11 março 2010

Assunto intratável, proposta utópica, texto chato

Nosso enfático doutor não se mete na vida dos outros e tá longe de aconselhar qqer um a não ler traduções. Mas... tampouco se priva de aventar q a dependência brasileira de traduções é quase como uma placa de Petri prà disseminação do hipoplausivírus no populacho. Ser diariamente bombardeado por non-sequiturs, inconsistências, ilogicidades e birutices em filmes, livros, jornais e revistas não deve ser a melhor maneira de desenvolver o intelecto. Dá dó ver qta burraldice é enfiada na cachola do brasileiro médio q tá ali inocentemente tentando se divertir, se culturar ou se informar.

A idéia (proposta no texto anterior) de comitês produzindo traduções oficiais dos clássicos literários, respaldadas pelo Estado, jamais vingará, claro. Qdo muito, uma ou outra editora há de entender q suas traduções deveriam funcionar como funcionam artigos em revistas científicas: um cientista ou uma equipe de cientistas envia um artigo a uma revista e esta – q não é trouxa de publicar qqer coisa – envia o artigo pra ser revisado confidencialmente por vários outros cientistas; estes propõem mudanças ou até reprovam o artigo completamente, e ele só é publicado com o aval de todos.

Mas além dos grandes clássicos, há outro campo infestado de traduções deficientes – um campo q bem poderia oficializar suas traduções: os filmes. Do jeito q tá, é um caos. O filme passa nos cinemas com legendas. Aí uma emissora de tv aberta decide transmiti-lo e encomenda uma tradução pra dublagem. Meses depois, algum canal a cabo decide o mesmo e encomenda uma tradução pra legendagem. Aí outra emissora aberta quer passar o filme e encomenda mais uma legendagem. Aí ele é (ou era) lançado em vídeo e mais uma legendagem é feita. Aí é lançado em dvd, e mais uma. Aí aparece uma edição especial do filme com mais outra.

E cada nova legendagem ou dublagem tem sua própria plantação de abobrinhas.

Pensem no estúdio ou diretor ou produtor dum filme. Ele arregimenta centenas e centenas dos melhores profissionais diretos ou indiretos pra cuidar dos cenários, figurinos, equipamentos, maquiagem, sotaques, trilha sonora, efeitos especiais, &c &c &c, durante meses a fio, pra fazer um filme todo bonitinho; aí manda o filme pro Brasil e ele é traduzido numa semana por UM tradutor mal pago e metido a sabido, qdo muito tbm UM revisor pior pago, e os dois juntos se entregam a passar apenas a idéia principal dos diálogos, espatifando no caminho trocentos outros detalhes q vários profissionais antes deles se esmeraram pra deixar verossímil, q os atores deram o melhor de si pra enunciar convincentemente, q os técnicos de áudio fizeram faculdade pra gravar claramente. Claro q há tradutores excelentes; eu mesmo conheço dois tradutores absolutamente geniais (e q "coincidentemente" não se entregam às imbecilidades da NoCu; mas isso é outra história). Todos sabemos q são raros, tal como era raro achar água limpa 200 anos atrás. Num país culturalmente de joelhos como este, a qualidade da tradução deveria ser vigiada e regulamentada como questão de saúde mental pública.

E se vc fosse o produtor, ¿não iria querer controlar tbm as traduções? Todo lançamento de filme no Brasil – exatamente como faz a Microsoft com a tradução de seus programas – deveria ter a tradução afiançada pelo produtor original, bem paga por ele, com dublagem e legendagem feitas pela mesma equipe, sujeitas a melhorias futuras, e com a proibição de exibição com qqer outra tradução. O filme e sua tradução deveriam formar um pacote único.

¿Será q nosso exímio humanista tá exagerando? Acho q não. Agora vem a parte chata deste texto.

