04 abril 2010

Paz? Qual?

Nosso extremoso doutor há várias décadas prega no deserto da incompreensão interlingüística – o vasto ermo na travessia entre uma língua e outra, em q a semântica morre na implacável seca hipoplausivirótica. Tradutor ruim é uma das mais pestilentas espécies da ecologia humana: ignorante de sua própria infecção, pode infectar milhares, milhões, bilhões de outros invacinados. Muitos destes últimos, tbm ignorantes do vírus q lhes gororoba o cérebro, adicionam suas próprias hipoplausófias locais, contribuindo ainda mais pro amorfismo geral. Todo retrato vira o do menino choroso; toda história vira comédia romântica; toda notícia vira lição de vida.

Sendo hoje Páscoa, o Dr Plausível sai em defesa da Bíblia, tadinha, um dos textos mais deturpados por tradutores infectados e tendenciosos, e pelos seguidores mesmos das traduções, q as emendam pra acomodar suas próprias nebulosidades.

Veja por exemplo a versão de Eclesiastes 3:1-8 abaixo, com toda a cara de ter sido traduzida diretamente do inglês, essa língua tão bíblica qto o Pólo Norte:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer;
    tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar;
    tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir;
    tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;
    tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder;
    tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser;
    tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar;
    tempo de guerra, e tempo de paz.


Como se vê, já tem várias coisas q revisor bom mandaria de volta. ¿Tempo de arrancar o q se plantou? ¿Tempo de afastar-se de abraçar? ¿Tempo de perder? E ¿que hitória é essa de "tempo disto, tempo daquilo"? isso lá é português? E, pior, ¿que é essa coisa de "espalhar e juntar pedras"? O detector básico de hipoplausivírus já tocou o alarme aí. Mas antes de correjir os hérros vejamos a edulcoração q algum amador de olhos cor-de-rosa perpetrou numa versão q circula pela interneta:

Em vez de
Tempo de matar, e tempo de curar
colocou
Tempo de sentir saudade, e tempo de esquecer

Em vez de
Tempo de amar, e tempo de odiar
colocou
Tempo de amar, e tempo de sofrer

¿Não é de esbugalhar os olhos? Gugla, q vc acha.

Com o detector já chegando no "perigo: gargalhada", o doutor me encomendou uma nova versão, q foi por ele aprovada pra consumo judaico-cristão:

Tem hora pra tudo, e uma época pra cada atividade sob o céu:

Tem hora pra nascer e hora pra morrer,
hora pra plantar e hora pra capinar,
hora pra matar/abater e hora pra tratar,
(falando de animais de criação)
hora pra demolir e hora pra construir,

hora pra chorar e hora pra rir,
hora pra velar
(os mortos) e hora pra dançar,
hora pra apedrejar e hora pra juntar pedras,
hora pra abraçar e hora pra se afastar,

hora pra procurar e hora pra desistir,
hora pra guardar e hora pra jogar fora,
hora pra rasgar e hora pra costurar,

hora pra ficar quieto e hora pra falar,
hora pra amar e hora pra odiar,
hora prà guerra e hora prà paz.


De repente tudo fica tão mais claro, né? Eliminei toda aquela grandiloqüência troncha pra dizer coisas sem sentido... Note, nas versões tronhas, a edulcoração sistemática de palavras desagradáveis:

• MATAR > "sentir saudade"
• CAPINAR > "colher" (capinar = arrancar ervas daninhas)
• VELAR OS MORTOS > "lamentar"
• APEDREJAR > "espalhar pedras"
• DESISTIR > "perder"
• ODIAR > "sofrer"

Aposto q teu olho direito pulou qdo leu "apedrejar". Mas é a única tradução plausível. O texto já falou em demolir e construir, ¿por que falaria disso de novo? Outra possibilidade aventada seria ver 'pedras' como 'sementes', com 'espalhar pedras' = 'semear'; mas o texto já falou em plantar. Só resta o sentido de 'jogar pedras' = 'apedrejar'. Por outro lado, note como, após o preâmbulo, o poema é organizado como um soneto – por coincidência, é claro (o soneto como forma poética não existia, e separei os versos em estrofes artificialmente pra demonstrar a plausibilidade de 'apedrejar'):

• após o primeiro verso (q dá uma geral na vida: nascer e morrer) a primeira "estrofe" fala de administração duma propriedade rural
• a segunda fala de afecções pessoais e sociais
• a terceira fala de coisas materiais
• a quarta fala de harmonia e conflitos

Assim, pra manter o tom geral da coisa, o 'apedrejar' da segunda "estrofe" pode tar no sentido figurado de 'punir'. Igualmente, 'juntar pedras' pode ser 'recolher pedras', no sentido figurado ou de 'se desculpar' ou de 'relevar'; assim, eliminando a metáfora – mas ainda assim sacrificando o sentido original pra agradar às sensibilidades modernas –, a segunda estrofe ficaria:

hora pra chorar e hora pra rir,
hora pra velar e hora pra dançar,
hora pra punir e hora pra relevar,
hora pra abraçar e hora pra se afastar,


Muito melhor, hem? admite. Não é à toa q cobro os olhos da cara. (Mesmo assim, não fiquei contente. Pra apedrejar é preciso juntar pedras, não? Hm.)

