04 janeiro 2013

O descasca-cobra

Um tipo de romance, filme ou peça q nunca jamais vai ganhar um Plausuto de jeito nenhum é o chamado descasca-cobra: vai descartando personagens depois de cìnicamente usados pelo autor. Ele ama tanto seu tosco herói-alter-ego q não hesita em sumàriamente livrar-se de qqer outro personagem q atrapalhe sua epopéica saga. O artifício tem longa história: por exemplo, Dickens –q escrevia sem plano geral, ao sabor da popularidade– foi um grande usuário. O novo paradigma de descasca-cobra é “Todo sobre mi madre”, de Pedro Almohadóvar. (Si a protagonista desse filme fosse uma vilã tal como a do referenciado “All about Eve” seria mais digerível. Mas ¿Almohadóvar fazer mulher vilã ou traveco escroto? Pode esperar sentado.) ¿Tem coisa mais cóinga do q acompanhar a gradual expiação duma heroína q, pra isso, precisa q os coadjuvante morram ou sumam de vista um por um à sua volta, depois de dar ä heroína o q ela queria ou “precisava”? Típicamente, a solução narrativa do descasca-cobra é dar cabo de personagens pra não complicar a vida do autor: “Pô, imagina ¿vou ter q ficar juntando ponta solta? Isso é coisa de costureira. Meu negócio é dar de gênio. Deixa morrer. Morte sofrida de gente boa dá audiência. Ah, e põe aí umas referência à outros filme, q crítico e povaréu adoram destrinchar referência.”

Pô, olha só qtas gargalhice nesse filme:

• O filho de Manuela morre só pra ela poder ajustar contas com seu passado.
• A freira Rosa, enfraquecida pela AIDS, morre dando ä luz um menino pra q Manuela possa substituir seu filho.
• A mãe milionária da freira não quer em casa um neto filho de traveco portador de AIDS: uma treta narrativa pra permitir q Manuela adote o bebê.
• O pai do bebê é o mesmo do filho q morreu: um traveco q morre de AIDS após absolver a consciência pesada de Manuela.
• O filme tem outro traveco, q ajuda Manuela em tudo, diz umas piada e some sem deixar vestígios (numa carta, Manuela se desculpa por ter sumido sem se despedir; tsc).
• Através do bebê, Manuela tem sustento garantido na velhice pois, após descobrir q ele *milagrosamente* não contraiu AIDS no útero da mãe, Manuela pode ir morar com a vó rica do moleque.

Além da matança utilitária, atrás de “Todo sobre mi madre”, tem um gerador de coincidências rodando um motorzinho de catarses. É muita maldade com nosso estesiogênico humanista. O filme encheu o Dr Plausível de sentimentos ambíguo: ele não sabia si sorria ou bocejava, si dormia ou ria, si roncava ou gargalhava.

O código de ética de editoras, estúdios e teatros bem q poderia incluir mais uma categoria no rol de estilos ficcional: romance, policial, comédia, aventura, descasca-cobra. Pq pô, né?

46 comentários:

Pracimademoá disse...

É, concordo, mas né só o Pedro, né. Esse tipo de manipulação barata é bastante comum, e existe muito pior por aí.

Sempre achei o Pedro divertido, mas nunca aceitei sua fama de "gênio". Nunca foi isso tudo pra mim. Sempre me pareceu mais um rapaz antenado nas últimas tendêincias das revoluções de comportamêinto que *há muito tempo* são irreversivelmente expostas nas ruas e refletidas nos melhores empórios de estilo da aldeia global na nova era sexual e digital, como toda bicha acordada que se preze. (Note a leve prolongada no meio da palavra "tendêincia", que é a forma correta de se pronunciar no mundinho mix glamour casual urbano da moda fashion de São Paulo.)

Você pretende escrever algum dia sobre o Tarantino, ou eu vou ter que fazer isso? Ai, só de pensar, me dá vontade de voltar pra cama. E o homem tá com filme novo na praça, os nerds fãs de "graphic novels" já começam a comentar em tudo que é site, taqueospariu, não sei o que é pior, filme do Tarantino ou Copa do Mundo.

CARALHO, acabo de ter um pensamento horroroso, já imaginou Galvão Bueno comentando filme do Tarantino???

"...enquanto mais um personagem malvado e cheio de conflitos psicológicos vem chegando por ali, e QUEM É QUE MORREEEEE!!!"

"Deu tiro de 12, decepou a cabeça e enterrou vivo. Pode isso, Arnaldo???"

