06 fevereiro 2011

Pernas curtas e ouvidos de lata

Nosso escrupuloso doutor já fez diversos one-man lobbies no ministério da saúde pra passar a Lei do Burrifo –uma medida, digamos, cautelar q obrigaria todo município brasileiro à periodicamente borrifar Plausivirol nas principais cidades. Pq, pô, viu. O mundo todo sabe q a internêta é um charqueiro pestífero onde o hipoplausivírus funga por vítimas, mas nenhum excelentíssimo senhor ministro dá ouvidos ao doutor.

Pq, vejam bem, o vírus penetra o cérebro pelo ouvido, e são vítimas constantes os pacientes com otoestanhose (ouvidos de lata). À seguir, um caso recente ilustra a malignidade dessa contagiosíssima moléstia.

Sesdias (um sábado), um blogueiro rapazola resenhista literário amador resolveu publicar um email em q uma editora praticamente o ameaçava judicialmente se não apagasse de seu blogue uma resenha desfavorável à um certo livro. Aí uma porção de gente achou a atitude da editora um bessurdo, um escândalo, um abuso editorial, um despautério, &c e tal; deu o maior bafafá, leitores dando apoio, conselhos legais, o baralho à buatro. Alguns especularam q o email tinha vindo da editora Record e começaram à protestar diretamente ä editora. Até O Globo noticiou o não-fato e tentou contactar o blogueiro.

Tem aqui uma imagem do blogue (q o rapazola fechou, qdo viu a bestice q fez).

E aqui um cache do texto q originou o bafafá.

Bastou nosso eterno humanista ler a tronhice pra cair na gargalhada.

Pq, pô, né? Só mesmo a otoestanhose pra explicar como tanta gente boa foi enganada nessa pabulagem da grossa. O doutor imediatamente diagnosticou o rapaz: hipoplausivirose galopante na hipófise, e graciosamente me permitiu mostrar à meus leitores como chegou à essa conclusão. Qdo vc enxerga, é óbvio.

Pelo texto do rapaz, logo se vê q ele, digamos, não transborda em recursos de estilo. Ainda é jovem e tem tempo pra aprender. Mas ao ler o pretenso email da pretensa editora, vê-se q esta, digamos, tampouco transborda... Hm. Há uma conveniente vaguidão específica –em frases tais como "um dos títulos publicados pelo nosso grupo editorial"–, muito utilizada em fraudes amadorísticas; além disso, o email tá escrito com os mesmos ritmos e entonação do blogueiro, e numa voz peculiar:

"Viemos através dessa", "o imediato fechamento desse."
"entendemos e até certo ponto, respeitamos"
"somos de teoria que"
"no sentido de nos fazer vender"
"dessa forma" usado no sentido de 'por isso'

Entre esses ítens, chamam imediatamente ä atenção 'ser de teoria' e 'dessa forma'. ¿Que fez então nosso doutor? Procurou no blogue mesmo outras instâncias dessas peculiaridades. E ¿onde foi achar 'ser de teoria que'? Ora, ¡na própria denúncia, logo no primeiro parágrafo! "Sou de teoria que um blog blablabla".

HAHAHAHAHAHAHA

Argumentar-se-ia q o rapaz poderia tar ironizando o email. Ok: plausível, embora improvável –dada a otoestanhose geral de seu blogue. Vejamos então 'dessa forma'. Os resultados dessa busca tão aqui.

De fato, o rapaz amiúde usa 'dessa forma' como 'por isso':

«O formulário do blog deu problema, muita gente se inscreveu e não teve seus dados enviados. Dessa forma, resolvi fazer essa nova promoção...»

«...existem livros que são prioridade em minha pilha porque devem atender à estratégia de divulgação planejada pelos respectivos editoriais[sic]. Dessa forma, obras nacionais podem levar até 5 semanas para serem lidas.»

¿Qtas pessoas, caro leitor, vc conhece q usam 'sou de teoria' e 'dessa forma' dessa forma? O email da editora tem gosto e cheiro de lorota.

