14 maio 2008

Apocalices, limitices e outras ices

Man is but mortal: there is a point beyond which human courage cannot extend.
Charles Dickens, The Pickwick Papers


Todo leitor aqui q medita sobre a epígrafe no título deste blogue ("You'll never get any further than plausible.") deve sentir um tremor epifânico no epitálamo, um sensação de sentir algo secularmente sensato, embora refratário à análise. Então agora – só pra ser chato, pois ninguém jamais me perguntou ou parece estar interessado – vou reproduzir aqui as divagações de nosso emoldurável doutor qdo lhe pedi q divagasse sobre.

Parêntese filosófico: (A frase quer dizer mais ou menos "nunca chegarás além do plausível", e é uma versão bem mais avançada da "navalha de Occam" pois aplica a própria a ela mesma. Também é uma versão q torna auto-evidentes as limitações da mente humana e, de fato, de qqer mente possível.)

Quem passa por aqui de vez em qdo sabe q o doutor está sempre falando da ESCALA das coisas, principalmente qdo fala da percepção zonza q muita gente tem qdo fala de princípios morais, regras gerais e outros ditames. Falar da escala das coisas não é pra tentar provar questões usando o reductio ad absurdum. Muito pelo contrário: é destacar o absurdo qdo posto lado a lado com a realidade de q as coisas são, de fato, muitíssimo maiores e mais complexas do q a escala humana individual é capaz de perceber.

A escala humana é uma titiquinha e a gente vive num mundinho, numa aldeia. Quando pensa no porvir, o humano precisa se circunscrever por apocalipses, catástrofes globais ou utopias futuristas q delimitem a imensidão do infinito. Raramente alguém tenta imaginar mais de 10 mil anos à frente. Já nosso estrambótico Dr Plausível, raciocina assim: o Homo sapiens sapiens existe há 200 mil anos, assolado por predadores, micróbios, bactérias, vírus e ignorância; na medida em q aprende a controlar essas mazelas, é razoável então admitir q ele continue existindo por pelo menos outros 200 mil.

Suponha então q nem as projeções ruins nem as boas se realizem: ou seja, q as delimitações apocalípticas ou catastróficas sejam falsas, e q as delimitações físicas sejam verdadeiras: não, o mundo não vai acabar numa apoteose de culpa ou agressão; sim, há limitações físicas intransponíveis prà criatividade: ninguém jamais vai inventar um veículo q levita, um processador mais veloz q o elétron, colonizar Marte, achar uma fonte inesgotável de energia, viajar na velocidade da luz.

Mas sejamos otimistas: suponha q a reserva do q seja *possível* descobrir ou criar tecnologicamente e do q é *possível* organizar socialmente chegue ao fim lá pelo ano 5 mil. Ok, vamos dar um colher de chá: põe aí o ano 10 mil. Nesse ano, ¡pimba!, os humanos já realizaram todo seu potencial.

Sobram 190 mil anos.

Agora imagine 190 mil anos de humanos indo pra lá e pra cá sobre o planeta, refazendo, repisando, reprisando, readaptando, acumulando, repetindo repetindo repetindo repetindo imagens, palavras, histórias, traumas, filosofias, redigerindo hamlets kingkongs frankensteins pernalongas romeus e julietas, recompondo infindavelmente músicas em 3/4 e 4/4, e jogando futebóis e apostando corridinhas e tendo briguinhas e guerrinhas e o escambau a quatro q ainda está por vir.

Diga a verdade: um tremendo porre.

Mas, como de costume, a questão q o doutor quer frisar é outra.

Não há metafísica q transcenda o plausível. ¿Vc, leitor amigo, consegue imaginar as religiões do presente – q hoje têm em média uns míseros três milênios de idade – sobrevivendo à implacável evidência do tempo? Qdo passarem 20 mil anos e nenhum messias der as caras, ¿ainda haverá judeus jurando de pés juntos q ele está quase ali virando a esquina? No ano 30 mil, ¿ainda haverá muçulmanos se irritando com garranchos cômicos representando Maomé? Em 40 mil, ¿ainda haverá espíritas garantindo q cada um dos trilhões de humanos q já existiram até então tem uma alma q paira entre os vivos? Em 50 mil, ¿vc acha q ainda haverá cristãos acreditando no Deus único q através da prece há de salvá-los do inferno no dia do Apocalipse? ¿Ainda haverá alguém q pondere sobre as confusões e o porre e o tédio dos 50 mil anos passados e se disponha a crer em transcendências?

E aí restarão ainda 150 mil anos...

Bleak.

8 comentários:

Permafrost disse...