"NÃO TEM COMO o sangue da jugular ter jorrado por trás da faca. A FÍSICA NÃO PERMITE."


Se ainda existisse churros, eu ia pra rua comer um.

Permafrost disse...

Demoá,
Tampouco eu sou fã de Tarantino. Mas… só vi três filmes dele (não os três mais recente), e dois me pareceram absurdamente genial –como cinema, friso– do tipo “¿Até onde será q consigo empurrar isto?” São eles “Death Proof” e “Inglourious Basterds”. Um grande lance do QuenTar, q fica meio submerso em tanta ação e violência, é o texto. Tem coisas magistral ali.

Mas ¿quais são esses filme q vc fez o GalBue comentar, meu santo? Não conheço.

Pracimademoá disse...

Coisas magistral??? Como o quê?

Não citei nenhum filme específico. Citei frases de Galvão comentando coisas que acontecem rotineiramente em filmes de Tarantino.

Permafrost disse...

Tanta coisa, Demoá. O ritmo e o contorno dos diálogo; nada parece inventado ou pensado, apesar de q tudo é. (Tou falando do texto original, claro; e só dos três q já vi.) Aliás, ¿já viu Inglourious Basterds?

Permafrost disse...

Demoá,
Outra coisa interessante em Tarantino (me parece) é q seus filme são meio cartunesco, feito pra rir, distorcendo de propósito a plausibilidade –e, em Inglourious Basterds, até a veracidade histórica. É genial, por exemplo, filmar a história dum matador de nazistas, vingador de judeus, e terminar com uma judia matando Hitler dentro dum cinema: ou seja, o cinema de guerra é a vingança do judeu.

Tarantino brinca com a plausibilidade numa região contígua à Itchy & Scratchy. Olha esta seqüência genial de 10s, em q o rato põe duas bomba no lugar dos olho do gato, mas *mesmo assim* o gato enxerga:

http://www.youtube.com/watch?v=ZWy_7eHBLRE#t=86s

Pracimademoá disse...

Vi e não gostei. Acho de uma infantilidade sem fim. E nem você enxerga isso. Paciência...

Rafs disse...

Não achei o Itchy & Scratchy legal. Nem entendi a relação com o Tarantino.

Já do Tarantino gosto bastante. Especialmente, como disse o perma, por causa dos diálogos, que são muito bem feitos. E também por causa da violência exagerada.

Permafrost disse...

Demoá,
Acho Tarantino infantil tbm. Não tem nada de sério ali; é uma criança q brinca super bem, e fica brincando for the hell of it. Por isso frisei q seus filme são genial *como cinema*. Não dá pra tirar muita coisa deles além disso.

Rafs,
Vejo Tarantino na mesma área geral de Itchy & Scratchy: usar a violência pra brincar com a plausibilidade, costurar um enredo implausível ä base de porrada, humor e panache. O lance é q ele faz isso bem.

Camelo disse...

Caro Pracimademoá,
Os filmes do Tarantino brincam com a falta de realismo dos filmes populares. Falta de realismo que poucos percebem por estarem tão acostumados à "linguagem cinematográfica": barulho de explosões no espaço sideral; socos que jogam um sujeito a dois metros de distancia; longos discursos emotivos de um moribundo, etc.
O Tarantino parece gostar disso e se divertir com essa artificialidade. E seus filmes propositadamente levam essa artificialidade ao extremo, e com humor.
Tarantino é diversão garantida. É pra dar muita risada. A cena de "Kill Bill" onde a heroína escapa de ser enterrada viva e entra numa lanchonete é hilário:
http://www.youtube.com/watch?v=JnXi3SVJXbM

Pracimademoá disse...

Obrigado pela atenção individual. Mas para mim não é diversão garantida, é chatice garantida.

1) Não gosto de Tom & Jerry e Pica-Pau desde os 11 ou 12 anos. Gosto de alguns desenhos, mas de fórmula muito diferente.

2) Não gosto de violência, e parece que o Sr. Tarantino só sabe usar violência como matéria-prima. Se fosse uma vez ou outra, tudo bem, mas 90% do conteúdo dos filmes deles gira em torno da violência e do estilo-fodão-de-ser. Vocês estão dizendo aí que ele é um baluarte da comédia, mas tire a violência dos textos dele e veja o que sobra. Por que só reservar esse filtro aos vandammes e stallones?

