20 outubro 2008

Elo há

Depois da cagada toda, um âncora da Record, um tal de Britto Júnior, disse isto ao promotor q tava no caso:

"Quero só deixar claro aqui q nós fizemos um trabalho dentro da ética TOTAL. Em todos os momentos a gente fez a cobertura ouvindo os dois lados, q é uma tradição da Rede Record de Televisão, q SEMPRE faz uma cobertura INTENSA mas NUNCA sensacionalista."

HAHAHAHAHAHA

Veja aqui.

¡Gente BURRA!
namorando

¡¡Gente BURRA BURRA!!
seqüestrando

¡¡¡Gente BURRA BURRA BURRA!!!
reportando

Aí ¿alguém viria me dizer q um desfecho como esse nada tem a ver com a língua? q os processos mentais estropiados q promovem uma declaração dessas – em q as palavras não parecem significar NADA – e permitem q ela seja regurgitada dum cérebro humano não influenciam na maneira como os portadores dessa língua interagem? q o fato de alguém desse calibrinho consiga chegar a âncora dum programa de jornalismo (ou seja de texto) numa emissora central não tem nada a ver com a tragédia? q nada tem a ver com q no centro duma cultura q não produz idéias próprias haja um bando de descerebrados brincando de tecnologia no meio dum seqüestro?

Sorry, mas elo há.
________________

Adendo:

[Resposta ao leitor Pracimademoá, nos comentários.]

É verdade, parece q não concordamos. Mas dexeu explicar. É uma questão de categorias. Observe:

deixar claro: ¿Como assim, DEIXAR claro? 'Deixar' seguido dum adjetivo significa 'fazer algo/alguém passar dum estado a outro': "a notícia me deixou triste". ¿O âncora quer dizer q isso q ele quer esclarecer vai passar do estado 'obscuro' pro estado 'claro'? ¿E existe algo em "estado claro"?
• fazer um trabalho dentro da ética: ¿Q catso é isso? ¿A ética por acaso é um espaço abstrato onde cabem trabalhos q poderiam ser feitos "fora" dela?
• ética total: ¿Existe ética não-total?
• ouvir os dois lados: Este é o centro nevrálgico do problema criado pela cognização estropiada das informações: um bafafá imenso criado por um criminoso, e o âncora acha "ético" q se ouça o lado dele, passando por cima da polícia e das famílias envolvidas, e cagando tudo homericamente.
• tradição: ¿A tradição de uma vintena de anos da nova Record? ¿Tal como em "O churrasquinho do Aldir *já* virou tradição."? HAHAHAHA
• cobertura sempre intensa... nunca sensacionalista: O âncora quer atenuar o sensacionalismo com a palavra 'intensa' mas o argumento é tão fraco q ele tem q inserir a dicotomia hiperbólica "sempre/nunca", q na verdade ali só quer dizer "sim/não".

O âncora fala sem pensar no q diz. Sai tudo automatizado por toda uma vida ouvindo e praticando inexplicitude. Eu sei o q o âncora QUIS dizer, e acho q é a isso q vc se refere qdo diz q as palavras dele foram "muito" exatas. Mas o q eu, vc e todos entendemos, ele não DISSE. Disse OUTRA coisa. O q foi entendido não o foi através do significado e função das palavras, mas através do contexto. Tua cabeça ouve essa gororoba e processa: "Nesse contexto, essa série de palavras soltas SÓ PODE significar isto."

E o Brasil inteiro é isso, 24 horas por dia. ¿Nunca se perguntou – se o brasileiro trabalha tanto, ¿por quê há tanta fricção desnecessária, tanto desperdício, tanta coisa q dá errado??

¿Vc quis dar a entender q é burrice congênita? Mas não. A burrice é como a pobreza: o estado natural do ser humano. Sai-se da pobreza através duma organização econômica. Sai-se da burrice através duma organização cognitiva. O q tira a pessoa da burrice é a explicitude da língua e de seus usuários.

Contexto vc pode entender até sem palavras. Contexto até cachorro entende.

[Note q "em nenhum momento" (!) reclamei de gramática, concordância, &c. O problema todo tá nos significados e funções das palavras.]

8 comentários:

Herpes da Fonseta disse...

Elo, há ente tudo e tudo. Mas em vista da acusação pairando no ar (que o promotor, talvez por "cordialidade" brasileira, não explicitou), a declaração do âncora fez só um uso cínico das palavras. Eu não vejo esses desdobramentos todos que você vê. Obviamente, talvez você enxergue coisas que eu não enxergo.

Pracimademoá disse...

Discordo totalmente. As palavras parecem significar TUDO. Ao contrário dos fatos. Ao contrário do que deveria ser.

