.

Qdo algum missionário ou promoter dessas igrejas interpelar vc na rua, talvez a melhor resposta seja a q meu cunhado sempre dá: "Obrigado, mas já sou correntista do Itaú."

Amanhã, o Dr Plausível atenderá os casos de prece coletiva.

24 junho 2003

Novelas acochambradas

Basta uma personagem de novela dizer algo como "Ai, Letícia, a vida às vezes tem lições duras!" pra q então um comentário se ouça em dezenas de milhões de lares do Brasil: "Mas é veidade, né? A vid'aiz veiz tem umas lição bem dura!", ao q outra pessoa na mesma sala reclama: "Ô, Zoca, cê fica falano e entrô us comercial!" Essa rotina se repete dia após dia por anos a fio.

O Dr Plausível não atende novelas. O emérito filantropo, em toda sua humildade, reconhece q não seria capaz de tratar algo tão descomunalmente implausível como esses amontoados de chavões e burrices, enredos obtusos, diálogos absurdamente inverossímeis e truques baratos pra aumentar a audiência. Mas nosso estimado humanista há muito fica intrigado com pelo menos dois sintomas de hipoplausibilose crônica q todas as novelas compartilham – não pelo caráter semi-analfabeto das mesmas, mas pelo fato de esses sintomas serem tão evidentes q certamente escondem algo por detrás.

Um deles são as mensagens construtivas. É impossível assistir a qqer capítulo sem ser bombardeado a cada três minutos por lições de moral, frases feitas edificantes, intimações à sociabilidade, aulas de correção política, minutos de sabedoria, &c &c. ¡Mas q coisa absurda! ¿Já viram coisa mais implausível q dezenas de pessoas trocando chavões 24 horas por dia, como se estivessem numa fábula? É difícil imaginar q outra finalidade isso teria nas novelas a não ser (1) acochambrar o enredo pra ganhar tempo até os comerciais e (2) maquiavelicamente domesticar os vertebrados espectadores em suas poltronas. Acochambração e manipulação. ¡Que vergonha!

A segunda implausibilidade é menos pernóstica mas é mais ridícula. O Dr Plausível certamente não é o primeiro a notar q raríssimas vezes uma novela mostra alguém assistindo televisão, mas um fato raramente registrado é q o aparelho de tv é um eletrodoméstico q simplesmente inexiste na grande maioria dos cenários de novelas, apesar de estar presente em quase 100% dos lares brasileiros. Mas ¿por que será q não nas novelas? O Dr Plausível acha q personagem de novela não assiste tv pq isso imobilizaria a cena, tornaria os personagens passivos e mostraria ao telespectador sua verdadeira dimensão – além de obrigar os atores a fazer cara de idiota, coisa q nenhum deles gostaria de evidenciar. Qto à ausência de aparelhos de tv, o motivo é óbvio: pra q a trama se desenvolva, qqer aparelho de tv presente em cena tem necessariamente q estar desligado, e mostrar aparelho desligado seria contra-producente: os milhões de espectadores q imitam penteados, trejeitos e posturas desligariam seus aparelhos imediatamente.

21 junho 2003

Partido da Proa Liberal

¿E a nova campanha do PFL? Com aquele slogan estilo mensagem-de-fim-de-ano-da-globo, "Gente como você", certamente vai convencer muito eleitor a votar no PT.

Considerem: pra provar aos Zés Manés, Marias das Dores, Silvinos dos Santos e Deocléias de Jesus deste Brasil q as bancadas do PFL estão repletas de 'gente como nóis', a campanha orgulhosamente traz um cara super comum, super povão-povinho: Lars Grael, medalha de bronze em iatismo nas olimpíadas de 88 e 96. Só o nome dele já o coloca no centrão do Brasil, a meio caminho entre os Pampas e a Pororoca. Além disso, ele conseguiu essa coisa tão corriqueira q é ganhar medalhas olímpicas pra o Brasil (são 150 milhões de brasileiros e 66 medalhas em toda sua história; ou seja, todo brasileiro tem uma, ¿ora pois não?). E mais, ganhou defendendo um esporte super popular, um esporte brasileirão, de brazucas da gema como Burkhard Cordes (bronze 68), Reinaldo Conrad (bronze 68 e 76), Peter Ficker (bronze 76), Alex Welter e Lars Björkström (ouro 80), Robert Scheidt (ouro 96, prata 2000), e o irmão de Lars, o Torben (bronze 88, ouro 96, bronze 00).

¿Não é super plausível q um sujeito chamado Lars Grael, q tem um irmão chamado Torben, cada um com seu iate e suas medalhas olímpicas, seja chamado de 'gente como você'?

"Ora faça-me o favor!" dirá o Dr Plausível. "Esporte à vela de gente como nóis é jogar palitinho quando acaba a luz."

20 junho 2003

¡Kamchatka-bum!