Os diálogos longos acontecem sempre numa situação de crueldade para enfatizar a crueldade. A gente sabe que a pessoa vai morrer, mas antes tem que tolerar um diálogo longo e estapafúrdio que prolonga essa sensação "gostosa" de saber que a pessoa vai ser assassinada sem nenhuma lasca de piedade. O assunto estapafúrdio enfatiza o quanto o assassino tem sangue frio. É como quem diz "peraí que eu já te mato, deixa antes eu discutir essa bobagem aqui com a maior calma do mundo." É sadismo e exibicionismo.

Enfim, uma bosta.

Rafs disse...

Pracimademoá,

Vc descreveu aí Deathproof. Que eu achei mais ou menos. Ele tem outros bem melhores. Mas vc não gosta de violência, então nem perca tempo.

"tire a violência dos textos dele e veja o que sobra"
Verdade. Mas, pra quem gosta é ótimo.

isaboojum disse...

Eu ia falar o mesmo do Rafs: se não gosta de violência, não adianta. Pra quem gosta ou releva, é uma delícia. Eu amei Death Proof, e o Inglorious foi uma das melhores experiências que eu já vivi dentro de um cinema.

Permafrost disse...

Demoá,
Tampouco eu, sou fã de violência. Entre meus (poucos) filme favorito tão “The Prime of Miss Jean Brodie”, “Shakespeare in Love”, “Ridicule” e “Bem-vindo, Sr McDonald” (esse é japonês). Mas acho q dizer «tire a violência … e veja o q sobra» meio q misses the point. Claro, gosto é gosto.

Rafs,
Acho q o Demoá tava pensando na primeira cena de “Inglourious Basterds”. Já eu, acho magistral, o diálogo todo dessa parte –o diálogo em si, sua estrutura, idealização e verbalização.

Rafs disse...

Perma,

Eu também adoro os diálogo. Esse do Inglorious Basterds é sensacional. Mas, ao fazer o exercicio mental de tirar a violência exagerada, a ponto de ser cômica, dos filmes, não sei se eles se sustentariam tão bem. É muito fácil um filme com esse tipo de diálogo ficar pedante. Muito cheio de si mesmo. Por isso, acho que não. Mas isso não é uma crítica, já que adoro a violência nos filmes.

arbo disse...

ai, dotô
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/1215497-murundu-polissemico.shtml

arbo disse...

tou pra ver o django.
a primeira cena de bastardos inglórios é uma das mais memoráveis q já vi no cinema. é perfeita. q ator aquele waltz!

Rafs disse...

arbo,

Que exagero. E onde fica a diversão? A maior parte da nossa diversão vem de brincar com a lingua?... Como acabei de exemplificar =P

Permafrost disse...

Arbo,
Muito engraçado, o texto. Obrigado!

Rafs,
Tem gente q pensa daquele jeito mesmo, mas é claro q o autor tá de gozação.

arbo disse...

o autor tá tirando uma onda, tbm não me liguei de primeira. concordo contigo, Rafs.

Neanderthal disse...

Vou assistir: “Death Proof”, “The Prime of Miss Jean Brodie”, “Ridicule” e “Bem-vindo, Sr McDonald”.

Em relação ao Tarantino, vi "Pulp Fiction", "Inglorious Basterds", "Kill Bill" (I e II), "Cães de Aluguel" e "From Dusk to Dawn".

Pulp Fiction tem algumas cenas épicas, como quando chamam o "The Wolf" pra limpar a barra, ou a perseguição entre o Bruce Willis e o Chefe.

Kill Bill é um dos melhores filmes de Kung-Fu.

Dusk to Dawn é um filme de zumbis com uma cena interessante com a Salma Hayek no bar e outra na estrada.

Inglorious Basterds tem certos diálogos interessantes, destacando a tensão das várias situações. Palmas pro nazista.

Neanderthal disse...

Assisti ao Death Proof ontem. As cenas de perseguição são boas, praqueles que gostam de perseguições com carros anos 70 em ruas urbanas e estradas de terra - que é o meu caso.

A questão dos diálogos é que, apesar de certamente sui-generis, chegam a cansar um pouco. Prefiro alguns outros filmes dele.

Permafrost disse...

Derthal,
Muita gente certamente terá esse problema do diálogo “Death Proof”. Eu gostei pq, dez minutos depois do começo, vi q ele tava numas de reproduzir papo furado de grupos de moçoilas, e só fiquei vendo. Aí acontece aquela coisa, e muda tudo. Mas nas duas partes, é Tarantino dizendo “¿Até onde consigo levar isto?”

