16 abril 2008

O racismo entre aspas

Uma discussão até interessante sobre racismo contra o negro no Brasil está sendo travada num blogue aqui perto. Nosso espadaúdo doutor fica ali observando, às vezes ri, às vezes dita algum comentário. Tem tendinite, tadinho.

Muita gente... Aliás, muuuuuita gente... Aliás, TODO MUNDO no Brasil, qdo ouve a palavra 'racismo', confunde 'preconceito contra afro-descendentes' com 'aversão a negróides'. São duas coisas diferentes, e até pode-se dizer q o primeiro é até bastante compreensível (embora politicamente inaceitável) e q o segundo não é tão prevalente como tantos pensam. Deixemos pois q o Dr Plausível ilumine as trevas a q nos relegam as palavras imprecisas, os conceitos tronchos e a percepção embaçada.

Notem uma coisa. Neste artigo digo q "o Brasil é um assentamento europeu – meio interrompido, meio largado, meio improvisado – no limiar entre a Europa e o desconhecido, entre a civilização e as terras de ninguém". O Brasil é primordialmente um subproduto da Europa. Esta cultura em q estamos, esta sociedade, este sistema político, esta tecnologia, este computador, esta mesa, este apartamento, esta roupa, esta língua, esta palavra, esta vírgula, quase tudo q nos cerca se originou na Europa, ou então se originou e foi trazido pra cá por Europeus. Mas praticamente nenhum sistema político, nenhuma filosofia, nenhuma tecnologia, pouquíssimas palavras, nenhum sinal de pontuação se originou na África. De prevalentes no Brasil há algumas religiões, alguns instrumentos de percussão e alguns (sorry, muitos) ritmos. Só.

Há no Brasil três grupos principais racialmente evidentes q não se originaram da Europa ou do Oriente Médio: os indígenas, os africanos e os orientais (ou — como se dizia antigamente — vermelhos, negros e amarelos).

A quase totalidade dos negróides brasileiros são descendentes de escravos. Isso pode parecer um dado importante no desenvolvimento coletivo dos negros brasileiros após a abolição – pois com a abolição o q o governo fez foi dizer, "OK, agora q vc é livre, se vira sozinho; não temos mais nada a ver com teu bem-estar." Mas suponha isto: se a África fosse desde a época da abolição até agora um continente tão desenvolvido, culto, abastado, pujante, produtivo e militarmente poderoso qto a Europa era e é, então os escravos tão ignominiosamente trazidos de lá teriam com certeza uma cultura, uma estrutura coletiva e uma atitude individual muito mais afirmativa. E os negros seriam tbm muito mais respeitados hoje.

Não existe preconceito contra a COR do negro; a cor negra é apenas o indício q identifica as pessoas originárias daquele continente comparativamente subdesenvolvido, inculto, pobre, letárgico, improdutivo e militarmente insignificante. SE o índio fosse um indivíduo alto e bonito, ele não seria ignorado diariamente pelos outros brasileiros. SE a África fosse uma terra cheia de gênios da pintura, de construções majestosas, de urbanizações invejadas, de invenções revolucionárias, de escritores e poetas influentes, de universidades disputadas, então os negróides brasileiros seriam os reis da cocada preta por aqui – toda loirinha ia querer fisgar um pixainho, todo pai de loirinha cogitaria com prazer ter vários netinhos mulatinhos. E não só isso: os negróides teriam uma cultura de referência, um dado unificador muito mais poderoso do q a cor e o passado escravo.

É o q têm, por exemplo, os nisseis. Os nisseis se alimentam diariamente da cultura japonesa, pois estão em contato constante com o Japão. Pode-se objetar q a diferença entre os nisseis e os negróides é q os primeiros não tiveram seus laços cruelmente decepados pelo tráfico. Mas nem isso é muito relevante: a importância dos laços é relativa à importância da origem. O Japão sempre foi mais desenvolvido q a média global, e agora alenta, supre, inspira e serve de modelo pro nissei; se os laços dos escravos não tivessem sido cortados, é bem possível q acontecesse o inverso: os afro-descendentes é q seriam chamados a alentar, suprir, inspirar e servir de modelo prà África. Do jeito q está, pouquíssimos afro-descendentes têm um interesse muito grande pela África. Pergunte a qqer um se acha q teria uma vida melhor em sua região de origem e vai ouvir, o mais das vezes, um rotundo não.

Mas pro negro ou mulato ou cafuzo q se sente discriminado ou incomodado ou ofendido ou traumatizado pelo chamado "racismo" da não tão grande parcela branca do Brasil, ¿q diferença faz tudo isso? Isto é, ¿como isso invalida a percepção de q existe preconceito de cor? Se vc é esfaqueado, ¿q diferença faz se é pela frente ou pelas costas?

Na verdade, faz.

