12 outubro 2009

Fé com fé, cré com cré

Vou dizer uma coisa pra vcs, viu. Desde q aquele povo desértico inventou q a vida eterna é um prêmio por conduta moral exemplar ou apenas por seguir uma tradição esdrúxula, este mundo virou um inferno. Como se não bastasse, todos pregam q a retidão moral vem da fé (???), e portaaaanto a fé é o maior bem. Vc pode perguntar pra qqer crente de qqer religião desértica (judaísmo>cristianismo>islamismo) qual é seu maior valor e ele vai dizer q é sua inabalável fé em Deus, ou algo assim.

Toda vez q nosso exponencial doutor diz a essa gente q a fé é só uma desculpa pra juntar um pessoal, paquerar, dar risada com os amigos, checar o progresso dos sortudos e comer um churrasquinho... ele ouve um sermão q começa com “¡Nããão, que abessurdo! ¡A fé em Deus é a base de tudo!” O doutor então diz q a base de tudo é o instinto gregário, e aí ouve q “Vc tá enganado. ¡A fé é a dádiva divina devido à dívida da vida em dúvida!” ...e outras palavras de ordem...

O Dr Plausível não se mete com gente armada. Mas qdo se depara com um crente muito afoito, daqueles q até “rezam” pela alma de nosso terapeuta, ele conta uma pequena parábola pra demonstrar q religioso taria pouco se lixando prà fé se esta o privasse da vida em comunidade. O doutor chega-lhe ao pé do ouvido e fala assim:

Imagina q vc tá cara a cara com Deus no juízo final. Ele te olha de cima a baixo e troveja:

Deus: Parabéns, fulano. Foste um judeu/cristão/muçulmano exemplar e chegaste ao paraíso.
Vc: ¡Oh que ótimo, milagroso Deus misericordioso!
D: Sim, agora terás a vida eterna a meu lado e gozarás das infinitas benesses divinas.
V: Grandioso e gracioso Deus... Cantarei eternamente vossas glórias.
D: Ótimo, assim q eu gosto.
V: ¡Que maravilha magnífica é este paraíso!
D: Ah, ¿reparaste? Obrigado, obrigado.
V: ¡Sublime soberano do universo!
D: Hehehe...
V: Mal posso esperar pra rever meus pais. Qta saudade...
D: Ãã... Não, não. Eles não estão aqui.
V: Cuma?
D: Só deu pra salvar a ti.
V: ¿Meus pais não foram salvos?
D: Hmmnnnão... Deixaram a desejar.
V: Oh, que triste...
D: Mm.
V: Ãã... ¿Agora estão no inferno?
D: Yep.
V: Aaaaghh...
D: ...
V: Bem ... mas meu regozijo por estar em vossa presença sobrepuja qqer sofrimento, por mais atroz. ¿E meus tios e tias?
D: No inferno tbm.
V: ¿Nem a vó Javilda, tão casta e fiel?
D: Nnnã. Essa tbm não deu pra salvar.
V: ¿Nem ela?
D: Nnnãã. Só tu te salvaste.
V: ¿E MEUS FILHOS, MEU DEUS?
D: Nenhum.
V: O Maycson...
D: Naaa...
V: A Marisvelda...
D: Inferno.
V: Oh não... Não é possível... ¿Até a Marisvelda...?
D: Casou com um ateu. Só pensava em sexo.
V: ¡¡Nããããoo!!
D: Yep.
V: Bem, pelo menos alguém de minha sinagoga/igreja/mesquita...
D: Ninguém. Só sobraste tu mesmo.
V: Uau...
D: Pra veres como são as coisas. Como eram.
V: Puts. Vou levar um tempo pra me acostumar.
D: Pois é. Mas na eternidade, tudo se ajeita.
V: ¿E o padre Deoclécio, da igrejinha?
D: Inferno. Só tu restaste.
V: ¿O rabino Metzger, o aiatolá Khomeini?
D: Não houve jeito.
V: Bem, pelo menos vou ter a companhia dos santos... Tipo... São Francisco...
D: Nã, nã....Só pensava em comida.
V: São Benedito...
D: Inferno. Tinha pensamentos impuros.
V: Ué, eu tbm tive.
D: É, mas te arrependeste a tempo.
V: Santa Rita...
D: Duvidou de mim no último segundo.
V: Oh. ... João XXIII?
D: Inveja.
V: Maimônides?
D: Desejou incesto.
V: Abraão? Não vai me dizer q...
D: O povo exagerava.
V: Maomé?
D: Reclamou bastante, mas não houve jeito.
V: Uau...
D: ¿Não caiu a ficha? Em toda a história da humanidade, TU és o único ser digno de entrar em meu reino: só tu te salvaste.
V: Mas ¡¡a probabilidade disso acontecer é infimamente pequena!!
D: ¿Que sabes tu? Quem INVENTOU a probabilidade fui eu.
V: Mas... ¿e as criancinhas, meu Deus misericordioso? Com certeza suas almas já estão aqui...
D: Que nada. Re-encarnei todas, e todas depois se perderam na vida.
V: Mas, pôxa, não foi isso q me disseram. Era tão gostoso ali no templo, com minha família e amigos... ¿Não dava pra acochambrardes as leis divinas um tantinho, pra popular o paraíso um pouquinho?
D: O q está feito está feito. E a justiça divina não falha.
V: ¿E o amor divino, Deus meu...? ¿Por que ferraríeis toda vossa criação?
D: Ah, amei e amarei infinitamente todos os seres q criei.
V: Então?!
D: ¿Então o quê?
V: ¿E o perdão divino?
D: Já perdoei todos, mas perdão não é impunidade.
V: Quer dizer... quer dizer q de toda a história da humanidade, ¿só EU gozarei a vida eterna convosco? ¿Sem meus pais, meus irmãos, meus filhos, meus amigos, sem santos, sem religiosos, sem companhia nenhuma, só eu, eu sozinho?
D: Sim, pq o mereceste.
V: ¡¡¡gngnfgngngfn!!!
D: Não fica assim. Vamos nos divertir bastante, tu e eu. Temos a infinita eternidade pela frente. Tanta coisa pra conversar. Por exemplo, ¿sabias q, além de infinito e eterno, sou tbm incalculável?
V: Ah é? Mm.
D: ¿Não vais me louvar?
V: Ah. ... ¡Oh incalculável incandescência!
D: Então? ¿Não é divertido?
V: Ãã... Claro, bastante.
D: mmMM?
V: Sim, sim, divertidíssimo, oh divina divertância.
D: E tbm sou...


