17 maio 2012

O argumento cosmo-ilógico (1)

Vodzêumacoizprocêis, viu. Nosso emérito doutor jamais se mete nas crença alheia. ¿Quer crer q Cristo cria coisas? Creia. ¿Quer crer q cruzes curam câncer? Creia. É reconfortante saber q a grande maioria das pessoa acha necessário crer em forças maior pra "não sair por aí roubando, mantando e estuprando". É tbm ótimo saber q pessoas doutromodo inconsolável e inanimável encontram consolo e ânimo nas crença. É tbm ótimo saber q muita gente mantém vivos o passatempo de pesquisar sobre tradições antiga, e sua interessante historiografia historychannel. O doutor tem vários amigo crente q são pessoas excelente, e muito se orgulha deles.

Mas qdo uma crença quer dar uma de lógica, de ciência ou de política, o doutor já começa à arreganhar os dente do gargalho.

Por influência dos evangélico euaense, recentemente virou moda falar dum tal de Argumento Cosmológico de Kalam (ACK), usado principalmente por um tal de William Lane Craig pra ãã "provar" pela lógica a veracidade do conceito de Deus. O argumento tá na forma dum silogismo seguido por um aparte do WLCraig:
1. Tudo q começa à existir tem uma causa pra sua existência.
2. O Universo começou à existir.
3. Logo, o Universo tem uma causa pra sua existência.

WLC: Essa causa só pode ser não-causada, eterna, imutável, atemporal e imaterial. Além disso, ela deve ser um agente pessoal q livremente escolhe ciar um efeito no Tempo. Portanto, seguindo o Argumento Cosmológico de Kalam, concluo q é racional crer q Deus existe.
Olha, é difícil não rir da simploriedade do cara. Mas em respeito ao enorme esforço q ele fez pra chegar até aí, suspendamos o gargalho e passemos à apenas refutar usando ãã… a lógica.

Vamos usar só noções q tão pressuposta como premissas tácita tanto no ACK qto na mente de quem o defende. Não vamos entrar muito longe nas possibilidade conceitual q a Física inspira, até mesmo pq o ACK já se desmorona dentro do âmbito lógico q ele mesmo pressupõe; então nem é preciso sair desse âmbito.

Há várias refutação válida, fàcilmente localizável na internet. O Dr Plausível, como de costume, é um pouco mais picuinhento. Ele refuta palavra por palavra (não na ordem em q aparecem).

PALAVRA 1: 'EXISTIR'
A existência é notòriamente difícil de definir com precisão. Então, só demonstremos como o ACK-segundo-WLCraig utiliza três noção diferente de existência e as equivoca pra dar uma impressão de silogismo. Dentro do q se sabe hoje, o conceito de existência tem três noção semântica: 1.1 no nível sub-atômico, 1.2 no nível de objetos perceptível pelo humano, e 1.3 no nível do Universo. O ACK usa duas dessa, mais 1.4 uma noção espúria.

Pra entender as diferença entre os três nível, é interessante pensar na existência como oposto ä inexistência.

Comecemos pelo nível 2 –o nível imediato ao humano. Notem q um objeto comum, digamos, este copo na mesa, é composto de algo: átomos, plasmas, não importa; o q importa aqui é q a existência deste copo implica necessàriamente (neste Universo) na INexistência SIMULTÂNEA dum número (talvez) infinito de objetos composto com as mesmíssima parte (átomos ou sei-lá-o-quê) q compõem AGORA este copo. Essas parte já compuseram outros objeto, e comporão outros no futuro. Agora, formam um copo. A existência do copo como objeto presente foi causada sobre essas parte no passado de modo à criar o copo. Do mesmo modo, vc existe, e tua existência agora implica na inexistência simultânea de milhares de frangos e tomates q ajudaram à causar e compor tua existência até agora, e implica tbm na inexistência simultânea de outras pessoa ou num número infinito de outros objeto usando as mesma parte q compõem vc. Similarmente, a existência duma idéia no cérebro é uma configuração peculiar de sinapses q implica necessàriamente na inexistência simultânea de outras idéia usando as mesma sinapse.

