25 setembro 2010

Repulsa ao nexo (1¾/2)

Tá meio difícer achar o Dr Plausível, tadinho, pois ele tá lá em Londres até novembro. Prometi escrever sobre a tese plausível da origem e escopo da moral, mas o cara fica lá ocupado na análise da viabilidade das catracas na rede cicloviária, e na implantação dum sistema plausível de transporte individual. Ontem mesmo, visitou uma bicicletaria. É um dínamo da energética, nosso doutor. Então, please, relevem a natureza esboçosa do q segue abaixo. Cada frase tá passando por um campo minado de controvérsia, de falta de dados, de nomenclatura imprecisa, de interesses religiosos e políticos, de preconceitos e arrogâncias humanas.

Dizer "tese plausível da origem e escopo da moral" já deixa claro q, caso se prove daqui à três séculos ou seis milênios q essa tese não é um espelho da realidade, no mínimo poderia muito bem ser: ou seja, pelo menos em tese, ela é testável, e portanto o doutor jamais vai esperar q alguém creia nela. 'Crer' não tem significado autônomo: crer é apenas uma expectativa de saber; então fiquemos com o Saber, por menor q seja (o já-Saber); quem tiver um Crer à oferecer, pode guardá-lo pra si, muito obrigado.

Mas hipotesar não é crer. Então não me venham com picuinhas. Dito isso, vamos lá:

Tamos aqui neste planeta fervilhando de vida, e das duas, uma: OU apareceu tudo de repente num putativo ato de mágica criadora, OU houve *alguma* hierarquia de eventos –uma evolução hierárquica, uma árvore genealógica de estados q resultou na conjuntura presente. Toda teoria presume e confirma uma árvore de eventos: a Teoria da Enorme Explosão e a Teoria Evolutiva são apenas duas no enxame de teorias existentes (a Teoria dos Números, a Celular, a Musical, a Lingüística, &c &c &c), e todas presumem e confirmam –e devem confirmar– uma árvore genealógica cujos últimos ramos são a complexidade presente.

Já as teorias da moralidade, têm um problema: elas presumem uma hierarquia sem genealogia; elas analisam a moral como pronta, caída do céu –tanto figurativa qto literalmente. Um livro à propósito é Wild Justice: The Moral Lives of Animals, de Marc Bekoff e Jessica Pierce, q analisa a moral em três conjuntos de comportamentos: cooperação, empatia e justiça:

The cooperation cluster includes behaviours such as altruism, reciprocity, trust, punishment, and revenge. The empathy cluster includes sympathy, compassion, caring, helping, grieving, and consoling. The justice cluster includes a sense of fair play, sharing, a desire for equity, expectations about what one deserves and how one ought to be treated, indignation, retribution, and spite.

Os autores então observam esses comportamentos discretos em inúmeros animais, mormente vertebrados, e verificam q, qto mais inteligentes, tanto mais comportamentos exibem dentro de cada conjunto. Por exemplo, o chimpanzé exibe todos os comportamentos cooperativos listados, mas o pardal só exibe claramente, sei lá, altruísmo e punição.

Mas (diz nosso exurbano doutor) se essa variedade horizontal de comportamentos pode ser classificada em conjuntos, ela tem q ter uma genealogia vertical. Se toda língua descende duma língua-tronco, se todo mamífero descende dum mamífero-tronco, se toda célula especializada descende duma célula-tronco, então todo comportamento cooperativo deve descender duma cooperação-tronco; toda empatia, duma empatia-tronco; todo senso de justiça, dum senso-de-justiça-tronco. A cooperação-tronco, por exemplo, se especializou nos comportamentos discretos de altruísmo, reciprocidade, &c cada vez mais identificáveis qto mais complexo o organismo. Mesmo q um mosquitinho não exiba um comportamento identificável, digamos, como 'reciprocidade', ele exibe comportamentos q podem plausìvelmente ser identificados como dentro do tronco 'cooperação'.

Agora observe os micròbiozicos piquititicos de 3 bilhões de anos atrás, uns grãozinhos vivos dançando em poças d'água. É impossível imaginar até mesmo essas proto-vidas vingando e se reproduzindo sem comportamentos no mínimo assemelhados ä cooperação. 1 bilhão de anos atrás, qdo deve ter aparecido a reprodução sexuada, tinha q haver algo parecido ainda q marginalmente com empatia: pra q vinguem a vida em comum e a reprodução até mesmo dos mais minúsculos eucariotos sexuados, alguma coisa, digamos, construtiva já precisava acontecer entre dois vermezicos q se encontravam um perante o outro e –no mínimo quìmicamente– "se reconheciam" como da mesma espécie. 600 milhões de anos atrás, já havia animais complexos e, dado o cansativo trabalho q dá ser um animal neste planeta, pode-se enxergar o senso de justiça progressivamente ganhando foco através do territorialismo, da raiva, da competição, &c. O importante aqui é ver q, apesar de o senso de justiça só ganhar foco com os animais complexos, o tronco sempre existiu ao lado dos da empatia e da cooperação. Os três são meramente ramos dum tronco maior, o tronco do bem-estar-comunal –ou, noutras palavras, o tronco das coisas-funcionando-normalmente.

Pois ça va sans dire q o bem-estar dum plúris é uma condição sine qua non pra sua mera existência.

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¿Que será um "plúris"? ¿Qdo é q isto vai acabar? Não deixe de perder o último e emulsionante episódio desta saga, qdo, numa reviravolta deprimente, TUDO –toda a história humana, toda a complexidade da moral– começará à fazer ainda menos sentido.