Neanderthal disse...

Não. Eu também desencanei, só que chegou uma hora que me empapuçou, principalmente na segunda parte.

Permafrost disse...

Vi “Django Unchained”. Filme mediano; tem UMA cena memorável: a da “criação” da KuKluxKlan. O resto é meio ãã… arroz-com-feijão.

arbo disse...

gostaria de saber o q o autor acha. gostei muito do texto.

http://www.revistaserrote.com.br/2013/01/como-viver-sem-ironia-por-christy-wampole/

Permafrost disse...

Arbo,
Li o artigo, mas comecei à achar q a tradução tava torta nalguns ponto, e aí achei o original em inglês, q tá aqui:

http://opinionator.blogs.nytimes.com/2012/11/17/how-to-live-without-irony/

Abaixo, os principal problema da tradução:
O = original
T = tradução
C = tradução correta

O. No attack can be set against it, as it has already conquered itself.
T. Nenhum ataque pode ser feito contra ela, pois ela própria já se mostrou vencida.
C. …pois ela já venceu à si mesma / já é dona de si

O. Our incapacity to deal with the things at hand
T. Nossa incapacidade de lidar com o que temos à mão
C. …com nossa experiência imediata / nosso entorno

O. certain digital filters to “pre-wash” photos
T. certos filtros digitais para deixar as fotos com um aspecto “apagado”
C. …pra "pré-desbotar" as foto

O. too brainlessly compliant
T. desmiolado demais e complacente demais
C. …complacente ao ponto da burrice

O. or, at minimum, a performance of such a competition
T. ou, pelo menos, um espetáculo dessa competição
C. …uma atuação / encenação…

O. economically or politically challenged places where seriousness is the governing state of mind
T. lugares econômica ou politicamente complicados, onde a seriedade é o estado de espírito governante
C. localidades econômica ou polìticamente problemática, onde o estado de espírito reinante / prevalente é a seriedade

O. the cultivation of sincerity, humility and self-effacement
T. o cultivo da sinceridade, da humildade e do autoapagamento
C. … da discrição / do recolhimento

O. It takes little effort to dust them away.
T. É preciso algum esforço para espaná-las.
C. …pouco esforço…

Como vê, não são problemas muUuito sério prä compreensão geral do artigo. Só pus aqui pq sou chato e metido.

Continua…

Permafrost disse...

Continuando:

Sobre o conteúdo, achei bem legal, embora um legal meio nova-iorquino neurótico preocupado com aparências, estilos, “mensagens” de vestuário &c. Não é minha praia. Mas… há a questão da ironia pós-moderna adentrando até o comportamento de certas pessoa. Qto à isso, acho q é mais um sintoma do q uma doença –e (digo de passagem) a autora parece ter uma idéia extremamente conservadora e pasteurizante do q *deveria* ser a postura padrão do humano: produtivo, inserido, contribuidor e, acima de tudo, caladinho em seu canto de trabalho.

Como sintoma, a ironia de tanta gente me parece reação direta contra a desumanização avassaladora da industrialização e militarização da sociedade, e da crescente pasteurização e humilhação do indivíduo, especialmente no âmbito urbano. Com tantas mudança contínua dos entorno urbano individual, o urbanita já não se sente *dono* do lugar onde mora e trabalha; a rua não é mais o entorno do lar q identifica a pessoa e q ela mesma modifica à seu gosto: é apenas o campo submisso e passivo onde se realizam as decisão espantosamente desmedida das empreiteira, das prefeitura &c. O mesmo acontece com outros espaço vital: o trabalho diário é entulhado de regras com desdobramentos nacional e global; a segurança física do indivíduo vive sob a dúbia proteção dum aparato bélico monstruoso e implacável; a produção cultural é institucionalizada e padronizada, distanciando-se do espectador através dum gigantismo impessoal; no Brasil, a própria língua é baixada em decreto e entuchada goela abaixo do povo q a deveria fomentar.

Então não é de admirar q o indivíduo saia pela tangente da ironia: si o outro não me leva à sério, não me vê como significante, então foda-se: não vou levá-lo à sério tampouco e vou boicotar os significado.