A existência no nível sub-atômico (nível 1) é bem mais biruta, e nem precisa entrar muito nisso pois o ACK nem sequer se dá conta dele. Basta com dizer q no nível quântico algumas partícula podem tar em dois ou mais lugar ao mesmo tempo: ou seja, num dado momento, essas partícula simultâneamente existem e não existem num dado lugar; sua existência ou INexistência ali não advém duma causa, mas duma probabilidade.

Já a existência do Universo (nivel 3) é outro papo totalmente. A existência do Universo –tal como visto pelo ACK– não só (trivialmente) implica na inexistência simultânea de outros Universo feito com as mesmíssima parte dele, mas implica tbm na inexistência passada ou futura de qqer outro Universo com as mesma parte, exceto este. Si o Universo contém TODAS parte e TODOS evento possível, então ele não se TORNA outra coisa com o tempo; ele é SEMPRE o Universo. O conjunto de todas parte deste Universo SÓ PODE SER *ESTE* Universo. (Parece meio primário, em vista do q a Física dá margem à imaginar; mas lembremos q tamos usando as noção de Universo implícita em premissas tácita do ACK e na mente de quem o defende)

Agora voltem pro ACK e notem como aparecem as diferente noção de existência. Na primeira premissa, a noção é claramente a do nível 2. O ACK se baseia no q é auto-evidente, numa tautologia lógica, algo q se verifica por indução, pela experiência. Mas o q é auto-evidente pro humano só pode ser no nível 2. Qdo o ACK diz "Tudo q começa à existir", esse 'tudo' se refere à "todos objeto", à objetos auto-evidente, pra então poder chegar à uma conclusão não-auto-evidente (q é o objetivo dum silogismo).

MAS… na segunda premissa, aparece o Universo. Tal como vimos, a noção de existência do Universo, no nível 3, não é uma noção análoga ä noção no nível 2. Um copo existir, uma idéia existir, não SIGNIFICA a mesma coisa q o Universo existir. Só isso já invalida o ACK por completo como silogismo; ele NÃO É um silogismo pq o termo q aparece na segunda premissa (existir.3) não é o mesmo termo q aparece na primeira (existir.2).

Esse problema no ACK é um exemplo de como o silogismo, como ferramenta lógica, só funciona si for mantido no mesmo nível, e só funciona BEM no nível 2 –o nível do auto-evidente– e mesmo assim, contanto q haja rigor semântico.

Aí, aparece o tronho do WLCraig –um "filósofo" q usa rigor pra se vestir e enunciar palavras, mas o esquece na hora de raciocinar– introduzindo uma noção de existência 4 –q não é nem 1, nem 2, nem 3. Ele postula (do nada, ie, sem fazer parte do "silogismo" prévio), a "existência" dum X cuja INexistência implica até mesmo na IMpossibilidade de QUALQUER Universo existir. Essa quarta noção de existência (existir.4) não tem nenhuma propriedade semântica deduzível ou induzível à partir das três outra noção, e tampouco compartilha com elas qqer propriedade semântica. (Notem q a inexistência do copo NÃO implica na inexistência simultânea q qqer outro objeto com as mesma parte, e q a inexistência deste Universo tampouco implica na inexistência de qqer objeto agora contido nele, porém noutro Universo.) 'Existir.4' é só uma palavra q flutua no ar sem poder se atracar à nenhuma outra noção exceto à noções sobrenatural; e o caso especial 'Deus' TAMPOUCO se atraca à nenhuma outra palavra exceto 'existir' nesse quarto sentido.

'Deus' e 'existir.4' são duas noção q se alimentam mùtua e exclusivamente uma da outra.

O ACK já começa à mostrar a cara oculta: uma descomunal babaquice hipoplausibilética.

Próxima palavra: 'causa'.

21 comentários:

Neanderthal disse...

OK, tive que pensar um pouco no assunto.

Vejo o maior non-sequitur da teoria no seu corolário: WLC: "essa causa só pode ser não-causada, eterna, imutável, atemporal e imaterial. Além disso, ela deve ser um agente pessoal que livremente escolhe ciar um efeito no tempo". Me parece que contém conclusões não embasadas nas premissas anteriores.

Permafrost disse...

Derthal,
Exatamente. O ACK-Craig tem uma estrutura lógica análoga à este "silogismo":

P1: Andar faz bem ä saúde.
P2: Ontem, andei de avião.
C: Portanto, meu carro anda bem.

