12 setembro 2011

Numerência

No volume 23 de sua chatérrima obra A inumerência e a hipoplausibilose: estatísticas, crenças e acasos, nosso emergente doutor demonstra por A mais B q nenhuma língua morta ou viva tinha ou tem uma nomenclatura numérica muito eficiente. Em qqer lugar do mundo, si vc sai numa rua movimentada com intenção e toda boa vontade de contar o número de gente mal-vestida ou infeliz ou em pânico moroso, tem tanta gente pra contar q o mais provável é q vc engasgue antes de chegar na centena. Mas (ao contrário do q se crê) não é pq tem gente demais pra contar; é pq os nome dos número são longo demais. Em português, por exemplo, qdo vc chega ä dezena dos quarenta, precisa de cinco sílabas pra dizer o q se escreve com apenas dois algarismo:

45 = quarenta_e cinco.

Disso resulta q qdo vc tenta contar rápido, fica uma gororoba:

um-doi-três-quat-cinc-sei-setioit-nove-déiz &c &c

Ao chegar aos duzentos, vc já vai ficando de saco cheio:

duzentstrintaiset-duzenstrinaioit &c&c.

É um saco. Vc sai na Paulista segunda-feira ao meio-dia pra contar amebas, e 30 segundos depois vc já deveria tar dizendo "duzentos sessenta e quatro" –mas é muscularmente impossível: com tanta ameba, a língua não consegue chacoalhar na boca ao ritmo do mais evoluído cérebro.

Mas tem uma solução. Qdo o doutor ainda tava no Instituto de Plausibilática de Tallinn, e tinha q ficar até altas hora no laboratório contanto bactérias infectada de hipoplausivírus nas placa de Petri, ele inventou um sistema de contagem q usa apenas uma sílaba por algarismo. Em português funciona assim, ó:

1-2-3-4-5-6-7-8-9-10 = u-do-tê-ca-ci-mê-sé-o-nó-dé (mê = 6, da palavra 'meia')

10-20-…-90 = dé-vin-tinta-canta-cinta-menta-senta-onta-nenta

Mas a segunda sílaba das dezena equivale ao algarismo zero. Então, contando de 40 à 60, por exemplo:

canta-caú-cadô-catê-cacá-cací-camê-cassé-caô-canó-cinta-ciú-cidô-citê-cicá-cicí-cimê-cissé-ciô-cinó-menta

Outros exemplo:

13 détê, 26 vimê, 39 tinó, 42 cadô, 55 cicí, 68 meô, 71 séú, 84 ocá, 97 nóssé.

E, como todo mundo, o doutor não diz as dezena qdo a contagem fica muito rápida:

udotêcacimêsséonóDÉ udotêcacimêsséonóVÍ udotêcacimêsséonóTÍ udotêcacimêsséonóCÁ &c &c

100-200-…-900 = zeno-duno-treno-quano-quino-meno-séno-ono-neno

Pra números maior,
mil = ki (de kilo);
milhão = mi.

Então, o número 7.418.529 fica sémí-quadéôkí-quivinó

9 sílabas no sistema plausível, contra 21 no tradicional.

Não foi ä toa q, enquanto o estudante Amônio cursava o InPlauTá, venceu todos campeonato de contagem bacteriana. Hoje, em suas pesquisa pelas rua contando lagartixas, äs vez o doutor lembra de seus tempo de estudante e nossé lágrimas de saudade brotam de suas dô nobre narina.

6 comentários:

Neanderthal disse...

Acho que já comentei sobre isso em outro post. Coisas que caem no desuso não recebem atenção. Quantas vezes por dia uma pessoa normal precisa dizer um número como 5.437? Para esse numero de vezes, o sistema não está bom o suficiente? Vale a pena criar um novo sistema do zero para aumentar a eficiência das pessoas em pronunciar os números? Obviamente que não.

É mais ou menos como os sistemas existentes numa empresa. Os dados nos campos como endereço de entrega do cliente, banco/conta corrente/CNPJ do fornecedor etc... geralmente estão bem cuidados, ou "atualizados", na mesma medida da recência com que fizeram negócios com a nossa empresa. Tipicamente, dados não usados ou "obsoletos" vão perdendo qualidade e passam a não ser mais confiáveis. Por exemplo, um determinado código de atividade referente a uma hipotética tabela de tarifas que não é utilizada desde os anos 80, ou algo assim. Já que o campo não é mais usado, vale a pena manter uma pessoa para cuidar desse dado para que fique sempre atualizado? É claro que não.

Permafrost disse...

Derthal,
Vc tá certo, claro.

Mas pra contar ítens dentro da escala normal das coisa –digamos, até quinhentos– o sistema plausível funciona q é uma maravilha. Deveria ser mandatório em bancos. :•p

Anônimo disse...

Contar em voz alta de um em um é (era) castigo de aluno do grupo escolar. Ninguém conta assim. Até porque, de tão estúpida que é a tarefa, a enumeração entra em automático, vc se distrai, a mente viaja e, quando vc dá por si, perdeu a conta! Conta-se com 5 riscas verticais e um traço cortando, com quadrado e a diagonal (ou o x) em grupos de tantos por tantos, para multiplicar ao final. Ou então com abaco e que tais.

Portanto, como a função primordial de contar até números muito elevados é ser um castigo, tem que ser assim mesmo: maçante, cansativo, bestificante. Pra isso, esse nosso sistema está perfeito.

tralfamadorian disse...

O mandarim possui um sistema relativamente plausível, com no máximo duas sílabas por dígito. O seu exemplo fica com 13 sílabas:

7418529 = qī bǎi sì shí yī wàn bā qiān wǔ bǎi èr shí jiǔ (= (7 x 100 + 4 x 10 + 1) x 10000 + 8 x 1000 + 5 x 100 + 2 x 10 + 9)

Arthur Golgo Lucas disse...

Tá, encontrei um que fazia o mesmo tipo de coisa doida que eu. Pensei que era o único. Eu já fiz até uma proposta completa de reforma ortográfica e gramatical da língua portuguesa - que baixaria o tempo necessário para a alfabetização a um quarto do atual - mas é claro que ninguém jamais levou a śerio, porque eu não tenho os diplomas, nem os sobrenomes, nem os padrinhos necessários...

O Moacyr Scliar tinha achado minha idéia interessante, mas antes que eu pudesse marcar uma reunião com ele o cara morreu...

Permafrost disse...

Tralfa,
Que legal, o sistema mandarim, agrupando os milhar em vez de as centena. ¿Seria como 741.8529?

Golgo,
Pô, explica aí vossa reforma gramatical, ou linca. Da ortográfica, tou fora: totalmente contra. Por mim, grapharia 'pharmacia' (¿Já notou q 'fa' é um som diferente de 'pha'? A primeira é sopro entre o lábio inferior e os dente superior; a segunda é só entre os lábio.)

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