05 março 2010

As plagas do plágio

Sesdias, nosso eremófilo filantropo desempapuçou um buncho rindo qdo leu do causo do editor e da blogueira.

aiaiai

Primeiro, o editor em pauta copiou quase verbatim uma tradução já existente e publicou como sua – e nem nisso foi original, já q plagiar traduções fora de catálogo é prática comum nestas plagas tãão criativas. ¿Pra quê falsificar dinheiro se é tão mais fácil falsificar o suor da testa, né? São só umas letrinhas: em vez de "tradução de Sicrano Silva", põe aí "tradução de Beltranus Bunda".

aiaiaiai

A atenta blogueira – q há anos denuncia plágios de traduções – demonstrou mais essa trapaça, como mera rotina. As editoras plagiam traduções, as livrarias desinformadas vendem, os leitores insuspeitantes compram, a blogueira lista mais uma falcatrua, e a vida continua.

Mas não subestimemos o hipoplausivírus. O mesmo vírus q fez aquele editor não achar nada de errado numa tradução sofrível, nem nada de errado em plagiá-la, tbm fez o editor... aiaiaiai... ¡¡processar a blogueira q o havia denunciado!!

HAHAHAHAHAHAHA

O Instituto de Plausibilática de Tallinn acaba de conceder à blogueira o Prêmio Plausível – 10 mil kudos e um linque neste blogue – por seu denodo e pertinácia em diagnosticar focos de hipoplausibilose patife.

Mas...
(lá vem bomba)
...nosso expandinte doutor tem olhos na nuca, e sua visão panorâmica já ganhou vários festivais. O buraco é mais abaixo. O doutor tá cada vez mais afeito à idéia de q cada obra estrangeira – livro, filme, o escambau – deveria ter apenas UMA tradução brasileira, oficialmente reconhecida pelo Estado e talvez periodicamente melhorada. ¿O original de La Divina Commedia não é apenas UMA obra, imutável em sua língua natal, escrita por um gênio literário? ¿Por que é q o público leitor brasileiro tem q ser atacado por várias versões, com chumbreguice variando de 0 a 10? Se ninguém pode alterar o texto original do Don Quijote, ¿por que temos várias versões em português, com diversos níveis de entendimento? Se Hamlet é produto dum cérebro reconhecidamente genial, ¿por que se contentar com o produto dum único tradutor nem tanto, amiúde muito pelo contrário? Se tanto brasileiro com talento literário prefere ou é obrigado a não ter produção própria, se o Brasil tá soterrado sob a avalanche de produções estrangeiras, esperando q num futuro hipotético as plantinhas brazucas subam à superfície e vejam a luz do dia ¿por que não fazer traduções colaborativas, de modo q A peça Tartuffe seja no Brasil A peça Tartufo e fim de papo? ¿Pra que ficar punhetando sobre as várias possibilidades da tradução? Catso, se o próprio Molière tivesse começado a escrever a peça um mês antes ou depois, ela teria ficado diferente. ¿Por que não fazer UMA tradução oficial, e bola pra frente?

Essa idéia parece tonta, né? Mas decheu fazer mais perguntas. ¿Que fariam as editoras brasileiras se não houvesse tanto material pra traduzir e plagiar? ¿Que fariam com tanto papel disponível nas matas brasileiras?

A enormidade do volume de traduções diferentes da mesma obra e de plágios de traduções é mais um sintoma do q uma doença. Mostra q muitas editoras simplesmente DESISTEM de produzir idéias novas; mostra q muitos textos estrangeiros já vêm com pedigree presumido, q desbanca por default boa parte da produção brasileira possível; mostra q – e esta é a principal questão aqui, sobre a qual o diagnóstico do Dr Plausível repousa – mostra q dezenas de milhões de brasileiros ficam diariamente à mercê das falhas e lapsos de tradutores individuais, em vez de se exporem à inteligência e coerência dos originais (por algum motivo os originais dão azo a traduções, não?).