Camelo disse...

A grande falha do Argumento Cosmológico de Kalam já começa na primeira premissa: "Tudo que começa a existir tem uma causa para sua existência".
Essa afirmação poderia ter alguma validade se fosse dita até o começo do século XX, antes do advento da Física Moderna, quando ainda não se conhecia em detalhes as esquisitices do mundo subatômico (nível 1).
Mesmo levando em consideração apenas objetos pertencentes ao mundo macroscópico (nível 2), um físico de hoje (profissional e sério) jamais afirmaria categoricamente que "TUDO que começa a existir tem uma causa". Ele apenas nos daria um número: a probabilidade de um evento macroscópico ocorrer sem que uma causa estivesse ligada a esse evento. E embora esse número seja extremamente pequeno (praticamente zero), ele não é absolutamente zero.
Logo, a primeira premissa teria que ser escrita de outra forma:

1. É extremamente improvável que um evento macroscópico ocorra sem uma causa.

Agora dá para perceber claramente do que se trata a primeira premissa.

A segunda premissa "o universo começou a existir" se refere ao mundo subatômico, às forças e leis que regem partículas na Dimensão de Plank (nível 1). Neste nível, a probabilidade de um evento ocorrer sem estar ligado a uma causa é muito alta. Eu não teria lugar aqui para explicar como isso acontece, mas se alguém estiver interessado nesse assunto, leia o livro do físico teórico Lawrence M. Krauss "A Universe from Nothing".
Assim, podemos escrever a segunda premissa dessa forma:

2. A probabilidade de um universo ocorrer sem uma causa é alta.

Embora essa segunda premissa seja apenas uma especulação (como é o livro de Lawrence Krauss), ela está fundamentada em teorias científicas muito bem conhecidas. E é perfeitamente válido levantarmos essa hipótese tendo como base as evidências que temos para a origem do Universo e o tanto que já conhecemos sobre as leis da física.

Assim, as duas premissas poderiam ser escritas de uma outra forma, considerando todo o conhecimento científico atual:

1. É extremamente improvável que um evento macroscópico (nível 2) ocorra sem uma causa (fato).
2. A probabilidade de um universo ocorrer (nível 1) sem uma causa é alta (hipótese).

Quando escrevemos o argumento de uma forma condizente com o que sabemos da Física atual, é fácil perceber que não existe nenhuma conclusão a ser tirada dessas duas premissas.
O Argumento Cosmológico de Kalam falha em dois aspectos: 1. as duas premissas tratam de observações de dois tipos distintos de fenômenos (fenômenos no mundo macroscópico e no mundo subatômico); 2. as duas premissas ignoram o conhecimento científico atual sobre causalidade.

Criar argumentos lógicos é muito fácil, quando tomamos as premissas como perfeitamente verdadeiras. Acontece que as premissas sempre são formas absurdamente simplificadas de descrever a realidade. Para ilustrar esse meu ponto de vista, vou criar meu próprio "argumento inabalável" para a inexistência de deus:

1. Tudo que não pode ser detectado não existe.
2. Deus não pode ser detectado.
3. Logo, Deus não existe.

Permafrost disse...

Camelo,
Publiquei essa refutação numa comunidade "anti-ateísta". Por isso, nem entrei em noções de física. Tua refutação tá perfeitamente correta, claro, mas entra em suposições q vêm de fora do âmbito do "silogismo" proposto. Quis demonstrar q, só mantendo-se dentro da concepção de Universo implícita no ACK-Craig, já é possível refutá-lo inteiramente. A reação ali foi engraçadíssima: o consenso foi q pràticamente "copiei e colei" um argumento no "God Delusion" do Dawkins (aliás, pra esse pessoal, ele é quase o diabo encarnado). Por aí, já se vê o nível. HAHAHAHAHAHAHA Gente burra é fogo, mas qdo tbm desonesta é o inferno. Tou até agora esperando algum mais inteligentinho achar um problema em minha refutação. Certamente tão achando q a refutação nega "existir" um criador do Universo; não percebem q ela apenas diz q o "silogismo" ACK-Craig fracassa em demonstrar pela lógica q ele "existe".

O cerne da refutação se baseia no fato de q äs vez a gente nem percebe qdo usa a mesma palavra em sentidos diferente; e Kalam, Aquino e Craig foram particularmente tontos nesse aspecto.

