13 junho 2011

O prosciente

O mundo tem tanto crente q nosso estrupidante doutor já tava enjoando de explicar o q quer dizer ‘agnóstico radical’. Ele vinha tentando achar um termo melhor pra se definir perante aquele pessoal viciado em religião. Muita gente dizia q não era possível uma pessoa negar tão completamente a importância das questão última da existência, tipo ¿que merda é esta? ¿que catso é a consciência? ¿de onde caralhos veio o infinito?

Sempre saquei q a canhestreza do termo ‘agnóstico radical’ já denuncia o improviso de quem –tal como o doutor– nunca deu muita trela pro assunto das deidade, e adotei essa auto-definição no mesmo espírito (ou seja, nenhum espírito). Mas dá um trabaAalho explicar…

O trabalho provém em parte da palavra ‘agnóstico’, q tem um inconveniente parecido com o da ‘ateu’: é uma auto-definição q parte daquilo à q não se dá importância. Claro, toda pessoa q não fuma é não-fumante. Num mundo tão entuchado de crentes, faz sentido definir-se através da negativa, e é bobo reclamar do prefixo negativo em ‘agnóstico’ e ‘ateu’; já falei disso aqui. O inconveniente dessas palavra não é o prefixo ‘a’, mas os radical ‘gnosis’ e ‘theo’. Se vc é agnóstico ou ateu, e se define como tal, então vc tá prestando um desserviço prà erradicação do papel central da religiosidade nas sociedade, já q vc tá dizendo q sim, q a crença é um definidor importante da pessoa.

Se vc é um humano normal exceto por ter os mindinho do pé mais curto, eles são um detalhe pouquíssimo importante dentro do todo e vc não vai *se definir* à partir de vossos mindinho:

P: ¿Que tipo de pessoa é vc? ¿Qual vossa nacionalidade? altura? idade? profissão? vosso Q.I.? salário? estado civil?

R: Ah, sou minipododactilobráquio.

Do mesmo modo, nosso eqüipolente humanista sustenta q a auto-definição à partir da crença é uma inflação estratosférica dum assunto ínfimo do humano, uma auto-definição à ser usada apenas em conversas sobre *esse* detalhe mínimo.

Claro, muita gente diria chocada “¡Nããão! A crença é uma das característica mais importante do humano, se não a MAIS importante. É o q *define* a humanidade. Blablablá bloblobló.”

O doutor já falou várias vez da diferença entre ‘crer’ e ‘saber’. Mas não suficientemente deste detalhe: mesmo q vc seja o maior crente crédulo crendeiro sobre a face da Terra, o tamanho e quantidade de coisas q vc *sabe* são trocentas vez maior do q o de coisas em q vc *crê*. Vc sabe falar português (e talvez outras língua), sabe amarrar sapato, abrir torneira, coçar a cabeça, pegar ônibus; sabe onde fica vossa cama, vossa casa, vosso país; sabe quem são vossos amigo e parente; sabe o q sente por eles; sabe lidar com os incontável detalhe de vossa profissão; sabe de cór e salteado milhões de detalhe sobre vossa própria vida; sabe q, erguendo um pouco a cabeça, tem uma visão mais panorâmica do entorno; sabe interpretar palavras e intenções alheia, manipulá-las; sabe expressar vossas intenção e sentimento; sabe prever conseqüências de vossos ato; isso sem falar da avalanche de conhecimentos factual –q vc talvez chame de “conhecimento inútil”; vc sabe sabe sabe sabe sabe sabe sabe sabe… milhões, talvez bilhões de coisas. E lá num cantinho obscuro do cérebro vc tem algumas crença; e *mesmo* q vc seja um papa ou um capiau fanático religioso no meio do nada, vossas crença têm sobre vossas ação e decisão –e sobre as conseqüência delas– uma influência microscópica, se comparada ä influência q têm vossos conhecimento.

