10 julho 2008

A síndrome de Willian

Nosso encomiável doutor quase não lê jornal. Comprar, então, só in extremis. Sair de manhã pra seu morning constitutional e dar uma paradinha na banca pra ver as manchetes penduradas é um hábito q ele não renega desde seus tempos de estudante no Instituto de Plausibilática de Tallinn. O raciocínio de nosso humanista é impecável: se all news is old news e se os jornais controlam as notícias diariamente, então uma bizoiada a cada 24 horas na primeira página basta. Não quer se meter a ler jornal não. Há entre o doutor e o jornaleiro um acordo tácito. O doutor pode às vezes tirar fotos das manchetes em troco da preferência de comprar ali seus gibis, qdo lhe dá na telha. Há pro outro o bônus adicional de começar bem o dia com o contágio dum gargalho plausônico.

Esta manhã foi uma glória pro jornaleiro. Ao ver a primeira página da Folha, a gargalhada múltipla de nosso humanista o infectou em tal grau q a rua toda invejou os dois por estarem começando uma quinta-feira pós-feriado num astral hilariante. O q o doutor viu foi isto:




Desde a ascensão da imprensa como meio político, há entre deputados de todas as laias um tipo de velhacaria muito comum q consiste em simbolizar tudo errado com o intuito de confundir as coisas q já estão confusas na mente de quem se vale desse recurso.

Pois pergunta-se: ¿o q tem a ver, dum lado, um político evangélico numa confortável sala do congresso carregando nos braços duas bonecas levinhas durante alguns minutos pruma photo-op... com, do outro lado, uma mulher realista neste mundo decididamente desconfortável carregando na barriga durante 9 meses um pesado feto indesejado com a suposição de q se responsabilizará por ele durante os 18 anos seguintes?

Todo assunto sério abordado com cretinice dá nesses absurdos q em si são risíveis. Mas o q destrambelhou o doutor a rir foi ver o NOME do deputado. Qqer pessoa sensata e culta q se preze vê logo de cara q alguém q veio ao mundo com o nome Willian (note: williaN) não deve ter crescido num ambiente com muito apego à realidade q o cerca. "William com ene" é uma coisa estapafurdiamente diferente de "Brasil com zê". Brazil é o sarcasmo ao estar consciente do significado q uma letra pode assumir; Willian é a sedução do iletrado inconsciente do q as letras dizem. Está claro q ter um nome tipo 'Willian' não desmerece ninguém a priori. Chamar-se Jean-Claude ou Djéfersão ou Orprúndio não é opróbrio nenhum prum brasileiro (muito menos aos olhos do doutor – cujo primeiro nome, diga-se, é Amônio). Mas imagine a infância desse menino, nascido desortograficamente numa nação genuflexa perante nações melhor estruturadas, crescendo sem orgulho pátrio de sua própria língua e cultura, com uma desatenção cor-de-rosa pelos detalhes da cultura importada, seguindo um culto evangélico q se pauta por Bíblias (mal) traduzidas do inglês e por discursos (mal) adaptados de problemáticas euaenses, galgando-se social e politicamente por utilizar técnicas de marketing religioso originadas "lá" e trazidas "de lá" por missionários deslumbrados, e então aplica sua ideologia pra-inglês-ver no congresso brasileiro, onde a questão é totalmente outra, e – pra arrematar – insulta as leis brasileiras e a mínima inteligência do público brasileiro ao tomar emprestado TAMBÉM os confusos e pérfidos processos mentais da religiopatia euaense e chama de "abortos" os trágicos assassinatos daquela menina paulista pela janela e daquele menino carioca no carro. Imagine. É um mundo paralelo tomando conta da realidade.

Numa nação genuflexa e ignorante, é um problema constante q se transforme a genuflexão disléxica numa profissão de fé, diversificando-a em genuflexão cultural e ideológica, genuflexão metodológica e econômica, genuflexão religiopática e política.

