01 julho 2008

Alvos, encaixes e válvulas (3)

3. VÁLVULAS

So remember, when you're feeling very small and insecure,
How amazingly unlikely is your birth.

E Idle, "The Galaxy Song"

Is it really kind to treat them according to their folly instead of to
our wisdom?

G B Shaw, The Simpleton of the Unexpected Isles


Nosso epistolar humanista tem uma quedinha por se compadecer de megalômanos. Toda vez q vê alguém se achando, tem um impulso de lhe dar uma esmola.

Ele se compadece porque, claro, entende o problema. Se vc é uma pessoa normal neste planeta confuso dentro dum universo incerebrizável, vc tá paradoxalmente dotado de auto-estima. O paradoxo é q a auto-estima do indivíduo precede sua conscientização de sua família, sua comunidade e sua nação; e q a auto-estima do humano precede, historicamente, sua conscientização de sua espécie, seu planeta, sua galáxia e seu universo. Ou seja, a gente primeiro aprende a se achar os reis da cocada preta, pra só depois descobrir q cocada preta não tá com nada.

Dá só uma bizoiada no tamanho do universo: só a parte visível dele mede 8,7x1023km. Pra visualizar isso mais ou menos: se alguém pudesse viajar a 1000km/s, levaria 27.901.503.582 milênios pra atravessar o dito cujo – quase 28 bilhões de milênios.

Esses números só foram descobertos no século XX. Antes disso, era bem mais difícil controlar a megalomania inata do cérebro-de-macaco-falante. Pegue qqer espécie de animal – digamos, o camelo – e aumente o tamanho de seu cérebro até q conscientemente tenha abstrações sobre as regularidades do mundo real, e o resultado será um camelo megalômano. Faça o teste pra vc ver. O camelo vai achar seu oásis o melhor lugar do mundo, suas corcovas uma obra de arte, seus filhotes os herdeiros da Terra, seus trocadilhos o mistério da vida, seus curtos-circuitos cognitivos as revelações da divindade camelar. Até aí, novidade nenhuma.

Mas uma coisa q megalô nenhum gosta é de descobrir q sua consciência um dia vai pifar. Ninguém tem medo da morte per se. O pobrema é a consciência findar irremediavelmente.

Outro pobrema do megalô são os limites da inteligência. ¿Qto é possível associar e reter em 1,5kg de cérebro primata? ¿Q tamanho precisaria ter o vocabulário pra incluir toda a inteligência possível? ¿Qto desse vocabulário cabe no cucuruto? O megalô sabe q seu tutano é finito, bem finito, muito menor do q ele gostaria q fosse. E se fosse maior (aliás, mesmo q venha a ser maior), não ajudaria em nada: qqer coisa q um cérebro saiba será necessariamente mais simples do q o próprio cérebro.

Se pro megalô é insuportável conscientizar-se de q a consciência terminará, se é humilhante inteligir q a inteligência tá delimitada pelo cérebro e pelo vocabulário, ¿q fazer, entonces? Ora, postular um deus, uma Consciência Cósmica, uma Inteligência Superior, um ser compreensível apenas através de suas (da deidade) imanências [ie, a alma de cada megalô], um ente sensibilizável e atingível por meio de ações – q são a única coisa supostamente controlável pelo indivíduo.

Mas como tal ser é obviamente inescrutável neste mundo arrasadoramente regular e monotonamente previsível, o megalô deposita suas esperanças na morte; ela passa a ser não o fim, a evaporação da última gota, mas uma válvula na extremidade dum tubo q leva a um recipiente maior. Bem maior. Beeeem maior. Bem bem bem bem BEM maior. Aliás, infinito – pra evitar certas perguntas.

