03 julho 2011

O doutor e seus aforismos (4)

"A ESCALA dum problema é o q circunscreve sua racionalização moral, e não o inverso."
in O aborto aberto

(Se uma prescrição moral —ie, uma q supostamente se aplicaria à 100% dos indivíduo em 100% dos caso— perde aplicabilidade qdo o número de casos pertinente passa dum certo ponto, então ela não se aplica à nenhum caso.)

20 comentários:

Raf disse...

Dr,

Minha imaginação (eufemismo pra raciocínio) tá debilitada. Por favor, exemplifique.

Permafrost disse...

Raf,
Acho q um bom exemplo foi posto aqui:

Outro exemplo é o caso do aborto, q os moralista querem ver abolido. É evidente q se o número de abortos num dado país ou região aumenta à uma taxa maior do q a do aumento populacional, então não é uma "imoralidade": tem outra coisa acontecendo q deve ser entendida. A decisão de abortar é uma reação à um contexto, não a degeneração dum instinto. Essa outra coisa geralmente tem à ver justamente com o aumento populacional. Em qqer contexto social, se ninguém matar ninguém, se ninguém se suididar, se toda fecundação produzir um filho, se toda pessoa for heterossexual (pois a tronhice inclue a sexualidade na moral), se toda dor for evitada, e se todo doente terminal for mantido vivo, então os preceito ficam inviável e o contexto muda ùnicamente por pressão populacional. O q faz as pessoa transgredirem um preceito moral é o contexto; portanto não existem regras moral: existem convenções moral: as convenção têm validade em contextos, não em universos.

Assim, o aforismo 4 é um argumento contra tomar certos preceito moral como universalmente válido, desprezando o contexto. Querer q um preceito moral seja universalmente válido vem do temor irracional de q sua inaplicabilidade em certos contexto possa levar ao caos ou à primazia do radical; e esse temor vem de ignorar q a quase totalidade dos fenômeno do universo tá dentro duma curva de Gauss (a "quase totalidade" pq nem mesmo a curva de Gauss é universalmente válida).

Note q um dado contexto se torna inviável *exatamente* pq se tenta nele aplicar regras ãã… regras…… ãã… regras………… —aaaaaaaargh

¿¡¿Não existe em português a expressão 'blanket rule'?!?

(Procuro um adjetivo equivalente a 'blanket', significando "q se aplica à todos caso". Não existe. Ô lingüeta, esta. Não tem *nenhuma* palavra equivalente ao adjetivo 'blanket', mas tem 191 sinônimo pra 'idiota' [Houaiss]. Que língua rica, não?)

Permafrost disse...

Ok. Vou inventar, então.

Voltando: note q um dado contexto se torna inviável *exatamente* pq se tenta nele impôr uma regra chapada (por analogia com 'cor chapada').

Neanderthal disse...

How 'bout "regra geral"?

Permafrost disse...

Derthal,
'Regra geral' implica em q pode haver exceções: a expressão "exceções ä regra geral" é bastante comum.

Já uma 'blanket rule' não admite exceções, e é isso q tentei passar em 'regra chapada'.

André disse...

Perma,

Se um preceito moral depende do contexto, teremos um mega master relativismo moral, não? E os Direitos Humanos, por exemplo? Não podem ser tomados como universais, para que aqueles que não respeitam esses direitos sejam punidos, independentemente de contexto?


E sobre a tradução, pq não "universal"?
"note q um dado contexto se torna inviável *exatamente* pq se tenta nele impôr uma regra universal"

Permafrost disse...

André,
Acho q aí vc, assim como a maioria, misturou alhos com bugalhos. 'Moralidade' e 'punição' tão em lados oposto dum ato humano. Nem a moralidade rege a punição, nem a punição deve ser uma régua prä moralidade.

No caso de crimes —ie, de atos prèviamente codificado como punível— não acho q de verdade exista ou possa existir relativismo moral, por dois motivo:
(1) qto mais se sabe sobre um crime, menos se justifica uma punição; isso não é relativismo: é saber q nada acontece sozinho, q nenhum crime cai do céu, q toda ação humana é compreensível por outro humano totalmente informado; essa visão só não é prática: o q todo sistema legal faz é parar qqer investigação num certo ponto —o ponto em q a praticidade começa à se chocar contra as prerrogativa das vítima ou contra as demanda dos justiceiro; além disso, fazer justiça é uma atividade secundária da vida, como escovar os dentes;
(2) se cada caso tem seu lugar numa curva de Gauss relevante, então cada caso é um exemplo de si mesmo, não um desvio do centrão.

A Declaração Universal dos Direito Humano é, ela mesma, apenas uma convenção; e, como ela se baseia em preceitos à q tende a maioria das nação e das pessoa, ela nada mais é (ou pretende ser) do q o centro duma curva de Gauss. Além disso, a DUDH tem valimento apenas sobre as nação q assinaram o acordo; só q essa assinatura *tbm* tá num contexto em q muitas nação menor entraram ä força; então algumas nação podem muito bem vir à deixar de aceitar a ascendência desse contexto prévio sobre a situação presente. O q vai decidir se essas nação voltam ao centro da curva não é o "valor moral" intrínseco do centrão, mas o poder das arma bélica ou econômica daqueles q controlam o centrão.