ESTUDO DE CASO:
Um bom exemplo do pobrema é My Fair Lady, baseado na peça Pygmalion, de G.B.Shaw. Uma das peças mais originais dum gênio teatral inglês foi musicada por dois gênios da Broadway; o musical foi transformado em filme por um grande diretor num dos maiores estúdios de Hollywood com um elenco de primeira; a produção custou 17 milhões de dólares e tomou 8-9 meses de intenso trabalho; ganhou 8 Oscars. No Brasil, virou quase uma rotina despedaçar o texto e seus inúmeros detalhes. Dentre umas dez ou mais traduções diferentes dessa peça ou filme, analisemos uma tradução de Pygmalion e quatro legendagens diferentes de My Fair Lady. Veja os códigos q vou usar:

MF: Tradução da peça, publicada em livro. A capa diz "Tradução de Millôr Fernandes". A contracapa faz esta hilariante declaração: "Neste livro Millôr Fernandes faz muito mais do que uma tradução. Enfrentando a enorme complexidade da obra de Shaw, Millôr adapta e recria, conseguindo a proeza de transmitir na íntegra o sabor e a genialidade do texto original." Sim, conseguiu a proeza de adaptar e recriar tudo aquilo no original cuja complexidade não entendeu. HAHAHAHA Excelente humorista, sofrível tradutor.
VID: Tradução pro videocassete.
TCN: Tradução pro Telecine, da tv a cabo.
DVD1: A primeira tradução pra dvd.
DVD2: A edição atual do dvd. A melhor tradução até agora. O tradutor, embora um pouquinho duro nas juntas, é inteligente e lúcido, e tem um amplo repertório em português. Mas MESMO assim não entendeu várias coisas no original.

Seguem-se APENAS os pontos mais baixos dessas traduções. É uma pequena amostra do problema – não só pq inclue apenas uns 30 minutos dum filme de 2½ horas, como tbm pq inclue apenas os erros mais sérios, exceto os da versão DVD2, da qual resolvi incluir *todos* os erros. Dou:

o original em fonte normal
a tradução com o problema em negrito
uma correção/sugestão minha em itálico
(uma breve explicação entre parênteses)

Omiti as inúmeras gargalhadas do doutor.

(prefácio) The English have no respect for their language, and will not teach their children to speak it.
MF: Os ingleses não respeitam sua língua, e não sou eu quem vou ensiná-la a seus filhos.
...e não ensinam seus filhos a falá-la.
(¿Que catso tava pensando o tradutor qdo se saiu com essa? ¿Que tem a ver com G.B.Shaw?)

(prefácio) ...he was squeezed into something called a Readership of phonetics there.
MF: ...ele acabou sendo lá espremido para uma coisa chamada leitura de fonética.
cadeira/curso de fonética
(Aqui o livro deveria ter incluído uma nota de rodapé, explicando o q é um 'readership' numa universidade britânica; um 'reader' é tipo um 'professor adjunto'.)

(prefácio) ...his pupils ...swore by him; but nothing could bring the man himself into any sort of compliance with the university...
MF: ...todos absolutamente dedicados a ele; mas nada podia fazer com que o homem em si se comprometesse em qualquer grau com a universidade...
...nada conseguiu fazer com q ele próprio aceitasse as regras e costumes da universidade...
(A questão posta é q Henry Sweet era indomável, não q era inconfiável.)

Mãe: What can Freddy be doing all this time? He's been gone twenty minutes.
Filha: Not so long. But he ought to have got us a cab by this.
MF: -Onde é que Freddy se meteu esse tempo todo? Saiu daqui há mais de meia hora.
-Que é isso? Não tem nem dez minutos. Está arranjando o táxi.
- (...) Saiu daqui já faz vinte minutos.
-Nem tanto. Mas já deveria ter arranjado um táxi.

(A mãe já sabe q Freddy foi buscar um táxi; não faz sentido a filha informá-la disso.)

(instrução de cena) He is a young man of twenty ... very wet around the ankles.
MF: É um rapaz de vinte anos, já com acentuada gordura na cintura.
...com a barra da calça toda molhada.
(A primeira cena se passa durante uma chuvarada, e a instrução diz como o personagem deve subir ao palco.)