Crentes e fundamentalistas de todas as religiões e credos místicos expressam várias objeções contra a ciência. Todas essas objeções derivam duma única objeção, sempre inexpressa: a ciência humilha, coloca inegavelmente o humano num lugar piquititico; coloca a cidade sagrada num enorme mapa duma Terra esférica q gira em torno duma pequena estrela num dos braços duma galáxia média em meio a bilhões de outras galáxias, com possíveis bilhões de outras cidades – sagradas ou não; coloca o humano e suas crenças e culturas e orgulhos num raminho frágil duma árvore genealógica de origem química q já vinha crescendo havia milhões de anos, junto a milhares de outros animais; coloca a iminência de este planeta ser totalmente aniquilado sem motivação ou intenção alguma, a qqer momento, por um meteorito aleatório.

Até o século XIX, era possível apaziguar a auto-estima com religiões escritas e descritas por luminares q não enxergavam mais longe do q era visível duma aldeia no Oriente Médio ou alhures. Era possível acalmar e inflar o megalô q existe em cada um pelo simples método de dizer q ele era um ser especial. Funcionava direitinho. Bastava crer.

Mas uma coisa é crer e outra é saber. Não há crer q não almeje tornar-se um saber. O tronho chama sua margarina de 'manteiga' só pra dizer q usa manteiga.

Hoje já se sabe um pouco mais. Por exemplo, sabe-se agora q só há UMA resposta prà pergunta: ¿por q cargas d'água um deus – uma Consciência Cósmica, uma Inteligência Superior – faria um trambolhão dum universo dessa vastidão e depois escolheria um grupinho de primatas nalgum lugar inóspito, ignorando todo o resto, pra comunicar a eles suas preferências implausivelmente convenientes sobre como viver, e dar só a eles a chave da válvula megalô?

A resposta é: "Ããã."

_______
[aguarde a conclusão da série]

25 comentários:

Permafrost disse...

A citação do G B Shaw pode parecer q está aí por um certo motivo, ou pelo motivo exatamente oposto. Mas não está nem pelo um nem pelo outro.

Lucas disse...

Cara, você quer uns tapinhas nas costas e uma noite num puteiro (nada além disso)?

Ou uns trocados, sei lá.

Põe uma wishlist aí no blog, adoro seus posts e tudo que posso fazer é mandar pros meus amigos que costumam não entender muita coisa.

rolando disse...

ah , mas o doutor não respondeu à pergunta , "Ããã." não é resposta , é só a reação de quem não sabe
...
talvez a resposta não seja dada pela razão , mas pelo coração

Permafrost disse...

rolando,
O doutor não arrespondeu pq se trata de uma pergunta sem resposta. Um exemplo de pergunta sem resposta é:

¿Por que o Pato Donald viveu no século XLIII e não no XXXIV?

Essa pergunta não tem resposta por vários motivos; entre eles:

1. o Pato Donald não foi, não é e não será um ser vivo;
2. o verbo no passado contradiz o século no futuro;
3. a pergunta tem uma premissa embutida (q o PD viveu no século XLIII) q precisaria ser aceita pra q a resposta fizesse sentido;
4. como se não bastasse, a pergunta pede o *motivo* prà inexistência de uma falsidade absurda.

Faça as adaptações necessárias e vai entender por quê a resposta àquela outra pergunta é "ããã".

Permafrost disse...

Ah, Lucas, obrigado.
Acho q uma contribuição anual de 5 bilhões de dólares seria suficiente e justa.

Andre disse...

Discordo de uma coisa:
"qqer coisa q um cérebro saiba será necessariamente mais simples do q o próprio cérebro"
É como se o cérebro fosse uma HD de computador, e ele retivesse uma memória de algo mais complexo do que ele próprio.

Ah, vou falar a verdade. Essa idéia da HD veio depois do que eu havia escrito, e, pra falar a verdade, nem achei a comparação muito boa, mas resolvi deixá-la mesmo assim. A verdade mesmo é que eu não sei bem o pq eu discordo da frase. É algo meio que intuitivo, tipo, a afirmação me parece errada, mas eu não sei bem o pq.

:/
Abraços,

Pracimademoá disse...