Neanderthal disse...

Sei lá, não vejo problema em afirmar que o universo teve uma "causa", do ponto de vista causa-efeito. Ao contrário do Camelo, acho provável que algo ou uma série de eventos realmente tenham causado a existência do universo; só acho difícil tentar atribuir algum tipo de "vontade" a essa causa. Para mim, trata-se de uma causa que poderia ser chamada de "natural".

Permafrost disse...

Derthal,
Há um grave problema conceitual em falar de "causa" do Universo. Mais sobre isso na segunda parte –q sei lá qdo vou ter saco de escrever.

Mas o q o Camelo diz é q, embora não haja problema em crer q o Universo teve uma causa, não é *necessàriamente* verdade (o Universo pode ser permanente, ou ser um loop com variações); portanto, essa não deveria ser uma das premissa dum silogismo. A conclusão dum silogismo tem q ser forçosa; pra isso, as premissa têm q ser necessàriamente verdadeira e completa.

Claro q vc conhece o famoso silogismo:

P1: Todo homem é mortal.
P2: Sócrates é um homem.
C: Logo, Sócrates é mortal.

É um silogismo perfeito pq as premissa são necessàriamente verdadeira e completa, e a conclusão é forçosa. Além disso, a semântica de todos termo do silogismo (homem, mortal, Sócrates) não se altera em nenhum passo.

camelo disse...

Neanderthal,
Se vc afirmar que algo causou o Universo, então vc também terá que explicar o que causou esse algo, e assim por diante num regresso ao infinito.
Acontece que na Física encontramos um fenômeno interessante (previsto pela teoria e observado em colisores de partículas) que poderíamos chamar de "nada" (que elimina esse regresso ao infinito e explica satisfatoriamente como algo pode vir a existir sem que alguma outra coisa o tenha causado).
Aquilo que chamamos de "absolutamente nada" (uma certa quantidade de espaço desprovido de qualquer tipo de partícula ou radiação) é previsto e observado como algo extremamente instável (o que os físicos chamam de "flutuação quântica"). Essa instabilidade intrínseca do nada pode espontaneamente fazer que um universo surja sem que qualquer tipo de energia extra esteja em jogo: isto é, no fim das contas a energia total do Universo é zero (the Universe is the ultimate free lunch).

Muita gente acha no mínimo estranho que os físicos digam que o nada tem propriedades físicas, pois se o nada tem propriedades ele não é exatamente "O Nada".
Acontece que esse "Nada" (sem propriedades físicas) não existe, não é um fenômeno observável, é apenas elucubração sem sentido. Digo "sem sentido" porque algo que não tenha as propriedades do espaço-tempo não pertence ao mundo real, pertence ao mundo imaginário.
O nada observável tem propriedades físicas, e podemos dizer que é o único "nada" que conhecemos.

Dessa forma, hoje já é possível postular uma hipótese (muito bem fundamentada nos conhecimentos da Física) para a origem do Universo sem que uma causa esteja em jogo, evitando assim o regresso ao infinito.
-------------

Permafrost,
Existem duas formas de vc manter sua religiosidade intacta nos dias de hoje: 1. isolamento intelectual; 2. desonestidade intelectual.

1. esse isolamento intelectual pode ser observado em muitas comunidades religiosas: os fiéis são aconselhados a evitar qualquer tipo de livro ou mídia que não seja de procedência religiosa; muitas famílias (americanas) preferem o "home schooling" para evitar que seus filhos entrem em contato com "idéias perigosas" à fé; muitas famílias evitam por completo o contato social com "pessoas sem fé" temendo que elas possam desencaminhá-las para o mal; muitos religiosos propagam a idéia de que o diabo é perspicaz e inteligente, e de que ele se utiliza da razão e da lógica para enganar os fiéis. E assim por diante.

2. a desonestidade intelectual é uma forma de manter a fé. Muitas pessoas (não somente os religiosos) pouco se importam se uma coisa é verdadeira ou não. Procurar uma verdade é algo que dá muito trabalho, e por isso é melhor defender o que vc já acredita a todo custo, mesmo que para isso vc tenha que ser desonesto (até consigo mesmo).
Percebo (nos blogs que frequento) uma necessidade enorme de defender e "ganhar o argumento" de seu opositor, mesmo que para isso vc tenha que apelar para os recursos mais ridículos e disparatados que existam.
Tentar argumentar com uma pessoa desse tipo é algo muito frustrante e normalmente não leva a nada.

