20 março 2013

O balde meio cheio de água fria

Clear writers, like fountains, do not seem so deep as they are. The turbid look the most profound.
(Walter S Landor)

Poucas região do cérebro são mais vulnerável ao hipoplausivírus do q o CORChA – o Centro Occipital Regurgitador de Chavões Anódino. Si um sujeito genèticamente vulnerável não tomar vacina enquanto bebezinho, é quase certo q o hipoplausivírus ali alojar-se-á feito uma tia palpiteira. Nosso expandinte doutor é congenitamente resistente ao vírus. Desde piquititico, ele racha de rir toda vez q alguém vem recitar algum chavão contendo as palavra ‘sonho’, ‘fé’, ‘limite’, ‘impossível’, ‘acreditar’, ‘querer’, e ‘conquistar’, ou alguma variação delas. Qdo ouvia um adulto soltar um bordão de ambição e confiança, o pequeno Amônio mordia de leve a ponta da língua com os dente de leite, inclinava um pouco a cabecinha e dizia “Ah, vá.” e soltava seus primeiro gargalhinho. Um verdadeiro prodígio, o moleque. Jendia, embora mais calejado, só se destrambelha à gargalhar. Äs vez peida.

Há uma infinidão desses chavão:

“Não há sonhos impossível.”
“Basta querer.”
“Não há limites qdo…
    1. se acredita em sonhos.”
    2. se tem fé na vontade.”
“A palavra ‘impossível’…
    1. não consta em meu dicionário.”
    2. não existe pra Deus.”
“Tudo é possível si vc…
    1. sonhar.”
    2. realmente quiser.”

Tem gente q até refoga tudo junto num mesmo melê-de-cuia pau-pra-toda-obra:

“Realizar um sonho é possível sòmente pra quem realmente quer transpor seus limite e crê q a fé tudo conquista.”

Quem regurgita tontices desse quilate tem toda uma colônia hipoplausivirótica no CORChA. Tomemos a aspirante a cantora Reagilde Mafé, q sonha em galgar as parada de sucesso até o primeiro lugar e lá ficar por três semanas. Ouvindo os conselho de seu CORChA infectado, deixa-se influenciar por Céline Dion e entrega-se de corpo, alma e queixo à tudo q seja necessário pra realizar seu sonho; dá duro no batente durante anos; estuda, pratica, paga professor, contacta, ensaia, dança; sua carreira vagarosamente deslancha e ainda mais vagarosamente desmancha. Reagilde tem tudo pra vencer, menos talento: tem um ouvido de lata, uma voz de gralha e a sensibilidade dum fantoche. Não há fé q te avance, Reagilde.

Entre Reagilde Mafé e Céline Dion há milhões de cantoras esperançosa e batalhadora q aspiram, sonham & acreditam. Mas só cabe uma de cada vez no primeiro lugar do ritepareide semanal, e 52 por ano. Mesmo assim, não param de sonhar e esperançar e batalhar. Algumas entendem q os sonho de ontem criaram os pesadelo de hoje, erguem os ombro, dizem “então foda-se” e passam à finalmente viver a vida e à se divertir cantando.

Dir-se-ia q o sonho de Reagilde não é realista. Mas… Mas… ¿Sonho realista? HAHAHAHAHAHAHAHAHA Tipo assim, ¿sonho realista, então, é o de ter emprego bom, casa própria e carro num mundo capitalista incansàvelmente produzindo novos bebê? Isso não é sonho; é expectativa. No entanto, o povaréu chama de ‘sonho’. ¿Por quê será? Hm.

Toda atividade da civilização tá estruturada hieràrquicamente e há uma tentação de usar como metáfora uma pirâmide. Mas –pelo menos em onirometria– a metáfora correta é o aicebergue: 90% ou mais dos sonhador tão abaixo do limiar da percepção pública. Todo aicebergue tem uma ponta, e não há quem mais regurgite esperancite do q seus ocupante: as cantora de sucesso, os atleta vitorioso (*alguém* tem q ganhar, não?), os grande banco, os emérito gênio, os pastor milionário, os presidente eleito, e todo aquele pessoal q não boiaria acima d’água si não houvesse a sustentação dos sonhador por baixo.

Pois bem. Agora note um detalhe nessa lenga-lenga de esperança sonhadora por um futuro melhor. Antes da Revolução Industrial, ninguém falava dessas coisa. Si um sonhador de hoje viajasse no tempo pra 1600 e começasse à falar q não há limites pra quem acredita em seu sonho, ele seria tomado como o retardado da aldeia. A idéia de realizar sonhos, transpor limites e esperançar um futuro melhor é uma invenção da industrialização. Aliás essa própria idéia já é industrializada: ¿já viram como é repetida e repetida, como si cuspida duma linha de montagem? Entra no único boteco de Pirambeira d’Oeste, e até mesmo no canto mais escuro vai ter um bebum balbuciando sua esperança num futuro melhor. Antes da Rev. Ind., isso não existia; desta vida, só se esperava consolo. Ä medida em q a industrialização foi cuspindo produtos e mais produtos –todos imitando as posse da nobreza e dos ricaço–, o desejo por eles foi tomando ares de misticismo. A propaganda virou promessa e a promessa virou o sonho do povaréu. E como a industrialização tbm trouxe ordem, limpeza e medicina, parece q o futuro realmente será melhor. Só q ele nunca vem, né? O futuro melhor é q nem produto barato com obsolescência planejada: si o “futuro melhor”, qdo chegar, for um produto durável, de boa procedência e qualidade, a sociedade industrial entrará em colapso.