Eu também não gostei do "Ããã" e quase postei um comentário malcriado ontem. Tipo, o artigo é ótimo, mas o fim é péssimo.

O "Ããã" é muito descortês. A pergunta que o "Ããã" responde é ruim, mas se o próprio autor do artigo propõe a pergunta bisonha, eu fico com a impressão de que ridicularizar a pergunta era a única intenção desde o princípio.

Talvez fosse mesmo, mas me parece rude e inoportuna. Eu acho que qualquer pessoa inteligente, ao ler/ouvir/tratar sobre o universo, não resiste à tentação de refazer as velhas perguntas clássicas: quem somos, o que é isso tudo, por quê e como tudo isso está acontecendo. Mesmo para quem não cai na conversa mole das religiões e convence-se de que nunca vai ter as respostas, o indivíduo tem que ser meio lobotomizado para não ter pelo menos a vontade de saber essas coisas que o artigo insinuou com tanta destreza até o penúltimo parágrafo, incluindo a pergunta bisonha, que é que nem filme de amor: a gente acha piegas, mas no fundo, identifica-se com o protagonista e quer saber como a história acaba. O "Ããã" é um balde de água fria desrespeitoso no fim de um artigo que havia começado de forma envolvente e fascinante. Eu me senti traído e até um pouco insultado.

Eu costumo me declarar "ateu" meramente por conveniência. É a minha forma ultra sucinta de informar aos meus interlocutores que eu não acredito no Papa, não acredito nos santos nem em expiação, não acredito que o sangue de Jesus tem poder nem na Regina Duarte, não acredito em reencarnação, não acredito em preto velho e encruzilhada, não quero saber pra que lado fica Meca e, principalmente, não gosto de falar de religião. É uma pose de niilista que eu ostento só para encerrar e/ou evitar um assunto que raramente é tratado de forma inteligente ou simplesmente razoável.

Mas, para alguém com inteligência um tanto acima da média, acho que eu posso dizer que considero a idéia de descartar completamente a hipótese de uma inteligência superior ("Deus") tão burra quanto acreditar logo de cara no monte de besteiras que as religiões sugerem. E acho até pusilânime essa postura supostamente "agnóstica" (como você a classifica em outros artigos) de sair-se com um "Ããã" diante das especulações sobre o universo e a existência. Por mais que as respostas estejam fora do nosso alcance, as perguntas - as perguntas certas - nunca deixam de ser pertinentes e edificantes. Defletir completamente discussões sobre algo que TODO MUNDO quer saber com locuções dadaístas é algo que me passa uma forte impressão não salutar, uma impressão de revolta, apatia, impotência, desalento, ausência de apetites e convolução, sintoma de alguma espécie de distúrbio do ânimo natural de uma pessoa saudável. Ou seria medo de ver-se acuado na obrigação de propor teorias tão passíveis de críticas quanto os devaneios de um filósofo da montanha? Diga-se logo "Ããã" PARA EVITAR CERTAS PERGUNTAS?

Acho pouco provável. Tem mais aparência de convolução mesmo. Pois, em duas passagen

Pracimademoá disse...

Acho pouco provável. Tem mais aparência de convolução mesmo. Pois, em duas passagens, o Dr. parece indicar que ser normal e saudável é normal, mas não saudável. O Dr. se compadece de quem se atreve a manter o ânimo.

A menos que refira-se a personagens muito específicas, o artigo acaba tendo efeito de subestimação generalizada e injusta do equilíbrio mental de toda a raça humana. Pior, pode até ser interpretado como ensaio para um pequeno tratado de repúdio contra todos os esforços de dignidade: "pra que manter a cabeça erguida se somos só um monte de merda?"

Andre disse...

Pracimademoá,

"acho que eu posso dizer que considero a idéia de descartar completamente a hipótese de uma inteligência superior ('Deus') tão burra quanto acreditar logo de cara no monte de besteiras que as religiões sugerem"
Discordo. Descartar completamente a hipótese de uma inteligência DE CARA, SEM PENSAR NO ASSUNTO realmente é uma coisa burra. Mas se se pensar no assunto e aí descartá-la, não vejo o menor problema. É como normalmente descartamos a hipótese de que existem fadas e unicórnios e sacis.