Sábado ä tarde, o doutor já tava expectorando a gargalhada; não disse nada pq nesse estágio pouca gente iria enxergar a piada. Mas o blogueiro ainda tinha um golpe de bestre na banga. Qdo começou à pipocar uma desconfiança geral de q essa história tava mal contada, ele publicou domingo ä tarde outro pretenso email da pretensa editora. Veja como o doutor [entre colchetes] leu o adendo do blogueiro:

«O E-MAIL NÃO PARTIU DA EDITORA RECORD E NEM DIZ RESPEITO A FALLEN! ... A Luiza, que é a assistente de marketing, sempre leu e respeitou minhas opiniões.

«...depois de vários conselhos de profissionais editoriais [em pleno sábado ä tarde], entrei em contato com a assessoria de imprensa do grupo editorial [no expediente do sábado ä noite] e enviei o link do post. Algumas horas depois da repercursão[sic] no Twitter [q aconteceu domingo de manhã], recebi um e-mail do próprio publisher [trabalhando no domingo, devido ä suma importância do blogueiro] que vocês conferem abaixo.

«Caro Sr. Silva,

«Chegou ao meu conhecimento
[sábado ä tarde] um suposto [ué?] post envolvendo a alta diretoria [não sou megalômano] do nosso grupo.

«...acredite em mim
[por favor, acredite em MIM] quando digo que a referida funcionária [¿Luíza?] que lhe enviou essa mensagem [cherchez la femme] NÃO FALOU EM NOME DO GRUPO [caixa alta: recurso muito usado por blogueiros e altas diretorias...].

«Estamos tomando as devidas providências na apuração do caso
[em pleno domingo] e garantimos que o senhor será notificado quanto ao andamento do caso. Asseguramos também que ... uma ação judicial, vista como "causa perdida" pela maioria dos especialistas [todos eles consultados hoje, domingo, de manhã], será movida contra o senhor [se nada será feito, então ¿qual é o "caso" q terá "andamento"?].»

O estilo púbere do email já soltou um cheirume; mas o pior mesmo foi o ato falho de falar duma "referida funcionária" qdo a única funcionária referida foi pelo próprio blogueiro três parágrafos antes de ele começar à redigir o segundo email.

HAHAHAHAHAHAHA

E o atual ministro da saúde nem tchungas.

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De maneira alguma nosso evulsivo doutor pretende denegrir a imagem do blogueiro. Todo mundo faz cagadas. Dada a pressa com q fechou seu blogue e sumiu de vista, o blogueiro aprendeu à duras penas a lição de q brincar de gente grande se faz entre crianças, não entre adultos. Mas, já q o intuito do texto acima foi explicar uma técnica diagnóstica, espero q meus leitores tenham aprendido algo sobre como prevenir-se contra a otoestanhose. Trocentas pessoas ficaram incensadas com a editora (mas qual?), publicaram notas de repúdio, textos indignados, tuitadas revoltadas. É irônico q tanta gente defenda o direito de expressão sem no entanto atentar ao q é expressado.

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(contribuiu: Bel Seslaf)

23 comentários:

Rômulo disse...

hauahuahuahuahuaha
sensacional

me lembrou o blog aquele, coisas de idiota

leitoracompulsiva disse...

Parabéns pelo post!!
Não poderia haver explicação melhor sobre esse caso!

Neanderthal disse...

Tudo bem, mas pare de ficar metralhando com essas cràses, pombas!

Permafrost disse...

Derthal,
Ah, tadinhas, são tão bunitinhas...

Neanderthal disse...

Perma, por favor! Aqueles pontos de interrogação argentinos eu até aguento, mas colocar cráse em todos os as que aparecem, aí já não dá.

Permafrost disse...

Derthal,
Ah, tadinha da crase...

O novo padrão deste blogue foi explicado aqui:
http://drplausivel.blogspot.com/2010/06/senta-q-la-vem-historia.html

E ué, o governo pode cagar uma reforma ortográfica, e ¿ninguém mais pode? :•b

Vou me mudar pra Montana...

Neanderthal disse...

Tinha me esquecido disso.

The Gritty Poet disse...

Perma,

Achei que nunca encontraria ser que merecesse a inferência que segue.

http://www.youtube.com/watch?v=E5IQnQhzMSI&feature=related

Bem que, na verdade, você o encontrou.

Permafrost disse...

Gritty,
"Apes don't read philosophy."

HAHAHAHAHAHAHA

Muito bem achado.

Rômulo disse...

sempre pensei q o neander fosse um dos heterônimos do Ilustre

Permafrost disse...