A imutabilidade dos originais não é apenas textual. Tbm é imutável o histórico de sua influência. Shakespeare, Cervantes, Moliére, Goethe &c &c &c &c &c são eles mesmos monolitos imutáveis, pilares da cultura universal. ¿Por que então a areia movediça das traduções, a loteria da competência? A Academia Brasileira de Letras deveria, pra variar, fazer algo q prestasse e patrocinar comitês de traduções oficiais – ou imutáveis ou periodicamente melhoráveis – pra trazer ao público brasileiro a inteligência e a arte dos figurões reduzindo ao mínimo os descuidos e gafes aleatórias de tradutores individuais. É o reconhecimento de q, se os gênios do passado são imutáveis e aguçam a inteligência e a sensibilidade da cultura, então o povo brasileiro deve ser exposto à melhor versão de sua influência. Assim talvez se incentivasse o brasileiro a tentar algo mais do q copiar, traduzir e plagiar.

Desnecessário dizer q as traduções oficiais acabariam com os plágios automaticamente.

Mas... ¿a expectativa de q algo assim venha a acontecer algum dia, no Brasil ou em qqer outro país? Nenhuma. Tou aqui só tagarelando.

17 comentários:

Eduardo disse...

Eu já conhecia esse blog há muito e até enviei uma nota de repúdio à editora Landmark.

denise bottmann disse...

muito divertido. e obrigada pelo prêmio ;-)

Anonymous disse...

"A Academia Brasileira de Letras deveria, pra variar, fazer algo q prestasse e patrocinar comitês de traduções oficiais"

O Sarney é um acadêmico, quer o que? E, dada a idade média dos seus membros, pode-se afirmar com quase toda certeza que nem ler eles conseguem mais.
Cloud that don't have, istoé, nu vem qui num tem.
Ótimo texto, brincadeiras à parte.

Neanderthal disse...

Isso é mais uma iniciativa petista que tem como finalidade cobrar propina para conceder o selo de tradução oficial.

Pracimademoá disse...

Pô. Mas tu viajou nessa de tradução única coletiva.

http://coisasdeidiota.apostos.com/2009/03/06/39-conspiracoes-globais/

Assunto diferente, conclusão igual. Veja o abessurdo das duas idéias. Acho que o Dr. contraiu alguma coisa no contato diário com os pacientes...

Permafrost disse...

Demoá,
Claro q não é uma idéia factível. Mas nem era pra ser traduções tipo Wikipedia, com contribuições de qqer um; era pra ser tipo um Fahrenheit 451 em q cada livro tivesse um editor reponsável por abalizar as contribuições tradutórias.

O texto lincado é muito engraçado, mas não entendi apropódiquê. ¿Vc tá concordando com ou discordando do cara?

Eduardo disse...

Eu acho que você viajou agora nessa idéia. Schopenhauer, por exemplo, era contra traduções, absolutamente. Eu achava que esse nobre filósofo fora um dos pais da Ciência Plausível, mas, pelo visto, o Instituto de Plausibilática de Tallinn anda com séria deficiência no seu currículo.

Toda tradução é uma simplificação. Muitas vezes grosseira. Como é que se pode traduzir um funk, por exemplo, para o português? Mesmo que fosse possível, com muitas notas explicativas e texto introdutório, perder-se-ia a graça.

"Tati Quebra-Barraco aproveitou-se de uma cacofonia com a palavra 'Dako' (nome de uma marca de eletrodomésticos), para construir uma frase, que, devidamente pronunciada no favelês carioca, exprime seu ponto de vista a respeito da sensação da relação sexual anal". Texto original: "Dako é bom/ Dako é bom..."

Pois explica, então, como seria a versão inglesa ou francesa oficial deste poema de Mário Quintana:

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Pracimademoá disse...

Eu concordo com ele, ué. Onde houver muita gente trabalhando (nem precisa ser muita), é quase certo que haverá discórdia. Fica mais certo quanto mais houver vaidade em jogo. Exemplos:

Um piquenique ou churrasco organizado por amigos: nenhuma vaidade em jogo -- dá certo!

Um projeto intelectual de grande repercussão nos dias de hoje e ao longo de muitas gerações futuras -- vai ter briga pra caralho! Tradutores, acadêmicos e enxeridos vão ficar brigando para o resto da vida para decidir quem é o mais competente e tem a melhor sacada para cada frase, e o projeto não vai passar da terceira página.

