28 junho 2008

Boom da cidade

Anúncio de prédio novo em São Paulo é uma das coisas q mais divertem nosso educante cientista. Porque, pô, né? Os caras não têm mais do q inventar pra ganhar uns trocados. O mais engraçado é, claro, a inventividade destrambelhada dos eslôgãs. O destrambelho não é o fato de o eslôgã ter sido pensado: publicitário pensa dezenas de eslôgãs, escolhe os melhorzinhos e mostra pro cliente. O destrambelho é o cliente aprovar.

Observe o eslôgã:



Vc diria q isso quer dizer ¿o quê?



Tua vida de mendigo de rua no meio entre o parque e o prédio...

HAHAHAHAHA

E o anúncio continua:



¿No ÚLTIMO terreno? ¡Ô, desespero!

E ¿no último terreno tem uma oportunidade ÚNICA?

E ¿"design de morar"?

HAHAHAHAHAHA

Ô miasarma.

E além disso, fica perto do Parque Ibirapuera, q recentemente foi confirmado como um dos lugares mais poluídos da cidade. Mas ¿o q é a realidade perto duma gota de água cuidadosamente pingada na ponta duma folha verdejantemente seca sob a luz dum estúdio numa "foto meramente ilustrativa"?



O Dr Plausível foi lá ver onde era. No GoogleEarth, claro.



Note a perigosa proximidade a um bar de barulho e bebuns.
Note a congestionável, barulhenta e poluente avenida na cara do terreno.
Note o quarteirão coalhado de prédios entre o terreno e o cantinho do parque.

A única plausibilidade positiva sobre esse lugar é q ali não tem inundação.

O espaço mental da coletividade publicitária deve ser igualzinho ao espaço construível da cidade: vc tem q se contentar com um triângulo mal-acochambrado, mal-acompanhado, todo mal-ajambrado, cheio de enganações e ruído, só q... todo diagramadinho bonitinho pra idiota desesperado gostar.

Mas ¿por que esse pessoal não de-sis-te, meu santo?

10 junho 2008

Alvos, encaixes e válvulas (2)

2. ENCAIXES



Muitas gargalhadas de nosso entretente doutor se devem a ele ser darwinista; aprendeu a gargalhar com seu mentor intelectual mas deve muitos de seus gargalhos ao barbudo com nariz de bolinha.

Acho q de todas as tchurmas com potencial gargalhável, os criacionistas tão 6 mil anos à frente. Ô tchurma doida, sô. E é tão irônico. Pq o criacionismo é a prova cabal de q o ser humano é apenas um macaco melhorado. Veja qqer documentário com chimpanzés ou gorilas, e logo salta aos olhos nem tanto a semelhança física, mas a semelhança emocional. Chimpanzé gargalha, fica triste, manipula, faz política, brinca, mente, acaricia, trai. Não há como fazer um chimpanzé ficar sentado quieto qdo ele tem CERTEZA duma coisa. Ô bicho insistente.

Gente criacionista seqüestra o estilo científico, e aí vem com esse papo de q a vida não pode ter surgido espontaneamente pq a probalidade de organismos complexos blablablá é infinitamente blablablablá e bloblobló. Acho q todo o leitorado aqui sabe do q tou falando, sim? Não preciso destrinchar a coisa toda, não? Então.

Esse pessoal tem algum problema pra entender probabilidades. É difícil fazer um criacionista sentar quieto e ouvir um explicação racional; mas se vc um dia tiver a chance de explicar pralgum Duro Defensor Deísta do Desejo de Dogma como entender as probabilidades no evolucionismo, pode começar demonstrando a possibilidade de a vida ter surgido espontaneamente – o q, aliás não tem nada a ver com evolucionismo; tá aqui apenas pra demonstrar uma das falácias criacionistas:

A presença de DNA servindo a mesma função em TODAS as formas vivas existentes no planeta Terra é um forte indício de q a vida se originou apenas uma vez. Mas se tudo descende de um único evento, a questão é ¿qual foi esse evento? Sei lá, mas só pode ter sido um evento física e quimicamente possível, pois a vida em si não é mais do q física e quimicamente possível. Um evento só é possível se os objetos envolvidos agem segundo suas propriedades. Não é possível fazer um bife de gelatina nem um suflê de lava. O q quer q tenha originado a vida na Terra obedeceu às leis da física e continua obedecendo.

