17 fevereiro 2008

São Papudo (2)

Admito q às vezes é um pouco incômodo ouvir rádio perto de nosso estradivário doutor. Sesdias, ouvindo na CBN umas entrevistas sobre o aniversário de São Paulo – ocasião em q vulgarmente se deslínguam as mais disparatadas declarações sobre este local esquecido pelos deuses –, um conhecido jornalista, notório pelas listas q publica, desbocou-se a falar da fabulosa maravilha q é compartilhar a mesma cidade com outras 20 milhões de pessoas.

HAHAHAHAHAHAHA

Na verdade, qdo alguém diz q “ama São Paulo de paixão”, há q desconfiar um eufemismo e entender apenas “é aqui q eu moro” ou também “o resto do Brasil é uma bosta”. Porque, né?, dá licença.

Muitos anos atrás, o Dr Plausível vendia um remédio q atenuava os efeitos loquazes da hipoplausibilose em entrevistas na mídia. O remédio chamava-se Moscadol® (“Em boca fechada não entra Moscadol®.”). Desnecessário dizer, em vista do q se ouve por aí, q o Moscadol foi um rotundo fracasso de vendas.

O caso do jornalista listador foi um exagero típico. O sujeito se vê tomado por um arrebatado ardor por dizer algo ao mesmo tempo anódino e criativo, um frenético arroubo por ver a questão dum ponto de vista ao mesmo tempo inusitado e confortante, e aí... diz q é super legal, q é jóia, q é uma maravilha sublunar juntar 20 milhões de pessoas vagamente ignorantes, profundamente egoístas e fatalmente mal-educadas numa área mínima e malpropícia, desprovida de belezas naturais, no centro duma cultura improvisada.

O Moscadol® anularia a metralha de besteiras, mas é claro q a causa é mais profunda e só seria anulada num longo e penoso tratamento apoiado em Plausibilol®. O conhecido listador sofre da mesma variante da hipoplausibilose q faz garotas descerebradas desejarem encontrar "um homem sincero" e pessoas-q-vivem-de-luz afirmarem q "não comem nada". Ele acha lindo porque imagina essas 20 milhões de pessoas como gente bonita e descolada num caldeirão cosmopolita de múltiplas vertentes e possibilidades de interação cultural. glófglófglóf Pobre homem. Isso q dá ler demais. Bastaria colocá-lo no meio duma justa e real amostragem da gente barraquenta suja barulhenta feia fedorenta e burra q compõe qualquer agrupamento humano e ele logo-logo se internaria numa Clínica Dr Plausível.

Aliás, olhe bem a foto abaixo e tente dizer em voz alta q ama São Paulo. Se conseguir, apenas confirma q não existe gente sincera.

20 comentários:

Meyviu disse...

Cara, não sei se você é de sampa, mas se for, é o primeiro que leio a dizer que não aguenta essa porcariada toda. Particularmente, seria o último lugar onde gostaria de morar! Mas, sei lá né, gosto é gosto!

Rildo Hora disse...

Não sou o rei da Espanha, mas.... porque não te mudas??? A não ser que vivas em outras pradarias, mas aí não perderias teu tempo falando do que não conheces, não é mesmo? Há por esse mundão vários lindos lugares para se morar: Londres, Tóquio, Cidade do México, NY, Berlim, Moscow, etc... Todas lindas e cheia de gente bacana, sincera, limpa(!?!), cordial, interessada e prestativa. É só juntar uma graninha e mandar ver. Tem até blog! E escrito em outra língua que não o horrendo e por ti massacrado português.
A não ser que sejas um masoquista de carteirinha, e acho que não, parece-me um homem infeliz, a despeito de tua enorme inteligência.
Amigo, uma crise só é assim denominada quando, ao ser mensurada, não ocupe nossa existência toda. Respire, homem!
Um forte abraço em ti e na patrôa.
RH.

Permafrost disse...

Meyviu, ¿jura q vc nunca ouviu ninguém mais falar mal de SP? ¿Vc mora em Marte? :•)

Mr Hora, o texto não é tanto sobre SP como é sobre o cara q, pra efeito, disse achar beleza em compartilhar com outras 20 milhões de pessoas uma cidade apinhada, suja e mal-pensada.

Me mandar pra outra cidade não está coerente com o texto, já q falei de "uma justa e real amostragem da gente .... q compõe qualquer agrupamento humano".

Note-se q esse lance de dizer "eu amo [insira nome de cidade]" começou com aquela campanha em Nova Iorque:

I ♥
N Y

Antes disso, eu JAMAIS havia ouvido alguém dizer "eu amo São Paulo". Quem gostava muito dizia "eu adoro", não "eu amo".

