05 outubro 2008

Ruído cerebral

Nosso esbelto doutor mal acordou hoje de manhã e já estava gargalhando. E nem foi pelas eleições. Liga um amigo dizendo q leu num jornal a sigüinte pérola.

Diz q tem crescido bastante o número de reclamações contra barulhos urbanos. Barzinho abre, lota, põe música (ao vivo ou "de fita"), esparrama mesas na calçada, surge a cantoria, cresce o movimento na rua, gente gritando, carros tonitroantes, buzinaços madrugueiros, algazarra, brigas bêbadas, &c. Morador das redondezas, incomodado, liga pro Psiu. Aparentemente, um produtor de ruído só pode ser multado legalmente se satisfizer duas condições: (1) fazer ruído regularmente e (2) ter CGC. Aí o Psiu manda técnico averiguar o nível de ruído do bar.

Agora vem a parte engraçada.

O técnico se planta na rua. Aponta o aparelhinho pro bar. Mede o ruído médio proveniente do bar. Gira 180°. Aponta o aparelhinho prà rua. Mede o ruído médio da rua.

Se o ruído da rua for maior q o ruído do bar, este não pode ser multado, mesmo q produza ruído acima do nível permitido.

HAHAHAHAHA

Peraí, deixa repetir, com ênfase.

HAHAHAHAHA
pára, pára, olha o Psiu

¡Ô gente burra! ¡Ô gente maquiavel!

Tem tanta hipoplausibilose nesse procedimento do Psiu, q o doutor talvez gargalhe até ser denunciado pelos vizinhos. Vejam uma lista:

• o ruído proveniente do bar dum lado da rua é refletido pelas edificações do outro lado da rua, pelos carros q passam, pelo próprio chão da rua; assim, qqer medição apontando no sentido oposto vai incluir uma parte do ruído do próprio bar
• é covardia incluir na medição da rua os buzinaços, carros com som e coisas do tipo; primeiro, pq são ruídos pontuais e passageiros, apesar de incomodarem bastante; segundo, pq esses ruídos são atraídos pela existência de bares na rua
• mesmo q o ruído normal do trânsito da rua for maior q os do bar, estes sempre incomodam mais pq são percebidos como propositais; não só isso, o ruído do bar está imbuído de informação, um componente q é processado pela mente consciente; por esses dois motivos, os ruídos do bar aparecem em primeiro plano, por assim dizer, enquanto q o da rua é percebido como ruído de fundo
• se o bar produz ruído acima do permitido, ele TEM q ser multado, não importa qto ruído haja em volta; o contrário seria como não punir alguém q assassinasse uma pessoa durante um naufrágio em q dezenas de outras pessoas estão morrendo acidentalmente; o crime aconteceu: se o assassino sobrevive ao naufrágio, ele TEM q responder por seus atos
• os bares não só produzem o próprio ruído como geram e se beneficiam do ruído da rua; é um sistema com retroalimentação (o chamado feedback) numa espiral; ou seja, qto mais ruído o bar fizer, tanto mais ruído haverá nos arredores

Claro q a solução presse pobrema não é a vigilância e a punição, mas uma mudança no código de construção de barzinhos q faça incluir diretrizes contra o incômodo aos vizinhos. Mas, enquanto os legisladores ignorarem a questão, nosso escoldrinhante humanista vai ficando cada vez mais afeito à idéia de guerrilha urbana; não fosse o barulho das bombas, dos tiros, dos gritos lancinantes e do palavrório besta, muitos barzinheiros já estariam apodrecendo nas sarjetas. Mas ¿talvez a melhor tática da urbanoguerrilha seja o silencioso envenenamento?

6 comentários:

Herpes da Fonseta disse...

O povo em geral gosta de VER mudanças. Sendo o mais provável que o Kassab seja re-eleito, a lição dele para outros prefeitos re-elegíveis é "faça mudanças visíveis na cidade, que não custem um centavo aos cofres públicos". Seu mandato até agora foi louvável e aprovo as mudanças. Mas o doutor poderia sugerir que, em seu próximo mandato, o Fator K promova mudanças não só visíveis como audíveis.

giovana disse...

Putz..voltei aqui...só para dar uma espiadinha... mas ... Quem não se incomoda com o barulho dos barzinhos nunca morou perto de um. Sabotagem total é a solução. Se esperar pelos governantes ou pela justiça acho que você morre antes!

Permafrost disse...

É mesmo, Herpes. Ouvi dizer q o Fator K tá pensando em proibir carros de som, tipo "pamonhas pamonhas". Já é um começo.

Giovana, ¿tens uma bazuca pra emprestar? Meu problema principal no momento são as buzinas. Daqui da janela, dá uma boa mira.

adelaide disse...

A cidade com sua barulheira sem fim nem limite produz surdos, neuróticos e cretinos das espécies mais variegadas. Mas além do barulho existem os fiscais (dentre os quais o Psiu), que não se empregaram pra salvar ninguém - os outros que se lixem. Isso vale pra polícia, emergências hospitalares, empresas de transporte e adjacências. Indo pra prateleira de cima, podemos verificar que a justiça existe pra soltar assassinos, os políticos pra enriquecer seus próceres e assim por diante. Melhor é ir pro bar e encher a cara - o que faz parte do silenciosos envenenamento de que fala o nobre colega, porque sono de bêbado não liga pro barulho.

Pracimademoá disse...

Buzina é um grande mistério para mim. Alguém deveria fazer algum estudo e tentar apurar o que se passa na cabeça de quem aperta uma buzina. Se é que passa alguma coisa. Buzinar me parece um ato visivelmente irracional.

Permafrost disse...

adelaide,
E mesmo, né? ¿Será q esse pessoal barulhento se embebeda pra conseguir dormir? Q paradoxo...

Demoá,
"Um ato audivelmente irracional", diria eu.

Se o Fator K* implementar algo contra, acho q a patroa vira pefelista**.

*como diz o Herpes aí acima
** trata-se de uma hipérbole; q ela não me ouça...

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