09 junho 2008

Alvos, encaixes e válvulas (1)

1. ALVOS

Um dos passatempos prediletos de nosso eqüidoso doutor é reducionar a dabissurda.

Imagine o seguinte cataclisma. No espaço de um só dia, caem 5 meteoritos sobre a Terra, sem aviso. Um cai no meio de Benares, a cidade sagrada do hinduísmo; outro cai no meio de Jerusalém, a cidade sagrada do judaísmo (ou não só); outro no de Roma, do cristianismo; outro no de Meca, do islamismo; o quinto cai nalguma outra cidade sagrada – sei lá qual mais há; vc escolhe.

Nesse dia, claro, milhões de pessoas morrem instantaneamente e os símbolos mais sagrados de cada religião viram fumaça. Os outros 6,5 bilhões de pessoas no mundo entram, claro, em estado de choque. Grande parte da civilização entra em colapso tentando entender o q aconteceu.

¿O q vc pensaria duma coincidência tão descomunal? ¿Pensaria q há uma *intenção* por trás dum fato tão significativo? ¿Acharia q foi um ataque do Príncipe das Trevas em sua eterna guerra contra as forças do Bem? q foi uma reação da natureza contra algo desnaturado? Se vc é devoto de alguma religião, ¿veria um sinal de q teu Deus cansou da decadência de seus líderes e tá enviando um mandato de simplicidade? Se vc é ateu ou agnóstico, ¿de repente se converteria prà religião q sobrou?

Ou ¿apenas ficaria embasbacado por ter testemunhado um evento muito, muito, muito improvável?

Pra simular o impacto de meteoritos, veja este site:

http://www.lpl.arizona.edu/impacteffects/

Numa simulação com um meteorito de rocha porosa com diâmetro de 100m, ele faria uma cratera com diâmetro de 1km e mataria grande parte das pessoas num raio de 5 km do impacto. O interessante é q, segundo essa simulação, durante os últimos 4 bilhões de anos um evento dessas dimensões aconteceu em média a cada 1800 anos – ou seja, mais de 2 milhões de meteoritos do tipo caíram desde q a Terra é Terra. Portanto, a queda de apenas 5 meteoritos desse tamanho durante um único dia não seria um evento tão extraordinário, em particular pq a Terra passa regularmente no sistema solar por regiões coalhadas de meteoritos.

Resumindo: o cataclisma é possível, embora pouquíssimo freqüente na escala humana.

Mas ¡¿como interpretar q os 5 bólidos caiam exatamente no meio de cidades sagradas?!

"Pô," diria um portador do hipoplausivírus, "TEM q haver um significado. Nada acontece por acaso. Alguém TEM q tar querendo dizer alguma coisa. Não é possível q uma coisa dessas aconteça assim do nada."

O mais hilariante é ouvir "nada acontece por acaso". É xente q confunde causa com histórico. Típico de xente q não pensa no q diz. Tipo, 99%. É como dizer q a rua se esburaca "porque ninguém cuida", ou q a pobreza é causada por fatores socio-econômicos.

Probabilisticamente, se caírem 5 meteoritos num só dia, eles podem cair em quaisquer 5 lugares da Terra; as cidades sagradas não são geograficamente especiais de maneira alguma. Então, aparentemente (pra um hipoplausibilético), o cataclisma teria significado pq os locais sagrados já têm significado. Vale lembrar q o cataclisma poderia ter essa magnitude significante apenas pra uma parcela dos seres humanos: os dos últimos (exagerando) 5 mil anos – q, comparativamente, não é tanta gente assim.

Mas prestenção agora.

Não há por q postular a esse cataclisma uma causa significante: se acontecer, aconteceu; se não acontecer, não aconteceu. Mas se vc atribuir o evento a uma causa significante, o Dr Plausível afirma q qqer q seja a causa postulada – intenção benévola/malévola, pulsão culposa/dolosa, &c –, essa atribuição só pode ser pq o cataclisma adquire um significado pra vc DEPOIS de ocorrer, pois não é possível q algo tenha qqer significado ANTES de ocorrer. É hipoplausibilético "deduzir" q, se as cidades sagradas têm significado, então qqer evento fortuito envolvendo essas cidades também tem significado, ou seja, já vem com um significado embutido.

As religiões, enquanto crenças, só têm um significado pq é *esse* o significado q elas têm: o significado de significar: a vaidade de ser vaidoso: o orgulho de ser orgulhoso. Ao sair da escala humana e entrar em proporções planetárias ou galácticas, fica óbvio o caráter vaidoso de toda cosmogonia teísta. o vaidoso é aquele q, ao tropeçar numa pedra, xinga a pedra e é até capaz de imaginar q ela foi posta em seu caminho por maldade alheia. O vaidoso se acha um alvo, e veria o cataclisma como a confirmação de sua alvoidade.

A hipoplausibilose se alimenta da ignorância, de vaidosamente enxergar o mundo a partir da escala própria, da escala humana. Como sempre, a cura prà vaidade é a realidade – a enormidade da realidade.

"Ué," diz o hipoplausibilético terminal, "¿a religião não é justamente a transcendência da escala humana?"

Tsc.

continua...

4 comentários:

Pracimademoá disse...

Eu prefiro torturar os hipoplausibiléticos com a idéia dos movimentos da Terra em torno do sol e de todo o sistema dentro do universo em expansão. Foi ali que Jesus viveu? Foi lá que Maomé morreu? Foi aqui que Judas perdeu as botas? Não. O lugar exato ficou pra trás há muito tempo, pois a Terra está sempre em movimento e nem volta a passar pelo mesmo lugar nunca mais. Se o sujeito morder a isca, a fé no amuleto fica abalada. Muito divertido.

"De Volta Para o Futuro" também perde um pouco do apelo pra mim, mas é só um filme, não uma religião.

Herpes da Fonseta disse...

Imagine se algum dos meteoritos falhar. Aiaiaiaiai. O mundo inteiro se converterá à religião que restar.

Jogue dois meteoritos em cada cidade, só para garantir.

Permafrost disse...

Demoá,
¿Cê vê? As religiões estão na escala humana. Dizer q Deus é onipresente e onisciente é a maneira de ignorar todo o resto (99,9999%). Mais sobre isso no 3° artigo da série.

Fonseta,
¡Arreda! Imagine se caem 4 e Mecca é poupada... Agüenta os caras. Aliás, nem precisava tanto. Bastaria cair um só no Vaticano.

Rômulo Arbo Menna disse...

muito bom. espero encaixes e válvulas

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