E daí vem minha principal objeção à muita coisa dita no artigo:

Nas consideração final duma análise sobre Emma (o romance-mor de Jane Austen), Malcom Bradbury diz isto: “We have been persuaded … to consider every human action as a crucial, committing act of self-definition.” (Fomos persuadido [pelo livro] … a ver toda ação humana como um crucial e engajado ato de auto-definição.) A autora do artigo não vê q a ironia é, tbm ela, um crucial e engajado ato de auto-definição; q o indivíduo tem –precisa ter, deve ter– total liberdade pra fazer o q bem entender de sua pessoa e –não cometendo nenhum crime, crueldade ou crassidão– pode dizer “foda-se” pra quem achar o contrário.

Rafs disse...

Perma,

Li o artigo e pensei: "a autora não enxerga mas tem uma enorme ironia no próprio texto dela". Só não consegui explicar essa ironia em palavras. Mas, agora já está colocado.

arbo disse...

Posso estar errado, mas não me parecem opiniões necessariamente excludentes, a do Rerma e a da autora. Ambos veem como sintoma. A autora não está dizendo: não sejam tão irônicos, ou pelo menos não é o foco, mas sim: entendam sua ironia, ela serve pra quê?
Sim, se é a única saída pra uns, acho q ninguém vai querer proibir qq coisa - nesse sentido, a autora é mais otimista, ela deve achar q há uma saída, q a gente não tá exatamente enroscado num macarrão de ironias... Achei-a menos "prescritiva" q tu, Perma. Mas vou reler, com teu ponto em mente.

Rafs disse...

arbo,

Acho o tom dela bem prescritivo, sim. Tá imbutido no texto -como o Perma mostrou- a visão dela de como as pessoas devem ser no dia-a-dia.

Claro que ela não quer proibir ninguém de ser daquele jeito, mas isso é porque ela sabe que nem é possível fazer isso. Pelo menos não hoje em dia.

Permafrost disse...

Rafs & Arbo,
Minha patroa acha q o tema é melhor entendido por quem nasceu uns 20 ano depois de mim. Ela gostou pacas do artigo, disse q é por aí mesmo, q é difícil alguém com mais de 30 anos entender a questão, e q peguei a coisa por um lado diferente do q a autora pretendeu.

Pode muito bem ser isso. Sei q eu mesmo sempre fui um ironista próximo ä definição dada por Richard Rorty:

http://en.wikipedia.org/wiki/Contingency,_irony,_and_solidarity#Part_II:_Ironism_and_Theory

O ironista –até mesmo na definição pressuposta no artigo– nega autoridade ä esfera pública sobre a privada; e é isso o q parece incomodar a autora: por descender do puritanismo zeuaense –q sonda e se imiscue em todos aspecto da vida no Zeuá–, ela vê a ironia como algo à evitar, pois o ironista parece demasiadamente volátil e oco. Ela acha q a esfera pública, a relativa padronização do indivíduo qdo em público, deveria ser a norma até mesmo qdo a pessoa se veste pra comprar leite na padaria. Mas… num mundo de SETE BILHÕES de pessoas, todas organizadinha em estados burocrático, capitalista e militarizado, ¿será q –fora do âmbito das pulsão animal e dos requisito básico da sociabilidade– será q há mesmo algo não-volátil e não-oco? O ironista pressuposto no artigo diz “Não há. E nesse mundo com sete bilhões de possíveis atitude e referência, com 5 mil anos de história, sou EU quem escolhe meu vestuário, meu vocabulário, meu grau de engajamento social e político, e meu grau de seriedade.” E essa talvez seja a última linha de defesa do animal-com-instinto-de-sobrevivência contra a impossibilidade de ser um indivíduo autônomo sob a pressão pasteurizante e padronizante do totalitarismo industrial, empresarial, militar, moral e cultural de hoje.

Neanderthal disse...

O outro dia estava ouvindo pelo rádio uma entrevista com o Mario Sérgio Cortella em que ele tratou de uma questão que meio que esbarra na visão do texto sobre hipsters.

Partindo de um ditado: "os ausentes nunca têm razão", ele abordou a atitude de pessoas apolíticas, que não querem se envolver, votam em branco ou nulo, porque não querem "se responsabilizar" pelas más escolhas de governantes, ou não defendem qualquer ponto de vista. Na sua opinião, essas pessoas, de certo modo estão fazendo uma escolha, estão sendo coniventes ao deixar os outros escolherem mal os governantes ou as políticas e acabam sendo coniventes com aquela parcela de pessoas que agem de maneira desonesta.