Então ¿por que catsos o Dr Plausível forneceria uma auto-definição baseada na crença? O correto é ele definir sua atitude perante o saber, não perante o crer. Uma possibilidade seria ‘prognóstico’, definindo sua postura favorável ao conhecimento. Mas pô, ‘gnose’ foi seqüestrada pelo debate “espiritual”: seu significado original de “ciência, conhecimento” deturpou-se pra “conhecimento esóterico da verdade espiritual blablablá bloblobló”. Daí q já existe a definição de ‘prognóstico’ como “pessoa q almeja o pleno conhecimento espiritual transcendente sobre Deus”. Ok, pode almejar sentado.

Então tava lá o doutor procurando um termo novo, específico e explícito. Qual não foi sua surpresa qdo eu, euzinho, seu discípulo e datilógrafo, achei o termo perfeito: prosciente.

Prosciente, prosciência, proscientismo. Essa é uma auto-definição à partir do q a gente sabe e pretende saber, à partir do q o humano sabe e pretende saber, à partir da ciência –definida em seu âmbito total: ciência é tudo aquilo de que vc é ou tá *ciente*. Vários problema ficam resolvido. Qdo vier um criacionista vos xingar de ‘evolucionista’ –esse termo q, cientìficamente, não significa nada (é como xingar alguém de ‘magnetista’ ou ‘gravidista’ ou ‘eletronista’)– vc pode dizer, “Êpa, peraí, sou apenas um prosciente: me defino à partir do q *sei* e pretendo saber, não do q creio.” Qdo vier um crente qqer dizer q vc é um ateu filho de Satanás, vc pode dizer, “Êpa, peraí, que falducação. Sou um prosciente tão legalzinho…”

Mas tbm, essa é uma maneira de dizer ao “bom” cristão/judeu/muçulmano/escambau q não, suas crença NÃO são importante, NÃO são uma base respeitável ou venerável pra discriminar e professar, pra aprofundar e abranger, pra moralizar e politizar, pra emocionar e se ofender.

9 comentários:

Raf disse...

Dr,

Gostei do termo e achei que encaixou bem com a idéia. Mas, precisa desse trabalho todo?

Eu prefiro simplificar o que pode ser simplificado. Se alguém me pergunta a minha crença eu falo. Se acharem ruim ou tentarem me convencer simplesmente fico com cara de "Beleza, então tá. Se vc falou, tá falado"

Permafrost disse...

Raf,
Vossa maneira é a mais prática, mesmo. Mas, pô, ¿ficar ouvindo? Tipo assim, como se ¿só eles tivessem algo a dizer? Se vc computar o tempo q já ficou ouvindo inanidades sociàvelmente, ¿não acha q poderia ter passado melhor? Agora, tenta imaginar o tempo q vc ainda vai ficar ouvindo colegas, parentes, &c regurgitando ladainhas. Imagina vc ouvindo algum tagarela fanático por um livro, tipo "Guerra e Paz", falando sem parar dele, citando passagens, insistindo q *vc tbm* deveria ser fanático. Alguém tem q chegar e dizer: "Sorry, esse não é meu assunto. Meu assunto é ESTE." E aí *vc* fala. E toda vez q ele vier com sua ladainha, vc repete a vossa.

Neanderthal disse...

Prefiro dizer: SOU UM ANTI-CHARLATANISTA

Permafrost disse...

Derthal,
É, mas ainda assim é um 'anti'. Tentei achar um termo ãã pró-ativo.

Camelo disse...

Caro Perma,
Por muito tempo me defini como agnóstico simplesmente para evitar situações de confronto com pessoas de fé. Eu me aproveitava do freqüente equívoco (que muita gente comete) de acreditar que agnósticos são aqueles que “ainda estão procurando a verdade” ou que “ainda não se decidiram”.
Embora, já aos 30 anos de idade, eu não mais conseguisse acreditar em nenhuma divindade ou fenômeno sobrenatural, eu me sentia desconfortável com o peso da palavra “ateu” (que realmente definia minha condição), e preferia o termo “agnóstico” que, na pior das hipóteses, poderia ser entendido como “ateísmo de bom-rapaz”. Eu sei que era uma atitude meio covarde de minha parte. Mas, antes covarde do que ter que passar pela de aporrinhação de explicar meu ateísmo para um religioso. O debate de idéias com um religioso sempre foi para mim uma experiência exasperante, desanimadora e inútil - se fosse realmente possível dialogar com um religioso respeitando o bom-senso, a razão, a lógica, as evidências e as regras de argumentação, não existiriam religiosos no mundo.
Já passei muito tempo ruminando silenciosamente, tentando achar uma palavra mais amigável para minha falta de crença, mas não a encontrei. Hoje me contento com a palavra “ateu” porque é a mais honesta e explícita de todas.
O seu “proscientismo” é uma grande sacada. Definir-se positivamente pelo “saber” (pro-sciente), e não negativamente pela “crença” (a-teu, a-gnóstico), parece ser uma atitude muito mais sensata. Só que tem um porém: o positivismo (em termos gerais) já cumpre esse papel. Um positivista moderno se definiria como tal por razões muito parecidas às que vc expõe em seu texto. Aliás, seu texto me fez lembrar duma entrevista com Stephen Hawking onde lhe foi perguntado se acreditava em deus, e o Hawking simplesmente respondeu “sou um positivista”.