Pickering: I'm afraid not. It is worse than before.
VID: Acho que não, está pior que no outono.
...está pior do q antes.
(O tradutor tirou o texto de ouvido, e entendeu "than in the Fall".)

Liza: I can change half-a-crown. Take this for tuppence.
DVD2: Eu troco meia coroa pro senhor. Leva essa, só dois centavo.
...Leva esta por dois pence.
(A tradução ignorou o sistema monetário britânico da época. Essa é uma mania relativamente recente de tradutor: fazer a conversão monetária.)

Liza: I'm a respectable girl, so help me.
DVD1: Eu sou uma garota de respeito, ajude-me.
...meu Deus.
("So help me" é uma contração de "so help me God" ou "swelp me God": valha-me Deus.)

Homem: You be careful: give him a flower for it.
DVD2: É melhor tomar cuidado ou até mesmo lhe dar uma flor.
Cuidado: entrega um flor pra ele.

Liza: Oh, sir, don't let him charge me, you dunno what it means to me.
TCN: Não façam queixa! Sabem o q acontece.
Seu moço, não deixa ele me autuar. É muito importante pra mim.
(O 'it' em "what it means to me" se refere a sua liberdade de vender flores. Em português, fica infra-subentendido.)

Liza: They'll take away me character and drive me on the streets for speaking to gentlemen.
VID: Não fiz nada, falem com o cavalheiro.
DVD2: Vão manchar minha honra e me largar na rua só por falar com cavalheiros.
Vão me tirar minhas referências e me obrigar a mendigar, só por ter falado com gente fina.
(Um 'character' era mais ou menos o q no Brasil se chama de 'referências', só q oficial, e permitia aos pobres trabalharem na rua sem risco de serem presos por vadiagem.)

Homem: It's all right: he's a gentleman: look at his boots.
MF: Ele quer te ajudar, ouve ele. É um doutor, não tá vendo? Olha só as bota dele.
Não tem problema. Ele é um grão-fino.
(Higgins não quer ajudar ninguém, nunca. E sim, eu sei a NoCu diz q é 'grã-fino'; mas o personagem não saberia.)

Liza: On my Bible oath, I never spoke a word.
VID: Não sou imbecil, não disse nada.
DVD2: Garanto, nunca falei nada de mau.
Juro por Deus q eu não disse nada de mais.
(Todo mundo acha q 'never' quer dizer 'nunca'; na verdade, quer dizer 'em nenhum momento'. "I never saw him yesterday." quer dizer "Não o vi em nenhum momento ontem.")

Homem: Blimey, he's a blooming busybody.
VID: Credo, isso daria um negócio e tanto.
Credo, esse cara é um enxerido da peste.

Liza: Let him say what he likes. I don't want to have no truck with him.
MF: Deixa ele falar o que bem quiser – eu não quero é encrenca.
Não quero nem saber desse cara.

Pic: May I ask, sir, do you do this for your living at a music hall?
Higgins: I've thought of that. Perhaps I shall some day.
MF: Sabe que eu nunca pensei nisso? Mas não é uma má idéia.
Já pensei nisso. Talvez faça, um dia.
(Senso de humor, please.)

Pic: Is there a living in that?
Hig: Oh, yes. Quite a fat one.
DVD: -Serve para alguma coisa?
-Sim.
-Dá pra viver disso?
-Ah, sim. Fartamente.

(Esse é exatamente um dos pontos q G.B.Shaw tava frisando nessa peça.)

Hig: Woman! Cease this detestable boohooing instantly; or else seek the shelter of some other place of worship.
MF: Ô mulher, pára com essa choradeira estúpida, pelo amor de Deus! Ou então vai chorar noutro abrigo, noutro altar, noutro diabo que te carregue.
Mulher, pare com essa choradeira insuportável agora mesmo, ou então vá buscar abrigo em outro templo.
(A cena inicial se passa no pórtico da igreja de São Paulo, em Londres, durante uma chuvarada.)

Hig: Remember that you're a human being with ... the divine gift of articulate speech.
TCN: Lembre-se de q é um ser humano com ... o dom divino da palavra bem pronunciada.
...o dom divino da fala.