Pessoalmente, acho interessante observar como a nossa sociedade brasileira é relativamente bem mais conivente com a desonestidade e bastante intolerante com pessoas com algum senso crítico, que são vistos como "cri-cris". Para ilustrar: alguns anos atrás, quando o Detran de São Paulo ainda era lá em frente ao parque Ibirapuera, estava numa fila para pessoas físicas para renovar os documentos. Entretanto a fila não andava e ninguém parecia entender por que. Enquanto uma pessoa guardou meu lugar, fui lá na frente verificar a origem do problema e constatei que o atendente do Detran estava também recebendo envelopes de despachantes pela lateral da fila. Cada envelope continha um calhamaço de documentos que eram processados antes do próximo idiota da fila. Percebi que havia um outro guichê destinado apenas para despachantes e questionei o atendente sobre o recebimento de envelopes. Imediatamente percebi que todos me olhavam com uma certa censura, como quem diz: "lá vem esse cara aí arrumar confusão. Vai dar merda". Logo percebi um negão tipo armário 3x4, com perdão do estereótipo, que estava ficando ansioso na fila mais ou menos onde era o meu lugar original e o convenci a formar uma muralha nas laterais do nosso guichê, eu de um lado e ele do outro. Um monte de despachantes tentaram furar o bloqueio e ficaram meio nervosinhos, mas não deixamos. O negão era bem intimidador. De repente a fila andou que era uma beleza e em 15 minutos todos tinham finalizado essa etapa. O meu ponto é que essa patifaria deveria acontecer todo dia e, provavelmente, raramente alguém faria qualquer coisa para impedir. Por que? Por que isso não aconteceria por exemplo nos EUA? Lá não tem malandros, ou são eles que não incentivam a malandragem? Não vou dizer aqui que gosto de tudo relacionado com os anglo-saxões ou à sua ética protestante, nem podemos afirmar que a sua sociedade seja livre de malandros, mas o fato de eles terem mais senso crítico tem lá as suas vantagens. Não que isso vá mudar por causa de uma onda hipster, mas dá pra entender um pouco das razões que motivam a crítica.

O assunto me lembrou um pouco daquele filme "O Grande Lebowski", uma comédia dos irmão Coen, na qual os nihilistas urinam sobre o tapete do Lebowski errado, ou "The Dude", um quase hipster, ou melhor, um sobrevivente hippy do tipo anos 70. Ele fica um pouco chateado, mas não iria fazer nada a respeito até ser convencido por insistência do seu amigo de boliche Walter que odeia qualquer tipo de infringimento às regras de conduta.

Rafs disse...

Perma,

Eu tenho 26 anos e concordo com o que vc disse. Qual a visão da sua patroa sobre isso?

Nunca pensei em mim mesmo como um ironista. Na verdade nunca tinha pensado em ironia por esse ângulo. Li a descrição de Rorty e não consegui definir se sou ironista ou não pela concepção dele. Na condição (1) sei que me encaixo.

arbo disse...

Eu sou um admirador de ironistas, não é à toa q volto sempre aqui. É, ou quase é, um filtro através do qual eu vejo a vida. Contradição e humor, não é?
Agora, Perma: se a ironia pode ser entendida como uma espécie de "atitude", a autora, e agora eu, não negamos a sua força e valor (pelo contrário), só cuidamos pra ela não se perder no vácuo. Taí: a ironia não é visível no vácuo... e se perde. É uma hipótese. Estritamente, a ironia pela ironia não é viável. É como se precisasse de um anteparo (palavra inapropriada talvez), afinal a linguagem não funciona sem interlocutores (funciona?), ainda q seja tu falando contigo mesmo. Digo, o nonsense taí, dando sopa pra ser pescado por ironias: elas o pescam e ele passa a fazer um pouco de sentido, mesmo que dentro de um jogo meio absurdo.
Estou viajando aqui, me desculpem, mas o que o texto condena é o mergulho no absurdo. Achar-se o rei da ironia, ou a ironia encarnada e ir buscar o "peixe" com as próprias mãos.
Tua esposa pode estar certa, Perma. Tenho 29 e percebo essa ânsia diariamente, mesmo em mim.

MI disse...

O QT é descaradamente influenciado pelo cinema B australiano, mais precisamente pelas produções dos anos 70 e 80. Pesquisem sobre essas películas e verão. Ou inverno, quem sabe.

Permafrost disse...

MI,
Interessante. Achei isto agora:

http://www.couriermail.com.au/news/celebrating-oz-film-history/story-e6freon6-1111117315205

Tem vários título de filmes australiano q talvez dê pra achar no YouTube.

Pracimademoá disse...