Sua última questão tbm me chamou a atenção:
"pra que manter a cabeça erguida se somos só um monte de merda?"
Eu, que sou ateu declarado e de fato (você só é declarado), ouço muito coisas desse tipo de religiosos. Não acho uma pergunta séria. Particularmente, eu penso mais ou menos isso: sim, somos todos um monte de merda. Menos que isso. Mas, comparado a os outros pedacinhos de merda, eu quero ser melhor.

E, como não poderia deixar de fazê-lo ao ler seu comentário, recomendo Deus, um delírio, de Richard Dawkins (acho até que já foi recomendado num outro post, não foi?).

Att,
André

Andre disse...

Ei, esquece o exemplo da HD! Lembrei de um bom, de algo que é mais simples do que o que encerra: qualquer célula, que contém em si (no DNA) toda a informação do ser completo, mesmo sendo apenas um pedacinho. Acredito que é possível que isso possa acontecer com o cérebro tbm. Quem sabe um dia poderemos saber tudo.

Permafrost disse...

Demoá,
Bem perspicaz, teu comentário. Mas ¿vc não viu q a série não terminou?

Realmente o doutor não se esquivaria da maioria das repreensões q vc faz aí. Mas vc talvez esteja chocado pela secura e subitaneidade do dadaísmo no final, mais do q pelo q ele está dizendo. É como lamentar a morte besta de um jovem talentoso: "Tão jovem, um futuro tão promissor pela frente, e... morre escorregando numa banana... ¡Q mundo injusto! ¡Q destino descortês e rude!"

"o Dr. parece indicar que ser normal e saudável é normal, mas não saudável. O Dr. se compadece de quem se atreve a manter o ânimo"

A coisa é o q é. Chamar a megalomania humana de "ânimo" é quase um positivismo. A megalomania não é uma moléstia: é uma decorrência inevitável de encaixar a realidade na consciência. E a consciência é uma espécie de descontentamento: "E agora, ¿o quê?; e depois disso, ¿o quê mais?"

Taria bom se houvesse um fim, se fechasse um círculo; mas não vejo o futuro promissor da raça humana deslumbradamente vislumbrado tanto por religiosos (depois da morte) como por cientistas (depois q "tudo" for descoberto). Tou pensando, lembre-se, não em daqui a mil anos, mas daqui a 10mil, 100mil. Acho q não vai dar em nada. O tempo todo a realidade é reles e há limitações físicas e biológicas intransponíveis. E o tempo todo a consciência quer mais. A consciência talvez seja uma maldição: enquanto os outros bichos exercem blasémente suas paixões e apetites, a regularidade do mundo impõe à encaixofilia humana uma impressão de propósito, de necessarismo.

Mais sobre isso na conclusão.

A pergunta em si, caso feita a um religioso qqer, não vai lhe soar "bisonha" mas certamente vai exigir concessões tanto à ciência qto ao ecumenismo ("Deus falou a todos e cada qual entendeu um pouco diferente" – uma resposta, essa sim, bisonha). Mas me pergunto se vc pegou a entonação do "Ããã." Não é "dãã", nem "¿ãã?", nem "ãã...". É "Ããã.", tipo assim qdo alguém faz uma pergunta absurda e vc diz "ãã" pra encorajar a pessoa a arrematar com algo mais respondível.

Permafrost disse...

Andre,
Eu mesmo ia propor o dna como metáfora alternativa daquilo q vc disse. Vc diria q o dna tem "a memória de algo mais complexo do que ele próprio". Mas ¿será? O dna é apenas uma série de instruções enfileiradas. Ele não "sabe" o corpo inteiro, do mesmo modo q uma ponta do dna não "sabe" o q há na outra ponta, ou mesmo na seção contígua, ou do mesmo modo q a primeira página de um manual de instruções não sabe o q a segunda contém. O q o dna faz é desencadear processos q se desenrolam por si sós; ele não descreve os processos.

