30 janeiro 2010

A NoCu e seus protuberantes

A interneta tem coisas engraçadíssimas. Sesdias, fiquei encafifado com a palavra 'dinossáurico', q eu nunca havia ouvido antes de minha digníssima patroa proferi-la – e até achei q poderia ter sido cunhada por ela mesma. Guglando, descobri um textículo dum cara de quem nunca havia ouvido falar (acho q articulista da Veja) tirando sarro da Dilma Rousseff – de quem até o ano passado eu nunca havia ouvido falar – pq ela havia usado 'dinossáurico' numa entrevista de rádio dezembro passado:

Nenhum neurônio (1)
“Planejar era algo dinossáurico”.
(Dilma Rousseff, em entrevista à Jovem Pan nesta segunda-feira, abrindo a semana decidida a mostrar que o Brasil tem a chance de, pela primeira vez na história da República, ser simultaneamente presidido por uma mulher e governado por uma cabeça virgem.)

Leia os comentários aqui.

Ora, vcs tão aqui lendo o Dr Plausível, certo? Já conhecem a figura. ¿O q é 'dinossáurico' perto de outras palavras necessaríssimas cunhadas neste blogue – tais como 'interessância' e 'indesconfundintizabilidade'? ¿O q é uma palavreca bem humorada pralguém q milita abertamente pela complexificação do parco vocabulário semântico do português?

Mostrei o sarcasmo do cara a nosso épico doutor. Ele teria deixado quieto; mas qdo sujeitos como esse articulista e seus comentadores fazem uma cruzada pra transformar a NoCu em partido político, eles ficam tão mas tão hilariantes q o doutor até faz pipoca pra ficar lendo suas aleivosias contra a inteligência mesma q eles acham q promovem. Descobre-se q existe todo um movimento pra sarcasmizar a fala da ministra – q tbm, tadinha, não é flor q se cheire.

Aí o doutor me ditou o comentário abaixo, q enviei lá pro cara:

Perdoe a franqueza; mas, pela evidência do q li aqui, é mais provável q faltem neurônios em vc e nessas outras pessoas q aqui declaram ver indício de burrice na fala da ministra. Não tenho nenhuma simpatia pela ministra, mas acho q quem demonstrou comando de seus neurônios foi ela. É assim q se constróem palavras: derivando. Se ela tivesse querido dizer apenas ‘jurássico’ ou ‘mastodôndico’, teria dito ‘jurássico’ ou ‘mastodôntico’. O q fez foi um bem humorado amálgama dos dois significados metafóricos subjacentes. Entendê-los juntos na mesma palavra – tal como entender o humor sofisticado – requer, como se sabe, inteligência.

A quem se acha culto sem sê-lo, é comum a pequenez de inferir ignorância ou burrice no uso livre e bem humorado da língua. Evidência de burrice é vossa pontuação da citação: colocou as aspas finais antes do ponto, qdo este obviamente é parte da citação.

Ironicamente, vê-se q os auto-denominados “cultos” adeptos do liberalismo &c tbm defendem estupidamente a ditadura da ABL, o autoritarismo dos dicionários (achando q ali se encontram TODAS as palavras possíveis e aceitáveis da língua), e os planos quase-qüinqüenais das reformas ortográficas – marca registrada de seu sangue de barata ou, conforme o caso, de suas tendências autocráticas.


Nosso emoliente terapeuta escreveu isso com a mais digna intenção de auxiliar na cura dum cérebro em delirium tremens hipoplausibilis, e em parte esperando mesmo q NÃO fosse publicado pelo paciente, pra q assim se comprovasse o conteúdo do comentário. ¡E não é q não foi mesmo! Mas o mal-agradecente nocuísta retorquiu com "Não me perdoe a franqueza: pela evidência do q li, ordeno que caia fora."

HAHAHAHAHAHAHAHA

¿Isso é lá um agradecimento cabível? Olha, vida de terapeuta não é bolinho, viu?

É pipoca.

6 comentários:

Pracimademoá disse...

A maioria das pessoas que têm blog o têm por vaidade. Críticas não são bem-vindas. Principalmente quando a pessoa se mete a muito gostosa, poderosa e sabichona, e você mostra por A mais B que a pessoa falou besteira. Vai por mim: nada irrita mais um blogueiro do que um ARROGÂNCIA FAIL na cara dele. às vezes, tenho vontade de criar um blog chamado Dr. Humilde. Tem muita gente precisando dele na blogosfera.

é, eu disse "blogosfera". Tem gente que não gosta. Foda-se.

Abri o brauzer, abri o Doutor, e nada de comentários. Tive que dar permissão ao JS-Kit no filtro do Firefox. Aí sim, abriram-se as portas dos comentários, mas só depois de uns três minutos (juro!) em que o brauzer ficou congelado, nem outras páginas eu podia ver. E olha só o post de baixo, TODOS os comentários agora são visíveis na página de entrada. Que idéia de jerico! Tá cada vez pior.