Os religiosos tendem a gostar de coisas absolutas e simplistas. Talvez seja por isso que eles gostem dessas simplificações lógicas: duas frases e uma conclusão, ... e tudo está resolvido, provado e explicado.
Outra coisa típica dos religiosos é não estar consciente da complexidade semântica de sua própria língua. Um exemplo disso é o uso da palavra "teoria" pelos religiosos: "a teoria da evolução das espécies não é um fato, é apenas uma teoria". Se eles já se embananam com isso, imagina então conceitos mais complexos como "entropia" e "existência".

Neanderthal disse...

Interessante esse argumento de que a teoria da evolução é apenas uma teoria. A religião então é o que? Está muito longe de ser uma teoria.

Rafs disse...

Derthal,

Tudo em ciência é teoria, hipótese ou postulado. A teoria da evolução é "forte" porque tem muita evidência embasando-a.

Religião também pode conter teorias (o que de fato acontece), o problema é achar evidências que embasem-as. As evidência mostradas nesses casos ou são pura viagem na maionese ou deixam abertas múltiplas possíveis explicações.

Mas, digamos que o que hoje chamamos de sobrenatural realmente existisse, e decobríssemos como avaliar esses fenômenos. Alguém criaria uma teoria, a gente a testaria e se ela fosse "boa", passaríamos a trabalhar com ela.

Isso soa monótono pq é basicamente a história da humanidade.

De maneira simplificada, a diferença básica entre ciência e religião é o rigor com que as hipóteses, os postulados e as teorias são tratados.

E nem vale falar em dogma, já que teorias científicas tb se tornam dogmáticas com o passar do tempo.

Profundíssimamente hipocondríaco disse...

"Deus" é um problema semântico. Antes de se usar tal palavra num argumento, é preciso defini-la, através da pergunta correta. Há duas formas de fazê-la: ¿O QUE é "Deus"? e ¿QUEM é "Deus"?

A primeira abrange todas as concepções de "Deus": teísta ["Deus" como pessoa(s) criadora, mantenedora e interventora do Universo], panteísta ("Deus" como a própria natureza e o Universo) e deísta (pra mim, obscuro). A segunda restringe o termo ao teísmo, e talvez ao deísmo.

O panteísmo me parece o de mais fácil refutação. Se uma árvore é chamada de "árvore", uma galáxia é chamada de "galáxia", por que raios essa periquitice rococó de chamar o Universo de "Deus", e não simplesmente de "Universo"?

No caso do teísmo, ia escrever sobre as contradições e afirmações errôneas dos livros considerados como "palavra de Deus", mas seria como chutar cadáver: há diversas fontes que tratam de tais contradições e afirmações de modo muito mais brilhante do que eu faria. Só digo que ligar uma causa para o Universo a um Deus que atende preces/orações invocando sua "palavra" seria como ligar o prêmio da última mega-sena à morte de uma estrela numa galáxia longínqua.

Fatalmente o teólogo apelará para os “mistérios divinos”, feitos para “testar a fé”. Pronto, é usar esse argumento e enterrar toda a lógica, da maneira mais cômoda possível. Ora, se é um “mistério”, chamá-lo de "divino" e invocar toda a verborragia teológica para explicá-la é apelar para o argumento da ignorância. O astrofísico Neil deGrasse trata disso de forma interessante nesse vídeo (a questão é sobre OVNIs mas se encaixa perfeitamente no conceito da divindade): http://www.youtube.com/watch?v=u6UEgGhn6HQ

Panteísmo e teísmo vão, assim, para a lata do lixo.

No caso do deísmo, que não aceita nenhuma revelação divina, aparentemente o problema se resume à "causa incausada".