Hig: ...don't sit there crooning like a bilious pigeon.
MF: ...não fica grunhindo como um porco que acabaram de castrar.
VID: Não arrulhe como um pombo da Bíblia.
...não fique aí resmungando tal como uma pomba irritada.

Hig: I could pass you off as the Queen of Sheba.
DVD: Faria você passar pela rainha de Sheba.
DVD2: Poderia fazer com que a tomassem pela rainha de Sheba.
Eu conseguiria fazer vc parecer a rainha de Sabá.

Liza: You ought to be stuffed with nails, you ought! Take the whole blooming basket for sixpence.
MF: U sinhô dirvia sê rechiado de chumbu dirritido. (...)
DVD1:Você deve ter um coração de pedra, deve sim! (...)
DVD2: (...) Leva a porcaria da cesta por seis centavos!
Seu mão-de-vaca, pão-duro, unha-de-fome! Leva a cesta inteira por seis pence.
(Liza tá acusando Higgins de sovinice; mas a frase dela é farsesca e exagerada.)

Homem: The missus wants to open up the castle in Capri.
DVD2: A senhorita quer construir um castelo, em Capri.
A madame quer passar o inverno em seu castelo em Capri.
(A madame supostamente já teria o castelo. Durante o resto do ano, ele ficaria desocupado e fechado.)

Liza: Lots of coal making lots of heat.
DVD2: Montes de carvão no fogão
Montes de carvão pra me aquecer.
(Nada a ver com cozinha.)

Liza: I would never budge till spring crept over me window-sill.
TCN: Eu não me mexeria até a primavera, debruçada no parapeito da janela.
DVD2: Sem nem um dedo mexer até a primavera, pendurada na janela.
Eu não me mexeria até a primavera entrar pela janela.
(Liza tá se imaginando confortavelmente instalada numa poltrona durante o inverno.)

Pic: Must I? I'm quite done up for one morning.
DVD2: Será preciso? Acho que estou bastante confuso para uma só manhã.
Preciso mesmo? Já tou muito cansado / Já foi demais pra uma manhã.

Hig: Oh, that's all right, Mrs. Pearce. Has she an interesting accent?
Mrs Pearce: Oh, something dreadful, sir, really. I don't know how you can take an interest in it.
MF: -Oh, está tudo bem, madame Pearce. É engraçada, a pronúncia dela?
-Uma coisa verdadeiramente horrorosa, para o meu ouvido. O que significa que o senhor vai achar maravilhoso.
Uma coisa pavorosa. Mesmo. Não sei como o sr. pode se interessar por essas coisas.
(Ninguém chamaria a própria empregada/governanta de 'madame'. Além disso, MF entendeu Dª. Pearce exatamente errado.)

MsP: I should've sent her away, only I thought perhaps you wanted her to talk into your machines.
VID: Deveria tê-la mandado embora (...)
TCN: Devia tê-la despachado (...)
DVD1: Eu devia tê-la mandado embora (...)
DVD2: Deveria tê-la dispensado, mas pensei que, talvez o senhor quisesse fazê-la falar na sua máquina.
Eu a teria mandado embora (...)
(A rigor, shall/should é a 1ª pessoa de will/would; a linguagem de Dª. Pearce é super formal, e ela fala ãã... "corretamente".)

Hig: ...and then we'll get her on the phonograph so that we can turn her on whenever we want.
VID: ...e, depois, para o fonógrafo para poder transformá-la no que quiser.
...ligá-la qdo quisermos.

Liza: Oh, we are proud. Well, he ain't above giving lessons, not him. I heard him say so.
DVD1: Estamos orgulhosos. Bem, ele pode ensinar. Eu ouvi ele dizer isso.
Oh, que nariz empinado. Mas ele não é tão fino q não possa dar aulas. Ele mesmo disse.

Hig: Should we ask this baggage to sit down?
Liza: I won't be called a baggage when I've offered to pay like any lady.
MF: Num mi chama di troxa, não. Eu num qüero. Eu poussu pargá como quarqué madama.
¿Por que me chama de mala se tou querendo pagar q nem qqer madame?
(A entonação meio chorosa de Liza ao dizer isso aceita a transformação pruma pergunta.)