Notem outra coisa. Tudo tem um preço. A Europa não apareceu da noite pro dia. Todo objeto, toda idéia européia custou séculos e séculos de guerras sangrentas, sofrimento atroz, e trabalho dedicado e abjeto. Enquanto os europeus desenvolviam a duras penas os confortos q temos hoje, os africanos continuavam sua vida de silvícolas e lavradores. A origem disso q chamamos de 'racismo' é q o branco (isto é, o europeu) de hoje se sente naturalmente o herdeiro legítimo de todas aquelas conquistas. O branco se sente criando o futuro; o negro, por suas conexões com a África, é a imagem dum atavismo indesejado. É aí, e não na taxa de melanina, q reside o cerne de TODO pensamento ou ato preconceituoso ou "racista" contra o negro. O branco se vê como dando continuidade à história forjada por seus antepassados (no Brasil, até mesmo os mezzo-brancos se definem como brancos por quererem uma fatia da herança européia). Foram brancos os q desenvolveram a ciência de hoje; foram brancos os q decifraram o cosmos, q criaram a democracia, q lançaram os princípios pra quase tudo q há de valorizado hoje em dia. E meramente por acaso, diga-se, pois nada indica q a África jamais conseguiria o mesmo se a Europa não existisse.

O Brasil como um todo paga um preço alto por ser um país periférico e consumidor de idéias importadas, por ser beneficiário do desenvolvimento conquistado alhures. Os negros pagam um preço alto por serem beneficiários dum ramo da história q não lhes pertence.

¿Q deveriam fazer então? ¿pôr o rabo entre as pernas? Claro q não, e pelo contrário. Fora os idealismos cor-de-rosa, a única maneira concreta de eliminar um motivo de preconceito tão profundamente arraigado no subconsciente do branco é trabalhar duro e batalhar com perseverança pra correr atrás do prejuízo acumulado pela África enquanto a Europa e a Ásia se desenvolviam; é GERAR pacientemente uma base concreta pra um orgulho real e fundamentado, não só uma palavra oca tirada dum manual de retórica; é – assim como fez a Europa durante séculos e séculos de frustrações, humilhações e recalques, destruindo-se e construindo-se alternadamente – deixar de querer mamar chorando de barriga cheia o leite derramado.

Somos todos adultos agora.

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Adendo:

Notem tbm q, se toda a história da humanidade tivesse sido diferente e a relação entre a Europa branca e a África negra fosse, digamos, a relação entre a Ásia verde e a Austrália azul, com um Brasil importando escravos azuis australianos, então o preconceito neste país seria de verdes contra azuis e todos confundiriam preconceito contra australo-descendentes com aversão a azulóides. Ou, por outro lado, se toda a cultura ocidental fosse negra e o continente atrasado q supriu escravos fosse branco, então o problema todo estaria invertido no vetor negro-branco.

O q o doutor quer dizer é q não existe preconceito contra afro-descendentes descontextualizado da história dos últimos 3 mil anos, pelos menos – talvez 10 mil anos ou mais. É tempo pacas. Num olhar tão longo, é essencial ver primeiro com clareza como a coisa está e como chegou ali; discussões como essa desencadeada pelo Alex Castro se tornam apenas uma série de paráfrases e metáforas da indignação, e demandas de ¡ação já! Só q o problema não será resolvido duma hora pra outra (e justo agora no século 21, que coincidência, não?) com decisões morais, políticas conscientizantes, discussões iluminantes ou um anedotário crescente de injustiças. A humanidade é orgânica: ou seja, TUDO acontece devagar e gradualmente. O problema será resolvido com o tempo, com a evidência suficiente — diária e cumulativa — de q foi POR MERO ACASO, e não por insuficiências congênitas, q os africanos e ameríndios comeram poeira durante a complexificação da civilização. E o acúmulo acontece — só pode acontecer — de baixo pra cima, de pessoa a pessoa, de pai a filho, de geração a geração, entre uma mãe q estimula e um bebê q aprende.

E, na verdade, por mais q racistas e anti-racistas teimem em gerar conflitos e rebuliços, é exatamente isso o q vem acontecendo e vai seguir acontecendo. O racismo de hoje é menor q o de 10 anos atrás, q é menor q o de 20 anos atrás, &c. E não está diminuindo pq cada vez mais brancos ficam indignados ou pq cada vez mais brancos de repente se conscientizam depois de ouvir sermões ou argumentos, e ficam "bonzinhos" da noite pro dia. Está diminuindo pq os próprios negros, ameríndios, mulatos, cafuzos e mamelucos estão aí pouco a pouco crescendo, acontecendo, aparecendo, dando seu plá individual e deixando a seus filhos o legado de seu aprendizado, a influência de suas vitórias e força de suas convicções.

¿Ainda há problemas? Claro. Ainda há pessoas q pensam q a Terra é quadrada.