Mas resta a pergunta: ¿não era pra ser "a palavra infalível de Deus"? ¿Que é q os crentes tão seguindo se deturpam as palavras e jogam as difíceis e as desagradáveis embaixo do tapete?

15 comentários:

Neanderthal disse...

Vende essa idéia pro Bispo Macedo.

Eduardo disse...

Veja só a versão que eu tenho aqui em casa. O prefácio diz assim:

"Devidamente autorizados, traduzimos a Bíblia dos monges beneditinos de Maredsous, religiosos beneditinos na Bélgica. É uma versão francesa dos originais hebraico, aramaico e grego, altamente conceituada no mundo inteiro pela crítica especializada."

O texto em questão:

"2-Tempo para nascer, e tempo para morrer;
Tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado;
3-Tempo para matar, e tempo para sarar;
Tempo para demolir, e tempo para construir;
4-Tempo para chorar, e tempo para rir;
Tempo para gemer, e tempo para dançar;
5-Tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las.
Tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se*,
6-Tempo para procurar, e tempo para perder;
Tempo para guardar, e tempo para jogar fora;
7Tempo para rasgar, e tempo para costurar;
Tempo para calar, e tempo para falar;
8-Tempo para amar, e tempo para odiar;
Tempo para a guerra, e tempo para a paz."

* (3,5) 'Ajuntá-las': sentido difícil, a esclarecer, talvez, por Eclo 21,9

E vamos para Eclo 21,9:

"Quem constrói a sua casa às custas de outrem é como aquele que amontoa pedras para (construir) no inverno"

Talvez não seja esse sentido certo de 'ajuntar pedras'.

Os católicos podem ter inventado a alienação no cristianismo, mas pelo menos seus eruditos são bem mais cultos que os pastores evangélicos (já viu evangélico estudando grego?). E sinceros, pois admitiram que não sabiam o significado certo do texto, eles falam quando o tal está obscuro.

Tire suas conclusões. Espero ter contribuído, de qualquer forma.

Permafrost disse...

Derthal,
Sem chance. As vertentes mais chãs da religião sobrevivem à base de mistificação. Eles lêem a Bíblia quase como speaking in tongues. Tem textos indecifráveis nos cultos deles. Além disso, trazer um texto "sagrado" ao vernáculo claro mostrar a mentalidade trivial camponesa-era-do-bronze de quem a escreveu.

Duardo,
Legal. Essa eu não conhecia. Achei o q deve ser o original aqui:
http://www.bibliacatolica.com.br/22/25/3.php

Nem precisavam ter dito q foi traduzido duma versão francesa. "Tempo para" é do francês "temps pour" q tanto em português como em francês passa a idéia de "tempo suficiente pra", como em "¿Vc vai ter tempo pra juntar pedras amanhã?" Mas o tradutor não sacou q a versão francesa não diz "temps pour" mas "(Il y a) *un* temps pour", q é o brasilês "(tem) hora pra", e não "(há) tempo pra". Lendo essa versão brasileira, parece q tão falando algo como "é preciso ter tempo pra calar e tempo pra falar, tempo pra amar e pra odiar, passar um tarde em Itapoã..."

Note tbm a gafe em "tempo para sarar", destradução do francês "un temps pour soigner". O tradutor conhecia 'soigner' q no coloquial às vezes se traduz por 'curar', às vezes por 'sarar'; mas seu sentido cabal é 'tratar' (a saúde de).

Eduardo disse...

Não entendo por que vc diz que 'tempo de/para' não é português. Se em francês, lingua latina também, e no próprio latim pode, por que português não?

"tempus nascendi et tempus moriendi tempus plantandi et tempus evellendi quod plantatum est "

Essa conversa toda me lembra este vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=3s7tGu2zKw8

Permafrost disse...

Duardo,
HAHAHAHAHAHAHA

Qdo qqer um pode abrir uma "igreja", dá nisso.

Meu ponto é q nenhum falante de português diz "tempo de plantar" naturalmente. O q diz é "hora de plantar" ou "época de plantio". Nenhum diz "há tempo pra tudo" qdo quer dizer "tem hora pra tudo". Qdo diz "há tempo pra tudo" o falante quer dizer "não precisa se apressar, temos tempo de sobra pra tudo".

Permafrost disse...

No linque, uma lista de "igrejas" existentes, muitas delas obviamente abertas apenas pra safar de impostos seus "pastores".

http://tinyurl.com/yleacdg

Eduardo disse...

Perdão, mas eu digo "tem tempo pra tudo" e sempre ouvi essa expressão desde criança.

Estamos discutindo essas bobas 'mistranslations' da Bíblia, quando na verdade tem coisa pior por aí. O livros espíritas, esses de Allan Kardec, por serem todos traduzidos do francês por esse tipo de gente inepta valeriam vááááários posts.