Liza: I thought you'd come off it for a chance of getting back a bit of what you chucked at me last night. You'd had a drop in, hadn't you, eh?
VID: (...) Está interessado, não?
TCN: (...) Q golpe de sorte, não?
DVD1: Pensei que você não me daria a chance de lhe devolver um pouco do que você atirou em mim, ontem. Agora eu te peguei, hein?
DVD2: (...) Já ficou mais interessado, hein?
Eu sabia q vc ia deixar de manha pra tentar reaver um pouco do dinheiro q me deu ontem. Vc tava meio mamado, ¿não tava?

Hig: [peremptorily] Sit down.
Liza: If you're going to make a compliment of it...
VID: Esqueceu de me cumprimentar.
Se vc fosse mais educado...
(Liza tá sendo um pouco sarcástica aí.)

Liza: A lady friend of mine gets French lessons for eighteenpence an hour from a real French gentleman.
DVD2: Uma amiga minha faz aula de francês e paga 18 centavos por hora para um francês de verdade.
Uma amiga minha tem aula de francês com um francês legítimo e paga só 18 pence a hora.
(A estrutura do original é "gets lessons from somebody", mas o tradutor estruturou como "paga dinheiro pra alguém", criando uma confusão entre 'francês' a língua e 'francês' o professor.)

Hig: Remember: that's your handkerchief; and that's your sleeve. Don't mistake the one for the other if you wish to become a lady in a shop.
MsP: It's no use talking to her like that, Mr. Higgins: she doesn't understand you. Besides, you're quite wrong: she doesn't do it that way at all.
MF: Além disso, o senhor está completamente enganado: ela sabe usar um lenço muito bem.
Além disso, o sr. errou aí: não é assim q ela assoa o nariz.
(Dª. Pearce quer dizer q Liza não limpa o nariz na manga: ela assoa o nariz com o dedo, espirrando a meleca no chão.)

Pic: You're certainly not going to turn her head with flattery, Higgins.
MsP: Oh, don't say that, sir: there's more ways than one of turning a girl's head; and nobody can do it better than Mr. Higgins, though he may not always mean it.
MF: -Acho que com essa espécie de lisonjas, você não vai mudar o comportamento dela, Higgins.
-Não aposte nisso, coronel. Ninguém sabe ser mais lisonjeiro do que o professor, mesmo quando faz tudo ao contrário.
-A moça certamente não vai ficar fascinada com tuas lisonjas.
- (...) Há muitas maneiras diferentes de fascinar uma moça; e ninguém consegue fazer isso melhor do q o sr. Higgins, embora nem sempre seja essa sua intenção.

(Dª. Pearce quer dizer q Liza corre perigo de se apaixonar por Higgins, até com ele tratando-a mal.)

Hig: What is life but a series of inspired follies?
MF: Que é a vida senão uma tentativa de organizar a loucura?
¿Que é a vida senão uma série de loucuras inspiradas?
(Aqui, foi Higgins q MF entendeu exatamente errado.)

Pic: What about your boast that you could pass her off as a duchess at the Embassy ball?
DVD2: O que me diz de sua aposta, de que poderia fazê-la passar por duquesa no baile da embaixada?
...bravata...
(A aposta não surgiu ainda; e quem faz é Pickering, não Higgins.)

Hig: We want none of your slum prudery here, young woman.
DVD1: Não queremos aqui o seu palavreado miserável, mocinha.
...puritanismo de favela...

Hig: What's the matter?
MsP: Well, the matter is, sir, that you can't take a girl up like that as if you were picking up a pebble on the beach.
MF: -O que foi que eu fiz?
-Bom, professor, acho que não se deve tratar uma moça sensível como essa como quem chuta uma bola de papel na rua.
-Qual é o problema?
-O problema é q não se pode catar um moça assim, como se ela fosse uma pedrinha na rua.