Ok, serei realista: vai passar da terceira página e vai ficar pronto. Mas produzir-se-á, eternamente, um cânone infinito de reclamações em forma de livros, ensaios e teses sobre como a única tradução "oficial" está mal feita ou ERRADA, um queixume perene, gigantesco e cumulativo, vagante e fantasmagórico de tradutores e outros intelectuais, tão inconformados quanto aquelas figuras anônimas e tristes que bebem pinga no boteco e até hoje resmungam que o seu time de futebol não foi campeão há 26 anos, porque o juiz apitou errado o lance de sei lá o quê aos não sei quantos minutos de sei lá que porra de tempo. E muita gente viveria até o fim da vida frustrada, rabugenta, constipada, irritadiça, agressiva, sarcástica, pedante, arrogante, intransigente, hostil e profundamente infeliz sem que ninguém jamais imaginasse o porquê. E todo esse malefício se alastraria aos poucos por toda a sociedade porque estado de espírito, bom ou ruim, é muito contagioso.

Sério, o prejuízo psicológico que uma tradução única "oficial" causaria a inúmeros tradutores e diletantes e à sociedade em geral seria um problema muito grave de saúde pública.

Arthur Golgo Lucas www.arthur.bio.br disse...

Solução alternativa factível: um "Selo de Qualidade ABL".

Neguinho da ABL lê a obra original e a tradução, faz um parecer aprovando ou desaprovando e vai pra casa com o senso do dever cumprido. Obras com pareceres positivos de pelo menos dez academianos recebem o SQ-ABL desde que não tenham recebido pareceres negativos. Para eliminar o efeito de cada parecer negativo são necessários mais quatro pareceres positivos, além dos dez originais. O processo fica aberto até a tradução receber o selo ou receber cinco pareceres negativos, mesmo que isso demore alguns séculos, afinal os academianos vão sendo substituídos. Quem confiar na qualidade dos pareceres da ABL que use esse indicativo para escolher sua tradução. Quem não confiar, ignore tudo e escolha por si mesmo.

Que tal, Plausível?

Edmilson disse...

Pracimademoá ,
Discordo. Gente que fica chateada com esse tipo de coisa não descansa. Tá sempre procurando alguma coisa pra ficar pra baixo. E sempre acha :/

Permafrost disse...

Eduardo,
Schopenhauer, claro, pô, né? Tradução não existe além do q é compreensível por um pré-adolescente. Não leio traduções entre troncos lingüísticos. Se o livro é italiano, leio a tradução espanhola; se é alemão, leio a inglesa; se é japonês... não leio; ou seja, nunca leio traduções pro português, tadinho. O máximo a q me permito nesta língua é ver filme japonês legendado. Mas essa ojeriza se deve justamente à qualidade do q lia qdo ainda aceitava traduções. Tenho um filtro muito fino pra non-sequiturs e acochambragens.

Demoá,
HAHAHAHA Dei muita risada com tua lista de conseqüências psicológicas. Porém o fato é q, em qqer grupo de trabalho, há muitos mais motivos pra concórdia do q pra discórdia – se não ouvesse, o grupo não existiria. E o objetivo da tradução oficial não seria agradar os tradutores, mas (1) prestar um serviço ao populacho e (2) indiretamente estimular o congingente com tendências literárias a produzir suas próprias coisas em vez de se rebaixar a ganhar uns trocados traduzindo. Pô, ¿por que ficar perdendo tempo fazendo uma NOVA versão do MESMO livro/filme/peça, cujo original é só UM? E tem outra: na língua original de uma obra, ela suscita diferentes interpretações, diferentes estudos, &c, a cada vez elevando o níver de aprofundamento em obras q agüentam o tranco. Já neste país perdido, cada nova tradução traz problemas em lugares diferentes, JUSTAMENTE pq o níver de aprofundamento dos tradutores nunca tem chance de se elevar muito acima da mera compreensão do texto.