Isso é uma evidência, entre tantas outras, de q o ufanismo urbano é, em grande parte, um comportamento aprendido e artificioso. O jornalista mencionado levou o aprendido e artificioso a um novo patamar hipoplausibilógico.

Permafrost disse...

Rildo, outro ponto é q o Dr Plausível e eu jamais massacramos ou tivemos intenção de massacrar a língua portuguesa. Como eu disse respondendo a outro crítico, "Mencionar o cheiro pútrido de uma ferida em outra pessoa pode ter a intenção de (1) feri-la ou (2) curá-la." O Dr Plausível obviamente tem a intenção 2, pois seria incoerente fazer a análise q faz se ele esperasse q se lhe imputasse a má-fé de 1.

A pauta aqui é sempre os hipoplausibiléticos q, em lugar de desenvolver o português e/ou purificá-lo de suas numerosas mazelas e insuficiências, teimam em ufanar-se dele tal como está, aparentemente apenas pq precisam ufanar-se de algo.

Pracimademoá disse...

Eu gosto muito de São Paulo. É muito melhor que a minha cidade, e as pessoas também. É relativo.

Fellini disse...

Típico caso de gente que vê chifre em cabeça de cavalo, esses comentários demonstram falta de compreensão do tema e do tom do post...
Apesar de ter estado em Sampa apenas 2 vezes, adorei a cidade, pra quem vem de cidade com menos de 200 mil habitantes é uma coisa meio alucinante entrar numa cidade de 20 milhões! a tal de "efervescência cultural", o dinheiro circulando, gente de todos os tipos, jeitos, convivendo semi/pseudo-pacificamente... tudo isso impressiona, me impressionou pelo menos...
adorei o post, adorei o blog, voltarei regularmente, mais atualizações, por favor!
Abs

Permafrost disse...

Pra quem visita é bem diferente. SP até q tem algumas coisas legais. Por exemplo, onde moro às vezes sopra uma brisa fresca, e algumas noites é possível suspeitar q as estrelas ainda existem. Mas claro, a questão é q não se diz "amo SP" sem incorrer em grave sintoma de hipoplausibilose. E tbm claro, não é preciso adorar um lugar pra morar nele. Aliás, pouquízíssimas cidades são "amáveis"; e com o destrambelho populacional haverá menos ainda. Não invejo a molecada de hoje q há de evelhecer no insuportável mundo de amanhã.

Linha disse...

Cara, a turma do "os incomodados que se mudem" nunca se muda, nénão?

Pracimademoá disse...

Pouquizíssimas cidades são "amáveis" pra quem não gosta muito de cidade, como você. Eu tenho pavor de morar no campo, em cidades minúsculas, em isolamento. Gosto muito de visitar esses lugares, mas volto correndo depois de uns três dias. A minha cidade não chega a ser pequena, mas eu prefiro São Paulo. São Paulo é uma verdadeira CIDADE para quem gosta de cidade. Pra quem não gosta, deve ser uma merda mesmo.

Fellini, eu entendi o tema e o tom do post, mas acho que ele se baseia numa reação exagerada a algo que considera exagero. O Doutor acha que ninguém pode "amar" uma cidade, e eu discordo, como já demonstrei (mais ou menos) no parágrafo anterior.

Eu teria explicado essa história toda com outra teoria: não é hipoplausibilose, é CHATICE. Tem gente que nunca se contenta com o significado real das palavras. Não se contenta nem com as hipérboles. Por exemplo: "gostar" + "muito" deveria bastar para comunicar a idéia de que a pessoa GOSTA MUITO, pois não? Basta dizer que gosta, e basta dizer que é muito, pois não? Pois não mesmo. O chato tem que dizer " - Eu adooooooooooro. Não. Gente (saca gente que pontua o dicurso com 'gente'?). Gente! Gente! Eu aaaaamo de paixãããão." Um tanto de linguagem corporal costuma acompanhar, para hiperbolar ainda mais um pouco. Porque nós somos idiotas, sabe? Se a pessoa não enfatizar muito bem enfatizado, a gente não vai entender que ela gosta muito mesmo de verdade.

Sabe quem chega a níveis patológicos? O Herbert Vianna. Na próxima vez que o vir em alguma entrevista, repare como ele gasta umas 90 palavras reformulando a mesma frase 4 ou 5 vezes, intensificando cada vez mais o que acabou de dizer com outras palavras. Não sei se ele ficou assim depois do acidente ou já era assim antes. Mas chega a dar aflição se você reparar.

