07 maio 2012

WC: Wirada Cultural

Nosso empírico doutor sempre foi uma pessoa muito sincera, viu. É por isso q agora vai admitir uma coisa. ¿Sabe esse evento chamado "Virada Cultural" em Sampa, q já tá na sétima edição? Mesmo morando em Sampa, ele só soube de quê se tratava dois dias atrás, lendo um caderninho de cultura q alguém deixou num ônibus. Ele achava q a palavra 'virada' se referia apenas à uma guinada, um redirecionamento das política cultural pra investir mais, e coisa e tal. O q o doutor descobriu é q 'virada' inclue um trocadilho com 'virar' a noite. São 48 horas ininterrupta de shows e outros barulho ao ar livre, 24 horas em cada um de vinte locais densamente habitado no centro de Sampa.

Sei lá, né. O doutor sempre disse 'varar' e não 'virar' a noite.

Com toda sua perspicácia habitual, ele finalmente entendeu o q quiseram dizer com 'virada', mas demorou alguns minuto pra entender o q quiseram dizer com 'cultural'. ¿Como assim, 'cultural', cara-parda? ¿'Cultural' tal como em "é cultural a prefeitura promover o acotovelamento de centenas de milhar de gente varando a noite, fazendo barulho e arruaça, espalhando megawatts pelo entorno, emporcalhando as rua e infernizando por 48 horas os morador do entorno, q têm direito à traqüilidade no seio de seus lar todos dia do ano"?

HAHAHAHAHA

"Claro q não, né, ô. ¿Tá me estranhando, porra?" responde o cultural.

'Cultural' tem outro sentido em WC.

¿Sabe aquele estereótipo do português da mercearia, segundo o qual durante os dois século passado, português q migrava ao Brasil abria imediatamente uma mercearia ou algo do tipo? Tá longe da verdade; mas tbm tá perto. Vindo duma península sem tradição em nenhuma ciência exata, humana ou biológica, dum país meio chinfrim nas arte, exceto a culinária, e usuário duma língua viciada em vender gato por lebre, o imigrante português juntava as duas coisa q sabia fazer melhor: cozinhar e comerciar –partindo das especiaria, o Brasil é, em sua origem, um empreendimento culinário e mercantilista. (Não, não vou falar do Alex Atala.) Já organizar, não é seu forte.

Além disso, o Brasil herdou de Portugal seu profundo mal-estar com sua chinfrinice artística, com sua perspicaz percepção de primo-pobre da Zoropa, com o relativamente pouco interesse de seus cidadão pela arte local. (O mal-estar é uma enorme besteira: nosso edaz humanista já esteve em Portugal e adorou tar numa nação q já não se pauta por mega-sonhos.) É desse mal-estar q vem o recalque na ênfase exagerada sobre a palavra 'cultural' como indicativo de 'artes'. Já q português não é notável como cientista, filósofo ou médico, então é nas arte q vamos brilhar, né?

E é ISSO o q realmente, no fundo, quer dizer a palavra 'cultural' no nome do evento.

HAHA

Esses dois traços cultural do português (e, por herança, do brasileiro) começam à dar problema qdo se sobrepõem äs demanda básica da vida. Notem a tradução pro português de I live here, vivo aquí, je vis ici, ich lebe hier: MORO aqui; nenhuma menção à viver. Nas língua cuja cultura Portugal e Brasil admiram, 'viver' e 'morar' são a mesma palavra. Nessas língua, "moro aqui" quer dizer "¡é neste lugar q acontece minha vida, porra!" Além disso, si vc olhar fundo nas esfera da cultura q não são o forte do português –as ciência exata, humana e biológica–, vai ver q seu estímulo e objetivo primordiais são atingir the good life, la buena vida, la bonne vie, das gute Leben. Irônicamente, muitos aspecto do ideal da Boa Vida, Portugal e Brasil *já têm*… Vai entender.

Só q, vodzêumacoizprucêis, a Boa Vida NÃO É o objetivo primordial do Estado brasileiro.

HAHAHAHAHAHA

O objetivo primordial do Estado brasileiro é facilitar, estimular e alimentar o comércio –a compra e venda ao nível da rua. Um objetivo menor –mas cujo populismo sempre dá retorno– é apaziguar os recalque artístico do populacho. Junte os dois e pimba: uma iniciativa truculenta da prefeitura criando a Wirada Cultural. Veja a linda descrição no saite da WC:

"O centro velho da cidade se transforma num mega-ambiente com inúmeros palcos e cenas, numa festa para a qual os mais diferentes cidadãos estão igualmente convidados."