Talvez pareça q o doutor enxerga uma causa lingüística até mesmo na questão do aborto, quase beirando a botar nos gramáticos normativos e reformadores ortográficos a culpa pela sandice q rotineiramente leva genuflectores à câmara federal. Mas o nome do rapaz é apenas um detalhe engraçado. Por outro lado, a prova da genuflexão disléxica taí pra quem quiser ver. Um deputado federal chamado Willian segura duas bonecas e acha isso um símbolo pertinente numa guerra eterna entre ideologias traduzidas.

O Dr Plausível viu tudo isso ali, ao ler a primeira página do jornal pendurado na banca da esquina. Só podia mesmo gargalhar.

O acordo tácito entre ele e o jornaleiro se parece com aquele entre a hipocrisia política e a franqueza da realidade. O doutor não vai comprar um trambolho de jornal só pra ler algumas notícias; se ele não puder ler as manchetes ali, vai ler em outra banca. O jornaleiro sabe disso; o q ele perde no jornal, ganha no gibi. Quem quer fazer um aborto faz, sem pensar se é criminalizado ou não; se não puder fazer de graça num hospital público, vai fazer em outro lugar. Os willians sabem disso. O acordo tácito é entre quem condena e quem faz: "Ninguém vai te pôr na cadeia, mas me reservo o direito de berrar contra." O q eles perdem em realismo, ganham em angelismo. Mas o q eles não querem mesmo é pagar pelo aborto; ou seja, não querem gastar dinheiro, mesmo q se prove q seria pra se ter um país melhor. De melhor, basta q existam os ideais platônicos da Europa e dos Euá – aquele país onde o aborto é legalizado e produz o maná de onde os willians dislexicamente derivam suas idéias.

Morning constitutional, indeed!

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Adendo:

Apesar dos Willians, este país descende culturalmente é de Portugal. Só em fevereiro de 2007 é q os portugueses foram aprovar em referendo o q eles chamaram de "despenalização da interrupção voluntária da gravidez ... nas primeiras dez semanas". É ligeiramente intrigante aventar q esse país da periferia européia não teria tido a iniciativa e o impulso de se modernizar nesse sentido não fosse o exemplo prévio da maior parte do restante da Europa. Talvez o q falte a sua ex-colônia tupiniquim não seja bom-senso, mas *vizinhos* com bom-senso.

Veja o mapa da legalidade do aborto no mundo.

Veja também este engraçadíssimo esquete em q o Gato Fedorento satiriza a incongruência na opinião dum conhecido comentador televisivo, durante o debate q antecedeu o referendo.

7 comentários:

Pracimademoá disse...

Muito bom.

Herpes da Fonseta disse...

Boa palavra, "angelismo", não conhecia.

Permafrost disse...

Tanque, Demoá.

Herpes,
a segunda acepção do Houaiss diz "simplicidade ou inocência manifestada ger. por quem se recusa, por pudor, ingenuidade ou hipocrisia, a encarar uma realidade incômoda". Eu tava interessado só na parte da hipocrisia. Deve haver uma palavra mais específicamente descritiva pra "hipocrisia de esconder uma realidade incômoda", talvez uma gíria regional.

Pracimademoá disse...

Interessante, esse mapa. Lembra-me um diálogo de um filme brasileiro em que se dizia (meio de gozação) que "o calor gera subdesenvolvimento". Por isso é mais desenvolvido do equador pra cima. No Brasil, o oposto: mais desenvolvido no sul que no norte - por causa do calor.

carlinhos do amparo disse...

Linquei no meu blogue, por considerar plausível a gargalhada matinal do sábio doutor. Congratulações!

Rômulo Arbo Menna disse...

qdo me organizar com um blog pessoal tbm linko.
por enqto, presto reverências renovadas. mto bom o post.

Permafrost disse...

Obrigado, do Amparo. Vou dar um zóio lá.

E obrigado, Arbo Menna. Preu dar um zóio, precisa existir, não? E aí?

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