("Uma pedrinha na praia" seria entendido diferentemente no Brasil; é sabido q as praias inglesas têm mais pedrinhas do q areia.)

MsP: And what is to become of her when you've finished your teaching? You must look ahead a little.
Hig: What's to become of her if I leave her in the gutter? Tell me that, Mrs. Pearce.
MsP: That's her own business, not yours, Mr. Higgins.
Hig: Well, when I've done with her, we can throw her back into the gutter; and then it will be her own business again; so that's all right.
MF: -E quando o senhor terminar o curso, o que será feito dela? Acho que devemos prever isso.
-A senhora já previu o que vai acontecer com ela se eu a deixar na sarjeta? Me diga, madame Pearce.
-Isso não é responsabilidade sua, me parece.
-Bem, quando terminarmos as lições só temos uma coisa a fazer: jogá-la de volta na sarjeta. Também não será responsabilidade minha, me parece.
• (...) -O sr. precisa pensar no futuro.
(...)
-Isso é problema dela, não seu, sr. Higgins.
-Bom, qdo eu terminar com ela, podemos jogá-la de volta à sarjeta, e aí será problema dela novamente; então dá na mesma.


Hig: ...do any of us understand what we are doing? If we did, would we ever do it?
Pic: Very clever, Higgins; but not sound sense.
MF: Muito interessante, Higgins, mas não no presente momento.
Muito esperto, Higgins; mas não muito sensato.

Liza: I won't let nobody wallop me.
VID: Não deixarei ninguém me embrulhar.
Não vou deixar ninguém me surrar.
(Liza jamais diria "não deixarei".)

Ok. Vamos parar por aqui. Tem mais duas horas de filme. Triste, não?

13 comentários:

camelo disse...

Uma das traduções me chamou a atenção:
He is a young man of twenty ... very wet around the ankles.
É um rapaz de vinte anos, já com acentuada gordura na cintura.

Não sei se estou errado, mas acho que ‘very wet around the ankles’ significa ‘muito ingênuo, sem experiência’.

Permafrost disse...

Camelo,
Tscupaí. Eu tinha publicado um esboço do texto sem querer e vc só viu aquilo. Aí tive q apagar teu comentário, mas agora coloquei de novo.

"Very wet around the ankles" até pode ser uma expressão, mas o fato é q nessa peça é só uma instrução de cena. A frase completa é "He is a young man of twenty, in evening dress, very wet around the ankles." e tá com a barra da calça molhada pq tá vindo da chuva.

Concorde disse...

Muito interessante. Apesar de não conseguir chegar até o fim, por motivos expostos no próprio título, achei muito interessante. Minha humilde sugestão é que procure quem contrata tradutores, mostre o texto deste post, desbanque os incompetentes, nos ofereça o que há de melhor, e ainda ganhe dinheiro.
Abraços e parabéns pelo blog. Indicação de uma amiga.

alex castro disse...

deu pra dar mts gargalhadas plausiveis. mas pensei o mesmo q o colega acima... nenhum ingles usa "wet around the ankles" por acaso. com certeza, GBS queria fazer um trocadilho com ele ser ingenuo e tb estar, de fato, com os tornozelos molhados

camelo disse...

Achei que "wet around the ankles" seria uma outra forma da expressão "wet behind the ears" (que quer dizer "ingênuo e sem experiência").

Permafrost disse...

Concorde,
Obrigado! Mas enquanto as traduções de filmes continuarem no sistema atual, não vou entrar. Me aparecem duas ou três traduções por ano, pra empresas, e cobro os olhos da cara. Fazer traduções mal pagas, sem direito autoral, de vida curta e passíveis de plágio, é coisa desses brasis. Os excelentes tradutores acabam trabalhando nas mesmas condições q os picaretas.

Uma idéia pra começar a melhorar seria tipo criar um Kikito (do Festival de Gramado) ou um Candango (do Festival de Brasília) prà melhor tradução de filme, ou um Troféu Imprensa prà melhor tradução de seriado. Mas... ¿quem vai julgar, num meio q considera mais sério um desvio da NoCu ou um herro de hortografia do q uma total falta de sentido?