12 abril 2008

Homenagem



AO ÍNDIO NACIONALIZADO E PETRIFICADO

Contenta-te, selvagem fraco e tosco:
agora fazes parte dum país
e podes vir compartilhar conosco
teus filhos nus e tuas mães servis.

Riquezas tinhas, mas não suspeitavas,
que são agora a glória do Brasil;
então repousa tuas pífias clavas
pois não terás a escusa do imbecil.

Bandeira tens agora, que não tinhas,
um hino, um rg e um cpf,
o asseio das cuecas e calcinhas
e um cargo bem abaixo de teu chefe.

Contenta-te pois continuas vivo,
que a morte logo vem a quem nos testa;
renega teu status de nativo
e toca a trabalhar em nossa festa.

04 abril 2008

O estômago e a barriga (parte 2/2)

Batatinha, quando nasce,
esparrama pelo chão.

Nicolae Ceausescu


Uma das ditaduras mais tapadas da história contemporânea foi a de Nicolae Ceausescu na Romênia. Com nosso embevecente doutor à disposição ali fazendo pesquisa de campo em sua juventude a poucos quilômetros da fronteira, Ceausescu teve a palurdice de tirar do chapéu a idéia de q a população do país deveria pular de 19 pra 25 milhões duma hora prà outra, raciocinando q, se a produção incansável de bebês pobres havia alavancado a prosperidade em outros países, então nada mais lógico do q incentivar a mulher romena a entornar pestinhas uma atrás da outra. Olha só os incentivos dele:

• se a mulher derramasse 5 ou 6 filhos, recebia a "Medalha da Maternidade";
• se evacuasse entre 7 e 9 filhos, entrava na "Ordem da Glória Materna"; e
• se esputasse 10 ou mais filhos, recebia o título de "Mãe Heroína".

HAHAHAHAHAHAHA

Tem gente q vou te contar, viu.

Aí, em 1966, o ditador arresorveu proibir o aborto, o divórcio e todo contraceptivo pra ver se aumentava a força de trabalho na base da porrada. Mulher q abortasse era presa. Mulher casada q não jorrasse bebês era interrogada. Do outro lado da fronteira, o Dr Plausível gargalhava: "¡Mas esse cara é uma BESTA, sô!"

A proibição durou mais de 20 anos, e é nesse clima (já nos anos 80) q se passa o filme romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias. O filme açambarcou o Plausuto de Prata no 34° Festival de Cinema Plausível de Cotoxó, e portanto tem méritos q nada têm a ver com o debate do aborto. Vale ver, nem q seja pra entender como os canalhas prosperam qdo a hipoplausibilose governa.

Ceausescu – q à época tinha 48 anos e o cérebro já totalmente tomado pelo hipoplausivírus – acreditava q bastaria inflar a população pra q dali a uns 20 anos, ainda durante sua vida, a Romênia o carregasse nos ombros como o visionário q transformara o país atrasado, chato e macambúzio num paraíso progressista e iluminado, cheio de gente feliz.

E quis fazer isso proibindo o aborto.

HAHAHAHAHAHAHA

Antes da proibição, a Romênia não dispunha de pílulas ou outros métodos certeiros de contracepção; mas, vejam só, o aborto era legal e barato. Obviamente – país pobre –, havia 4 vezes mais abortos do q nascimentos. Mas no ano seguinte à proibição, os nascimentos dobraram; e, também obviamente, começaram a decair até q dez anos depois viriam a se estabilizar na taxa de antes da lei. Os motivos, claro, foram q (1) os abortos continuaram, embora ilegalmente, e (2) mais mulheres morriam em conseqüência de tentativas de aborto por amadores.

Mas aí, 6 anos depois da lei, o sistema educacional romeno começou a entrar em colapso pois havia mais crianças do q lugares nas escolas. 20 anos depois da lei, a crise se exacerbou pois as pessoas "a mais" q nasceram no surto entre 67 e 69 começaram a gerar seus próprios filhos. A Romênia ainda não se recuperou do impacto.

HAHAHAHAHAHAHA

¿Não é de esbanguelar a dentadura de rir?

¿Não teria sido muitíssimo melhor prà economia romena se a contacepção e o aborto continuassem disponíveis e q os casais pudessem ter uma vida mais produtiva, mais participante e mais inteligente, decidindo eles mesmos se queriam ter zero ou um ou dois ou três filhos?

E ¿já não era hora de os economistas, dirigentes e outras pessoas armadas, de lá e de cá, finalmente reconhecessem q a economia não precisa "crescer", q na verdade não "cresce", q só aumenta junto com a população de gente pobre, e q um objetivo muito mais salutar e realista é q a economia apenas melhore o q já existe?

Então.

¿Qdo é q vão legalizar e disponibilizar o aborto nesta joça?