Já o cérebro, não é um enfileiramento bruto mas uma estruturação. Claro, estruturar informações permite q mais informações sejam armazenadas do q seria possível apenas enfileirando-as – assim como há muitos mais romances possíveis do q dicionários possíveis. Mas cada biblioteca pode conter apenas um número limitado de livros. Pode-se até postular estruturações possíveis do cérebro q seriam muito mais eficientes, mas a finitude do cérebro continuará inconstestável.

É possível também q o universo não seja assim tão complexo q precise de um cérebro prodigioso pra ser compreendido. Mas a questão não é essa. A questão é q o cérebro é incontentável.

Andre disse...

É, meu ponto é, basicamente, esse que não é a questão. Eu acredito na possibilidade do universo não ser tão complexo assim, e que as informações necessárias para entendê-lo "cabem" no cérebro.

Além disso, concordo que ele (o cérebro) seja limitado, mas talvez o limite seja tão alto, mas tão alto, que podemos considerá-lo infinito. Além, claro, da possibilidade de o cérebro NÃO conseguir reter muita informação, mas consiga construir algo que retenha (internet, por exemplo).

Enfim, o que digo é que acho que, se ainda existirmos daqui a 10 ou 100 mil anos, teremos já desvendado tudo o que hoje não entendemos (e, imagino, novos desafios terão aparecido, que com o tempo serão resolvidos, etc). Quer dizer, na verdade mesmo, eu realmente acho que iremos destruir tudo o que construímos em alguma guerra santa ou algo assim, e daqui a 10 mil anos a humanidade terá voltado ao patamar de desenvolvimento da idade do bronze, e nesses ciclos de destruição/reconstrução a humanidade permanecerá.

Att,

Pracimademoá disse...

Eu não tinha mesmo captado a entonação. Porque texto não tem entonação, né? :-

Estou com mais um monte de idéias aqui na ponta da língua, mas vou esperar a sua conclusão.

Você já havia concluído alguma série antes dessa? Não me lembro de nenhuma. :-P

Permafrost disse...

Pô, Demoá, deprecia mas não tripudia...
:)
HAHAHAHA

Pracimademoá disse...

Poxa, era só brincadeira. Não quis ofender!

Pracimademoá disse...

Esse troço do Haloscan está completamente maluco ou o Speedy está fazendo algum cache fajuto para encobrir os efeitos da pane.

Eu entrei aqui e o meu último comentário tinha desaparecido. Achei que o Perma tinha apagado, por isso me desculpei.

Daí eu voltei, e o artigo acusava 16 comentários, mas aqui tinha 12. Nem o último comentário do André aparecia.

Agora, a página do artigo acusa 12 comentários, mas aqui tem 16, inclusive os que tinham sumido mais um do Perma.

Eu juro que não bebi nada hoje!

Permafrost disse...

Demoá,
Mas se beber, ¡não dirija!
(Jamais apago comentários.)

Andre,
Sempre acho interessante q, ao pensar em 10mil ou 100mil anos de humanidade, o cérebro (e teu cérebro, esta vez) se vê quase q obrigado a imaginar ou mesmo a postular guerras mundiais, a volta à Idade do Bronze, destruições globais, &c. ¿Por quê? Não acho q seja por uma crença na auto-destrutividade da humanidade. Acho bem mais provável q seja pq o cérebro simplesmente não consegue vislumbrar muito além da escala humana. Ao tentar ir além de todas as milhares de tarefas q o cérebro tem q realizar rotineiramente o dia todo e imaginar ordens de grandeza totalmente impráticas e inúteis como essa, o cérebro empaca. O meu também, ¿pensa q não?