O caso dos filmes é pior ainda. O Dr Plausível tá analisando alguns pra internar em terapia intensiva.

(Lembrando q a expectativa de um idéia dessas vingar é zero.)

Golgo,
A idéia é boa contanto q se possa pra confiar q aquelas múmias *lerão* os livros. Mas a proposta do DrP não é tanto "várias cabeças julgam melhor do q uma" qto "várias cabeças revisam melhor do q uma".

Eduardo disse...

Ah, bom! Agora, entendi! Não foi com a resposta que você deu a mim, mas com a do Pracimademoá. É para prestar um serviço ao populacho! Agora, sim, é uma idéia plausível.

Talvez também, junto com a tradução, devesse haver nota introdutória e de rodapé com uma breve explicação sobre a língua e cultura do original, tudo oficial. Nada muito extenso para não comprometer a imparcialidade, já que cada um tem sua opinião do que é importante ressaltar da língua e da cultura para o leitor brasileiro.

The Gritty Poet disse...

Tallinn é tão agradavel nessa epoca do ano, e dizem que o instituto possui instalações de primeira. Eu acho que meu trabalho que desvendou a participação de camundongos paraguayos nos resultados viciados da pesquisa que acabou aprovando a comercialização de coleiras elasticas para a pratica de bungee jumping canino merecia o premio, se não para mim então para os que se foram antes do recall.
De qualquer forma parabens a Sra Bottman.

denise bottmann disse...

prezado dr. plausível: hoje saiu uma entrevista minha com o bruno dorigatti, no portal literal. se quiser ver, está aqui: http://portalliteral.terra.com.br/blogs/de-plagios-e-processos

há um artigo bem interessante do nelson ascher, de uns dois anos atrás, dizendo algo nessa linha que vc comenta: chega de tantas traduções da mais coisa, pois falta tanta coisa para traduzir que é um desperdício ter todo esse "mais do mesmo". o argumento é um pouco mais elaborado, mas é meio por aí.
a esperteza das editoras que republicam velhas traduções com novos nomes também colabora para ficar sempre repetindo mais do mesmo...
veja aqui trechos e link do artigo do ascher:
http://naogostodeplagio.blogspot.com/search?q=nelson+ascher

denise bottmann disse...

ooops, "chega de tantas traduções da mais coisa", leia-se "chega de tantas traduções da mesma coisa"

Permafrost disse...

Denise,
Li tudo q vc lincou aí, até o major Nelson. A comparação q ele faz ali do mercado tradutorial anglo-euaense (e diria eu, o francês) com o brasileiro me lembra o q é exatamente o Brasil: o País do Pânico Lento. ¿Manja pânico no mercado financeiro, qdo todo mundo faz a mesma coisa ao mesmo tempo? O Brasil é assim, só q em câmera lenta. A Zoropa e o Zeuá têm ocupação territorial alastrada com todas aquelas cidades pequenas perfeitamente vivíveis, têm aquele comércio nacional em q vc acha qqer coisa q teja procurando, têm aquela variedade de produções culturais servindo a contento nichos diminutos de mercado. No Brasil, a maior parte dos esforços se concentra no q dá mais retorno. Assim, a população se concentra fortemente nas cidades grandes; nestas, ela se concentra em prédios cada vez mais altos em bairros cada vez mais engarrafados; as lojas vendem apenas o q vende muito (sou um comprador frustrado...); a concentração de renda é uma das marcas registradas daqui &c &c &c Não me admira q as editoras vivam de re-editar ou encomendar traduções APENAS dos livros q vendem mais. Igualdade tá cada vez mais se confundindo com homogeneidade.

Aliás, tua teoria "A xerografia como motor da diversidade" recebeu o Selo de Aprovação do Instituto de Plausibilática de Tallinn.

denise bottmann disse...

legal, gostei do selo de aprovação, obg.
pois não é mesmo? deixem-se os órfãos, esgotados e abandonados em paz, quem quiser reedita quantos quiser, numa boa, quem quiser xeroca, digitaliza etc., e publicam-se coisas novas ou coisas antigas nunca dantes traduzidas, e fica todo mundo feliz.

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