Permafrost disse...

Anônimo,
Reloquei teu comentário pro texto "Origens lingüísitica do atraso brasileiro, parte 4".

Permafrost disse...

Camelo,
Boa sacada; mas, pelo q entendo, o positivismo tá mais voltado prà Ciência com maiúscula, ideologias baseada no método científico, &c. O proscientismo tem a ver com TUDO de q vc tá ciente –tipo, vc sabe abotoar uma camisa, sabe q a crosta terrestre é formada de placas tectônica em movimento, sabe fritar um ovo, sabe q um sorriso pode significar várias coisa, sabe ler as palavra impressa numa Bíblia &c. Desse modo a auto-definição 'prosciente' é calibrada por cada pessoa individualmente, não pelo cabedal de conhecimento científico corrente (CCCC). O proscietismo se substancia socialmente milhares de vez mais através do internus præceptum "Quero vir à saber o q outros já sabem." do q através do "Quero saber o q o CCCC comprova." –embora lògicamente não exista saber individual q não teja dalgum modo previsto no CCCC, ou q já não pertença a ele. O internus præceptum prosciente é, portanto, um posicionamento pluralista: quero falar outra língua, quero saber como vc frita um ovo, quero saber o q os lapão fazem com a banha das rena, quero saber que gosto tem uma pizza em Nairóbi. É uma espécie de discoverychannelismo. :•)

Note q todo crente fala q experimenta um tipo de "saber", q existe um saber emocional prazeroso como fruto dum crer. Isso sempre me pareceu uma maneira de eat your cake and have it, de auto-engano e esperancite. Ao nível do humano, o crer e o saber são mùtuamente excludentes; e na escala humana é um exercício fútil aventar q todo saber se baseia num crer, q podemos todos aqui tar num Matrix, q o mundo é uma ilusão, &c. Nenhum crer promove um saber. Sorry. Tbm já demonstrei aqui a falsidade da crença de q é a crença e não o gregarismo o q provê aquele "saber emocional prazeroso":

http://drplausivel.blogspot.com/2009/10/fe-com-fe-cre-com-cre.html

Rodrigo Lattuada disse...

É uma forma interessante de ver. E o texto é muito bem escrito, como todos os demais que eu li aqui no teu blog. Agora, Plausível, quando tu diz que *sabe* (i.e., *tem ciência*) de que a crosta terrestre é formada por placas tectônicas, tu não abre espaço pra pessoas que *sabem* que "deus" existe? Eu não sou religioso, mas não *sei* que "deus" não existe, eu simplesmente acho a "lógica" de "deus", "alma", toda muito inconsistente e bobinha e, ok, estúpida, então eu presumo que "deus" não existe e que qualquer pessoa que acredite que sim é, sei lá, ingênua. Mas quando tu diz que se sabe muito mais do que se crê, isso me incomoda um pouco. Saber é uma palavra muito forte quando quer dizer "saber que isso é isso, isso e isso". Não? Quando tu fala em saber amarrar os sapatos, não quer dizer que tu *sabe* amarrar os sapatos, mas que tu *tem conhecimento de uma técnica* para amarrar os sapatos, por aí. Assim como dizer que tu *sabe* que a crosta terrestre é formada por placas tectônicas... digamos que tu não *sabe* isso, tu tem esse conhecimento limitado do que talvez não seja nada além de uma forma de entender a crosta terrestre. Sei lá. Assim como eu "sei" que se eu apertar em "postar comentário", isso quer dizer que o que eu escrevi agora vai ser enviado, mas esse "saber" esconde toda a "lógica interna" do processo. Aliás, tudo o que tu "sabe" é circunstancial, limitado ao contexto, i.e., "eu sei que nessas condições, se isso, então tudo indica que isso". "Saber" parece algo tão restritinho a conceitos perfeitinhos e processos estruturadinhos.

