27 outubro 2008

O Fator K

Êi, vc q é eleitor, ¿vc acredita mesmo q votação eletrônica é confiável?

HAHAHAHAHA

Cada idéia q me aparece.

Mas digamos q sim.

Aí ganha aqui em SPaulo o Fator K*. E aí vêm os comentaristas políticos explicar o ocorrido.

• Chega um e diz q a campanha do Kassab foi melhor e portanto convenceu o povão.

hahahaha

Té parece Vc pode até ficar de cabelos em pé vendo filme de terror, mas ¿daí a acreditar naquilo? O povo é a massa de manobra mas não é massa de moldar. Aliás, ¿alguém presta atenção em campanha?

• Chega outro e diz q o voto num candidato é a rejeição a outro.

HAHAHAHA

Té parece. Se o povão não se dá ao trabalho de racionalizar o voto, ¿vai se dar ao trabalho de racionalizar o não-voto?

• Chega outro e diz q o partido do governador é q elege o prefeito.

HAHAHAHA

Té parece. O povo tá tão inconsciente do partido do governador qto do prefeito. Falar de partido é coisa de torcedor de câmara e fofoqueiro político.

Aí vem um cara e pensa certo. Tal de Dimenstein. Quem votou em Kassab votou pq durante sua estadia na prefeitura o povão viu q prefeito é um cargo meramente administrativo q tem pouco a ver com questões partidárias / ideológicas / nacionais. A prefeitura é um âmbito executivo local, não é um âmbito legislativo nacional. Pessoas como a Marta e outras ficam aí embolando o meio de campo, mistificando a prefeitura, querendo fazer o povão crer q ela, se eleita, teria atribuição, poder e envergadura pra se meter em ideologia, qdo prefeito serve é pra erguer placa, escovar sarjeta e trocar lâmpada.

Pois aí o povão veio e ¡pumba!

Q sirva de lição.

*© Herpes da Fonseta

20 outubro 2008

Elo há

Depois da cagada toda, um âncora da Record, um tal de Britto Júnior, disse isto ao promotor q tava no caso:

"Quero só deixar claro aqui q nós fizemos um trabalho dentro da ética TOTAL. Em todos os momentos a gente fez a cobertura ouvindo os dois lados, q é uma tradição da Rede Record de Televisão, q SEMPRE faz uma cobertura INTENSA mas NUNCA sensacionalista."

HAHAHAHAHAHA

Veja aqui.

¡Gente BURRA!
namorando

¡¡Gente BURRA BURRA!!
seqüestrando

¡¡¡Gente BURRA BURRA BURRA!!!
reportando

Aí ¿alguém viria me dizer q um desfecho como esse nada tem a ver com a língua? q os processos mentais estropiados q promovem uma declaração dessas – em q as palavras não parecem significar NADA – e permitem q ela seja regurgitada dum cérebro humano não influenciam na maneira como os portadores dessa língua interagem? q o fato de alguém desse calibrinho consiga chegar a âncora dum programa de jornalismo (ou seja de texto) numa emissora central não tem nada a ver com a tragédia? q nada tem a ver com q no centro duma cultura q não produz idéias próprias haja um bando de descerebrados brincando de tecnologia no meio dum seqüestro?

Sorry, mas elo há.
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Adendo:

[Resposta ao leitor Pracimademoá, nos comentários.]

É verdade, parece q não concordamos. Mas dexeu explicar. É uma questão de categorias. Observe:

deixar claro: ¿Como assim, DEIXAR claro? 'Deixar' seguido dum adjetivo significa 'fazer algo/alguém passar dum estado a outro': "a notícia me deixou triste". ¿O âncora quer dizer q isso q ele quer esclarecer vai passar do estado 'obscuro' pro estado 'claro'? ¿E existe algo em "estado claro"?
• fazer um trabalho dentro da ética: ¿Q catso é isso? ¿A ética por acaso é um espaço abstrato onde cabem trabalhos q poderiam ser feitos "fora" dela?
• ética total: ¿Existe ética não-total?
• ouvir os dois lados: Este é o centro nevrálgico do problema criado pela cognização estropiada das informações: um bafafá imenso criado por um criminoso, e o âncora acha "ético" q se ouça o lado dele, passando por cima da polícia e das famílias envolvidas, e cagando tudo homericamente.
• tradição: ¿A tradição de uma vintena de anos da nova Record? ¿Tal como em "O churrasquinho do Aldir *já* virou tradição."? HAHAHAHA
• cobertura sempre intensa... nunca sensacionalista: O âncora quer atenuar o sensacionalismo com a palavra 'intensa' mas o argumento é tão fraco q ele tem q inserir a dicotomia hiperbólica "sempre/nunca", q na verdade ali só quer dizer "sim/não".

