23 março 2010

Ironies Inc. / Ironias S.A.

Trecho de Network. Na cena: Peter Finch e Ned Beatty; texto1 de Paddy Chayefsky.

video

Nosso euribático doutor tem tanta coisa pra se divertir nessa cena q ele nem sabe por onde começar.

Notem:
• a comparativa chinfrinice do português pra expressar idéias fortes em voz estentórea;
• q a estrutura do português tolhe a expressão de crescendos dramáticos de adjetivos em sintagmas nominais;
• q ela tolhe tbm a sucintez de sintagmas nominais só com substantivos;
• como as palavras portuguesas perdem expressividade com o deslocamento do acento tônico da raiz pro sufixo;
• q Network é de 1976; das 7 grandes firmas q o filme achou dignas de menção, só resta a Exxon entre as 10 maiores no mundo, mais a AT&T entre as 10 maiores nos Euá2;
• q agora em 2010 partes desse texto parecem tão ingênuas...; dizer q não existem povos é como dizer q não existe ferro: ambos são matérias-primas pros lucros empresariais; assim como fazem com ferro, as empresas pegam um povo e o derretem, fundem, forjam, moldam, vendem, usam, fadigam e sucateiam;
• q talvez algum dia não haja mais "nações e povos" no sentido usado aí, mas sempre haverá línguas;
• a leis intrínsecas (bylaws) q regem o comércio podem mudar duma hora pra outra, mas as leis q regem a cognição lingüística levam milhões de anos pra mudar.

Se vc quer vida longa pro português, mude-o: acÊntue as rÁizes, invEnte palAvras, sÍmplize a grÁmatica. Se não, já viu, né? Aliás, tá vendo.

Claro q é melhor deixar tudo como tá. O Dr Plausível não é bobo de se meter com gente armada.

-------

(1) Claro q sei q 'meddle with' não é 'se meter com'; e q 'price/cost' não é 'custo/benefício'; e outros detalhezinhos. Faço minhas traduções perguntando: "¿Como seria esse texto se tivesse sido originalmente escrito em português?"

(2)Entre as 100 maiores do mundo: Exxon (2ª), AT&T (29ª), IBM (45ª),
Entre as 100 maiores dos Euá: Exxon (1ª), AT&T (8ª), IBM (15ª), Dow (39ª), DuPont (77ª).
(Fonte.)

13 comentários:

Eduardo disse...

É meio difícil sÁir por aí fÁlando desse jeito, né? Aliás, o "i" de "raízes" já faz parte da raiz da palavra.

Permafrost disse...

Difícil? ¡É quase impossível! Mas pega um texto de jornal, por exemplo, e lê em voz alta pondo acento nos radicais. É outra história. Dá pra começar a entender por quê os ibéricos e ítalos perderam o bonde.

O radical de 'raiz' é 'rÁdix'.

camelo disse...

O filme "Network" (de 1976) foi inspirado na história de Christine Chubbuck - reporter que em 1974 cometeu suicídio ao vivo numa rede de tv americana. O filme em nenhum momento trata da história de Christine, mas retrata o que o americano comum pensava sobre os EU e a mídia americana no começo dos anos 70. E o suicídio de Christine foi a gota d'água, um acontecimento chocante, a prova cabal que muitos procuravam para validar esse pensamento.
Christine era uma repórter interessada em questões sociais e honestamente preocupada em informar com imparcialidade: uma jovem repórter com ideais nobres e ingênuos, característica muito comum entre os jovens do começo dos anos 70. Acontece que suas reportagens foram várias vezes substituídas por matérias sensacionalistas (do tipo "mundo cão" - blood and guts) com intuito de aumentar o ibope da rede. O suicídio de Christine não tem nada a ver com esse fato: na verdade, ela sofria de depressão profunda e tendência suicida. Mas, a história que chegou ao público americano era a de uma "mártir da verdade" oprimida pela ganância mercadológica e pelos interesses corporativos da mídia. Além disso, a rede de tv tentou explorar a repercussão do suicídio (reprisando a horrível cena), mas foi impedida pela família de Christine. E este fato veio corroborar ainda mais a idéia de que a mídia (para aumentar sua audiência, sua popularidade e, consequentemente, o número de contratos com seus anunciantes) passa por cima da ética e da sensatez.
"Network" retrata tudo isso e um pouco mais, e o script é uma obra-prima do cinema americano. Traduzi-lo para o português (respeitando todas as suas delicadas nuanças) seria produzir outra obra-prima.
O trecho acima chega a ter tons shakespearianos - um estilo muito difícil de se traduzir, pois apenas na língua inglesa encontramos esta tradição estilística. Como traduzir o texto acima de uma forma que o ouvinte brasileiro perceba esta sutil referência ao estilo de Shakespeare?