Mesmo q o universo seja essencialmente simples, o cérebro não consegue imaginá-lo como ele realmente é do mesmo jeito q consegue imaginar, digamos, uma bicicleta como ela realmente é. As percepções são adaptações do cérebro à realidade imediata deste planeta. Qqer 'imaginamento' fora disso tem distorções, especiosidades e miragens. Ou seja, o cérebro não pode realmente saber o q é o universo.

Pracimademoá disse...

(Eu sei que você não apaga, mas sei lá, né. Foi estranho.)

Essa idéia de sempre aventar a hipótese mais pessimista (como fez o André) também chamou a minha atenção. Eu ia mencionar isso no monte de coisas que eu deixei pra dizer depois. Eu tenho uma teoria diferente.

Eu acho que muita gente faz algo que eu chamaria de Obliteração Preventiva da Aparência de Ingenuidade. Resumindo: o sujeito tem medo de parecer otimista demais. Tolo, ingênuo, Pollyanna.

Então deve-se aventar sempre a hipótese mais sombria e maléfica para não se correr o risco de parecer tolo. A inteligência é intrinsicamente cruel. O leão ataca sem piedade. O veadinho perece. O universo é dos fortes, dos cruéis, dos insensíveis. O Quentin Tarantino fez muito dinheiro com essa idéia.

Também tem a ver com a atitude do marido que imagina ser corno e não quer se arriscar: mata logo a mulher e o suposto amante. Perde a mulher, mas não corre o risco de parecer tolo.

Então pode ser que a humanidade um dia construa uma civilização extremamente resolvida, humanitária, avançada - enfim: civilizada de verdade. Mas quem é o mariquinha que vai arriscar a reputação com uma previsão dessas? Santa ingenuidade! Vamos logo prever o mais sombrio e maléfico. Uma coisa é se equivocar, outra coisa é ser ingênuo, e deusmilivre de ser ingênuo.

Não que tenha sido necessariamente o caso do André, mas eu acho é o que acontece com muita gente.

Não sei se expliquei direito. Não estou com as idéias em ordem hoje.

Andre disse...

Perma e Pracimademoá,

Na verdade, minha opinião sobre a destruição global é pura observação de que a humanidade é auto-destrutiva. Basta ver que qualquer avanço tecnológico ou tem origem bélica ou logo será incorporado a ações militares. Na verdade, nem me acho pessimista. Acho esse o cenário mais provável (o de destruição) pq dificilmente um único grupo detém o controle desses avanços por muito tempo, mas não acho nem um pouco improvável que essa destruição não aconteça, e que atijamos a sociedade perfeita, ou algo assim.

Veja que, de fato, meu cérebro empaca ao pensar em uma sociedade daqui a 100 mil anos, mas não é por isso que eu acho que a humanidade perecerá por suas próprias mãos. É pq eu acho que logo (daqui a poucas décadas) a tecnologia bélica já vai ser suficiente para todo o estrago.

Não concordo que o cérebro não consiga vislumbrar além da escala humana. Acho que o cérebro se adapta à situação em que seu dono vive. Pessoas comuns que fazem apenas tarefas comuns não precisam realmente imaginar coisas muito grandes (ou muito pequenas). Mas pra quem vive disso, aí a coisa é diferente. Os matemáticos e físicos que postularam as teorias de 11 dimensões, por exemplo conseguem vislumbrar o que isso significa. Já as pessoas regulares neste campo, ao ouvir 'dimensão', pensam em filmes, ficção, e nem entendem o significado da palavra.

O escritor Arthur Clarke foi muito feliz quando disse que qualquer tecnologia muito avançada não difere de magia, e acho que exemplifica bem o que eu quero dizer. Pessoas da idade média não conseguiriam conceber uma televisão. Já o nosso cérebro se adaptou à nossa tecnologia, e conseguimos até pensar um pouquinho mais pra frente. Daqui a algumas gerações existirão coisas que hoje nós, pessoas comuns, não conseguimos conceber. Ou seja, não acho que O cérebro empaca ao pensarmos nas ordens de grandeza impráticas e inúteis (para a gente). Acho que O NOSSO CÉREBRO empaca, pq foi acostumado a uma tecnologia para a qual essas ordens de grandeza SÃO impráticas e inúteis. Entretando, o mesmo cérebro, se seu dono vivesse em outra época, não empacaria.