Uma das propriedades das moléculas é q elas se encaixam umas nas outras formando (talvez) infinitos compostos possíveis. (A frase seguinte pode parecer uma tautologia, mas é algo q precisa ser dito.) Pra q a vida surgisse, não foi preciso mais do q as condições necessárias pra q surja a vida. Uma molécula se encaixa em outra, q se encaixa em outra e, papati-patatá, cá tamos nós.

Criacionista então insiste q não houve tempo hábil. Caso teu criacionista seja daqueles q têm CERTEZA de q o universo não tem mais do q 6 mil anos, dê-lhe uma banana e tire uma foto ao lado dele. Caso ele seja mais maleável e ainda assim insista q não houve tempo hábil pq a probalidade de organismos complexos blablablé é infinitamente blablablú, vc pode lhe mostrar o q é "probabilidade cumulativa".

Supunhetemos q vc tem dez dados e q, se vc os joga numa fileira e obtém a seqüência 6354136224, vc cria o primeiro ser vivo em toda a história do universo. Um criacionista diria q a chance de isso acontecer é 1:610, ou seja, q vc precisará, em média, jogar os dados 60.466.176 vezes – mais de 60 milhões de vezes – pra chegar àquela seqüência de números.

Mas, claro, não é assim q acontece.

Primeiro, se a vida apareceu neste planeta – q é apenas UM em TRILHÕES de planetas possíveis –, então o planeta em q vc tá É o planeta q ganhou na loteria. Gente ganha na loteria toda semana e (por favor, não desmaie) a pessoa q ganha é sempre **justamente** aquela q apostou o número q dá. Estranho, não?

Segundo, na natureza as coisas acontecem gradualmente e cumulativamente. Ou seja, pra simular o q acontece na natureza e conseguir a seqüência toda de dez números, basta segurar cada número assim q vc chegue nele. Vc joga os dez dados; qdo o primeiro da fileira der um 6, vc segura; joga os outros nove; qdo o segundo da fileira der um 3, vc segura; e assim por diante até conseguir os dez números na seqüência correta. Como a probabilidade de conseguir cada número é 1:6, a probabilidade total é 6x10=60. Cumulativamente, vc precisaria em média jogar os dados *apenas* 60 vezes pra conseguir aquela seqüência de números.

Assim, até eu. Vc consegue em 60 jogadas aquilo q o criacionista achou q precisaria de 60 milhões.

Terceiro (e este é um fator tão básico q é difícil não gargalhar ao ver um criacionista revirando a idéia no cérebro pra ver se se ofende ou não), por mais q a vaidade dos seres vivos diga o contrário, a matéria não é uma propriedade da vida: é a vida q é uma propriedade da matéria. Ou seja, as moléculas se encaixam umas nas outras pq essa é uma propriedade das moléculas, e os encaixes q geraram a vida aconteceram pq encaixou-se o q se encaixava e não encaixou-se o q não se encaixava. O DNA é apenas um polímero, "uma molécula morta, uma das moléculas mais não-reativas e inertes do mundo" (R Lewontin).

Resumindo, nem este é o único planeta do universo, nem a complexidade aparece de repente, nem a vida surge em ambientes onde não há moléculas q se encaixem umas nas outras.

Mas, claro, macaco burro não aprende.

________________

Adendo:

Na verdade, a probabilidade cumulativa de se chegar a uma certa seqüência de dez números jogando dados é maior do q 1:60; a probabilidade correta é aproximadamente 1:55*. Isso acontece pq se vc tá tacando os dez dados esperando o primeiro número, é possível q numa das tacadas consiga mais do q apenas o primeiro número; pode conseguir os dois primeiros (1:36) ou os três primeiros (1:216), &c. Essas probabilidades adicionais precisam ser computadas pois se vc consegue, por exemplo, os dois primeiros numa das tacadas, pode então pular as tacadas do segundo número e ir direto pràs tacadas do terceiro, e assim por diante.

*Esse é um resultado experimental. Ainda não consegui deduzir a fórmula.

09 junho 2008

Alvos, encaixes e válvulas (1)

1. ALVOS

Um dos passatempos prediletos de nosso eqüidoso doutor é reducionar a dabissurda.

Imagine o seguinte cataclisma. No espaço de um só dia, caem 5 meteoritos sobre a Terra, sem aviso. Um cai no meio de Benares, a cidade sagrada do hinduísmo; outro cai no meio de Jerusalém, a cidade sagrada do judaísmo (ou não só); outro no de Roma, do cristianismo; outro no de Meca, do islamismo; o quinto cai nalguma outra cidade sagrada – sei lá qual mais há; vc escolhe.