Permafrost disse...

Camelo,
¡Obrigado pelo informativo! Achei várias coisas na internet sobre essa Chubbuck.

Sobre "referência ao estilo de Shakespeare", acho q vc viajou na maionese, a menos q "o estilo de Sh." seja "a língua inglesa". Textos como esse e os de Sh. brotam naturalmente da sintaxe e fonética germânicas (não tenho dúvidas de q o alemão produz coisas assim tbm – embora com menos ginga).

Preciso dizer q fiquei longe de esgotar a lista de ironias nessa cena. O próprio conteúdo é super irônico e ficou ainda mais irônico nos últimos dez anos. A cara q o P.Finch faz ao dizer "I have the face of God"...

Eduardo disse...

Ah, sim! Tens razão. É 'rAdix', mesmo.

Ai ai. Hoje, o professor do cursinho mostrou algumas pérolas do Enem e eu pensei nessa história da sílaba tônica. Faz muito sentido.

Outra coisa: por que 'simpliZe' e não 'simpliSe'?

Permafrost disse...

Eduardo,
Achei q fazia sentido, por analogia com 'minimizar', 'suavizar', &c. Claro, alguém mais purista diria q deveria ser 'sÍmplicizar', mas aí daria no mesmo número de sílabas q o existente 'simplificar'.

Teressante, essa do Enem. ¿Tem algum exemplo?

Eduardo disse...

Ah, vai dizer que nunca ouviu falar das pérolas do Enem?! Por exemplo:

'Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais.'

'...menos desmatamentos, mais florestas aborizadas.'

'Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos.'

'Eu concordo em gênero e número igual.'

'É um problema de muita gravidez.'

Realmente, sua idéia de realçar os radicais das palavras na pronúncia é bem plausível.

Pracimademoá disse...

Cacilda, que post ruim!

Em primeiro lugar, você tem anglomania aguda e crônica. Esse papo de que certas coisas só são ditas adequadamente em inglês ou "só é possível filosofar em alemão" é uma tremenda balela amarela. Só diz isso quem não sabe escrever em português ou é baba-ovo de gringo. Eu acho que o autor deste post tem um pouco das duas coisas. É muito inteligente, tem sacadas geniais, mas sempre empregou um estilo de redação sui generis, típica de gente que, como se diz em inglês, "marches to his own drum". E exalta os povos anglossaxões com notável frequência.

Em segundo lugar, propor esse tipo de debate usando legenda de filme como laboratório é implausível. Legenda de filme é como aquela bosta do Twitter, está sempre sujeita a um limite parco de caracteres que prejudica a comunicação. Tradutor de legenda não faz o melhor, tradutor de legenda faz o possível. Esqueça esse joguinho de gol caixote, jogue num gramado de verdade, e você verá como a bola rola redondinha e permite toda espécie de dribles e grandes lançamentos em profundidade dentro e fora da grande área.