Sobre as percepções, bom, acho que nem a bicicleta o cérebro consegue imaginar como ela realmente é. Mas alcançamos tecnologia suficiente para criarmos máquinas que 'percebem' as coisas e só nos dão o resultado, o que é mais do que o suficiente para criarmos teorias sobre os acontecimentos que geraram aqueles resultados. Ou seja, acho perfeitamente possível que um dia entenderemos, saberemos o que é o universo apenas pelos resultados, sem as distorções e miragens que nossa imaginação cria ao observarmos diretamente alguma coisa.

(Desculpem se o texto contiver repetições, mas fui escrevendo aos poucos nesses últimos dias, pois foram corridos. Estou aproveitando esta pequena 'janela' de acesso à internet para postá-lo, então só passei os olhos, não reli a fundo)

Neanderthal disse...

A resposta certa é: "porque não havia algo melhor"

Permafrost disse...

Derthal,

HAHAHAHAHA... Bingo!

Andre,
De prima, acho q duas frases suas em seqüência:

"Não concordo que o cérebro não consiga vislumbrar além da escala humana. Acho que o cérebro se adapta à situação em que seu dono vive."

seriam contraditórias entre si pelo sentido q eu dei pra "vislumbrar" = "ser capaz de imaginar, de conter inteiramente no cérebro"; pq se o cérebro "se adapta à situação", quer dizer q ele apenas se transmuta em algo apropriado à situação, as oppposed to ele conhecer a totalidade da existência e aplicar à situação apenas o q é relevante.

Nem vou perseguir essa linha muito por aí, pq acho q entre leigos como nós esse é o tipo de assunto próprio pra se abordar jogando conversa à beira da praia comendo uns camarõezinhos, coisa q nós aqui deveríamos estar fazendo. Mas espero q a conclusão dessa série responda algumas de tuas colocações.

Andre disse...

Perma,

Eu pensei nisso, mas honestamente não vejo contradição. O fato de que, talvez, nos dias de HOJE não consigamos vislumbrar além da escala humana não significa que ele (o cérebro), sendo do jeitinho que é, não consiga no futuro, em um contexto tecnológico super avançado (construído aos poucos por seus antepassados). E eu disse "talvez" pq mesmo hoje acho que já conseguimos ir pouco além da escala humana com os estudos de física quântica, por exemplo.

É, eu concordo com a praia, viu... :-)

Abraço,

Neanderthal disse...

Esse papo está bastante cerebral!

O cérebro se adapta o tempo todo. O conhecimento (ou a ignorância) estão na sua estrutura neural. A cada nova idéia, um cérebro um pouco diferente.

A capacidade de conhecimento é também limitada pela adaptabilidade do cérebro - que não é infinita, mas vai longe. O que nossas mentes são capazes de pensar? Podemos entender o universo? Até que ponto?

Para mim, precisamos criar um "modelo" simplificado, condizente com nossa estrutura mental. Esse modelo intuitivo sempre explica "partes" da coisa, nunca o todo. Por exemplo: os modelos da física Newtoniana x a física quântica. Assim, cada um monta um quebra-cabeças pessoal, com n partes, que é a sua visão de mundo, nunca espelhando a verdade pura.

PS.: Concordo com a praia, mas não com o camarão.

Permafrost disse...

Derthal,
Mas construir um modelo não é construir uma percepção completa. Todo modelo é necessariamente seletivo. Além disso, se me perdoa a tautologia, só é possível modelar o q é modelável. Mas há com certeza objetos q não podem ser entendidos em linhas gerais, e até há a objeção de q compreender algo "em linhas gerais" não é realmente compreender.

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