Rômulo,
Ah não. Se eu tivesse metade da inteligência do Derthal, não teria um blogue.

HAHAHAHAHAHA

O Derthal é o maior marqueteiro-cum-baqueteiro q já apareceu no Brasil.

Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um) disse...

Quando senti no calo e pedi uma segunda, não pensei que viria tão prontamente.

PRÓXIMA!

Permafrost disse...

¡Refrator do céu, não me diga q tbm vc caiu!

Refrator de Curvelo (na foto do perfilado, restos da reunião dos Menos que Um) disse...

Cair não é bem a palavra. Digamos que eu pulei dentro... Sabe, Perma, pressa e posição. Duas coisas que não podem andar juntas e, por fim, briguei mais por uma história que não queria que existisse e, quem sabe um pouco por causa disso - sai, micticismo! -, não existiu. Espero não ter, no percuro, ter demolido nenhum moinho. Até porque fiz muito pouco esforço. Mas confesso que estranhei que nenhuma matéria havia noticiado o nome da editora em questão, coisa para a qual não dei vazão. Mas enfim, de quê serviria um Dr. Plausível se não existissem Refratores por aí, dando mole?

Raf disse...

Oi, Dr

Eis que num momento de insônia resolvo procurar a definição de plausivel (e plausibilidade) do wikipedia. Não é que não tem. Nem em inglês. Isso resume bem o que podemos esperar do site.

Permafrost disse...

Raf,
Pra palavras inglesas, geralmente me fio no

www.answers.com

q tem uma parceria com a Wikipedia.

http://www.answers.com/topic/plausible

Em português, ainda tou aguardando.

Eduardo Marques disse...

Eu sinto falta dos posts do Dr. Plausível. :'( Atualiza aí, ô cara!

Falando em livros, cagadas e gente escrevendo feito adolescente, o Dr. soube do caso da editora Panini?

http://www.interney.net/blogs/lll/2011/02/14/batman_versus_petralhas/

.Djegovsky. disse...

Ótima análise e investigação. Recebi a tal denúncia e quando entrei no tal blog do garoto senti cheiro de podre no ar. Além disso, algo pareceu estar muito errado ali.

Arthur disse...

No metro de São Paulo eles estão traduzindo as placas pra turistas.

O "Ao entrar no trem tome cuidado com o vão entre o trem e a plataforma" foi traduzido pra "(...)watch the gap between the train and the platform"

Infelizmente não lembro o começo, mas garanto que o final ta assim. Qualquer hora certeza que a foto da placa ta na net

Permafrost disse...

Arthur,
Não gosto de "watch the gap", como no metrô de Neviorque. Prefiro "mind the gap", como em Londres.

http://en.wikipedia.org/wiki/Mind_the_gap

O q achei ruim na mensagem em português foi o "tomar cuidado com". ¿Tomar cuidado com o vão? Tipo ¿q nem "cuidado com o cão"? ¿O vão vai te atacar?

Os caras devem ter pensado q o povão não entenderia algo simples e direto tal como "atente ao vão".

E aliás ¿pra quê esse anúncio no metrô de São Paulo, cujas estações são sempre em linha reta?

raf disse...

Engraçada é mensagem do Rio: "Observe atentamente o espaço entre o trem e a plataforma".

O que será que tem de tão interessante lá pra gente precisar ficar olhando atentamente pra baixo?

Arthur Golgo Lucas disse...

Plausível, fazia tempo que eu não aparecia aqui, mas este post valeu, é o tipo de lição que muuuita gente que tem blog e twitter tinha que ler todos os dias antes de clicar em "enviar". :-)

Eu mesmo cometi uma destas uma vez no Pensar Não Dói - pisei na jaca com os dois pés - mas consegui dançar um sapateado em campo minado e escapar com vida reconhecendo rapidamente a mancada e apontando razões plausíveis que me levaram a cometê-la. O pessoal relevou e eu aprendi a lição. (Se eu não contar em que artigo foi, pouca gente conseguirá localizar o episódio.) O que me incomoda é quem faz isso uma vez atrás da outra e não aprende...

Permafrost disse...

Golgo,
Pois é. O doutor tbm não nasceu sabendo reconhecer fraudes de fraldas, e já pisou em muita jaca.

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