Só q os morador do entorno não tão exatamente "convidado": tão é INTIMADO à comparecer ä festa da alegria compulsória. Olha o q *eles* dizem:

@mjr_jr : E o centro começa a se preparar para a virada cultural.. Barulho.. Testes de som..
@raleite_ : Amanhã vai estar um inferno na porta do meu prédio com a virada cultural
@_CarlosCastroo: Minha avó veio aqui pra casa porque ela mora do lado de onde vai ser a virada cultural,ai ela falo que não aguenta barulho na cabeça
@A_Cumadi: Mijada Cultural é lindo pra quem mora no Centro. É gente, as pessoas tb moram no Centro de SP.
@ugatto: Montaram um palco dessa droga de virada cultural bem aqui na frente do prédio...: que inferno!!!
@morthyx: Pra que inferno? Se existe a virada cultural?
@Kauerlima: 1° não tem onibus. 2° cheio de noia na rua & 3° você não consegue dormir com tanto barulho. é um inferno essa virada cultural,ARRGH!
@EPJELETRO: os moradores do centro estão refém da virada cultural não possível nem conversar dentro de casa devido ao barulho
@AleCoutinho: Para quem mora no centro de São Paulo, a Virada Cultural significa virar de um lado e para o outro na cama, sem conseguir dormir.
@gabiidmes: Virada Cultural obrigada por não permitir que eu me concentrasse no simulado hoje, muito legal fazer prova com esse barulho
@_ffolle: vou dormi qe nem uma anjinha hoje , sem aqele barulho infernal da virada cultura

Pro Estado brasileiro, prä prefeitura de qqer partido, as reclamação dos morador, das pessoa cuja *vida* acontece naquele lugar, porra, jamais terão o peso q têm os recalque da arte e os interesse do comércio –tanto do comércio local qto do mais amplo, ligado diretamente ä produção dos evento. Enquanto os comerciante aprovarem a Wirada Cultural, ela continuará existindo exatamente do jeito q tá, ou pior.

Tbm se fala em revitalização do centro.

HAHAHAHAHAHA

Hm.

Olha, o Dr Plausível –profundo conhecedor da natureza humana– garante q entre os maior promotor e estimulador da WC encontram-se os proprietário dos prédio velho do centro. Pelo jeito q os megawatt fazem as parede tremer, não é difícil imaginar q os proprietário já tão encomendando a demolição, pra construir outro prédio bem maior no lugar.

Os outro defensor da Wirada Cultural citam a idéia original francesa (claro, pq brasileiro não é muito de ter idéias original), chamada lá e no Canadá de Nuit Blanche, uma idéia q se espalhou pelo mundo. Mas… Mas… Vai LÁ ver o q realmente é a Nuit Blanche, em qual parte das diversa cidade é realizada, qual o padrão de ocupação habitacional, que tipo de evento ocorre, COMO ocorre, qual o nível de organização &c &c &c &c.

No Brasil, é um pouquiiiiiiiiinho diferente. Tudo vira um atropelo.

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(colaborou: Bel Seslaf)

10 comentários:

tralfamadorian disse...

ich wohne hier? Pelo menos seja consistente com o whorfianismo...

Permafrost disse...

Tralfa,
¡Maldito alemão! Sempre me pega de Lederhosen.

Permafrost disse...

E, por falar em Sapir-Whorf, não aplico a hipótese ao indivíduo, mas ä cultura. Não acho q os pensamento são determinado pela língua; mas acho q a cultura é delimitada pela léxico e dirigida pela gramática.

Neanderthal disse...

ich nicht wohne hier any more!

Só vou dizer uma coisa: Iron Butterfly, doutor! Iron Butterfly!

Infelizmente, tive um compromisso nesse sábado e não deu!

Anônimo disse...

Uma cidade entupida de imigrantes de todo canto, que nem vc, e a "virada cultural" é "herança" portuguesa! Só com uma palavrão-interjeição pra finalizar o comentário...

Permafrost disse...

Nôni,
Então. Uma outra cidade entupida de imigrantes de todo canto é Nova Yorque, outra é Paris, outra é Londres. Hm?