Pracimademoá disse...

Ah, eu me concentrei tanto em esculachar a blogosfera que esqueci a outra coisa que eu ia dizer.

Eu acho que inventar (ou adaptar) palavras não tem nada a ver com a norma culta, que o Dr. chama de "NoCu" como forma apelativa e deselegante de ridicularizar algo que ele reprova, truquezinho manjadíssimo não só entre os blogueiros, mas já manjadíssimo entre toda a população adolescente já no tempo em que EU era adolescente, e olha que isso faz tempo. O Brasil ainda era tri.

A NoCu não vigia a introdução de novos vocábulos. A NoCu só zela pela beleza, harmonia e COERêNCIA das idéias, sobretudo da sintaxe, que a maioria dos falantes e escreventes não entende. Os defensores da NoCu, como eu, gostam de ver a língua evoluir, mas querem que isso ocorra dentro de um padrão mínimo de coerência com diversos outros conceitos e detalhes muitíssimo pertinentes. O chato é que, às vezes, como diz o nosso querido luminar, o mínimo já é o máximo. E muita gente sequer atinge o mínimo.

Em menos palavras, eu acho que o caso em questão nada tem a ver com a NoCu. Você só evocou a NoCu porque você é bem chatinho com esse assunto. Ou isso ou só quis me provocar, para ver se eu não ia desistir do blog por causa dessa bosta de JS-Kit. :-D

Permafrost disse...

Demoá,
Obrigado pelo feedback sobre os comentários. Tá cada vez pior aqui mesmo. Tou esperando resposta dum outro sistema q parece melhor mas ainda não aceita importação. Essa coisa de exigir q cada comentador faça um perfil é inaceitável. Tenho uma pergunta: abaixo de teu comentário ¿tem a opção “delete”?

Sobre a NoCu, realmente vc tem razão, q não lida com vocabulário. Mas o sarro é com a patota q confunde linguagem “padrão” com inteligência (qdo eles mesmos metem os pés pelas mãos), e a partir daí transformam a noção toda de padrão normatizado, dicionarizado e ortografizado quase numa plataforma política. Esse Augusto Arnaldo chupa uns comentários de outro despistado – um Carlos Nunes – e ficam os dois tirando uma da dilmóide cancân. É hilário.

Vc enfatizou “coerência”. Trocentos lingüistas podem demonstrar q é coerente a linguagem até do último homúnculo troglodita nos confins da civilização. A questão principal numa língua não é a beleza, a harmonia ou a coerência, mas o número de conceitos distintos q ela é capaz de expressar unívoca e economicamente. Nesse quesito, o português – e portanto o Brasil – tá de lanterninha no mundo em grande parte pq essa língua – q surgiu dum dialeto pulverizado e tosco dos confins da Europa – tem mais “regras” do q o necessário. E essa quantidade de regras é justamente o q denuncia sua erraticidade, sua falta de alicerces: qto mais crimes possíveis, mais leis. O q proponho aqui é a descriminalização de todas as variantes de brasilês. E q o prtuguêx cuide lá de si. Portugal, por sua geografia, sempre será a periferia da Europa: é um estigma q pode ser anulado se o Brasil se aceitar e passar a passar a valorizar o brasilês, em todas suas variantes, e aumentar o intercâmbio entre elas – não estigmatizar e segregar aquelas q soam distantes duma NoCu q ninguém (ninguém!) usa bem.

Não sei se vc já percebeu, mas a gramática q uso é bastante consistente (embora sofra com as insuficiências do brasilês de hoje). Algum dia vou fazer um Manual de Redação Plausível.

Pracimademoá disse...

Eu acho que o buraco é mais embaixo.

Junto com essa atitude excessivamente rigorosa de ridicularizar quem fala ou escreve algo errado, ocorre o fenômeno que há muito tempo ocorre nas internetes brasileiras, que é a mania de criticar e ridicularizar os outros só por esporte. Comparando com o que leio em inglês, parece-me que os internautas americanos e do mundo anglófono em geral têm queda pela sátira, como chamar o iPad de iTampon ou fazer troça de alguém que pagou algum mico usando a palavra FAIL. Parece até coisa de brasileiro. Mas a humilhação pública internacional pende muito mais para situações de natureza OBVIAMENTE absurdas e/ou ridículas. Quando há crítica, ela é feita e debatida com mais seriedade. O blogueiro humilhador brasileiro é muito mais maldoso. O blogueiro humilhador brasileiro vê oportunidade de ridicularização em qualquer coisinha. Pudera: quem procura acha, e o blogueiro humilhador brasileiro está sempre procurando. Virou esporte nacional postar no blogue ou no tuíter qualquer besteira pra lá de questionável sobre algo que alguém falou ou fez e perguntar ao auditório: “pode uma coisa dessas” ou, traduzindo, “esta pessoa com atitude da qual eu discordo não merece ser chamada de zé mané porque, convenhamos, execrar o próximo é uma atividade super divertida?” Daí é só colher as inevitáveis manifestações de apoio e solidariedade do inevitável serpentário que rodeia o(a) implicante militante praticante.