Ou seja: não passa de um cacoete de linguagem, tanto quanto o gerundismo ou o praticamente extinto "a nível de".

Rildo Hora disse...

Caríssimos amigos Permafrost, HF, Fellini,
O que me parece é que o post tem um verniz de constatação; à primeira vista, sim, quer apenas esclarecer que I coração SP é uma cópia, inscreve o autor do artigo do referido tablóide nas massas ignaras, etc e tal.
Mas há de se ver por trás da coisa toda. Nesses últimos 60 anos talvez, e, vejam bem, talvez, eu tenha aprendido a sacar um pouco as pessoas. Para mim fica claro que vc, Perma, detesta SP, amigo. Que acha a cidade medonha (com certa razão), talvez só habite aqui por necessidade financeira, tem uma terrível frustração por não poder estar em outro lugar, não gostaria que esse lugar fosse uma cidade pequena, queria estar em uma outra metrópole, de preferência na Europa, pois também tem horror a euaense, como diz. Acha o povo inculto, submisso, sente-se um peixe fora do aquário full time, e na certa passa por uma crise. Toda vez que tem oportunidade de estar em Berlim, Londres, Barcelona, Paris (sim, porque na certa já esteve por lá), a volta ao "lar" lhe parece um suplício insuportável.
Versado em idiomas como é(basta fazer uma retrospectiva dos posts para saber disso), sente-se falando uma língua estrangeira neste Brasilzão. E tome taca no português.
Um homem de métodos, um homem de cálculos, sistemático, transbordando de viva inteligência e prenhe de cultura. Um cara a quem eu admiro, apesar de ter opiniões radicalmente diferentes das minhas. E é por te admirar que te digo para deixar a janela aberta e tomar um sol, Perma. Minha vida já está no fim, devido a uma doençazinha pentelha e fatal, mas eu digo que nem isso vai me jogar mais em nenhuma merda de crise, e digo também que são mentes brilhantes como a sua que precisam estar atentas para um porvir que se apresenta nublado. Saia da crise, viva sua juventude, ame sua mulher, seja feliz, lute por isso! Desculpem-me se me deixei tomar pela emoção e pareço um piegas idiota. É que na verdade eu o sou.
Abraços de amigo em todos vcs,

Permafrost disse...

Linha, boa sacada; gostei.

Demoá, é bem verdade isso q vc disse aí. Só q a conversa tomou outro rumo, a hipoplausibilose do jornalista (aliás, acho q é escritor, na verdade, mas tem uma coluna no jornal em q escreve listas enfadonhas), a hipoplausibilose dele, digo, foi falar dos 20 milhões.

Outrossim, acho q nem se pode mais dizer q SP é uma 'cidade', a mesma palavra q designa Itú, Porto Alegre e Itabira. Uma nova palavra se faz necessária — de preferência curta e paroxítona, pois 'conurbação' não dá.

Rildo, me entristece saber de tua doença.

Outroutrossim, não sei de onde vc tira essas coisas, mas posso dizer com toda certeza q não sou nada disso q vc diz aí. Se fosse, eu seria rico e não o pobretão inútil q sou.

Outroutroutrossim, o Dr Plausível sempre foi e sempre será um blogue impessoal e até certo ponto anônimo. Se todos estamos aqui usando pseudônimos, é no mínimo pq a mensagem nos parece mais importante q o mensageiro. E acho meio nhé focar na pessoa q diz em vez de no q a pessoa diz: num blogue, claro q o dizor importa, mas o q ele DIZ é o único dado.

Rodrigo Antunes Camacho (Rildo Hora) disse...

Ok. Nice try, kid. Realmente não pega bem, né? Mas vc. sabe que eu sei. Apenas deveria me conter, e parar enquanto é tempo com essa mania de analisar pessoas, porque quando acerto, dá nisso. Ficaste bravo, gajo, como dizia meu pai. Sorry for that, be sure I won't come back. Ain't got the mood anymore. Vida longa, rapaz. Te vejo do outro lado. Como dizem vcs jovens...FUI!

Permafrost disse...

Eu, bravo? HAHAHAHAHAHA Jamais, Rildo.

Leia o q escrevi num tom sereno, q foi o tom q usei ao pensar enquanto escrevia, e há de me entender melhor.

O foco aqui não está em ninguém em particular, mesmo porque este blogue é de fato pensado por duas pessoas, no mínimo (sem falar da inspiração do Mentor Intelectual). Se as pessoas q escrevem aqui são ou não inteligentes ou sistemáticas ou "prenhes de cultura" é irrelevante. A justeza de uma percepção ou informação ou de um raciocínio não é inteligente ou sistemática ou culta, é apenas justeza.