Outra palavra que precisa de explicação semântica é "inteligência". Tal termo está indissociadamente ligado à uma característica humana, antropomórfica, que, como se sabe, apareceu muitíssimo tardiamente no Universo. Ou, numa escala maior, uma característica animal (pois somos animais): uma pessoa, um cão e uma formiga possuem diferentes níveis do que denominamos "inteligência". Porém não se diz que a força da gravidade é inteligente, ou uma molécula é inteligente. Assim, "inteligência" está associada a um cérebro, e dizer que há "uma inteligência criadora" ou "uma inteligência que conduz" é falar de uma característica animal, implicitamente humana, pois somos nós que a definimos.

Neanderthal disse...

Profundíssimamente,

Corrigindo: "apareceu muitíssimo tardiamente no Planeta". Não abemos se apareceu há alguns milhões de anos em algum outro lugar do universo.

Eu definiria inteligência através da capacidade de processar informações. Entretanto, não sei exatamente onde seria a linha de corte dessa regra. Poderíamos aceitar, por exemplo, a capacidade de uma bactéria de interagir com o ambiente como processamento de informações? Mas isso não soa como inteligência. Talvez já exista uma escala de inteligência com base nisso.

Profundíssimamente hipocondríaco disse...

Neanderthal,

correto, nosso planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos e o Universo tem, até onde se sabe, cerca de 14 bilhões de anos, então é possível vários outros sistemas solares terem se formado antes do nosso.

Estritamente falando, sua definição parece correta. Segundo o pai-dos-curiosos, "inteligência" é (edição minha) "Faculdade de entender, pensar, raciocinar e interpretar. Capacidade de resolver situações novas com rapidez e êxito (medido na execução de tarefas que envolvam apreensão de relações abstratas) e, bem assim, de aprender, para que essas situações possam ser bem resolvidas."

Pode-se aplicar o conceito a plantas (tendo o cuidado de não antropomorfizá-lo, como é nossa tendência fazer) - artigo interessante a respeito: http://www.viewzone.com/plants.html

Há um método mensurável de inteligência, chamado de psicometria, mas só se aplicou por enquanto, até onde sei, em humanos. Talvez no futuro possamos medir a inteligência de uma formiga, uma planta ou mesmo de uma bactéria ou vírus.

Voltando ao conceito de "Deus", a maioria esmagadora das pessoas o tem como um ser antropomórfico, pessoal, resquício do totem primitivo, que atende orações. Pra mim, é um conceito tão egocêntrico quanto achar que estamos no centro do Universo. Será que já não deveríamos ter superado isso?

Rafs disse...

"Será que já não deveríamos ter superado isso?"

a) Sim
b) Não
c) A pergunta foi mal formulada.

Resposta: (a) e (c)

Rafs disse...

ops

Resposta: (b) e (c).

Profundíssimamente hipocondríaco disse...

Rafs,

¿por quê (b)? E ¿como a pergunta deveria ser formulada?

Sua resposta é (propositalmente ou não) paradoxal, pois: se a pergunta foi mal formulada (c), ela não admite ao mesmo tempo uma resposta bem formulada (b). Re-reformule sua resposta.

Rafs disse...

Profundíssimamente,

Foi proposital.

O problema da pergunta é que sequer faz sentido fazê-la.

"Será que já não deveríamos ter superado isso?"

Como assim já deveríamos ter superado isso? Falando assim parece que abandonar esse hábito tão enraigado na nossa "humanidade" é uma obrigação, um dever.

Não existe manual de como viver a vida. Pelo menos não um que consiga abranger cada uma das mais de seis bilhões de pessoas que existem. Cada uma escolhe o que acha melhor pra si mesmo.

Agora, supondo que (do seu ponto de vista) não há um designio pra vida o universo e tudo mais, e eu estou vivendo com esse tipo de crença e estou feliz assim. Porque eu deveria superar isso?

Essa pergunta é hipotética. Eu não acredito nessas coisas.

Profundíssimamente hipocondríaco disse...

Rafs,

a pergunta foi retórica, um desabafo lamentoso.

Sou obrigado a fazer uma analogia com relação aos hábitos arraigados: a escravidão, assim como a guerra, foram praticadas pelo homo sapiens (pelo menos se começarmos a contar desde o primeiro registro escrito ou pictórico) durante mais de nove décimos de sua existência - mesmo depois da abolição, na maioria dos países a escravidão ou "semi-escravidão" ainda é praticada. ¿Deveríamos (essa pergunta também é retórica, a menos para quem tem sociopatia) parar de combatê-la, só por ser um hábito arraigado?

