11 agosto 2008

Alvos, encaixes e válvulas (conclusão)

• FIAÇÕES

Nosso evidente doutor não se cansa de gargalhar qdo ouve um tronho se deslinguar sobre o Nobre Destino da Raça Humana (qdo não de sua nobre origem), fazendo questão, claro, de requentar algum nhoque sobre a esperança humanista e espetar algum alfinete nessa gente má q impede a paz mundial mas curiosamente não impede o tronho de falar besteira.

Já o doutor, não fica idealizando seu destino ou sua origem: ele sabe q é um macaco; sabe q tem um cérebro macacal com todas aquelas emoções macacais, aquele jeito macacal de lidar com prazeres e repugnâncias, com afetos e desafetos. O doutor conhece seu lugar no universo: não passa dum semi-complexo aglomerado orgânico temporário de moléculas, q inclui um cérebro q cogniza e intelige. Somos todos macacos no mesmo sentido: macacos q cognizam e inteligem um pouco mais q outras espécies de. Por mais q sonhe e racionalize, o humano jamais deixará de ser um macaco, assim como jamais deixará de respirar oxigênio. Sorry, tronho. A crença, aprés Spencer, de q o mundo (¿como assim? o universo?) tende a melhorar por meio da intervenção consciente de alguns macacos é algo q inspira no Dr Plausível um sorriso fanho.

Aspirar a algo ãã... “superior” é um resultado fortuito do inteligir. A diferença entre cognizar e inteligir não é trivial. Cognizar é fazer uma representação mental de algo percebido. Inteligir é encontrar associações plausíveis entre cognições (aquele q intelige é ‘inteligente’, assim como algo q ocorre é ‘ocorrente’). O mundo produz e é composto de combinações e rearranjos de elementos; ao cognizar a combinatoriedade do mundo, o cérebro humano começa a inteligir combinações imaginadas – algumas práticas ou exeqüíveis, outras absurdas ou quixotescas. De imaginar a aspirar, é um pulinho.

Uma variante não-tronheta da esperancite humanista é o deslumbre com a ciência – q, a rigor, é apenas um método consistente de cognizar e inteligir a regularidade do mundo. A regularidade do mundo é externa ao cérebro humano: é um dado fortuito, não uma premissa – digo “fortuito” porque até alguns séculos atrás, nem sequer se supeitava q a regularidade permeava cada cagagésimo do universo; o cérebro em si apenas *processa* a regularidade: ele não tem parâmetros internos pra definir como o mundo deve ser observado.

O deslumbre com a ciência é compreensível: o macaco dentro de nós nunca vai deixar de se arregalar com tanta coisa q dá pra fazer com ela.

Só q, em última análise, o cérebro tá fadado à auto-ignorância. Atalhos, não há. Cada novo cérebro – q vive uns míseros 70 anos antes de virar carniça – tem q ser longa e cansativamente treinado pra viver no mundo, usando um vocabulário limitado e tendo q se ocupar de assuntos prosaicos antes de se concentrar nas questões últimas. Primo mangiare, dopo filosofare.

Mas (o grande “mas”) o número de combinações imagináveis de elementos é infinito; e todo novo cérebro – depois de repisar o caminho já repisado por seus antecessores – se propõe a encontrar novas combinações, novas formulações, e não leva em conta q o tempo todo a realidade é reles e há limitações físicas e biológicas intransponíveis. Devido a sua tendência a inteligir, o cérebro é incontentável; o tempo todo a consciência quer mais. Um tronho nascido no ano 74.329 *vai* se achar o rei da cocada preta e *vai* achar q finalmente entendeu algo q nenhum dos 5 trilhões de humanos anteriores entendeu. Só q, como já disse, qqer coisa q um cérebro saiba será necessariamente mais simples do q o próprio cérebro. Em particular, por mais q um cérebro específico entenda o universo e as leis da física e as interações sociais, ele *jamais* vai entender a si próprio. A consciência – o q é, onde tá e como funciona – é um enigma q talvez se possa observar genericamente como um objeto externo, mas *jamais* se poderá compreender por introspecção. Pra q uma consciência pudesse olhar pra si mesma, ela teria q ser paradoxalmente menos complexa do q ela mesma.

Agora, o fato de o cérebro ser orgânico implica em duas coisas: (1) ele tá sempre mudando lentamente e (2) não há dois cérebros iguais. Cada cérebro tem sua própria fiação; cada pessoa cogniza e intelige segundo sua própria idiossincrática fiação, e tá predisposto a tomar um caminho peculiar – a partir de certo ponto inconhecível por outros cérebros. Algumas fiações levam a crer em fantasmas, outras levam à pedofilia, outras ao radicalismo, outras ao apateísmo; algumas produzem pessoas simpáticas e falsas, outras resultam em pessoas desagradáveis e caridosas, &c &c &c. "Instances of human range", no dizer de Roger Rosenblatt. Claro, alguns cérebros são, digamos assim, ¿como direi?, ãã... são mais *básicos* do q outros; o caminho q eles percorrem é, mmm, peraí, dechovê, ãã... é *menos distante*. Alguns cérebros inteligem bastante numa área mas nem tanto em outra. E assim por diante. Então, não admira q o inteligir de alguns cérebros em áreas específicas pareça tão tosco ou primário a outros.

A noção de ‘fiação’ do cérebro, de q cada cérebro tem uma estrutura diferente, desemboca *necessariamente* na aceitação da pluralidade, na aceitação de q a variabilidade é a regra, e q portanto não se pode esperar, prescrever ou implementar um critério fechado prum ideal de perfeição geral pra TODA a humanidade. A imposição dum critério só vigora temporariamente, e mesmo assim à base de hipocrisia. ¿Qtas pessoas condenam em público o q fazem em privado? Em particular, ¿qtas pessoas se dizem religiosas em suas comunidades e se coreografam nas manadas rezatórias muçulmanas, cristãs, &c mas na verdade não acreditam em porra nenhuma?

Se vc enxergar a pluralidade do mundo, será capaz de encontrar o sorriso Walter Brennan q existe dentro de si. Qdo um tronho cita uma escritura qqer como parâmetro absoluto de alguma coisa (“A Bíblia/o Corão/o Talmude/a Constituição é A Única Verdade.”), ele não tá fazendo mais do q sendo um macaco aplicando sua fiação específica de macaco - sequaz - territorialista - peremptório - regrista. Esse macaco é particularmente gargalhável porque é o epítome do tronho: é a pessoa q não admite a pluralidade, o macaco q não enxerga a ironia de q sua fiação anti-pluralista só existe porque existe a pluralidade, ou seja, q seu anti-pluralismo tá incluído na variabilidade da raça humana. É invisível a ele o absurdo da frase “todos deveriam ser como eu porque eu *calhei* de ser como sou”.

É claro q, sendo verdadeira a implicação (1) acima (de q o cérebro individual tá sempre mudando lentamente), todo mundo pode aprender. O macaco - sequaz - territorialista - peremptório - regrista q tá no coração de todo religioso tem q aprender a enxergar-se como um espécime da variabilidade humana, em lugar de projetar-se como um exemplo imperfeito do ideal divino. Seria um primeiro passo pra finalmente admitir q qqer livro sagrado é apenas uma tela onde cada religioso projeta seus próprios preconceitos.

¿A expectativa do Dr Plausível? Zero.