08 novembro 2008

train is train, jog is jog

¿E aí, viram os Euá?

Ganhou o candidato da oposição, perdeu o da situação.

O Dr Plausível rachou de dar risada com toda a hipoplausibilose envolvida. Teve tanta coisa pra se gargalhar nessa eleição, q enumerar tiraria a graça. Foi uma comédia do começo ao fim, não foi? Diga a verdade. Pelo menos não foi tragicômico. Comédia sempre tem final feliz.

Vejamos só o principal.

Todo o mundo vê o presidente mulato* e enxerga um novo e emocionante horizonte a se descortinar no grandioso futuro da raça humana. Calma lá. Pra começar, com aqueles dois pernetas do republicano, até eu, meu. Os buchinchos na Casa Branca tanto tiro deram no próprio pé, e o casal Zé Caquético e Maria Fuinha da chapa republicana eram tão impróprios, q a dúvida toda virou se "branco" votaria em "preto". Mas nem isso é verdade. A questão era mais "vencerá ¿por quanto?"

Euaense é um povo esquisito. O raciocínio lá é todo baseado em scripts, tal como já demonstrado aqui. Pra quem funciona à base de script, "script é script"; ou seja, ninguém pode sair dum script: ao sair de um, vc entra em outro. Pra euaense, Obama é 'negro'. Mas pô, chamar esse cara de negro é uma espécie de tergiversação ideológica. É a escolha entre dois scripts, dois raciocínios IDÊNTICOS e igualmente falaciosos:

1. Obama é filho de negro; portanto, é negro.
2. Obama é filho de branca; portanto, é branco.

O mundo na era digital é muito confuso.

A emoção e a tensão toda veio dessa ambivalência no Obama, e não da nomenclatura 'negro' q se dá nos Euá a qqer "desvio da norma branca". Obama venceu; mas MESMO com todo mundo fantasiando a prioridade de destituir da Casa Branca um tronho hipócrita semi-letrado – a quem se atribuem todos os males do mundo desde o aquecimento global até a crise econômica –, o senador venceu por uma MAGRÍSSIMA margem. Perto da urgência de tirar aquele pessoal de lá, 6% é quase nada.

Pois pensem cá com o doutor. Imaginem duas situações hipotéticas: nas duas, o mesmíssimo candidato democrata, o mesmo tipo, as mesmas palavras, o mesmo ideário, &c, só q:

Obama.x é filho de casal negro
Obama.y é filho de casal branco

¿Como teria reagido o eleitorado euaense? O Instituto Chutométrico Dr Plausível verificou q...

Obama.x teria perdido, com apenas uns 40% do voto.**
Obama.y teria ganho de lavada, com uns 80%.

Em geral, euaense não pára pra pensar, não: já vai logo aplicando o script, (diferentemente do brasileiro, q tbm em geral não pára pra pensar: vai logo fazendo o q lhe dá na telha.)

Com o povão sabendo do pai negro e da mãe branca, a consciência de q nem uma coisa nem outra aconteceria tornou a campanha obamesca uma mescla rara de bom-senso e maquiavelismo. Uma coisa imperdoável foi o uso apelativo e interesseiro da esperancite. ¡Ô moléstia q não larga o pé! Político q usa a esperancite ou tá de brincadeira ou NÃO tá de brincadeira; difícil saber qual é pior.

Mas esse Obama sendo o bem-melhor candidato, nosso epulótico doutor ficou contente, tanto pelo pequeno passo rumo à igualdade plena qto pela novidade. Sair um pouco da monotonia. No entanto, há q lembrar q trata-se dum presidente euaense – q na melhor das hipóteses nunca é flor q se cheire –, q os Euá não vão duma hora pra outra parar de soltar bomba, q os efeitos deletérios da mera existência duma potência militar cheia de gente ignorante não vão se curar como por milagre. Se a coisa correr bem, daqui a quatro (ou oito) anos, tudo vai continuar mais ou menos como está, só um pouquinho diferente.

________

* sorry, ele mesmo se definiu como 'mutt', palavra usada pra falar de cães mestiços
** é, eu sei q não se conta assim nos Euá

9 comentários:

Pracimademoá disse...

Gozado, eu sou leitor assíduo faz tempo e não me lembro de ter lido aquele texto sobre os scripts dos americanos.

Enfim, eu não concordo com ele, não. Brasileiro também tem seus scripts. São diferentes dos scripts dos americanos, e parece que a estrutura da língua de fato afeta os scripts de atitude e comportamento - ou seria o oposto?

Não conheço a cultura de outros países, mas suponho que todos eles tenham seus scripts. É uma coisa do ser humano, não só de americanos. Acho que você embarcou nessa viagem de que só americano tem script porque americano, de fato, é o povo que mais gosta de impor seus scripts aos outros. Contra outros países e entre eles mesmos. Acho que é coisa do puritanismo.

Pracimademoá disse...