Nesse dia, claro, milhões de pessoas morrem instantaneamente e os símbolos mais sagrados de cada religião viram fumaça. Os outros 6,5 bilhões de pessoas no mundo entram, claro, em estado de choque. Grande parte da civilização entra em colapso tentando entender o q aconteceu.

¿O q vc pensaria duma coincidência tão descomunal? ¿Pensaria q há uma *intenção* por trás dum fato tão significativo? ¿Acharia q foi um ataque do Príncipe das Trevas em sua eterna guerra contra as forças do Bem? q foi uma reação da natureza contra algo desnaturado? Se vc é devoto de alguma religião, ¿veria um sinal de q teu Deus cansou da decadência de seus líderes e tá enviando um mandato de simplicidade? Se vc é ateu ou agnóstico, ¿de repente se converteria prà religião q sobrou?

Ou ¿apenas ficaria embasbacado por ter testemunhado um evento muito, muito, muito improvável?

Pra simular o impacto de meteoritos, veja este site:

http://www.lpl.arizona.edu/impacteffects/

Numa simulação com um meteorito de rocha porosa com diâmetro de 100m, ele faria uma cratera com diâmetro de 1km e mataria grande parte das pessoas num raio de 5 km do impacto. O interessante é q, segundo essa simulação, durante os últimos 4 bilhões de anos um evento dessas dimensões aconteceu em média a cada 1800 anos – ou seja, mais de 2 milhões de meteoritos do tipo caíram desde q a Terra é Terra. Portanto, a queda de apenas 5 meteoritos desse tamanho durante um único dia não seria um evento tão extraordinário, em particular pq a Terra passa regularmente no sistema solar por regiões coalhadas de meteoritos.

Resumindo: o cataclisma é possível, embora pouquíssimo freqüente na escala humana.

Mas ¡¿como interpretar q os 5 bólidos caiam exatamente no meio de cidades sagradas?!

"Pô," diria um portador do hipoplausivírus, "TEM q haver um significado. Nada acontece por acaso. Alguém TEM q tar querendo dizer alguma coisa. Não é possível q uma coisa dessas aconteça assim do nada."

O mais hilariante é ouvir "nada acontece por acaso". É xente q confunde causa com histórico. Típico de xente q não pensa no q diz. Tipo, 99%. É como dizer q a rua se esburaca "porque ninguém cuida", ou q a pobreza é causada por fatores socio-econômicos.

Probabilisticamente, se caírem 5 meteoritos num só dia, eles podem cair em quaisquer 5 lugares da Terra; as cidades sagradas não são geograficamente especiais de maneira alguma. Então, aparentemente (pra um hipoplausibilético), o cataclisma teria significado pq os locais sagrados já têm significado. Vale lembrar q o cataclisma poderia ter essa magnitude significante apenas pra uma parcela dos seres humanos: os dos últimos (exagerando) 5 mil anos – q, comparativamente, não é tanta gente assim.

Mas prestenção agora.

Não há por q postular a esse cataclisma uma causa significante: se acontecer, aconteceu; se não acontecer, não aconteceu. Mas se vc atribuir o evento a uma causa significante, o Dr Plausível afirma q qqer q seja a causa postulada – intenção benévola/malévola, pulsão culposa/dolosa, &c –, essa atribuição só pode ser pq o cataclisma adquire um significado pra vc DEPOIS de ocorrer, pois não é possível q algo tenha qqer significado ANTES de ocorrer. É hipoplausibilético "deduzir" q, se as cidades sagradas têm significado, então qqer evento fortuito envolvendo essas cidades também tem significado, ou seja, já vem com um significado embutido.

As religiões, enquanto crenças, só têm um significado pq é *esse* o significado q elas têm: o significado de significar: a vaidade de ser vaidoso: o orgulho de ser orgulhoso. Ao sair da escala humana e entrar em proporções planetárias ou galácticas, fica óbvio o caráter vaidoso de toda cosmogonia teísta. o vaidoso é aquele q, ao tropeçar numa pedra, xinga a pedra e é até capaz de imaginar q ela foi posta em seu caminho por maldade alheia. O vaidoso se acha um alvo, e veria o cataclisma como a confirmação de sua alvoidade.

A hipoplausibilose se alimenta da ignorância, de vaidosamente enxergar o mundo a partir da escala própria, da escala humana. Como sempre, a cura prà vaidade é a realidade – a enormidade da realidade.

"Ué," diz o hipoplausibilético terminal, "¿a religião não é justamente a transcendência da escala humana?"

Tsc.

continua...