Em terceiro lugar, mudar a tônica das palavras? De onde foi sair uma idéia tão prepóstera? Isso só pode servir como remendo de fita adesiva para a preguiça e falta de educação que os humanos mais civilizados tentam combater há séculos. Ah, tá, lembrando que você odeia a NoCu, está perfeitamente explicado. Você sempre achou melhor escrever de qualquer jeito que der na veneta do que estudar algumas regras, todas sensatas. Quem estuda SABE qual é a raiz de um número bem grande de palavras, sabe o que está dizendo e sabe ter cautela com o que está lendo e ouvindo. Essa sua idéia só serve de muleta para quem não quer estudar.

Ademais, a negligência casual em relação ao radical dos vocábulos resulta em transformação de significados a longo prazo, o que é natural na linguagem. Querer engessar os radicais é tão contraproducente quanto querer engessar a língua com a norma culta, que você chama carinhosamente de NoCu. Aliás, os seus queridinhos americanos estão cagando para os radicais. Eles adoram portmanteau. Com o tempo, coisas que não eram radicais passam a ser. Por exemplo, "infoganda" dá sumiço na parte mais importante de "propaganda", que é o conceito de propagação, embora o seu significado esteja implícito, pois todo mundo sabe o que é propaganda. Mas olha só, faz parte da vida. Fenômeno semelhante ocorre com as inúmeras variantes de "retard" (como "celebutard"), que só mantêm "tard" e renegam a verdadeira raiz, que é "retard". Ou vai me dizer que estas palavras têm todas a mesma raiz: retard, bastard, custard, mustard, petard.

Outros bons exemplos são artivism, bankster, camcorder, econocrat, infotainment, advertorial, paratroop, rockumentary. Cadê os radicais? Estão todos lá, mas sofreram metamorfoses ou foram destituídos por radicais novos.

Esta linha de raciocínio revela uma certa carga de contradição na sua postura: você renega a autoridade da NoCu, mas defende a autoridade de radicais oriundos do grego e do latim, e todos do tempo em que ninguém sequer tinha ouvido falar em Jesus Cristo. Por que cargas d'água ainda temos que bater continência para os radicais gregos e latinos? Só padre ainda fala latim, e a Grécia não tem prestígio nenhum há milênios. Falar grego hoje em dia é como falar turco ou farsi: ninguém liga. O tempo passa, as civilizações mudam, as línguas evoluem, e os radicais se transformam. Então por que engessar as tônicas e prestar reverência para os radicais? Por que os radicais são tão sagrados para você e a NoCu é tão execrada? Você é progressista ou conservador afinal de contas?

Permafrost disse...

Eduardo,
Viajei na maionese. Tava pensando em outra coisa. "Raios ultra-violentos" e "gênero e número igual" mataram a pau. Mas o fenômeno existe em todas as línguas. Em inglês tem um livro muito engraçado coletando essas pérolas chamado "Anguished English", dum tal de Richard Ledderer . Na internet tem um monte de citações do livro.

Demoá,
Vc pegou a coisa pelo lado errado – ou pelo menos por um lado q eu não propus.

(1) Não se trata de q "certas coisas só são ditas adequadamente em inglês", nada disso. Se trata, sim, de q certas coisas são ditas mais eficientemente em certas línguas do q em outras, e q certas línguas têm um repertório maior de expressão devido a características intrínsecas nela. Pega, sei lá, o alemão dum lado e o tupi do outro, e vc vai ver q certas coisa em tupi são impossíveis de expressar com eficiência (ou graça ou sucintez) em alemão, mas é muitérrima maior a quantidade de coisas em alemão impossíveis de expressar em tupi. Mude o tupi, alargue seus horizontes, injete 500 anos de debate contínuo em todas as áreas do conhecimento e ¡presto!: não vai dever nada ao alemão.