Aliás, ninguém aqui disse q a WC é herança portuguesa. O q se disse foi q (1) ser organizado não é o forte da herança portuguesa e (2) uma herança portuguesa é o recalque com a palavra 'cultura'. Junte os dois e vc tem um evento espalhafatoso e caótico, em q trocentos decibel de CULTURA CULTURA CULTURA CULTURA CULTURA são entuchada na orelha do povo e dos morador da região, caso alguém tenha dificuldade pra entender o q é cultura.

Anônimo disse...

Será que eles fazem virada cultural em Lisboa?! Eu mesmo nunca ouvi falar. Será que em Lisboa é tudo desorganizado, tudo esculhambado igual aí!? A virada cultural do Rio de Janeiro é esse vexame que é a daí de São Paulo? Se vc não sabia (não sabia, senão não moraria aí), São Paulo é um imenso campo de concentração... Nas minhas tristes lembranças, dentro dos vagões do metrô, só figuram lúpens. Eu acho que porque era só o que tinha. Basta lembrar o que é República, Campos Elíseos, Cracolândia, Pari, Cambuci, Brás, Barra Funda, Mercado, zona lesta em geral... o caminho todo da Dutra... misericórdia! É uma lista imensa! Essa é a única razão por que tudo aí desanda em quebra-quebra e em arruaça... seja a vitória do curíntia, seja a derrota do curíntia... tudo é motivo. Tirando os imigrantes estrangeiros e seus descendentes próximos - os que têm dupla cidadania, por exemplo - mesmo os brasileiros "legítimos" não são, nem todos, nem em absoluta maioria, descendentes de portugueses. Existem também as ascendências indígenas e africanas, ambas organizadíssimas, civilizadíssimas e que valorizam extremamente a "cultura". Só que falar mal dessas ascendências é politicamente incorreto. Falar mal de português é muito mais aceitável e todo imigrante se acha nesse direito.

Permafrost disse...

Nôni,
Vc tem razão em quase tudo aí. Mas comparar a Nuit Blanche de Lisboa (si é q eles têm isso) com a de São Paulo erra o alvo. A questão é justamente q São Paulo é o ponto à q chega a herança cultural portuguesa qdo recebe incentivo financeiro desproporcional à sua capacidade de se organizar como cidade, cultura e civilização. O dinheiro de SP vem não de qqer mérito de sua cultura mas de sua superpopulação. Note q a população de Portugal INTEIRO é pouco mais da metade da da Grande SP. Aposto q, si Lisboa algum dia chegar ao despautério urbano q é SP (e sinceramente espero q não), terá os mesmíssimo problema, pq a cultura é parecida e, principalmente, a *língua* é a mesma.

No Rio, aposto q é a mesma coisa, si não pior. Recentemente pernoitei numa cidade do interior paulista justamente qdo ela promovia sua "wiradinha cultural": o barulho do palco principal à mais de DOIS QUILÔMETROS de onde pernoitei me obrigou à dormir com tampão nos ouvido. Si numa cidade interiorana a "cultura" se expressa dessa forma, imagine como será no Rio.

A idéia da Nuit Blanche é dar palco à artistas menor; e os palco são, em sua maioria, REALMENTE pequeno e em sua maioria interno. Pelo q pesquisei, o público reclama q os palco ficam em lugares muito distante, ou em galpões abandonado, ou em barzinhos apertado &c.

De qqer forma, pelas própria característica das cidade, um show nas rua de Paris ou Montrèal incomoda MUITO menos do q um show nas rua de São Paulo.

Anônimo disse...

Pensei que vc ia me chutar na canela por causa do "lúpen"... Eu não achei no dicionário mas me lembro (ou acho que me lembro) que o certo é lumpen com um acento que não lembro onde. Tava andando no calçadão e isso pulou na minha cabeça. Vc não perde a classe. Parabéns! (mas continua sem razão) :-))))

Eu não acompanho muito isso (nem nada) porque o que mais me falta na vida é tempo. Mas as coisas acabam gritando nos meus ouvidos, como a história da galinhada do Salomão Atala(?). Não ouvi gritaria semelhante com relação à virada do Rio. Deve ser por alguma coisa, né não? São Paulo é um lugar muito infeliz. O problema é só esse. Desculpe.

My Dear Nineleven disse...

Eu já ganhei um troco na virado à paulista cultural, há alguns anos atrás, tocando com 2 caras MUITO ruins que, é claro, fazem sucesso aonde quer que toquem, inclusive em casas ditas especializadas em jazz. Apelidei o guitarreiro de "rádio", visto que não fechava a maldita matraca. By the way, achei o evento uma bosta.

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