A aura do objeto possível, ao alcance de toda mão, misturou-se äs narrativa do cristianismo e formaram a base daquilo que, nos último 50 ano, se tornou o produto evangélico: a industrialização da religião e a inevitável “teologia da prosperidade” –ou seja, como industrializar o…

Peraí… ¿“teologia da prosperidade”?… Pausa pra gargalhar.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Continuando… –ou seja, como industrializar o desejo pra que o maior número possível de pessoas espiritualmente e moralmente desejem a mesmíssima coisa de modo à vender o mesmo produto –imitando as posse espiritual de santos– ao povaréu ignaro sedento pelo transe dos iluminado, pela sabedoria dos profeta e pela pureza dos anjo. Si agora a industrialização permite que qqer capiau no meio dum deserto cultural tenha em casa uma geladeira –imitando em miniatura a câmara frigorífica subterrânea dos palácio do século 18– pra estocar sua coca-cola, tbm qqer “pecador” sorumbático pode sentir-se um santo iluminado diferenciado e sutil ao comprar alguns livro, aprender alguns rudimento de teologia e perder ligeiramente o equilíbrio ao orar em pé de olhos fechado. E, tal como todo produto industrializado, é baratinho: basta o cara “aceitar Jesus em seu coração” e comprovar o ocorrido pagando sua mensalidade.

O sucesso do protestantismo evangélico é o sucesso da industrialização: o povaréu não quer mais consolo; quer sonho e esperança ao alcance das ávida mãozinha.

E a gargalhância de *querer* ter sonhos e esperança é um sintoma cabal de inflamação crônica do CORChA.

Mas… Qdo o doutor já tava se embrenhando por aí, interrompi e perguntei, lá do fundo de minha tacanhez: “Mas ¿não é normal querer ter uma vida boa? ¿Que conselho pode-se dar aos jovem pra que seu CORChA fique quieto em seu canto do cérebro?”

Ele mordeu de leve a ponta da língua, inclinou um pouco a cabeça e disse:

Pô, é o mesmo de sempre; não muda desde a pré-história: “Conheça-se e conheça o mundo; tente o possível e espere o provável.”

7 comentários:

Permafrost disse...

Uma evidência de q a epidemia de esperancite e onirite começou com a revolução industrial é um texto de Fracis Bacon, q morreu em 1626. Ele escreveu uma coleção duns 60 ensaio sobre variados assunto da vida, procurando ser abrangente –verdade, morte, vingança, adversidade, inveja, coragem, nobreza, ateísmo, profecias, construções, negócios, fortuna, estudo, beleza, amizade, &c– e o assunto “sonhos e esperança” nem siquer passou-lhe pelo cucuruto. O mais perto à q chegou foi dedicar um dos ensaio ao assunto “ambição”; e vejam só como começa (tradução abaixo):

Ambition is like choler; which is an humour that maketh men active, earnest, full of alacrity, and stirring, if it be not stopped. But if it be stopped, and cannot have his way, it becometh adust, and thereby malign and venomous. So ambitious men, if they find the way open for their rising, and still get forward, they are rather busy than dangerous; but if they be checked in their desires, they become secretly discontent, and look upon men and matters with an evil eye, and are best pleased, when things go backward…

«A ambição é como a bílis –um humor que, si não for detido, deixa as pessoa inquieta, impaciente, despachada e afanosa. Mas si for detido e impedido de conseguir o q quer, torna-se melancólico e, daí, injurioso e venenoso. Então, si os ambicioso encontram o caminho livre pra sua ascensão e progridem, tornam-se atarefado mais do q perigoso; mas si forem contrariado em seus desejo, tornam-se descontente em segredo, enxergam os outro e seus negócio com mau-olhado, e alegram-se mais quando as coisa correm mal…»

Num livro de máximas de 1624 (Apophthegms), escreveu:

Hope is a good breakfast, but a bad supper.

«A esperança é um bom café-da-manhã, mas um mau jantar.»

(Ou, pra frescos:«A esperança é um bom desjejum, mas uma ceia ruim.»)

MI disse...

Hoje eu sonhei que a patrôa tinha virado japonesa. Espero que com fé, coragem e pensamento positivo, esse sonho não se torne realidade. Nada contra as japas, até já tive uma bem bacana, mas é que em time que tá ganhando...
By the way,aquele maravilhoso ditado que o Dr me disse há anos é minha bandeira:

"Life is shit, and then you die."

Esperança é nome de gente.

Pracimademoá disse...

"A esperança é a última que morre, mas morre."
Millôr Fernandes

Permafrost disse...

MI,
Life is shit and then you die.” é quase budista, eu diria. Depois de perceber isso, a gente se diverte mais.

Äs vez me parece q a gargalhada plausível soa como Budai rindo, mas é pq sou ignorante.

Lu disse...

Dr., mandei um e-mail urgente. :-)
Abraço Lu Thomé

Arthur Golgo Lucas disse...

“Conheça-se e conheça o mundo; tente o possível e espere o provável.”

Muito bom para não gerar frustrações, mas se Alberto Santos Dumont (ou substitua pelo idealista brilhante de sua preferência) pensasse assim, teríamos o incrível desenvolvimento que tivemos em seu campo de expertise?

Permafrost disse...

Golgo,
Long time no see!
Talvez seja só eu q ache isso, q nenhum idealista brilhante jamais fez algo q prestasse qdo deixou de seguir essa diretriz. Tudo q eles conseguiram criar partiu dela e chegou à ela, embora alguns digam o contrário. Conhecimento e entusiasmo são muito diferentes de sonho e otimismo.

Postar um comentário

consulte o doutor