Talvez você se lembre do que eu escrevi aqui uma vez sobre o que é "verdade": não importa a sua orientação sexual, se o mundo inteiro disser que você é gay, você é gay, e não adianta desmentir. A verdade que prevalece é a verdade da maioria, e esta pode ser manipulada com as palavras. Os meios de comunicação sabem disso. Qualquer político que se preze sabe disso. Admira-me você não saber ou ter esquecido.

Bônus: note que o apresentador não deixa de usar a obrigatória expressão "em nenhum momento". Esta expressão virou moda no início dos anos 90 (eu presto atenção a esse tipo de coisa) e era muito usada, por exemplo, pelo jogador Edmundo ao negar as besteiras que fazia com testemunhas e tudo mais. Ou seja: "em nenhum momento" = apagado da história.

Pracimademoá disse...

Complementando - para ficar mais claro ainda: as palavras têm o mesmo poder que aquele aparelhinho de esquecimento do filme Homens de Preto. Só não têm efeito tão instantâneo. As palavras agem diretamente nos cérebros. A eficácia só depende da habilidade do manipulador. Se um número suficiente de cérebros forem manipulados, pronto: história apagada, "verdade" alterada.

As palavras são tudo.

giovana disse...

Putz, a respeito deste sequestro, achei que a pior intervencao geral tinha sido um que eu vi aqui no Japao...quando o sequestrador se entregou, deus telefonemas e tomou agua, a policia observando e uma emissora transmitindo... Mas o país melhor do mundo acaba de ganhar mais um título- o de sequestro mais mal resolvido, idiota e trágico do ano. Já fiquei revoltada daqui, não queria ver isso por quatro dias na midia!

Permafrost disse...

Demoá,
Vc tá escrachado de razão. Lembro q na faculdade um professor disse q na Roma antiga, se vc devia dinheiro pra alguém, podia virar escravo. O prof disse q havia homens q na verdade "não eram" escravos. Refutei bravamente: "Ué, se eles eram considerados escravos, então eram escravos, ora pois não?"

Mas aqui o assunto, pra mim, é outro. Esse texto aí poderia fazer parte da série "Origens lingüísticas do atraso brasileiro". As palavras , como vc diz, são TUDO, só q esse "tudo" do português abstrato ('deixar claro', 'ética', 'total', 'dentro da ética', 'os dois lados', 'tradição', 'sempre', 'intensa', 'nunca') é de uma vaguidão tão nebulosa, tão imaterial, q se vc somar todas as palavras-nuvem do português e multiplicar por todas as interações sociais q as utilizam, vai resultar num país q não produz idéias ou tecnologia, e é um usuário burro e irresponsável da tecnologia importada – com vários repórteres televisivos, fascinados pelos brinquedinhos, achando, em sua torpe nuvem cerebral, q basta isso e suas "boas intenções" pra resolver um problema daquele tamanho do outro lado da cidade. Com o "dever" e a "ética" de mostrar "os dois lados" ficaram perguntando ao rapaz repetidamente sobre seus motivos pra fazer aquilo, ajudando o cara a colocar sua irracionalidade em palavras, a enfatizá-la, a achar justificativas, a INSISTIR nela, a incitar seus objetivos, qdo um negociador profissional teria feito exatamente o oposto, pra acalmar o rapaz.

Quem matou a moça foi a burrice geral. E essa burrice geral está, no Brasil, intimamente ligada à mistureba de vapores semânticos no cérebro coletivo.

Permafrost disse...

giovana,
HAHAHA
Essa no Japão do cara beber água e dar telefonemas depois de se entregar deve ser por exagero de cortesia japonesa, não é não?

Pracimademoá disse...

Parece que falamos de coisas diferentes. Mas não. Só discordamos mesmo.

Você ainda acha que as palavras são "vagas". Eu acho o contrário: acho que elas são muito exatas ('deixar claro', 'ética', 'total', 'dentro da ética', 'os dois lados', 'tradição', 'sempre', 'intensa', 'nunca') e usadas com a intenção de manipular a percepção do maior número possível de receptores.

O máximo de "inconsciência" que eu admito na minha hipótese é a inconsciência do hábito: o sujeito faz tanto que já virou cacoete, como jogador de futebol que comete um pênalty óbvio e indiscutível, mas vai discutir com o juiz porque... oras, porque isso faz parte do jogo.

Sobre a morte da moça, eu acho que a polícia fez cagada. Fez tudo errado, o rapaz se descontrolou e atirou. A Record também fez cagada, mas por sesacionalismo. Não vejo relação com essa tal característica de estagnação induzida da língua portuguesa, que você parece ver em toda esquina. Eu diria que o problema não está na língua, e sim *na ênfase* que determinadas palavras e expressões recebem. Acho que o brasileiro tem de fato alguma atração por conceitos vagos. Mas acho que isso não se explica pela língua portuguesa em si. Acho que tem um rombo bem mais embaixo do qual você suspeita, mas ainda não achou de verdade.

Permafrost disse...

Demoá,
Leia o adendo.

Postar um comentário

consulte o doutor