21 setembro 2009

A teoria na prática é outra (conclusão)

Olha, vou dizer uma coisa pra vcs, viu; não é à toa q nosso estuante doutor não conseguiu terminar sua epopéica obra em quatro volumes Apologia da hipocrisia: tinha assunto q não acabava mais.

Por isso, resolveu o problema de forma tipicamente hipócrita. A melhor maneira de fazer uma apologia da hipocrisia, de demonstrar sua utilidade e capilaridade, sua abrangência e imiscuência, sua ressonância e retumbância, a melhor e mais direta maneira de homenagear a hipocrisia é tbm a mais espontânea e singela: não dizer nada.

Isso. Não dizer nada: jogar fora tudo q escreveu, todo insight relevante, toda percepção revelante, tudo. A tadinha da hipocrisia – já enfraquecida por séculos de insultos e preconceitos – talvez não resistisse a uma divulgação clara e detalhada dos inúmeros, sutis, complexos e assombrosos mecanismos psicológicos, sociais e políticos com que ela tranformou macacos em seres humanos, amparou todo o progresso tecnológico e mantém a civilização micro-afinada alguns passos aquém de explodir. O amadorismo do macaco é comovente: o macaco é um mero aprendiz de hipócrita.

Minha pergunta meses atrás foi ¿qual é o elemento mais construtivo pra chegar a, e manter, a civilização: a hipocrisia ou o cinismo? Só pra q não fiquem com raiva deste pobre digitador, aqui vai a resposta oficial deste blogue:

A hipocrisia ampara; o cinismo estimula. Na construção da civilização, a hipocrisia são os pisos e o cinismo são os pilares. Há quem imagine q sem a sustentação dos pilares, não haveria construção, e por isso o cinismo é mais construtivo. Muito se enganam. O fato é q sem a sustentação dos pisos, nem sequer faria sentido ter uma construção. A construção existe exatamente pra q haja pisos, pois somos todos reféns da gravidade. Ou seja, embora o cinismo auxilie a inteligência nos avanços civilizatórios, a razão de ser da civilização tá emaranhada indissoluvelmente com a hipocrisia. Sempre esteve. A civilização é praticamente uma CRIAÇÃO da hipocrisia. Não ver isso é a versão psico-social de acreditar em Papai Noel.

Há tbm quem imagine a emoção como energia, a inteligência como engrenagens, o cinismo como atrito e a hipocrisia como lubrificante. É uma imagem bonitinha, mas ingênua e idealista. Não. Se a civilização é um carro, o cinismo são as rodas e a hipocrisia é a estrada.

A hipocrisia é o lugar onde a civilização acontece.