E, pensando sobre o que eu mesmo acabei de escrever, outras idéias me ocorrem de forma desordenada (e estou com preguiça de ordenar):

Os esportes. Americano adora dois esportes burros: football e beisebol. O football é embotado porque tem aquela uma-coisa-de-cada-vez típica dos americanos. Um time só ataca. O outro só defende. Quando inverte, trocam-se os times. E o beisebol tem toda aquela mística que gira em torno de tacadas pontuais e fatídicas, e um possível home run. Daí vêm inúmeras metáforas de sucesso e fracasso - todo o destino de alguém determinado numa única tacada, que fará um vencedor repleto de glória e um perdedor coberto de infâmia.

Daí eu pensei no soccer, que foi inventado pelos ingleses, e ocorreu-me que os ingleses não são programados, momentâneos e previsíveis como os americanos. Os ingleses são mais inteligentes. Até o humor do inglês é muito melhor que o do americano. E os ingleses falam... ora, eles falam inglês.

Vê onde eu quero chegar? Essa sua teoria só funciona se a gente fizer de conta que só americano fala inglês.

Eu acho que o comportamento deles não tem muito a ver com a língua, não. Eu aposto no período da caça às bruxas de Salem, toda uma cultura protestante de pensamento curto e simplório que evoluiu, mas vigora até hoje. Esquisitices de uma pequena tribo que cresceu muito mais que qualquer outra.

Daniel Brazil disse...

Uma boa análise das diferenças entre o futebol americano e o "nosso" futebol (inglês e do resto do mundo) está no Veneno Remédio, do Wisnick. É incrível como no campo retangular se refletem ideologias e visões de mundo tão pertinentes ao caráter de um povo. E é bem escrito, com ótimas referências e citações. Vale uma espiada!

Permafrost disse...

Demoá,
Tenho um comentário nalgum lugar deste blogue em q cogito a possibilidade de q, apesar de o inglês ser falado na Inglaterra, ali a coisa é diferente em dois aspectos:

• Não se fala só inglês na Grã-Bretanha; há tbm o gales (Welsh) e o céltico ou gaélico (Gaelic); além disso, a disparidade de sotaques e vocabulários é muitíssimo maior na pequena área da GB do q na enormidade dos Euá. Esses fatores devem amenizar o efeito-script do inglês lá.

• Os Euá estão bem mais isolados do resto do mundo do q a GB – q tá num canto da Europa, mas tá lá, tendo q se adaptar diariamente às outras culturas européias. Os britânicos são, por isso, mais flexíveis e mais auto-depreciativos do q os euaenses.

No entanto, se vc ficar um tempo na GB, vai sentir bastante um grau de quadratura e peremptoriedade scríptica, coisa q não se sente tanto em Portugal, Espanha, França ou Itália.

O teste pra essa relativização seria a Austrália, q tbm é isolada. Mas acho q a população de lá é pequena demais pra q o efeito-script se sinta com a preponderância q se vê nos Euá.

Há q lembrar tbm q a GB já foi distribuidora de scripts como colonizadora, e mais ãã... "eficiente" do q a França, Alemanha e Holanda combinados.

(Ah, os comentários daquele texto à época tão agora disponíveis.)

Permafrost disse...

Daniel,
Legal, esse toque. Obrigado.

Pracimademoá disse...

A Austrália não teve a colonização protestante puritana que teve a América, né?

"Né" de pergunta mesmo, porque eu não sei. Taí uma boa oportunidade para eu ir aprender a história da Austrália.

Uma coisa eu sei: o senso de humor dos australianos é diferente do britânico. Não é tão sagaz, mas é mais descontraído. Parecem mais brasileiros. Passa mais longe ainda do humor azedo dos americanos que o humor inglês. Chutando, eu aposto que é influência de culturas do Pacífico e uma longa época de ouro das navegações que difundiu muitas culturas pelos sete mares.

Ou seja, o inglês também não parece ter danificado muito a cabeça dos australianos.

Estou comentando aqui mesmo porque é pra frente que se anda, né. Tamo falando disso tudo coisa e tal, mas ainda é por causa do Obama.

Permafrost disse...

Vi agora na Wikipedia q ~64% dos Australianos são cristão, sendo q ~26% são católicos. O catolicismo forma a denominação cristã com mais adeptos. A Austrália tem uma população bem mais diversificada qto à origem do q os Euá, com uma maioria descendente da Inglaterra e Irlanda, mas grandes contingentes de pessoas com ascendência italiana, alemã, grega e asiática.

Mas pra mim, o q conta nessa história é a população da Autrália, q em julho de 2007 chegou a apenas 21 milhões de habitante naquela imensidão. Põ, essa é pouco mais q a população da grande São Paulo...

Neanderthal disse...

Script é script! Etc. etc. etc. não é script!

Permafrost disse...

nheco nheco

Postar um comentário

consulte o doutor