Ou as bolas do protagonista e narrador de Kamchatka não desceram na adolescência, ou trata-se dum caso de hipoplausibilose melosa.

Vejam se não estou certo. O protagonista e narrador é um menino de 10 anos. Seus pais estão sendo perseguidos pela ditadura argentina (¿era pra entender isso? pode ser q o pai fosse um cafajeste criminoso de colarinho branco: o filme nunca esclarece esse ponto). No final, os pais deixam o menino a salvo com o avô e vão embora de carro se esconder em outro lugar. O menino sai correndo atrás do carro, vendo-o desaparecer no horizonte. O filme dá a entender q os pais foram pegos e mortos pelo governo (ou q foram constituir família em outro lugar, vá saber), pois a voz do narrador – ¡um menino de 10 anos! – diz algo assim como "nunca mais vi meus pais". ¿Mas como é q pode o menino dizer q nunca mais viu os pais? Ou esse menino tem um senso de fatalidade descomunal ou trata-se dum caso clássico pro Dr Plausível: personagem-diz-algo-q-não-poderia-saber. Ainda por cima, se a frase vem do menino, está na cara q o diretor quis fazer um truque barato pra ver se arrancava umas lagriminhas da platéia ignara.

O filme tb tem uns disparates anacrônicos; por exemplo, ao se dar bem num jogo de tabuleiro o menino faz, em plena década de 70, um gesto q só se popularizou nos anos 90, aprendido nos filmes americanos: com o punho fechado, joga o cotovelo pra trás e diz "¡Sí!" (americano diz "yesss!").

¡O tempora, o mores! ¿Custava ao diretor fazer uma consultinha com o Dr Plausível antes de se envergonhar em público?

19 junho 2003

Desmandos

Desmundo é mais um filme em q as crueldades do destino são resolvidas ironicamente qdo um bebê é parido. Além desse defeito incorrigível, está precisando consultar o Dr Plausível pra resolver problemas menores. Segundo o filme, lá pelo século XVI bastava alguém falar uma língua e já se dispunha a matraquear nela pra algum estrangeiro presente. Se fosse só uma personagem, ainda vai: vc pode interpretar q o calor, a demência, &c ataquem sem avisar uma pessoa por filme; mas duas já é demais. Tem uma indígena q destrava a epiglote tupinambá à menor provocação em cima duma coitadinha recém-chegada de Portugal, e depois vem um africano com cara de circunspecto q solta o verbo bantu em cima da mesma. ¿Era pra ela entender? Ou ¿era pra a platéia entender q ali foi feita tooooda uma pesquisa lingüística? Vale dizer q nenhum esclarecimento é dado qto ao conteúdo das falas dos dois, apesar de q toda fala em português da época esteja desnecessariamente legendada pro português de hoje.

Na mesma consulta já pode encomendar tratamento pra uma seqüência em q a heroína – uma órfã portuguesa q nunca tinha saído do bairro onde nascera e terminou numa fazendinha no meio da mata atlântica – foge mata adentro no meio da noite (!) e encontra o caminho q a leva direto a uma praia (!!) onde está uma caravela q pode levá-la de volta a Portugal (!!!), praia esta povoada única e exclusivamente por dois marujos q imediatamente se dispõem a estuprá-la(!!!!).

¡Ó engulhos! ¡Ó arrepios d'alma!

15 junho 2003

A hipoplausibilose e a morte

O Dr Plausível atende filmes, notícias, seriados, escritos, propagandas, idéias, &c q demonstrem claros sintomas de hipoplausibilose. Friso no entanto q ele atende mas não cura. Assim como por mais q vc consulte um médico pra cuidar de pequenos problemas (tipo seborréia, câncer, aids, lumbago), jamais se livrará da morte, assim tb o Dr Plausível jamais será capaz de resolver sozinho as endemias, surtos, epidemias e chiliques de hipoplausibilose q assolam a civilização há anos – digamos há 5 mil anos.

Vários estudiosos do assunto teseiam q o ser humano é assim mesmo: q a falta de plausibilidade em relatos humanos equivale à falta de pelos em ostras ou à ausência de pérolas no baço das ratazanas. Mas nosso eminente humanista discorda, quiçá implausivelmente. Pra ele, a hipoplausibilose equivale à lordose: tem causas, sintomas e histórico individual, mas só pode ser totalmente avaliada por quem dela não sofre. Há quem questione a capacidade do Dr Plausível ao arrogar-se diagnosticador da plausibilidade alheia. Essa crítica é facilmente descartada, bastando lembrar q nosso emérito estudioso não diagnostica: apenas atende.

Talvez chegue o dia em q os hipoplausibiléticos venham a ignorar as ações humanitárias desse grande homem, qdo já não se ouçam seus engulhos e revertérios ao expor-se às acochambraduras alheias. Mas cada pessoa q ouvir sua mensagem clara e inconfundível há de pelo menos pensar uma vez antes de falar besteira.