Taí mais um elemento que reforça a minha teoria, a de que todo o barato e curtição do filmes de Tarantino é apenas e somente somado a mais nada que o prazer besta de pagar de fodão. Tudo é violento e fodão para tudo posar de fodão, inclusive os fãs, que parecem ser todos imaturos, infantis.

Isso é típico de australiano, mostrar que é durão. Vide, por exemplo, Mad Max e como ele é LOUCO, MUITO LOUCO, CARALHOMEU, OS CARAS NÃO TÊM MEDO DE NADA, ELES SÃO MUITO FODA VÉIO, só que o australiano faz isso com um certo charme, uma certa malemolência que agrada até os brasileiros, o que os gringos chamam de "laid back" (ex. Crocodilo Dundee). Tarantino, que queria ser negro, faz sem esse charme, investe mais na grossura típica dos negros americanos.

Enfim, uma bosta.

Pracimademoá disse...

Já que estou aqui (de novo neste tópico), acrescento que gostei bastante do texto compartilhado pelo colega arbo. Gostei pela minúcia e atenção do assunto delicado.

Também gostei da análise romântica do Permafrost, sobre como o hipster usa a ironia para se defender da desumanização. Achei bonito, inspirado, sensível, mas equivocado.

Eu acho que o hispter pertence a uma geração boboca, infantilizada. Fui jovem e ouvi música jovem, e usei roupas e cabelo esquisito. Mas isso foi até uns 18 anos no máximo. Eu e, que me lembre, todos os jovens da minha idade. A maioria virou adulto logo, foi trabalhar, casou, teve filhos etc. Se foi feliz não importa, importa é que cresceram em vez de ficar adiando feito Peter Pan.

Tempos depois, identifiquei nas ruas uma geração nova e muito estranha. Vi rapazes e até meninas se reunindo em bancas de jornal para comprar gibis de super-herói... desculpe, GRAPHIC NOVELS e figurinhas de Magic e RPG. Rapazes de 18, 20, até 30 anos. Tinha até alguns com quase 40. É essa geração que hoje lota os cinemas para levar o Batman a sério. Imagine, levar o Batman a sério!

Na minha geração, qualquer marmanjo de 16 anos que lesse gibi de super-herói e colecionasse figurinhas seria tratado com desprezo. Eu nunca soube de nenhum. Se houve, escondeu bem a perversão e fez bem em esconder.

O hipster é um meninão moderninho sem os pais severos e repressores dos anos 50, sem o idealismo transcendental, ingênuo e sonhador dos anos 60, sem o culhão dos combatentes da ditadura militar dos anos 70 e sem as pretensões vaidosas capitalistas dos anos 80. O hipster não tem agenda, qualquer problema que ele tiver, o iPhone resolve. There is an app for that. O hipster só quer vestir roupinhas engraçadas para ouvir música do Air ou do Of Montreal, OU curtir entretenimento violento para pagar de fodão e esconder o quanto é frágil por dentro. O hipster é de uma geração sem causa, sem objetivo e sem personalidade.

Basta ver a produção cultural de hoje. Como fomos de Jerry Lee Lewis, Led Zeppelin e Ramones para Rihanna, Coldplay e Arctic Monkeys? E quando foi que teve tanto filme de super-herói no cinema? Como ignorar o mergulho vertiginoso da linha que representaria o nível de qualidade da produção artística e cultural dos últimos cem anos? Qualquer filme da década de 30 ou 40 é melhor que as porcarias que se fazem hoje.

Eu sempre quis NÃO ser o velho chato que repudia os jovens e diz que "minha geração era melhor", e gosto de conversar com os jovens ao vivo e pela Internet, mas porra, caralho, como é difícil encontrar algum que não tenha idade mental de 12 anos.

Onde que o Tarantino entra nisso, é que ele é uma das figuras principais dessa merda toda, é claro.

MI disse...

@ Pracimademoá

Bom, eu me amarro em vídeo game, sempre gostei; tive o primeiro console lançado no Brasil (presente de papai), hoje continuo jogando no meu ótimo laptop e pretendo investir pesado num super desktop daqui a uns meses. Gosto de brinquedos também, além de fazer parte da comunidade "Ilha do Tabuleiro". Tenho um moleque de 21 anos, com quem discuto horas sobre games e afins. Não consigo imaginar meu mundo sem isso tudo e, pasme, não sou débil mental.
Concordo que a cultura da moçada anda sofrível, mas pelamordedeus, tire o peso das costas do Batman, vai.

Permafrost disse...