Enfim. Não convivo muito com gente religiosa. A última vez que eu me incomodei com religião foi quando a minha irmã começou o discurso de formatura dela com "primeiro eu agradeço a deus...", e eu afundei na cadeira de vergonha alheia. E eu sei que eu me senti levemente culpado pelo que eu pensei dela naquela hora.

PS: as aspas fazem tudo parecer ironia, mas não foi essa a intenção. E quando eu digo "tu", não quero dizer *tu*, mas um tu genérico.

Permafrost disse...

Lattuada,
A primeira coisa q tenho à dizer é q não tou prescrevendo essa auto-definição aos outro. O modo como outras pessoa se definem é coisa delas com elas, e boa sorte à elas. Tudo q digo sobre mim é sobre mim apenas, sobre uma atitude única e válida perante o mundo. Assim, vc tá certo qdo diz q tudo aquilo q SEI é circunstancial e limitado à meu contexto: esse é um ponto central, já q tou falando de AUTO-definição e não de definição da humanidade. Claro, acho uma tontice sem tamanho uma pessoa definir sua totalidade à partir duma crença, se entregar à uma auto-definição baseada numa crença; mas não tou prescrevendo q ela não faça isso.

Sobre as placa tectônica e qqer outro conhecimento derivado da ciência natural alheia, claro q é um risco incluir isso no Saber dum não-especialista. Mas –em meu caso, pelo menos– é um risco baseado na coerência interna da ciência natural e nas evidência concreta q ela apresenta. Então não é bem q "sei" q as placa tectônica formam a crosta terrestre, mas q sei q o discurso dos geólogo tem uma coerência interna e um cabedal de evidências coesa com a teoria. Jamais encontrei coerência interna em qqer crença sobrenatural, e vejo furos, ilusionismos, ingenuidade, esperancite e (às vez) desonestidade em *todo* raciocício crêntico. É evidente q, no quesito "crença", muitas pessoa não têm simancol ou plausibilol suficiente nas veia. As q têm um pouco mais são as q tentam conciliar as contradição interna de toda crença. Esse é um trabalho inútil; é como tentar soldar metal à madeira. O motivo disso é q cada crença separada se desenvolveu caòticamente com o insumo de trocentas pessoa diferente, todas elas supersticiosa, originada em igualmente trocentos lugar diferente, cada uma dando seu pitaco e querendo influenciar com sua idèiazinha uma crença já constituída, ou querendo focalizar um aspecto em detrimento de outros. As crença, os livro sagrado &c são colchas de trocentos retalho.

Agora, qdo digo q, como prosciente, me defino à partir do q sei, a Ciência constituída tem um papel pequeno se comparado à TUDO q sei por experiência própria; e é por isso q citei apenas *um* conhecimento científico nos comentário. Se vc olhar pra si mesmo e começar à enumerar tudo q sabe sobre o mundo (q será, claro, tudo q vc sabe q percebe sobre o mundo), não vai parar nunca: "sei q tou sentado aqui agora; sei q tou enumerando tudo q sei; sei q acabo de enumerar dois ítem entre tudo q sei; sei q este último não conta; sei *por quê* não conta; sei q a parede à meu lado é branca; sei q dizem q o branco é a união de todas cor; sei q se vc girar super rápido uma roda com um arco-íris, ela parecerá branca; &c &c &c &c &c". Se vc não incluir auto-referências, será uma lista finita, claro; mas é pq *vc* é finito. E aí tá mais uma auto-definição: sei q minha mente é finita; e isso é um ponto à mais pro prosciente, por não ter a arrogância se crer infinito.

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