O âncora fala sem pensar no q diz. Sai tudo automatizado por toda uma vida ouvindo e praticando inexplicitude. Eu sei o q o âncora QUIS dizer, e acho q é a isso q vc se refere qdo diz q as palavras dele foram "muito" exatas. Mas o q eu, vc e todos entendemos, ele não DISSE. Disse OUTRA coisa. O q foi entendido não o foi através do significado e função das palavras, mas através do contexto. Tua cabeça ouve essa gororoba e processa: "Nesse contexto, essa série de palavras soltas SÓ PODE significar isto."

E o Brasil inteiro é isso, 24 horas por dia. ¿Nunca se perguntou – se o brasileiro trabalha tanto, ¿por quê há tanta fricção desnecessária, tanto desperdício, tanta coisa q dá errado??

¿Vc quis dar a entender q é burrice congênita? Mas não. A burrice é como a pobreza: o estado natural do ser humano. Sai-se da pobreza através duma organização econômica. Sai-se da burrice através duma organização cognitiva. O q tira a pessoa da burrice é a explicitude da língua e de seus usuários.

Contexto vc pode entender até sem palavras. Contexto até cachorro entende.

[Note q "em nenhum momento" (!) reclamei de gramática, concordância, &c. O problema todo tá nos significados e funções das palavras.]

05 outubro 2008

Ruído cerebral

Nosso esbelto doutor mal acordou hoje de manhã e já estava gargalhando. E nem foi pelas eleições. Liga um amigo dizendo q leu num jornal a sigüinte pérola.

Diz q tem crescido bastante o número de reclamações contra barulhos urbanos. Barzinho abre, lota, põe música (ao vivo ou "de fita"), esparrama mesas na calçada, surge a cantoria, cresce o movimento na rua, gente gritando, carros tonitroantes, buzinaços madrugueiros, algazarra, brigas bêbadas, &c. Morador das redondezas, incomodado, liga pro Psiu. Aparentemente, um produtor de ruído só pode ser multado legalmente se satisfizer duas condições: (1) fazer ruído regularmente e (2) ter CGC. Aí o Psiu manda técnico averiguar o nível de ruído do bar.

Agora vem a parte engraçada.

O técnico se planta na rua. Aponta o aparelhinho pro bar. Mede o ruído médio proveniente do bar. Gira 180°. Aponta o aparelhinho prà rua. Mede o ruído médio da rua.

Se o ruído da rua for maior q o ruído do bar, este não pode ser multado, mesmo q produza ruído acima do nível permitido.

HAHAHAHAHA

Peraí, deixa repetir, com ênfase.

HAHAHAHAHA
pára, pára, olha o Psiu

¡Ô gente burra! ¡Ô gente maquiavel!

Tem tanta hipoplausibilose nesse procedimento do Psiu, q o doutor talvez gargalhe até ser denunciado pelos vizinhos. Vejam uma lista:

• o ruído proveniente do bar dum lado da rua é refletido pelas edificações do outro lado da rua, pelos carros q passam, pelo próprio chão da rua; assim, qqer medição apontando no sentido oposto vai incluir uma parte do ruído do próprio bar
• é covardia incluir na medição da rua os buzinaços, carros com som e coisas do tipo; primeiro, pq são ruídos pontuais e passageiros, apesar de incomodarem bastante; segundo, pq esses ruídos são atraídos pela existência de bares na rua
• mesmo q o ruído normal do trânsito da rua for maior q os do bar, estes sempre incomodam mais pq são percebidos como propositais; não só isso, o ruído do bar está imbuído de informação, um componente q é processado pela mente consciente; por esses dois motivos, os ruídos do bar aparecem em primeiro plano, por assim dizer, enquanto q o da rua é percebido como ruído de fundo
• se o bar produz ruído acima do permitido, ele TEM q ser multado, não importa qto ruído haja em volta; o contrário seria como não punir alguém q assassinasse uma pessoa durante um naufrágio em q dezenas de outras pessoas estão morrendo acidentalmente; o crime aconteceu: se o assassino sobrevive ao naufrágio, ele TEM q responder por seus atos
• os bares não só produzem o próprio ruído como geram e se beneficiam do ruído da rua; é um sistema com retroalimentação (o chamado feedback) numa espiral; ou seja, qto mais ruído o bar fizer, tanto mais ruído haverá nos arredores

Claro q a solução presse pobrema não é a vigilância e a punição, mas uma mudança no código de construção de barzinhos q faça incluir diretrizes contra o incômodo aos vizinhos. Mas, enquanto os legisladores ignorarem a questão, nosso escoldrinhante humanista vai ficando cada vez mais afeito à idéia de guerrilha urbana; não fosse o barulho das bombas, dos tiros, dos gritos lancinantes e do palavrório besta, muitos barzinheiros já estariam apodrecendo nas sarjetas. Mas ¿talvez a melhor tática da urbanoguerrilha seja o silencioso envenenamento?