(2) É verdade q legendagem de filme tem limites de caracteres &c. Mas essa crítica não se aplica ao caso aqui pq fiz questão de fazer a legenda sem omitir um único semantema do original. Por outro lado, não digo q o português não permite certos dribles e jogadas. Aliás, tua metáfora esportiva vem bem a calhar. O futebol é jogado com os pés e esse detalhe fundamental determina vários aspectos do jogo em vários níveis. O futebol tem uma dinâmica própria *porque* se joga com os pés; o basquete tem outra dinâmica *porque* se joga com as mãos; &c. O jogo internacional de hoje tá mais ou menos determinado pela dinâmica-basquete do inglês, coisa q não é boa nem ruim. Já o português, tá querendo jogar futebol em quadra de basquete, então das duas uma: ou impõe sua dinâmica-futebol ao mundo ou aprende o q faz o basquete dar mais certo do q o futebol. (A propósito, ¿que quer dizer "joguinho de gol caixote"?)

(3) Sobre a tônica das palavras, longe de mim propôr isso seriamente. Seria uma utÓpia. Mas... pegando o gancho do texto da patroa q acabei de publicar, ¿vc não acha no mínimo interessante q o espiritismo kardecista tenha florescido principalmente em países latinos? ...q o país em q mais se publica livros "psicografados" seja o Brasil? ...ou seja, q as línguas em q as palavras não são o q elas são tbm produza livros escritos por quem não os escreveu?

A latinidade desloca o foco da semântica prà gramática.

É como se estas duas frase tivessem o mesmíssimo peso semântico:

O reviSOR radiCAL expresSOU uma opiniÃO divaGANte.
O recepTOR lateRAL efetuOu uma operaÇÃO deslumBRANte.

Note o q acontece em tua *percepção* qdo vc pôe o acento nos radicais:

O reVIsor RAdical exPRESsou uma oPInião diVAgante.
O reCEPtor LAteral eFEtuou uma Óperação desLUMbrante.

De repente várias impressões latentes ficam cristalinas. Pra mim, é lucro.

Achei impressionantes teu conhecimento de inglês e teus argumentos. Mas, como já disse, vc tá pegando a coisa por um lado q não propus. Apesar de eu admirar a língua inglesa &c, os euaenses tão longe léguas de ser meus "queridinhos". E tua análise da dissociação dos radicais tá meio falha. Primeiro, q muitas dessas palavras q vc citou são brincadeiras; segundo, q brincadeiras com as palavras é JUSTAMENTE o q o foco nos radicais facilita; terceiro q o radical de 'retard' *é* 'tard' (como em 'tardio'); o de 'recorder' é 'cord' (do francês 'coeur', coração, presente em português na expressão 'saber de cor', [...]

Eduardo disse...

O Pracimademoá tem certa razão. Veja bem: o alemão, como se encaixa nessa? O alemão tem essa vantagem sobre o português, a fonética. Mas a gramática deles é horrível. Quando comecei a estudar, duvidei seriamente que alguém falasse essa língua de verdade. Só passei a acreditar quando vi gravações de gente falando mesmo.

Os alemães simplificam (verbos) e complicam (nomes), ao mesmo tempo, a gramática excessivamente justo onde não deviam. Eles ainda têm uma ordem de termos completamente louca, que obriga o interlocutor a decorar toda a frase para, só no fim, saber o que aconteceu. O vídeo aí com certeza não teria, em alemão, esse efeito que você afirma ter em inglês. Seria patético o embananamento com a ordem dos termos. E como é que 50% das grandes mentes do mundo podem ter pensado nessa língua obscura? A língua só não explica o atraso de um povo.

(Veja o que Mark Twain escreveu sobre sua aventura com o alemão: http://www.crossmyt.com/hc/linghebr/awfgrmlg.html)

O alemão nunca saiu de sua casa. O português (!), o espanhol e o inglês, por outro lado, são línguas colonizadoras e fortes por excelência. O alemão, sinceramente, não serve para a tecnologia. Nem para a filosofia, ou literatura... O alemão só serve para os alemães.