Demoá e MI,
Minha patroa diz q não peguei o texto sobre ironia pelo lado q a autora pretendeu. Si entendi bem o q ela (patroa) quis dizer, a questão colocada ali é, resumindo, a falta de seriedade com q a geração ali retratada reage. Tudo é motivo de piada, tudo é passível de citação irônica; aliás, tudo vira citação, reciclagem cômica, exagero, inversão, ruído. Não sei si tem à ver com o q vcs dois tão falando. Consultar-me-ei melhor com ela.

Mas tbm, né, foda-se.*
___________
*comentário típico da gerônica

Pracimademoá disse...

Pois, acho que não fui claro, e quis dizer que essa geração dos hipsters ironiza tudo como forma de defesa, para esconder o quanto são rasos de cultura e pensamento.

Mas oxe, por que sua senhora não entra aqui e posta ela mesmo? Tá esnobando a gente?

Permafrost disse...

Demoá,
A patroa, com sua característica expressividade, disse não ter “energia” pra escrever sobre isso, mas q fiz um bom resumo. Eu devia andar com um gravador permanentemente ligado pra registrar e transcrever tudo q ela diz, viu; acho q a humanidade avançaria.

Ela, apesar de concordar com vc em vosso desprezo abismal por fodões em filmes e por filmes sobre fodões, acha os tarantino divertido pq são pra ser meio desenho animado mesmo. Aliás, pouquíssimos personagem tarantino têm história, explicações psicanalítica, complexidades psicológica &c: são descrito por suas ação, não por suas psicologia. Note q vc quase *jamais* vê uma criança num tarantino, nem entre os figurante: não há trauma, só ação. Observe tbm, por exemplo, a DETESTÁVEL canalhice q Tim Burton fez com Charlie and the Chocolate Factory, tentando *explicar* as motivação de Willy Wonka.

O psicologismo puritanista zeuaense é quase exatamente o inverso da ironia: NADA tá à salvo de sua vomitiva seriedade explicatória. De certa forma, o q os ironista tão fazendo é uma tentativa de fugir dessa sanha psicologizante e política: “Cacilda. ¿Ninguém mais tem sossego nesta pocilga?”

Pracimademoá disse...

Acho interessante a teoria do saco cheio e rejeição à explicação, mas... Continua no ar a dúvida: esse pessoal apela pras ironias porque tem saco cheio de seriedade ou porque sabe que não tem competência para tratar o mundo com seriedade? Sempre me pareceu a segunda hipótese. Jamais saberemos?

O filme do Tim Burton eu não vi. Só vi o primeiro, que passou 29 vezes na Sessão da Tarde. Mas acho que li em algum lugar que o Tim Burton foi mais fiel ao livro, o primeiro filme que varreu algumas coisas pra baixo do tapete. Não sei, porque não li o livro.

Mas tudo isso junto, (psicologismo contumaz + fingimentos + fábrica de chocolate + Tarantino + fodões + Batman) me lembra uma teoria que desenvolvi há anos e daria uma boa discussão. Um dia eu conto, estou sem energia para escrever. :-P

Permafrost disse...

Ô, Demoá, pô, energiza aê.

arbo disse...

O q a patroa comentou, perma, se foi o q li nos teus termos: é bem por aí. e o q o demoá complementa tbm serve (tbm me parece a segunda hipótese, demoá). No particular ao Tarantino é q talvez eu discorde: não q ele subverta essa superficialização da ironia - quiçá seja até o contrário. mas eu acho q ele faz isso conscientemente, e com graça. desgraça melhor com graça neh.
escreve tua teoria aí!
[aliás, tem uma do doutor q espero desenrolares há anos. aquela história da importãncia da hipocrisia e não sei mais o quê no desenvolvimento humano... parecia-me algo riquíssimo de se levar adiante]

MI disse...

A possibilidade de tudo ser completamente ao acaso passa por vossas cabeças, certo? Tipo QT ou TB ou qq um vai lá, faz um filme, caga e anda pra qq mensagem ou pré-pós análise e daí vem um monte de seres cuja cabeça pensante poderia ser comparada ao tráfego na hora do rush de SP + Cidade do México e, se marcar, aumentam gigantescamente a conta e o ego dos moços. Ou, caso metam o pau, apenas aumentam a conta. Um gato no preto no telhado é, na grande maioria das vezes, um animal de pelagem escura caminhando sobre a parte da residência que tem como serventia proteger os moradores da chuva ou sol ardente.

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