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A bem da verdade, ninguém conseguiria contar essa parábola prum crente até o final, pq já no meio ele começaria com a ladainha Deus-jamais-agiria-assim. Eles não aceitam q seu deus poderia fazer isso tanto qto qqer outra coisa. Mas é muito revelador q o Paraíso não pode ser um lugar chato, q ele tem q ter um quê de diversão. Os crentes podem perdoar os mais intoleráveis atos de Deus, contanto q ele não seja maçante. A noção dum Deus enfadonho é a extrema abominação, até na Terra. Nenhuma religião tediosa sobrevive. A chatice é um pecado imperdoável.

9 comentários:

Pracimademoá disse...

Quá quá quá quá quá quá!

Muito boa idéia, mas erraste feio, plausível luminar! Aposto que muitos deles achariam o máximo ser o único, porque estão é cagando para o bem do próximo. Só vão achar ruim se não puderem NUNCA dar uma descidinha até o inferno para rebolar, mostrar a língua e fazer nina-nina-nina!

Deus, dê vida longa aos meus inimigos, para que aplaudam de pé a minha vitória. Pensando bem, Deus, dê vida longa aos meus amigos também. Mas não deixe nenhum daqueles filhos da puta me ultrapassar.

A base de tudo é chegar mais alto e chegar na frente. Quem vem depois é mulher do padre!

Mas "acochambrardes" já valeu a leitura! :-)

aiaiai disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkk
Iluminastes meu dia, caríssimo plausível!

numtenho disse...

Eu tenho a impressão que essa impostura da vida eterna fez parte de todas as religiões, senão da maioria. Lembra o barqueiro (Caronte?) que levava os gregos clássicos para o Hades? Que eles colocavam uma moeda na boca do falecido pra pagar a travessia? E aquela cartilha que o de cujus tinha que decorar, pra responder a Osiris, Hórus, sei lá, no vestibular pra passar para o outro lado. Tinha também uma história de pesar o coração...
Todo mundo quer ser enganado, por isso é tão fácil enganar.
Outra coisa alguém já disse, não lembro quem, "O céu pelo clima o inferno pela companhia".

Arthur Golgo Lucas disse...

Plausível, tu escreves mais no LLL do que aqui, tchê! :o(

Dize-me (uau!) cá uma coisa: tens interesse na reforma ortográfica?

Quanto ao post, só tem um probleminha: o único FDP em toda a humanidade que se salvasse dificilmente sentiria frustração na presença de Deus...

Mas eu entendi o ponto e ele é forte.

Permafrost disse...

Demoá e Golgo,
É um ponto interessantes, esse de q o único salvo provavelmente ficaria satisfeito. Eu acho q não.

Numtenho,
É, o bombardeio é tanto q a gente tende a esquecer q o deus abraâmico tem vários parentes.