Uma língua só é forte quando utilizada. Ela DEVE ser utilizada. O português, o do Brasil, especialmente, é uma produto da tentativa de entedimento de vários povos. Os indígenas e os africanos, quando tiveram que aprender nossa língua, acabaram por torná-la mais fluida. De uma maneira que ainda não descobrimos, algo que vai além da vogal tônica. O inglês e o alemão têm a vogal tônica e a explicitude; podem ficar com elas: nós temos a experiência. As implausibilidades às quais você já dedicou vários posts vêm da NoCu, ou melhor, da péssima formação dos que a formularam.

O Alex Castro já falou sobre a força da nossa língua (no artigo 'Em defesa da língua portuguesa'). Como é que você explica o fato de o brasileiro viver rodeado da cultura anglo-saxônica neste mundo dominado por ela e não ser capaz de formular uma frase ou ler um livro em inglês? Jovens da classe média jogam vídeo games completamente nessa língua sem problemas, mas não entendem um simples parágrafo nela. Música brasileira é a mais vendida no Brasil. É a baixa escolaridade do brasileiro? Putz, a minha irmã é formada em Direito e, há poucos dias, reclamou no MSN que vai ter que ler um livro em inglês para seu mestrado. E olha que ela ainda fez curso por alguns anos.

Acho que passamos tempo demais procurando uma justificativa do atraso do Brasil em vez de fazer algo a respeito.

(Ô texto cumprido, heim? Desculpa aê)

Permafrost disse...

Eduardo,
A complexa fonética do inglês determina q sua estrutura tem q ser simples. Ela é uma língua de tipologia 99% SVO (sujeito-verbo-objeto): "João segurou o gato pra q Maria injetasse o remédio." O alemão prefere SVO nas orações principais e SOV nas subordinadas: "João segurou o gato pra q Maria o remédio injetasse." O japonês é primordialmente SOV: "João o gato segurou pra q Maria o remédio injetasse." O galês é VSO: "Segurou João o gato pra q injetasse Maria o remédio."

Um dos problemas do português vem de sua ãã "riqueza" (outros diriam baderna) de tipologias no cotidiano:

SVO:
João segurou o gato.

VS(I)
Chegou uma carta pra vc.
Vai acabar a cerveja.


VOS
Matou vinte, esse cara.
Vai levar chumbo, vc.


OSV
Alguma coisa ele faz.
Minha a culpa não foi.


VSO (em poesia)
Beijou João sua amada.
Não beberá João este vinho.


Vc parece crer q a dificuldade q o brasileiro tem pra aprender inglês é sinal da força do português. Já eu, acho q é sinal da baderna cognitiva q o português implanta na cabeça do sujeito. O português cotidiano se caracteriza por uma mistura constante de tipologias:

SVO VS OSV OV VS-OV VOS
Eu fui pegar caneta e papel mas acabou a luz. A caneta eu achei mas o papel não deu pra achar. Então não venha vc me xingar agora. Não foi minha, a culpa.

O problema dessa mistureba é q cada situação específica se associa a uma determinada tipologia episodicamente, como se toda estrutura fosse uma interjeição q devesse ser aprendida experiencialmente. Ou seja, o portuguesante tem q aprender não só o léxico, as concordâncias, &c, mas tbm um repertório de tipologias e onde aplicá-las. O português é uma língua consuetudinária – mais baseada em hábitos e costumes do q num sistema léxico q espelhe a realidade através de regras simples. Todas as línguas fazem um pouco isso, claro, inclusive o inglês. Mas no português é demais da conta.

Contraste a constante mistureba do português com a constância do SVO no inglês:

I went to get pen and paper but the lights went out. I found the pen but (I) couldn't find the paper. So don't you yap at me now. It wasn't my fault.

A postura do Demoá seria q a constância do SVO é perfeitamente aplicável:

Fui pegar caneta e papel mas a luz acabou. Achei a caneta mas não foi possível achar o papel. Então não venha xingar-me agora. A culpa não foi minha.