Alex,
Mas ali é uma instrução de cena. Mesmo q haja o trocadilho, a instrução prática é várias vezes mais importante do q um possível sentido figurado. O MF, além de tirar do chapéu um sentido completamente implausível prà frase, nem sequer percebeu a instrução.

Concorde disse...

Olhem o que achei:

Q. What do we do about
rising sea levels?

A. Drink lots more water!

The Ministry for Climate Change has recommended that everyone in Britain should double their daily intake of water from 2.5 litres to 5 litres to set an example to the rest of the world.
The Minister is convinced that this is the best way to save the planet from getting very wet around the ankles.

No caso, não pode referir-se a algo como ingenuidade ou inexperiência. Então concordemos com o Permfrost? Ou não? Eu concordo, afinal sou o Concorde.
Abraços.

Neanderthal disse...

Vocês estão todos errados! Wet around the ankles significa que é gordo, ou seja, não é seco, nas ancas!

Concorde disse...

Nosso primitivo amigo falou com conhecimento de causa! Que segurança! Eu que não vou discutir.
Mas será que o ministro lá deles disse para tomarem água para que o planeta não fique gordo? Até tem a ver, pois hiper hidratação é uma forma de ajudar a emagrecer, mas no caso , que correlação teriam o nível dos mares, a resposta sobre beber mais água, e não ser gordo?

Permafrost disse...

Derthal,
HAHAHAHAHAHA ¿Então o Millôr tava dando uma de humorista?

Concorde,
Ué, eu q sou magro sempre invejei aqueles gordos boiando na praia; nunca consegui fazer aquilo. Sempre achei q gordo bóia mais fácil.

Marques disse...

Há erros óbvios. Mas também os há nas soluções propostas.
O anacronismo, por exemplo, é frequente. Como colocar "mamado", "mala" na boca de um personagem de um livro de 1912? E favela?
O crítico ignora também o número de caracteres que uma legenda tem que possuir.. (ou seja o básico sobre o assunto).

A tradução tem muito a evoluir no Brasil, quase tanto quanto a crítica de tradução.

João disse...

Gostei muito. Na versão brasileira do espetáculo, em 2007, o Higgins (Daniel Boaventura) falava pra Eliza (Amanda Acosta): E não fique aí arrulhando como uma pomba biliosa. Eu vi em outra versão, não lembro qual, que o Higgins fala: E não fiques aí arrulhando como uma pomba mal-humorada. Acho que é da produção portuguesa, não lembro. Bem, amei sua crítica e a que eu mais gostei foi a: "Yes, like a fat one". Eu, quando traduzi o texto, não pensei e escrevi: Sim, qual um gordo. E não entenderam muito bem. Corrigiram assim: Sim, fartamente, como você escreveu. Gostei muito, e poderia me dizer o que, em todas as versões, ela fala no final da corrida de cavalos?

Permafrost disse...

Marques,
Não sei por que não usar essas palavras q vc apontou. A tradução tem q esclarecer o sentido das palavras do original. Se uma palavra q só apareceu no português de 1950 traduz univocamente uma do original de 1700 q qqer outra do vocabulário português de 1700 não dá conta, então é essa de 1950 q tem q ser usada. Por outro lado, algum respeito à época tem q haver, e não acho q 'mamado', 'mala' e 'favela' são tão novas. 'Mamado' havia em tangos argentinos da década de 30, então é bem provável q já existisse nalgumas regiões do Brasil nessa época. 'Favela' nesse sentido já existia em 1900. 'Mala' no sentido usado é mais recente, mas pô, vc recebe de bandeja a chance de traduzir 'baggage' pra 'mala', e ¿vai perder?

E vc tá certo: a crítica da tradução tem q evoluir mesmo, e tem mais caminho a percorrer do q a qualidade das traduções. No Brasil, o q falta é crítica.

João,
Agradeço!

Sobre o palavrão q ela solta no hipódromo, vou ficar devendo. Tou longe de SP por alguns meses, e todo meu material tá lá.

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