O centrão não é intrìnsecamente o melhor lugar moral; é apenas o lugar estatìsticamente mais seguro pra se ficar. As pessoa, as cultura e as nação q não agem de acordo com o centrão são aquelas q ainda não sacaram esse dado estatístico: q é melhor viver da maneira q se vive melhor. Isso, além de se aprende por experiência e não por decretos e mandamentos, tbm é algo q muda com o tempo, o lugar e a população. Então até mesmo o centrão estatístico depende do contexto.

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Sobre a expressão 'regra universal', sempre a entendo como "regra q todos aceitam", não como "regra q se aplica à todos caso". Claro q pode ser usada nesse sentido, mas pra mim ela é apenas descritiva e não tem a carga reprovativa de 'blanket rule', q eu tava procurando.

Neanderthal disse...

TODA regra tem exceções. Sempre entendi blanket rule como regra geral.

Neanderthal disse...

Outra coisa: a DUDH pode também ser entendida como um artifício do comércio internacional com intuito de bloquear a importação de produtos provenientes de países que não a respeitam, ou para obrigar estes países a elevarem os seus custos de produção ao se adequarem a ela. A preservação do ambiente também pode ser entendida de maneira de maneira análoga.

Num post anterior você reclamou que a língua portuguesa dificilmente gera novas palavras, devido à sua relativa "rigidez". Com a discussão acima, acabei de me lembrar de uma palavra que inventamos: "flexibilização" (da regra), uma palavra bastante "em voga" atualmente, principalmente nos círculos políticos.

Permafrost disse...

Derthal,
Sim, mas a questão aqui não é essa; a questão é a expressividade da língua: ¿que palavra existe q, qdo ligada à 'regra' signifique "cuja pretenção de universalidade é reprovável"? Em português, nenhuma. Em inglês, 'blanket', formando uma expressão reprovativa.

Acho q 'regra chapada' melhora um pouco as coisa pra nosso lado.

Neanderthal disse...

Não necessariamente. Quando as pessoas dizem que há uma "blanket rule" a respeito de determinado assunto, nem sempre associam isso a uma reprovável pretensão de universalidade. Por exemplo: existe uma "blanket rule" que diz que se você bater o seu carro atrás de outro, a culpa é sua. Isso significa que não há exceções? Eu acho que não. Apenas significa que "ceteris paribus" ou "em condições normais de pressão e temperatura" a culpa é sua. Posso imaginar pelo menos uma situação em que o culpado foi o da frente: quando o da frente mudou de faixa sem considerar ou perceber que o da outra faixa estava vindo, de forma a não permitir uma reação e/ou frenagem para evitar o abalroamento.

Permafrost disse...

Derthal,
Pra mim, 'blanket rule' é uma regra inflexível q pretende afetar à todos e incluir todos caso possível. Claro q na prática isso nunca acontece, tal como vc demonstrou; e é justamente disso q o aforismo doutoral trata. O aforismo vem dum silogismo:

Um prescrição só é moral se pretende se aplicar à todos caso. Sempre há casos em q uma prescrição pretensamente moral não se aplica. Portanto, não existem prescrições moral, só existem prescrições contextual.

O fato de as regra chapada ou blanket rules não terem validade universal não significa q essas expressões queiram dizer outra coisa q "regras com absurda pretensão de universalidade", reprovativamente.

Anônimo disse...

AXIOMA!!!

Anônimo disse...

"imperativo", também, talvez.

Permafrost disse...

'Axioma' e 'imperativo' podem ser vistas dentro da mesma região semântica, mas não são o q eu quis dizer. Todas essas expressões aventadas aqui tbm existem em inglês : general rule, universal rule, axiom, imperative. Mas nenhuma delas *quer dizer* o mesmo q blanket rule.

Acho q tive a sorte de, qdo ainda era adolescente, conhecer o "Merriam-Webster Dictionary of Synonyms and Antonyms", q *comenta* os sinônimos. Essa é uma das coisas q falta em português —um dicionário q diz não o q as palavras significam, mas o q as pessoas *querem dizer* qdo as usam.

Veja o MWDSA: http://tinyurl.com/65t9bf6

Raf disse...

Dr,

sabe se tem esse dicionário a venda aqui no Brasil? Ou só acha ele pela net mesmo?

Permafrost disse...

Raf,
Tenho uma edição de bolso de 40 anos. Nunca vi em livrarias aqui. De qqer modo, encomendar direto sai mais barato e menos ãã esperançoso.

Arthur disse...

Acho que chapada funcionou muito bem. Me pareceu até meio familiar, mas acho que é exatamente por que funcionou.

Arthur disse...

Depois de uma pequena pesquisa no google, descobri por que "regra chapada" me parece familiar.

No meio de milhões de "chapado"s significando drogado ou bêbado, achei alguns "Discursos chapados" com o significado análogo ao de "Cor chapada"

Permafrost disse...

Arthur,
Obrigado. Assim q pensei em 'chapada' tbm achei q soava vagamente familiar.

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