Mas veja esta:

Caneta e papel eu fui pegar, sim, mas acabou a luz. A caneta achei mas o papel não deu. Não venha então agora me xingar. Minha a culpa não foi.

O português acaba ficando uma língua amorfa. Eu adoro: é uma língua mais natural e com ela dá pra ser biruta parecendo normal. Se o português fosse a língua dominante no mundo, certamente não seríamos assolados tão dolorosamente pela merda existencial q esse trecho do filme denuncia. Mas ¿será mera coincidência q o brasileiro aceite TANTA coisa como normal – na língua assim como na sociedade, na política, &c? Hm.

E ¿por que acontece isso? ¿por que isso acontece? Pq a maioria das palavras portuguesas não têm CENTRO: a classe gramatical (verbo, adjetivo &c) duma palavra é mais evidente do q seu significado, então a ordem das palavras não é tão importante como é em inglês ou alemão ou japonês. É uma ilusão esperar q uma língua tão volátil como o português se regrifique, ou q – num mundo determinado pela ciência, eficiência e criatividade – seus falantes como um todo tenham coisas a dizer muito além do q o linguajar cotidiano permite. Em inglês, alemão e japonês, vc pode pegar uma frase num livro de [...]

Neanderthal disse...

Caralho! Esse último post foi melhor que o post original. Me fez pensar que talvez aquela imagem que funde o presidente Lula com o mestre Yoda tenha um fundo de verdade.
CONCLUSÃO: o ideal é saber português E inglês!
Abs

Eduardo disse...

Eu não disse que o brasileiro tem dificuldade de aprender o inglês. Dificuldade têm os chineses (!), que chegam mesmo a fazer cirurgia na língua para melhorar a pronúncia. O brasileiro não aprende porque não precisa. Muito. Só pode ser uma das duas coisas: 1) desenvolvemos uma cultura auto-suficiente; 2) somos muito jecas. Ou as duas coisas juntas, sei lá... Se o inglês é tão mais fácil e prático e útil, por que não aprendemos assim (plec), num estalar de dedos?

Eu não estou batendo na tecla da 'riqueza' da língua, mas há relatos de que os índios aprendiam português e espanhol melhor que as línguas germânicas na época da colonização.

O problema, na minha opinião, são os gramáticos e as pessoas que normatizam a nossa língua, que não respeitam a origem, as estruturas antigas, nem os falantes atuais. Eles fazem, ao mesmo tempo, regras que ninguém vai seguir e corroboram as barbaridades que a mundiça diz na rua. Por que não obrigam todo mundo a usar o verbo corretamente na 2ª pessoa (o que seria bem útil para a nossa 'ordem' dos termos da oração) em vez de proibi-las de falar "antes que tudo exploda", ou "dinossáurico"? E ainda fazem 'acordos' ortográficos a cada 15 anos para vender dicionários!

As implausibilidades que você tanto denuncia vêm dessas pessoas. Veja só um relato que eu achei por aí de um nativo do inglês aprendendo português:

"The language is also simply beautiful, and although to the learner the flexibility in sentence structure and pronoun placement seems like an absolute headache, if you read enough poetry and literature you come to appreciate this flexibility and how the skilled wordsmith can use it to their advantage. "

http://forum.wordreference.com/showthread.php?t=1162527

E o mais legal: ele não vai ter de aprender as outras estruturas que lhe são dor-na-caixola! Ele pode viver até a morte (não!) aqui no Brasil falando na ordem direta. Se quiser, pode aprender outras para dar mais efeito no que diz, mas é opcional.

Outra coisa: não seria mais realista pedir para as pessoas simplesmente realçarem os radicais na hora de falar, em vez de pedir para mudarem a sílaba tônica? Ficaria assim:

# enrÔlÁdo
# crÍÂnça
# trÂnspÓrte
# engrÁçÁdo

Com duas sílabas tônicas como em hEterossexuAl. Será que é boa idéia?

Postar um comentário

consulte o doutor