Note q eu digo 'justeza' e não 'verdade'; q ninguém me tache de dono-da-verdade, mas aceito de bom grado o epônimo de zelador-da-justeza - HAHAHAHAHAHA.

Linha disse...

Minha professora de literatura sempre dizia para nunca confundir "autor" com "eu-lírico". Ela tinha razão, mas ninguém ouvia.

Neanderthal disse...

Algum dia vou sair dessa bomba e vou morar em Bombinhas!

Motta disse...

Só agora tive a curiosidade de olhar os comentários dos outros posts em que não havia eu comentado. Coisa feia com o velhinho, hein? Isso não se faz! Já de castigo!

F. Arranhaponte disse...

As cidades brasileiras são horríveis. Esse é um ponto pouco estudado, e seria muito proveitoso se o Dr. Plausível aprofundasse a sua pesquisa, com hipóteses plausíveis sobre as causas da nossa desagradável feiúra urbana e arquitetônica

Pracimademoá disse...

Também acho. Por que até os lugares feios da Europa parecem tão mais bonitos que os do Brasil? Por que a nossa obsessão por coisas quebradas, capengas e sem nem uma mãozinha de tinta?

Eu arrisco a hipótese de racismo. Os lugares do Primeiro Mundo que são dominados por muitos imigrantes são tão feios quanto os guetos brasileiros. Parece que só pobre caucasiano e anglo-saxão sabe ser chique em qualquer situação.

Estou só levantando a bola. Não sei a resposta.

Motta disse...

É mesmo, são horríveis. Nada como uma cidade européia, com aquelas casas umas diferentes das outras, aquele espaço enorme para novos empreendimentos, tudo muito grande, cada casa com um banheiro, muita água pura encanada, maravilha! Ora vão fazer pedrinha pular no leito do Sena, porque já encheu o saco ficar agüentando sarrafo em cima do meu país. MEU país. Ganham dinheiro aqui, comem a comida daqui, engrossam o esgoto daqui, comem as mulheres daqui, falam a língua daqui e, por motivos que adoram alimentar nas suas cabeças que não têm um segundo de descanso, cospem no prato que comem. Ah, mas são tão inteligentes, poxa! Bando de robozinhos sem um mínimo de alma, meros ilustradores, especuladores mentais de araque, sem um pingo de joelho. O swing tá no leste e vcs. no oeste.

Permafrost disse...

Arranhaponte e Demoá,
Suponho q vcs estejam falando apenas de lugares com a mão do homem, não de belezas naturais.

Há lugares bem feios na Zoropa. Há tbm lá muitos lugares bonitos com "coisas quebradas, capengas e sem nem uma mãozinha de tinta". Só q os lugares humanos de lá são, em geral, bem mais bonitos q os daqui. Pra mim, as causas da diferença são
(1) em média, na Zoropa constróe-se menos do q aqui, e por isso a natureza tem tempo de crescer e embelezar o ambiente; há mais natureza nos interstícios das obras humanas, mais árvores, mais plantas; lá constróe-se menos do q aqui pois (1.1) na Zoropa há muita coisa pronta já há vários séculos, (1.2) tem menos matéria prima, e (1.3) a atitude prevalente é reaproveitar o q já existe em vez de criar algo novo e portanto destruir o entorno;
(2) a Zoropa é o destino turístico preferencial dos próprios zoropeus, e por isso as zonas populadas são cuidadas e respeitadas;
(3) a feiúra do Brasil não é da pobreza mas da nova-riqueza; o novo-rico não tem origem nem educação nem história mas tem dinheiro; quer deixar uma marca e mudar o q já está, mais do q quer participar da riqueza antiga; e é por isso q destrói o tradicional, (no mesmo embalo, inventa novas ortografias, muda nomes de ruas, de moedas, e faz outras coisas do tipo); o resultado são cidades como coleções de depredações q acompanham novidades pontuais, desconectadas do entorno, e muitas vezes transitórias.

Motta,
Não existe progresso sem crítica (e auto-crítica). Ninguém aqui quer fazer pouco do Brasil; pelo contrário, o objetivo de toda crítica minha, e acho q dos outros aqui, é colaborar com insights pra q melhore. Já o Dr Plausível, esse aí só tira sarro de quem joga areia na engrenagem — com hipolausibilose promovida ou por burrice, ou por má-fé — e isso vc sabe muito bem q existe em qqer país, Brasil incluso.

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