Golgo,
Tenho interesse, sim, na completa anulação, total destruição e absoluto esquecimento da reforma ortográfica. ¿Por que pergunta?

Arthur Golgo Lucas disse...

Perguntei pela reforma ortográfica porque achei que terias a mesma ojeriza que eu a ela, o que felizmente foi confirmado.

Eu nunca vi uma coisa tão estúpida, tão sem sentido e que vai trazer tantas dificuldades e gastos em troca de... de.. de que mesmo?

Meio na brincadeira eu comecei a escrever uma proposta de reforma ortográfica baseada em princípios de propedêutica como regularidade, concisão e simplicidade - bem ao estilo do Esperanto - e acabei produzindo algo que me parece bem razoável, só falta resolver uns dois ou três probleminhas para poder trazer a público.

Queria saber se tens interesse nesse tipo de masturbação-neurológica-que-não-vai-dar-em-nada e se gostarias de debater uma questão sobre a acentuação, que é o principal problema que estou enfrentando.

Permafrost disse...

É Golgo, ojeriza é pouco. Mas tenho a impressão de q a tua tem motivos diferentes dos da minha.

Já escrevi bastante a respeito aqui no blogue. Minha posição sempre foi: cada um escreva como lhe der na telha, tanto faz. As ortografias inconscientes e inconsistentes (alguns diriam "ignorantes") deveriam ser tão motivo de chacota e repressão qto os diferentes sotaques. Não existe sotaque certo assim como não existe ortografia certa. É possível q venha a emergir um costume ortográfico generalizado; o pior é impor uma norma de cima pra baixo.

Assim, não tenho nada contra novas propostas de sistemas ortográficos, contanto q sejam pessoais e espontâneos – não impostos. Sempre há leitores q estranham e escarnecem de minha ortografia, meus sinais gráficos, &c. Se olhassem bem, veriam q meu "sotaque" ao escrever é consistente – tenho até convenções próprias pra aspas duplas e aspas simples.

Pra mim, a consistência pessoal é mais importante do q a norma geral.

¿Qdo vai publicar tua proposta?

Acho q meu texto mais acabadinho sobre a imbecilidade da reforma ortográfica é o q tá no linque abaixo.

Pracimademoá disse...

É, Perma, eu admiro essa sua postura de anarquia linguística, mas eu acho que ela é muito idealista, utópica. Não utópica no sentido de algo impossível, inatingível em si ou em termos absolutos, mas inatingível em termos de tudo que uma língua envolve, inclusive comunicação e estética.

Comunicação: se cada um escrever como quiser, em pouco tempo, ninguém mais se entende. Já leste "Marcelo, Marmelo, Martelo"? Historinha pra criança, você lê num golpe de vista. Mas é pertinente.

Estética: você é músico, né? Curte um mentecapto socando as teclas de um piano ou beliscando as cordas de um violão ao acaso, aleatoriamente? Eu, não. Você deve odiar esportes, mas deve entendê-los. Entende que a beleza de um gol é fazê-lo dentro de todas as regras do futebol? Então, se abolirmos as regras da língua (da música, do esporte), toda a sua beleza desaparece. Vá lá, não toda. Mas uma parte muito grande, porque a beleza não vem tanto da língua ou das suas regras, mas da inventividade humana que se manifesta dentro dos limites das regras. São formas de incitamento da capacidade humana. É por isso que apaixonam.

Tome juízo, vá.

Permafrost disse...

Demoá,
Sobre isso, nunca vamos tar de acordo. Os fenômenos da língua tão beeem mais embaixo do q as regras estéticas, sociais, &c. Regras não são mais do q criações da língua, possibilidades materializadas através da língua.

¿Já viu criança aprendendo a falar, tipo entre 1 e 2 anos? Não se trata de aprender regras. Tem algo muito mais abrangente acontecendo ali. O problema da língua nas sociedades de hoje – em particular nas culturalmente amorfas, como a do Brasil – é JUSTAMENTE o cerceamento do livre embate de idéias e modos de expressão implantado pela imposição de regras. O mundo não é um campo delimitado onde se trava um jogo: os últimos 50 anos têm mostrado q há trocentas regiões do possível ainda inexploradas. E ¿q língua falam os q têm aberto as cortinas? Justamente uma língua q se forjou naturalmente, sem regras impostas.

Venho pesquisando e planejando um texto no qual pretendo mostrar como os "erros" do passado – qdo o português não tinham gramáticos e lexicógrafos – geraram centenas de palavras q hoje ajudam a fazer distinções úteis. ¿Vamos impedir a criação de mais? ¿Vamos parar por aí?

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