Outro dia, procurando saber sobre a vida de Krishna, comprei um daqueles livros de R$ 10,00 da Martin Claret, a editora dos plágios. Bizóia só o que tinha lá, na página 69 (ui!):

"[Krishna] Conta-lhes, então, o que há visto em si próprio: a história dos deuses e dos heróis, as guerras de Indra e as proezas do divino Rama."

'há visto' é demais, não?

http://www.martinclaret.com.br/home/livro_detalhe.asp?paNLivro=75

O brasileiro vive há tanto num universo traduzido que eu já nem sei o que é português.

camelo disse...

Caros amigos,
O link que o Eduardo postou acima ( http://www.youtube.com/watch?v=3s7tGu2zKw8 ) é de se estrebuchar de rir. Mais engraçado ainda é a história desse pastor evangélico. O sujeito fundou uma igreja com 12 seguidores, e a esposa de seu vizinho (que acompanhava assiduamente o culto) começou a ter uns sonhos estranhos - começou a sonhar que teria um filho com o pastor. Ela contou o sonho pro pastor, e o pastor (que já estava a fim de traçar a dita cuja) percebeu que estaria cometendo adultério se realizasse o tal sonho, pois também era casado. Então foi procurar na Bíblia se Deus permitia o adultério. E não é que achou!!! Mostrou o trecho para o vizinho (marido da dita cuja) como prova de que Deus não só permitia como também estimulava o adultério. O vizinho aceitou o argumento e permitiu a trepada. E o pastor comeu a vizinha com o consentimento do marido.
É perda de tempo promover uma tradução cuidadosa da Bíblia, pois os religiosos que a lêem acabam passando até mesmo por cima de acento agudo no intuito de justificar seus desejos e convicções.
Hoje estou convencido de que a Bíblia só pode ser perfeitamente entendida se for lida em português, pois só em português o verdadeiro nome do Criador se revela: Deus - um nome formado por "eu", ou por vários "eus". Não sei como os religiosos ainda não perceberam isso.

Permafrost disse...

Camelo,
Ótimas sacadas. O verdadeiro nome do criador se revela em português: dEUs. Brilhante! O vídeo mostra como a Bíblia e qqer livro sagrado é sempre apenas o pano de fundo sobre o qual cada tradutor, cada pastor, padre, rabino ou aiatolá, cada crente, fiel ou seguidor projeta seus próprios desejos, convicções e tendências pré-existentes.

Pracimademoá disse...

"Tempo para" é uma tradução errada, mas "tempo de" é correta. Vi isso imediatamente e fui buscar exemplos no Aurélio:

"Não tive tempo para ler os jornais; Ainda é tempo de reconsiderar sua decisão."

"o tempo da colheita; o tempo da estiagem."

Não tem nada de errado com o "tempo de" da tradução denunciada pelo Doutor.

Os outros erros acho que são erros mesmo. Estou de passagem com muita pressa, depois eu volto e analiso melhor. Falta também eu dar a tréplica naquele tópico dos prefixos, sufixos e que-que-é-ixos. Aquele assunto vai ser longo...

Permafrost disse...

Demoá,
Tanto "tempo de" e "tempo pra" existem sim e são corretos, como demonstrou o Houaiss. Mas não no sentido usado naquela passagem da Bíblia. Note, nos exemplos citados, as situações em q aparecem:

"Ainda é tempo de reconsiderar sua decisão." = o prazo/a janela de oportunidade ainda não passou

"o tempo da colheita" = note os artigos definidos, determinando uma situação específica; "o tempo de colher" pode aparecer numa frase como "O tempo de colher já passou." = essa oportunidade específica já não existe.

A passagem fala de circunstâncias em termos genéricos, querendo dizer "existem circunstâncias em q o correto/apropriado/natural/imprescindível é colher*, e outras em q é capinar". Nesse caso, o português tem a expressão "tem hora pra isso e hora pràquilo".


A menos q o falante tenha sido influenciado por traduções esdrúxulas como essa q citei, não imagino a frase "há tempo de colher e tempo de capinar", nesse sentido, saindo de sua boca ou de sua caneta naturalmente.

----
* em outras, o correto é garfo :•D

MIZAMED disse...

Enquanto tem gente preocupada com "virgulas"...outros ficam tentando melhorar o mundo.

Que bom que somos livres!

Permafrost disse...

Ué, ¿aumentar a inteligência, eliminar o ruído e aguçar a percepção não melhora o mundo?

O Dr Plausível não prescreve nada. Na certa, reconhecer a complexidade do mundo é mais realista e faz mais bem do q prescrever q 7 bilhões de pessoas em 190 países decidam ser iguais a mim.

Yuri disse...

Hum...
isso merece uma análise mais cuidadosa.
Principalmente pelo fato de termos um agnóstico que não prescreve nada.
Se bem que não há defesa ou ataque de hermenêutica...
Enfim, mais tarde, pois vou dormir.

Permafrost disse...

Yuri,
Legal. Manda ver.

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