08 junho 2010

Senta, q lá vem a História

À partir de agora, neste blogue:
• o artigo e o pronome ‘a’ continuarão sem acento: a, a;
• a preposição ‘a’ levará acento grave: à;
• a contração da preposição com o artigo levará trema: ä.

Fechou a porta.
Fechou-a bem.
Falou à todos.
Foi ä feira.


‘ä’ se pronuncia /àa/

Em “Maria foi à sua casa.” muitos leitores erroneamente verão uma contração, e em “João foi à seu escritório.” erroneamente verão um errortográfio, mas ambas frases tão coerentes com o exposto acima.

Inspirado pelo texto de Reginaldo Pujol Filho, soberbamente ilustrado nesta animação:

13 comentários:

Eduardo disse...

Daqui a pouco vão ter que criar, além de um dicionário, uma gramática doctoriplausibiliana.

Eduardo disse...

Aliás, não seria mais fácil colocar um acento agudo na preposição 'a'? "Vou á São Paulo." "Fui áo supermercado." No caso de crase, ficaria como está, mesmo. "Fui à casa do João" "Vou à feira"

Se é para usar o trema, é só usar como no resto das línguas latinas, para pronunciar vogais que normalmente não seriam pronunciadas. "Vergüenza", "naïf", até o inglês usa o trema às vezes, em palavras estrangeiras como "haïku".

Permafrost disse...

Duardo,
Pensei nos prós e contras q vc aponta aí. Mas decidi aquilo baseado em duas coisas:
1. o acento encima da crase é na verdade o chamado acento "grave", de entonação grave, contrastando com o acento "agudo"; por exemplo, ouça como vc pronuncia a preposição nestas expressões:
• à essa hora; um à um; de mal à pior

Colocar aí o acento agudo descaracteriza o q ele significa.

2. na falta de fontes fonéticas, o trema é usado por foneticistas pra indicar vogais de dupla entonação, tal como os dois pontos no símbolo fonético /a:/, q se pronuncia /áa/.

Tbm pensei em grafar a contração a+a simplesmente 'aa', pra combinar com 'ao'; mas me pareceu mais interessante usar o trema.

Eduardo disse...

Tá, e quem disse que o português é pra ter uma grafia totalmente fonética? Eu só vejo o acento agudo nas palavras. O nome é agudo, grave, mas, no fim, só servem para indicar a tonicidade. Essa função dos acentos só é usada no grego e no chinês, línguas conhecidas no Brasil por sua inteligibilidade. Vc só tá complicando as coisas.

Eu já tentei aplicar os tons no português mas não consegui. Não consigo mesmo saber o tom que eu uso nas vogais, mas acho que não é fixo, muda de acordo com o que a pessoa quer dizer.

Outra coisa, cadê o Camelo? Camelo!? VC tá aí?

Refrator disse...

Só para informar: há no Rio um bloco carnavalesco de revoltosos chamado "Trema na Lingüiça". É isso.

Pracimademoá disse...

Bonitinho o texto, ainda mais com a animação. "Achei fofo", como dizem as minhas amigas.

Karynne disse...

Oras, mas a contração de a com a já não é, desde sempre, à?

Permafrost disse...

Karynne,
É justamente isso q tou modificando aqui. A preposição em si passa à ser à, e a contração de à com a passa à ser ä.

À meu ver, o trema não deve ir äs favas.

Permafrost disse...

Não sei se os leitores aqui já repararam, mas nunca escrevo "o meu pé" ou "a minha mão", mas "meu pé" ou "minha mão". "O meu" e "a minha" seguido de substantivo é uma redundância típica da nebulância com q o português é falado/escrito e até mesmo analisado. Ao dizer "o meu pé", vc tá definindo o pé duas vezes. Antes de 'meu', 'teu' &c, o artigo definido só é coerente qdo 'meu', 'teu' &c é um pronome. Aí vcs diriam, "mas 'meu', 'teu' &c são sempre pronomes".

Pra mim, não.

Acho muito estranho q várias gramáticas digam q em "meu pé", esse 'meu' é um pronome, enquanto q em "o meu é maior q o teu", ele é um substantivo. Na verdade, pela função, o primeiro deveria ser um adjetivo possessivo e o segundo deveria, esse sim, ser um pronome.

Gosto de teu jardim. Não do meu.
Minha casa é aqui. A tua é lá.

Vou à minha casa, não ä tua. A minha é mais perto.
Vou à meu escritório, não ao teu. O meu é mais perto.

Tem gente q quer tomar café com chá e cria coisas coisas como "pronome adjetivo possessivo" (MEU jardim é grande) e "pronome substantivo" (o TEU é bonito). Não precisa.