Pera-lá, ¿estou comparando religião com escravidão ou guerra? Não. Pelo menos não necessariamente. Individualmente, cada um é livre pra acreditar no que quiser. Parafraseando o Dr. (utilizando uma crença implausibilíssima): ¿Quer crer que o Corinthians ainda vai ganhar a Libertadores? Creia. ¿Isso te reconforta? Ótimo. O problema é quando a crença organizada se torna um mal desnecessário. Religião é política; quando se mistura com outra forma política, o Estado, na maioria das vezes há um mal desnecessário, vide evidências na história passada e presente.

Pressinto a necessidade de crença como algo útil à maioria das pessoas, para "não sair por aí roubando, matando e estuprando". Com o risco de parecer impertinente, dá uma olhada nesse vídeo, que completa minha argumentação melhor do que eu faria:
http://www.youtube.com/watch?v=VSIIOZDzuog

Rafs disse...

"Deveríamos parar de combatê-la (escravidão), só por ser um hábito arraigado?"

Não, e os motivos pra isso são óbvios. Nem preciso explicar porque.

A questão que propus é outra.

Já que você ampliou o assunto. É benéfico (não obrigatório) mudar hábitos que, a grosso modo, são ruins pra nós. Mas isso é avaliado caso a caso.

Acreditar que existe um deus que está olhando por nós não é ruim a princípio. Pode ser, dependendo do caso. Mas a vida não é preto e branco. Tem religiosos muito bem sucedidos e felizes e ateus tristes e miseráveis. E vice-versa. Tem religiosos chatos, legais. Ateus idem. Tem de tudo nesse mundo.

No seu desabafo eu "senti" um suspiro de desânimo. Se vc for ficar esquentando a cabeça e/ou desanimando cada vez algo no mundo não se encaixar nas suas convicções intelectuais sua vida vai ser desagradável.

No video ele fala: "há uma distinção entre uma coisa ser verdade e essa coisa ser útil"

Concordo e acho que é esse o seu ponto. Mas, pro religioso (a nível individual) isso é irrelevante. A verdade pra eles não é o foco. Tanto que eles enfatizam muito a fé. Pra eles o importante é o efeito. E me refiro ao efeito prático, aqui na Terra, não em qualquer paraíso ou inferno.

Vc tá pensando de maneira bastante lógica, mas esquecendo de levar em conta que nós temos sentimentos. Que temos corpos que reagem de maneiras as vezes caóticas. De que no fim das contas o que a gente relmente quer é se sentir bem. E isso vale pra todo mundo, incluindo você e eu.

Profundíssimamente hipocondríaco disse...

Rafs,

¡cê respondeu minha pergunta retórica (espero que não seja a exceção que descrevi)! HEHEHE

Sobre não esquentar a cabeça a respeito de outras opiniões, estamos de acordo. Mesmo minhas convicções podem mudar, dependendo da troca de ideias, observações casuais, clima, temperatura, pressão atmosférica... e sobretudo autorreflexão. Se eu mesmo sou tão instável, posso esperar tanto ou mais instabilidade alheia.

O que realmente me preocupa não são os religiosos comuns; são seus líderes. Aqueles que transformam igrejas em currais eleitoreiros. Que são eleitos e engrossam a "bancada", e acabam tornando as coisas mais difíceis do que já são. Mas daí vem o dilema-tostines: ¿são retrógrados-mores por terem eleitores retrógrados ou são eleitores retrógrados por terem retrógrados-mores?

Numa argumentação formal é aconselhável utilizar uma lógica clara e consistente, deixando o apelo à emoção para momentos mais propícios, pois "el sueño de la razón produce monstruos". Agora se o caso é bate-boca de boteco, traiz uma breja aí pra nóis toma'. HEHEHE

Rafs disse...

HAHAHHAHAHAHA

A gente não tá tentando defender nossas teses de douturado aqui, então acho que a gente pode argumentar à vontade.

Além do que, considerar que nós temos emoções e que elas são muitas vezes caóticas não é algo irracional ou ilógico. Acho que o contrário é que seria.

Bem, se eu tivesse breja aqui eu abriria.

Permafrost disse...

Vodzêumacoiprocêis, viu. Muito me ufano de meus leitor.

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