Talvez nossa escalinha humana tenha até uma certa dificuldade pra imaginar 200 mil anos. Vejamos se ajudo. Pra isso vou usar as dimensões do World Trade Center: a base de cada torre media 65m x 65m.

A população de hoje na Terra já passou os 6 bilhões de pessoas. Se vc imaginar q cada uma dessas pessoas é um cubinho de 1cm³ e empilhá-los um a um num quadrado de 65m x 65m, o "edifício" resultante vai ter menos de 1,5m de altura (1,42m).

Mas novamente sejamos otimistas. Imagine q em 200 mil anos a população permaneça em média nos 6 bilhões; e sejamos mais otimistas ainda: suponha q nesse período a expectativa média de vida individual seja de 100 anos de idade. Isso quer dizer q a cada 100 anos, aparecerão 6 bilhões de novas pessoas, novos indivíduos sobre o planeta. Em 200 mil anos serão 2 mil gerações, isto é, 12 trilhões de indivíduos terão nascido, vivido e morrido neste cantinho esquecido do Universo.

Cada torre do WTC media 417m de altura. Empilhando 12 trilhões de cubinhos, vc conseguirá quase SETE (6,8) torres iguais repletas de pessoinhas de 1cm³.

E em algum lugar ali no meio da base da primeira torre está você.

Herpes da Fonseta disse...

Confesso não saber o que dizer. Nem entendi muito bem onde você quis chegar. Você está falando sobre o futuro ou sobre o presente?

Pracimademoá disse...

Algo me diz que eu não entendi muito bem tampouco. Acho que ele andou espiando de novo aquele vídeo do youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=DU2i9diMfxU

Mas que seja.

O ilustríssimo Dr. me parece muito otimista, calculando que as religiões vão desaparecer em nada mais que 50 mil anos.

Pombas, 50 mil anos é dose pra Asimov, não dá pra se prever nada. Mas eu acho que muita coisa já deveria ter mudado para melhor se levarmos em conta a experiência histórica da humanidade. Muita coisa mudou, mas tem coisa que não muda nada nunca. Religião e coelhinho da Páscoa são duas delas. É atávico.

Quer apostar? Seus 50 mil anos mais 20 mil. Dinheiro fácil.

Permafrost disse...

Acho q não ficou muito claro mesmo. O pivô do texto ficou meio sumido; é o paráfrafo sobre repisar, reprisar, acumular narrativas &c. E é sobre o presente, claro, o presente de sempre. Já agora as narrativas se repetem e reprisam, e as histórias são sempre mais ou menos as mesmas. O doutor enxergou todo ser humano como circunscrito em sua humanidade repetitiva, viu q a ciência está circunscrita em limitações materiais, e aí olhou pro futuro sem postular uma hecatombe q dê um basta aliviado na coisa toda, q termine o porre. Ninguém tem visão telescópica agora nem terá daqui a 100 mil anos; mas basta imaginar uma visão telescópica em contraste com a escala humana, q então a pequenez da escala das narrativas religiosas e o absurdo destemperado das asserções religiosas ficam evidentes. Falando das religiões desérticas, claro: judaísmo, cristianismo, islamismo. O hinduísmo e o budismo lidam ligeiramente melhor com a escala do universo.

Tou pensando em editar o texto pra q fique mais claro. A arte pela arte.

Andre disse...

Acho mais plausível acreditar que, em algum momento nessa transição entre acreditar que o messias tá chegando e perceber que isso não faz sentido algum maluco religioso vai acabar com o mundo do jeito que é, e aí teremos (como espécie) que refazer boa parte do caminho. Ou seja, nada de tédio! Teremos muito a redescobrir, reinventar.

Neanderthal disse...

Os Testemunhas de Jeová terão que prorrogar o fim do mundo. De novo.

Sim, a ignorância sobreviverá.

Com relação às limitações, acho que você pode estar enganado. Recentemente vi uma reportagem sobre a utilização termo-elétrica da magma terrestre.

Permafrost disse...

Andre,
¿Refazer tudo? ¡Ai q preguiça!

Derthal,
Não duvido q ainda haja muito por descobrir. Mas até o ano 10 mil acho q já foi tudo, não? Falo não da capacidade de descobrir coisas, mas do número de coisas passíveis de realização.

Talvez meu postulado central aí seja q o apelo das religiões desérticas tenha mais força nas pessoas q não conseguem imaginar a civilização se prolongando até um futuro muito distante. Acho q ninguém q imagine deve ficar incólume.

rômulo arbo menna disse...

ahh tahh

chegou mais perto do plausível

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