(Pra ter português coerente, pense em espanhol.)

Eduardo disse...

Essa regra não faz muito sentido p/ mim. Que é que tem, botar artigo antes do pronome? Acho que estou dando uma de liberal à Alex Castro, mas, se é assim, o italiano também é bem nebulante, não?

http://www.aulafacil.com/Italiano/Lecc-8.htm

No fim, o que importa é a nebulância da mente que fala/escreve. Até o inglês tem a sua. Quer mais nebulância do que isto:

http://www.youtube.com/watch?v=_RjMSWhGWak&feature=related ?

Permafrost disse...

Duardo,
"Que é que tem, botar artigo antes do pronome?"

É redundante. O artigo antes do pronome não tem significado.

"Devolve o meu lápis" quer dizer a mesmíssima coisa q "Devolve meu lápis".

Tirando o artigo, economizo dois toques no teclado.

Note q a grande maioria dos escritores brasileiros e portugueses não têm muita consciência de qdo adicionam o artigo ou não, ou por quê. Até mesmo o Machado de Assis, apesar de regular, se enrola às vezes. Veja:

DOM CASMURRO
cap XII
Se se falava nela, em minha casa, prestava mais atenção que dantes...

cap XV
Que o meu desejo era nenhum, crê-se facilmente, sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. Meu desejo era ir atrás de Capitu...

cap XVIII
Quis saber a conversação da minha casa...
...certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre...
...fiquemos em que a minha amiga ... não quis saber de doce...

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
...ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver...


...Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores
... a gente frívola não achará nele o seu romance usual

cap I
Algum tempo hesitei ... se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte...
...o discurso que proferiu à beira de minha cova...

Eduardo disse...

É, eu já sei que é considerado redundante, mas se é possível falar assim sem causar estranhamento, então não acho que seja errado. Veja bem, não é possível, por exemplo, usar o artigo segundo a regra do inglês no português, por maior que seja a influência dessa língua.

Love is a beautiful thing.
Amor é uma coisa bela.

China is one of the world's oldest civilizations and is regarded as the oldest continuous civilization.
China é uma das civilizações mais antigas [do mundo] e é considerada a mais antiga civilização contínua.

He comes to work by taxi.
Ele vem para trabalho de taxi.

No primeiro caso, até que é possível falar assim, mas a presença de artigo causa uma sutil diferença no significado.

É que cada língua tem seu caminho. Por mais que a gente ache que o português é bagunçado, ele tem sua ordem. Uma racionalização assim, como vc propõe, é meaningless. No inglês, tentam fazer uma coisa parecida. Os gramáticos dizem que é errado concordar 'everybody' com pronomes e verbos no plural, como em "opinion is like ass, everybody have their own". A razão disso? É que no latim é assim. Nada a ver.

Pior do que dizer "o meu carro" é dizer "grande maioria", né, Perma? Já viste maioria pequena?

Permafrost disse...

Duardo,
Acho q deu linha cruzada. O artigo definido só é redundante qdo seguido dum adjetivo possessivo seguido dum substantivo. Por exemplo:

"As nossas idéias." é redundância de "Nossas idéias."

A redundância na primeira é pq tanto o artigo qto o adjetivo possessivo tão delimitando o substantivo: não são idéias quaisquer, são AS idéias; e não são idéias quaisquer, são NOSSAS idéias. Dizer "as nossas idéias" é overkill.

Nos casos q vc citou aí, não vejo tanta redundância: apenas a hiperatividade ansiosa das línguas latinas em geral, o tempo todo delimitando os substantivos insistentemente. Dois casos q vc não mencionou são:

• o artigo precedendo nomes próprios de pessoas (peculiaridade do português): "o Darci", "a Nanci";
• o artigo definido falando de plurais indefinidos (comum nas línguas latinas): "as girafas têm pescoço longo", confundido o conjunto de todas as girafas com um conjunto delimitado delas.

É interessante vc comparar com o inglês, pois nessa língua tá sempre muito clara a distinção entre o q tá definido e o q tá indefinido, e a definição/indefinição dum conceito é um aspecto centralíssimo da cognição-através-da-comunicação – um aspecto q, infelizmente, o português e seus parentes próximos administram com ineficiência espantosa.

Mas o português é o q é, e chega até onde chega; ponto. Minha emenda não desfigura o fenômeno; apenas escolhe coerentemente entre as duas opções praticadas.

Em tempo: 'grande maioria' expressa um conceito válido, assim como 'pequena maioria'. À grosso modo:
grande maioria = ~90%
pequena maioria = ~60%

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