Eu já falei disso aqui com você: observe os blogues brasileiros. De que eles tratam? Todos falam mal de alguém ou alguma coisa. Todos querem atacar, humilhar, segregar, dividir, hostilizar. Não tem um filho-da-puta engajado na luta inglória de estender a mão ao próximo, incentivar a compreensão e cultivar a tolerância. De que falam os tuítes brasileiros? Bem, aí, varia um pouco mais. No Tuíter, o festival de humilhações disputa espaço com o festival de desinformação e.g. “achei que só ia chover às 9, mas choveu às 10” ou “meu cocô saiu molinho, será que foi aquela omelete?” Mas tá lá no Tuíter também o cacoete da maledicência obstinada. Se o Raul Seixas estivesse vivo, diria de novo: “eu também vou reclamar”.

Certa feita, eu vi “O Baile”, de Ettore Scola, e alguém me fez o seguinte comentário: “A gente dança conforme a música, mas não presta atenção ao que está tocando.” É uma excelente definição do Zeitgeist: ninguém presta muita atenção. E lá vai todo mundo fazer a mesma merda igual. Comportamento de macaco. É raro alguém parar no salão e se perguntar por quê está dançando tão alegremente ao som daquela merda.

Na outra vez em que eu citei este pensamento aqui, você me pareceu um pouco defensivo. Talvez tenha se sentido criticado porque, afinal, canaliza um esculápio que tomba de tanto rir da estultice alheia. O Doutor Plausível tem um tanto de zombaria. Mas eu acho que o Doutor Plausível pende mais para a zombaria anglófona: ataca atitudes OBVIAMENTE ridículas, oops, ou melhor, não tão obviamente ridículas, e que de fato prejudicam a sociedade como um todo. É, de fato, um serviço de saúde pública. Não é aquela picuinha infantil, vaidosa e pentelha da blogosfera brasileira em geral.

Já o senhor Augusto Nunes é um blogueiro comercial, tem que ter assunto, material e ibope todos os dias. Haja material. E é blogueiro brasileiro. Ele sabe que a picuinha dá audiência. Nesta história toda, eu acho que sobra muito pouca importância para a norma culta ou a língua portuguesa. A santimônia linguística não é um fim, é só um meio.

E o Haloscan mórreu, né? Eu nem usava, e até eu recebi email avisando. Quando é que morre o JS-Kit? :-D

Permafrost disse...

Demoá,
Acho q se leio três blogues com alguma regularidade, é muito. Do tuitador, nem tomo conhecimento. Mas sei q aí vc só deu bola dentro. Grande parte do q é opinativo na internet parece oficina teatral: vc bota três aspirantes a ator em cima do palco pra improvisar um diálogo numa farmácia, e dois minutos depois a cena vira uma dramática gritaria.

Mas o q me faz rir (aliás, aquilo q, enquanto envelheço, tem me feito rir cada vez mais – e cada vez mais com aquele páthos walterbrennan) é notar o script pronto por trás de tanta opinião ãã "individual de cada um". Acho q nem eu sou impermeável a regurgitar opiniões prontas, claro. Mas pô, né? Uma coisa é uma goteira / Outra coisa é cachoeira.

E o Haloscan mórreu merrmo. Coidelô. Tou esperando algum outro comentório ocupar a vaga. Isso aqui é muito ruim. O suporte do JS-Kit já deve tar fazendo macumba contra mim, de tanto q lhes encho o saco reclamando e perguntando "¿como é q apago essa idéia q vcs tiveram? ¿como é q tiro essa outra q vcs passaram meses testando?" A única coisa de q gostei foram os cantinhos arredondados.

Marcela disse...

Fui lá para conferir. Só pela foto do cara, dá para perceber que se trata de um bobo alegre, que se ofende com o menor reparo. Não gosto da Dilma, mas menos ainda de um sujeito que agride seus leitores da maneira como faz o talzinho. Nem me meti a comentar, pq se ele me mandasse cair fora, na certa eu o procuraria na redação da revisteca e lhe daria um sonoro tapa na cara, pq eu não engulo ofensas. Críticas construtivas sim.
Eu e meu marido, nas andanças pela rede, gostamos muito de achar este sítio. Voltaremos sempre.
Fiquem todos bem.

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